Em 20 de janeiro de 1983, morria um dos maiores craques do futebol mundial, Mané Garrincha, o “anjo das pernas tortas”, a "alegria do povo". Deixou saudade. Com seus de dribles, levava magia aos gramados e delírio às arquibancadas. Dele, dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade: "Não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho". Para homenageá-lo, publicamos a crônica do também saudoso João Saldanha, ex-treinador e cronista esportivo de raro talento.
Em uma das excursões ao México, o Botafogo teve pela frente o poderoso time do River Plate da Argentina, que era realmente uma máquina. Tinha um futebol bonito e um entendimento que só um time que joga junto há três anos pode ter. O Botafogo neste jogo entrou “trancado” por prudência. Foi um jogo de rara beleza. E não foi por acaso. De um lado estavam Rossi, Labruna, Vairo, Menendez, Zarate, Carrizo. Do outro estavam Didi, Nilton Santos, Garrincha, etc.
Estava muito difícil fazer gol. Poucas vezes vi um jogo disputado com tanta seriedade e respeito mútuos. Mas houve um espetáculo à parte. Mané Garrincha foi o comandante. Dirigiu os cem mil espectadores, fazendo reagirem à medida de suas jogadas.
Foi ali, naquele dia, que surgiu a gíria “Olé” ,tão comumente utilizada posteriormente em nossos campos. Não porque o Botafogo tivesse dado um “Olé” no River. Não. Foi um “Olé” pessoal. De Garrincha em Vairo.
Nunca assisti a coisa igual. Só a torcida mexicana com seu traquejo de touradas poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um “Olé” daquele tamanho. Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava seu famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas clamava: “Ôôôôôôlé!
O som do “Olé” mexicano é diferente do nosso. O deles é típico das touradas. Começa com um Ó prolongado, em tom bem grave, parecendo um vento forte, em crescendo em termina com a sílaba “lé”: “Oléé! – sem separar, com nitidez, as sílabas em tom aberto.
Verdadeira festa. Num dos momentos em que Vairo estava parado em frente a Garrincha, um dos clarins dos mariaches atacou aquele trecho da Carmen que é tocado na abertura das touradas. Quase veio abaixo o estádio.
O jogo terminou empatado. Mas Vairo não foi até o fim. Saiu de campo rindo e exclamando: “No hay nada que hacer. Imposible”, e desejou boa sorte ao suplente.
As agências telegráficas enviaram longas mensagens sobre o acontecimento e deram destaque ao “Olé”. Foi assim que surgiu este tipo de gozação popular, tão discutida, mas que representa um sentimento da multidão.
O jogo terminou empatado, mas só dedicaram a isto poucas linhas. O resto das reportagens e crônicas foi sobre Garrincha.
Fonte: Vermelho

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