segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Joan Edesson Oliveira: Uma mulher morreu, quem se importa?


Foto: UBM
  
Eu não conhecia a mulher que foi morta. Sei que era jovem e tinha apenas vinte e três anos de idade. Sei que era uma militante da juventude, e que carregava por ruas e praças a bandeira da União da Juventude Socialista. Sei que era jovem e mãe, e que era uma militante feminista, e que deixa filhos. Sei que devia ter parentes e amigos que, neste exato momento, choram de dor. Mas quem se importa?

No exato momento em que escrevo, no exato momento em que alguns me leem, há outra mulher sendo morta; há uma mulher sendo espancada dentro da própria casa, pelos punhos duros do seu próprio companheiro, ante o espanto e o medo dos seus próprios filhos; há uma mulher sendo violentada em algum beco escuro, por um, dois ou mais seres que há muito perderam o que lhes restava de humanidade; há uma mulher parindo com dor, como fora um preceito bíblico, abandonada pelo pai do seu filho, pela família que não lhe compreendeu, pelos amigos que se afastaram; há outra mulher sendo morta; e há mais uma mulher sendo espancada e morta. Mas quem se importa?

No mesmo instante em que mais uma mulher é violentada e morta, há um homem que justifica o ato, afirmando que ela usava roupas indecentes e provocantes; no mesmo instante em que mais uma mulher é espancada pelo próprio marido, há um homem que diz para nos perguntarmos o que ela fez para merecer isso. Há homens, nesse mesmo exato instante, que acreditam que essas mulheres mortas, violentadas, espancadas, humilhadas, mereceram isso. Alguma coisa elas devem ter feito para merecer isso, é o que pensam. Quando nada, a mera condição feminina já justificou a morte, a violência, o estupro, a humilhação. Enquanto isso, outra mulher foi assassinada. Quem se importa?

Quem matou a jovem Débora? Quem mata, espanca, violenta, humilha, chuta, desfere tapas e pontapés nessas mulheres? São homens, iguaizinhos a mim, a muitos dos meus amigos. Alguns desses homens devem ser nossos conhecidos, devem nos cumprimentar sorridentes nos corredores da repartição, vindos de casa, barbeados e limpos e asseados, após mais uns tapas cotidianos na mulher que lá ficou, o olho roxo a lhe lembrar a condição de mulher; bebem conosco no bar, educados e corteses, antes de ir para a casa e agredir a mãe, a irmã, a sobrinha, a própria filha; transitam anônimos pelas ruas das cidades. Mas quem se importa?

A jovem Débora que foi morta, a jovem mãe e mulher que foi morta, será apenas um número a mais numa bárbara e macabra estatística, enquanto nós não nos importarmos de verdade, enquanto cada morte dessas não doa em nós como se fosse a nossa irmã, ou nossa mãe, ou nossa filha ou companheira. Enquanto nós não nos importarmos de verdade o machismo e a misoginia continuarão fazendo vítimas. Enquanto não nos importarmos de verdade haverá homens que matam e agridem e haverá homens que justificarão esses atos e que defenderão os agressores.

Por isso, a cada mulher agredida, violentada e morta, precisamos nos perguntar, a nós que nos dizemos homens, que desfilamos por aí orgulhosos da nossa condição de homens e machos: Nós nos importamos?


Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.
Fonte: Vermelho

Urariano Mota: A mais longa duração da juventude

Beto Oliveira
  
 A jornalista e escritora Christiane Brito assim abriu o meu texto no jornal português Tornado:

“Urariano Mota é um grande escritor do Recife (Pernambuco). É autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil.

Aqui ele apresenta seu novo livro, belíssimo “A mais longa juventude”, que  está disponível para leitura gratuita  no Kindle. Fala de política, amor e sexo, num tempo que flui na ilógica da memória da ditadura e no resgate da força de uma juventude eternamente indignada contra a opressão..
Bom, Urariano é um brasileiro de Olinda e Recife, tem outra riqueza cultural, linguajar, fiquei muito feliz quando ele quis colaborar com o Tornado”.

A seguir, a breve apresentação que escrevi para o Tornado:

Sobre o meu mais difícil romance ainda não posso falar. Ele fala por si, desde o título. Creio que dele falarão melhor alguns trechos, que copio a seguir:

“Há um pensamento de Goethe, registrado por Eckermann , que fala da puberdade repetida. É um conceito luminoso, sem dúvida. Mas essa juventude ampliada ainda não seria uma ambição desmedida, pois mais adiante, ainda segundo Eckermann, o poeta de gênio insaciável expressou uma crença na imortalidade com estas palavras:

‘A crença em nossa imortalidade vem do conceito de atividade, pois se eu me conservo ativo ininterruptamente até a morte, a natureza vê-se obrigada a conceder-me uma nova forma de existência logo que o meu espírito não possa suportar mais a minha atual forma corpórea’.

Narro com os olhos que não se negam a ver. Atravessamos o tempo como uma flecha cujo alvo é o que canto e conto.

Acompanho os fios brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, é certo, mas mantiveram a permanência do ser da juventude. Como? Não sou um filósofo, e assim não posso escrever “uma análise concreta de uma história concreta”, para usar frase dos anos de 1970, que parecem vir de longe. São anos de outro século, de outras vidas, de outros costumes, de outro país. Até de outra humanidade, eu diria. Para os mais jovens, seria como entrar em uma sala do cinema para ver um encantador filme em preto e branco. “Eles eram assim? Meu Deus, que doidos”. E como não sou um filósofo, tenho que falar desses companheiros de jornada como um escritor. E por isso as minhas mãos tremem. Em lugar de gelo ou de as amarrar, livro-as pela crueldade, que pode ser remédio para a ternura que me embaraça. Mas como ser cruel com o objeto que nos assalta e se revela como uma perseguição? Então que sejamos verdadeiros, apenas. Isso é o máximo dos máximos que poderei sonhar.

Há uma raiz que brota e não a cultivamos. Ela é maior que as nossas forças para soterrá-la, vem, cresce e rebenta. É a nossa cara de infância. É a nossa cara de juventude. Nós não somos esses senhores que andam por aí sérios, graves, portadores de condecorações e votos de louvor. Não. Nós somos os anteriores. Nós somos os filhos de Maria, Dagmar, Ana Rita. Não passamos de filhos sem mãe que nos metemos nessa cara de importantes senhores na superfície. Essas roupas, bens, cargos, lustres e lixos não nos dizem respeito. Falamos grosso e somos frágeis. Levantamos cacetes, falos, coxas e seios, mas não passamos de crianças que perderam seu colo e remédio. O melhor de nós é o que sobrevive a essa pele de rugas. E volta à tona em irrupção súbita, vulcão silencioso e ativo. Ainda que sentimento, não é sentimental. É alma fina alma, que sempre houve e se ocultava. E retorna em ataque vitorioso de guerrilha. Em lugar de derrotados, aqui nos subjugamos para melhor honra.

Pergunto ao novo dono do prédio onde morei se existe acima de nós uma água-furtada. Ele me olha como os cidadãos saudáveis olham os assaltantes ou loucos. Corre sobre mim, de alto a baixo, a sua diferença e me responde: ‘Eu não sei’. E não posso nem devo lhe dizer que procuro Selene, Zacarelli, Batráquio, Luiz do Carmo e o jovem que fui ali.

‘Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente’

Assim escreveu Manuel Bandeira ao evocar a casa do avô na Rua da União, que fica na esquina. Mas isto não é o poema de Bandeira. Isto é uma narração de revolta, que exige o retorno do que fomos. E por isso desço e procuro a água-furtada onde um dia me escondi. O lugar onde à noite ouvi Ella Fitzgerald sem vitrola. Aquele, onde ouvi Ella somente ao alisar a capa do disco, que girava em mim. E por isso vou ao muro do Parque 13 de Maio e nele subo, eu, este senhor que não pula mais de qualquer altura, eu, este senhor que deseja a vida de antes retornada, com esforço vou à grade sobre o muro e busco o pássaro da juventude. E o encontro numa pequena elevação do telhado, oculto da vista do público, das pessoas que na calçada estranham um senhor obeso arfando. Eu te achei, nós te achamos, pássaro...

- Nós estamos no XXI. Temos informações que antes não existiam. Isso quer dizer, por exemplo: a ciência caminha para a descoberta da imortalidade. É claro, é tudo muito rudimentar ainda. Mas pode ser alcançada ainda em nossa geração – Zacarelli me fala.

Mas o que faremos da imortalidade? O que plantaremos no lugar do que é efêmero, que retira do próximo fim o seu gozo? Como teremos a saciedade sem a fome? Seria a imortalidade o paraíso sem o seu contrário, uma duração eterna do que é fluido e fugaz?

O que não é mais Luiz do Carmo está entre flores. O que foi, eu sei. O que não é, é este sobre o qual os amigos têm os olhos com lágrimas. Então, não sei de onde me vêm palavras que digo a ele me dirigindo a seus filhos. Não sei bem o que falei, apenas possuo imagens que destaquei sobre o escritor. O jornalista. O homem de partido. Mas acima de tudo o companheiro de geração. Olho para o corpo de Luiz do Carmo, olho para os filhos, e só me vem o mais íntimo, o que não posso falar. Eu sei e não posso, não devo, para não cair no mais lamentável espetáculo que um homem pode cair. “Como escutar Ella Fitzgerald? Você não tem vitrola”, ele me disse. O mais nu e mais íntimo, que fala da entrega da alma ao melhor, à fruição da arte, ao espírito mais belo e rebelde da juventude. Engasgo, e por estar engasgado sei que devo sair do velório. A minha mulher me dá o braço. Me atormenta, mas não falo a pergunta que escrevo agora:

- Para onde vamos?

Saio carregado”.

O personagem sai carregado. Mas assim não acabo o livro. Até mesmo a cópia do fim me dói no peito. Eu só espero que o romance A mais longa juventude alcance o coração de todo humano, porque do meu ele saiu.


Fonte: Vermelho

Da prisão, José Dirceu pede povo na rua contra Temer


Reprodução
José DirceuJosé Dirceu
Dirceu, que está preso em Curitiba, apontou ainda um de seus alvos: a Globo, apontada por Morais como "inimiga do Brasil e dos brasileiros"; "Temos ainda 20 longos anos de luta pela frente. Até a vitória, sempre. Delenda Rede Globo…"

Leia a íntegra da carta que Dirceu assina como Daniel, um dos nomes que usou durante a ditadura:

“Mestre Fernando

Fiquei feliz pela foto em Havana com Raul e os companheiros, além da Mônica, unicamente senti não estar com vocês, mas me senti representado por você e o Breno.

Não vi Rafael Correa, enviou algum representante? Vice-Presidente?

Lá estavam João Pedro, Boulos e Vagner que agora tem a missão de ir ‘as ruas e exigir justiça para todos, a renúncia de Temer et caterva, eleições gerais, constituinte, antes que façam um acordão, como já vem sendo pensado por Gilmar Mendes, a falada “operação contenção” para salvar o tucanato e o usurpador Temer.

É hora de ação, de pressão, de ir às ruas, de exigir, liderar e apontar rumos. É agora ou nunca. Sem conciliações e acordos, é hora de um programa de mudanças radicais, na política e na economia.

Bem, já está de bom tamanho para quem está preso e não deve meter o bedelho!

Você está gordo, cuide-se, precisamos de você, agora como nunca!

Temos ainda 20 longos anos de luta pela frente.

Até a vitória, sempre.

Delenda Rede Globo…

Daniel

Obs: O STF se acumpliciou com as ilegalidades do Moro, com o golpe e pior, com a impunidade, o corporativismo judiciário!”


Fonte: Brasil 247 via Vermelho

Alepo: questione antes de compartilhar


Exército Árabe Sírio libertou parte oriental de AlepoExército Árabe Sírio libertou parte oriental de Alepo
O fenômeno da proliferação das notícias falsas alcançou um novo pico nesta semana, com a retomada da metade oriental de Alepo pelo exército sírio, quatro anos após ser ocupada por grupos opositores. Dias antes, mas, sobretudo, após o anúncio do controle total da cidade pelo governo, uma avalanche de notícias dramáticas ganhou com força as redes. A maioria dava conta de que os "soldados leais ao líder sírio", Bashar al-Assad, estariam assassinando civis a esmo e exercendo tamanho pavor entre as mulheres que algumas escolheram se matar em vez de serem capturadas. Crianças em orfanatos imploravam por ajuda, enquanto habitantes de Alepo emitiam suas “últimas” mensagens antes da morte certa.

O que seria um cenário de extremo terror foi rapidamente desenhado pelos principais centros de informação hegemônicos e disseminado nas redes sociais. Títulos horripilantes, fotos de crianças apavoradas e depoimentos “finais” dos que supostamente estavam em Alepo ocuparam, em poucas horas, as contas pessoais de milhões de pessoas ao redor do mundo. Frente ao que parecia ser uma tragédia, noticiada exaustivamente pelos principais veículos de comunicação, era preciso se manifestar. Com isso, um número impressionante de notícias não verificadas e tendenciosas se espalhou e uma narrativa binária e superficial ganhou destaque. Com fontes bastante questionáveis.

Uma das notícias mais compartilhadas informava que mulheres estariam escolhendo entre ser estupradas ou se suicidar. Apesar de a maioria dos títulos de jornais cravar o fato como certo, não havia qualquer depoimento ou prova, mesmo que circunstancial. A fonte real, Abdullah Othman, pertence à Frente da Conquista do Levante, um antigo braço sírio da Al Qaida – grupo terrorista responsável pelo 11 de Setembro de 2001 e outras dezenas de atentados ao redor do mundo. Não é difícil imaginar que é de total interesse dele semear informações falsas sobre o governo sírio – seu inimigo direto. Outro grupo terrorista atuante na Síria é o Estado Islâmico, que tinha presença em Alepo e a mantém em outras regiões do país. O Daesh, como é chamado no mundo árabe, pretende estabelecer um califado nas regiões de maioria sunita.


Crianças em Jibreen, leste de Alepo, recebendo comida e abrigo após a tomada da cidade pelo exército sírio. Há outras imagens na conta dessa jornalista, Vanessa Beeley, que está lá agora. Fotos e vídeos que trazem outras histórias e nos ajudam a refletir com mais amplitude sobre o que está acontecendo na Síria.

O uso de notícias falsas para pautar o sentimento global sobre um fato não é novo. Sobre a Líbia, em 2011, a própria representante dos EUA na ONU, Susan Rice, disse que o líder Muamar Kadafi distribuía Viagra entre suas tropas para promover estupros em massa. Os recentes vazamentos de e-mails da ex-chefe do Departamento de Estado Hillary Clinton mostraram que se tratava de um rumor alimentado por um assessor seu, Sidney Blumenthal. As armas de destruição em massa que Saddam Hussein foi acusado de ter no Iraque justificaram a invasão do país por George W. Bush – elas, porém, jamais foram encontradas. Anos antes, uma garota do Kuwait deu um tocante depoimento onde acusou o exército iraquiano de, durante a inva são ao país em 1990, tirar centenas de bebês de incubadoras e deixá-los à morte. Novamente, se descobriu depois que se tratava de uma mentira.

Apesar de o uso de notícias falsas para criar tendências e justificar ações não ser recente, foi com o crescimento das redes sociais que esse recurso ganhou novos contornos e mais volume. Um rumor qualquer, que antes demoraria meses para ser absorvido pelo público, hoje se transforma em verdade em apenas algumas horas. Como quando lançamos uma pequena pedra num lago, as ondas formadas continuam se multiplicando, ganhando força e tamanho. Hoje, mesmo que se descubra que a notícia que iniciou esse movimento é falsa, se torna praticamente impossível acessar todos aqueles impactados e reverter a primeira impressão.

Confiando justamente nesta dinâmica, os interesses que controlam grupos terroristas na Síria – cuja missão é a de derrubar Assad – orquestraram um conjunto de boatos e depoimentos duvidosos, prontamente disseminado pelos maiores emissores de informação mundiais. Esse trabalho também é facilitado pelos cinco anos de propaganda negativa direcionada unicamente contra o líder sírio, acusado de violações aos direitos humanos antes e depois do início da guerra. No entanto, o DNA das forças opositoras, seus atos e seus financiadores pouco aparecem nas televisões, jornais e sites, gerando um quadro de “bons combatentes opositores” versus os “malvados soldados governistas”.

Um outro lado

Em julho deste ano, a Anistia Internacional (AI) divulgou um relatório onde alertava para “abduções, torturas e assassinatos sumários” de civis sírios por grupos armados no leste de Alepo e Idleb. No documento, a organização de direitos humanos demonstra preocupação com o grau de violência exercido nessas áreas controladas pelos opositores, que, “aparentemente, são apoiados por governos como o do Catar, Arábia Saudita, Turquia e EUA”. Em depoimento à Anistia Internacional, um garoto de 17 anos capturado pelo grupo terrorista Jabhat al-Nusra conta que conheceu cinco mulheres que estariam sendo acusadas de adultério e seriam “somente perdoadas por meio da morte”. Ele depois assistiu um vídeo mostrando combatentes assassinando uma delas em público. Outro entrevistado conta que havia ficado feliz por não estar mais sob controle de Assad, mas que “agora a situação é pior”.

Assim como este levantamento feito pela AI, outras organizações e jornalistas alertaram durante anos para o que estava acontecendo nas áreas controladas pelos terroristas. Histórias, inclusive, muito parecidas com as que atualmente estão sendo compartilhadas como sendo protagonizadas por soldados leais a Assad. De acordo com o Acnur, a agência da ONU para refugiados, ao redor de 40 mil sírios chegaram à parte oeste de Alepo nos últimos dias com relatos de fome, violência e terror. “Estávamos famintos, precisávamos fugir”, contou um menino aos voluntários. A situação teria se agravado muito nos últimos cinco meses, pois os grupos opositores impediram a chegada de ajuda humanitária ao leste. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, admitiu em 10 de dezembro que a oposição síria ameaçou pessoas e bloquearam ajuda humanitária.

Jornalistas independentes, como a norte-americana Vanessa Beeley, reportaram os momentos anteriores e posteriores à retomada total de Alepo e suas informações também contrastavam com aquelas propagadas pela cobertura hegemônica ocidental. Em sua conta no Facebook, ela publicou vídeos e fotos da assistência dada aos que escaparam das áreas controladas por terroristas. O que vemos são crianças recebendo comida e bebidas quentes, em filas organizadas.

Entrevista coletiva na ONU dada dia 9 com defensores de direitos humanos e jornalistas independentes que visitaram a Síria recentemente; críticas à agenda internacional que prega a "mudança de regime" via proxy war e à brutalidade dos chamados "rebeldes" no leste de Alepo. Há muitas outras informações pertinentes.

Outra voz dissonante foi a do experiente repórter britânico Robert Fisk, especialista em Oriente Médio, que publicou há três dias um artigo intitulado “Há mais de uma verdade para contar a dramática história de Alepo”. Nele, o jornalista do The Independent explicita como os mesmos grupos que são alvo da “Guerra ao Terror”, capitaneada por Washington, controlavam o leste de Alepo. Também colaborador do Independent, Patrick Cockburn, veterano correspondente no Oriente Médio, ressaltou a profunda diferença de tratamento midiático entre os acontecimentos no Leste de Alepo e em Mosul, Iraque – cidades que compartilham praticamente a mesma realidade. Enquanto que, na primeira, os grupos opositores estariam protegendo seus cidadãos da "ameaça de Assad e de Moscou", na segunda o Estado Islâmico estaria usando iraquianos como escudo humano e evitando fugas.

Financiamento e interesses

Utilizando-se dessa lógica binária, na qual o mundo é pintado em preto ou branco, a propaganda das forças hegemônicas ganha corações e, consequentemente, apoio em massa. Com a opinião pública indignada e exigindo justiça, se torna mais fácil aprovar resoluções para mais ataques militares – mesmo que a intenção não seja a de trazer paz à Síria. Por que então o Congresso dos EUA aprovou neste mês uma emenda dentro do Ato de Autorização da Defesa Nacional (orçamento para a Defesa) que deixa aberta a possibilidade de a oposição síria ter acesso a mísseis capazes de derrubar aviões civis (os chamados “MANPADS”)? Dar armas de alta potência a reconhecidos terroristas, colocando a segurança de toda a população mundial em risco, não parece ser um ato pacifista.

Ao se investigar quem financia esses grupos, os interesses em torno da queda de Assad começam a ficar mais claros. Como até mesmo a Anistia Internacional reportou em julho, EUA, Catar, Arábia Saudita e Turquia são quem mais injetam dinheiro e armas na insurgência. E não se trata de um segredo. Em depoimentos ao Financial Times, líderes “rebeldes” relataram receber salários para lutar na Síria. No total, diz a matéria de 2013, mais de US$ 3 bilhões teriam saído de cofres cataris diretamente para grupos opositores sírios. Foi em 2013 também quando o presidente dos EUA, Barack Obama, começou a secretamente armar a dissidência síria e a financiá-la, contando com dinheiro saudita, conforme detalha esta reportagem de janeiro de 2016 do The New York Times.

Também se investiu intensamente na construção de instituições dedicadas a pautar a imprensa com informações simpáticas aos opositores. Uma delas é a Revolutionary Forces of Syria, mantida pelo governo britânico e sediada na Turquia. Em matéria publicada pela jornalista norte-americana Rania Khalek, ela revela uma troca de e-mails de um repórter sondado pela RFS, que chegou a lhe oferecer um salário de 17 mil dólares. “Eu conversaria com pessoas da oposição na Síria e escreveria matérias baseadas nas declarações de ativistas a filiados aos grupos armados em lugares como Alepo”, relatou o profissional, que pediu anonimato.

De acordo com Khalek, campanhas midiáticas promovidas pelo RFS têm grande impacto ao redor do mundo. Seus vídeos e hashtags, a maioria com um apelo moderno, são rapidamente disseminados no Ocidente, como a #AvengersInAlepo (Avengers em Alepo), que publicou fotos de crianças pedindo para que super-heróis os salvassem. É também de responsabilidade do RFS propagandear ações dos “Capacetes Brancos”, grupo de voluntários que promove salvamentos na Síria e que chegou a ganhar uma série exclusiva no Netflix. No entanto, conforme detalha nesta reportagem o jornalista Max Blumenthal, ao contrário de heróis anônimos, esses indivíduos pertencem a grupos terroristas e são financiados para pressionar pela agenda de “mudança de regime” na Síria. Eles teriam chegado a receber US$ 23 milhões da USAID, agência norte-americana para o desenvolvimento internacional.

Se pelo lado dos EUA e seus aliados a justificativa para a guerra na Síria é a de libertar esse povo de Assad, outras vozes apontam interesses geopolíticos e econômicos (sobretudo energéticos). O que teria sido um levante popular espontâneo pedindo reformas e liberdade em 2011 logo se transformou em um conflito entre as forças do Estado sírio e a dissidência, desde o começo abastecida com armamento e apoio logístico. Cabos vazados pelo Wikileaks detalham como Washington empurrou agressivamente a agenda de mudança de governo desde 2006.

Apesar de apoiar o governo de Assad desde o começo da guerra, a Rússia só passou a atuar com envolvimento militar direto no segundo semestre de 2015 – fato que transformou radicalmente o cenário e permitiu avanços das tropas sírias. Ao mesmo tempo, esquentava a disputa entre Washington e Moscou, no que atualmente analistas afirmam ser uma “segunda Guerra Fria”.

Fake News
No caso sírio, apesar de se observar um panorama onde a verdade parece ser o que menos importa, a ainda relativa credibilidade e a extensa malha de alcance de grandes conglomerados midiáticos contribuem para que o consumidor de notícias comum compartilhe em suas redes a informação disseminada por eles. Mas, conforme as eleições norte-americanas revelaram, a proliferação de notícias falsas muitas vezes tem como emissor páginas fantasmas ou claramente tendenciosas. Assim que a história cai nas redes, é freneticamente distribuída. E o dano já está feito.

Mês passado, diretores de Facebook e Google anunciaram que irão banir sites que compartilhem notícias falsas. Em entrevista recente desde Moscou, onde está exilado, Edward Snowden problematizou o tema das notícias falsas, mas ressaltou que a solução não passa pela eleição de um juiz, mas a participação ativa dos cidadãos. A resposta a esse discurso, segundo o ex-funcionário da NSA, não é a censura: “Temos de exercitar e espalhar a ideia de que o pensamento crítico hoje importa mais do que nunca, frente ao fato de que as mentira s parecem estar ficando muito populares”.

Na resposta de Snowden também está incluído um alerta sobre como o combate às notícias falsas pode esconder uma caça aos meios que não compartilham da ideologia mundial dominante. A acusação de que meios russos influenciaram o resultado das eleições nos EUA a partir da disseminação de notícias falsas vem ganhando cada vez mais força. Em novembro, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução contra as notícias falsas, mencionando, em particular, o canal RT, a agência Sputnik, a fundação Russky Mir e a agência federal Rossotrudnichestvo. Todos russos.

Como diversos jornalistas e organizações demonstraram no caso sírio, a grande maioria das notícias falsas ou tendenciosas não foi publicada por blogs obscuros, mas pelos principais veículos de informação ocidentais, com apoio de agências e logística oficiais. O Google derrubaria o site do NYT caso fosse verificada a publicação de uma mentira? Diria que não. Mais do que um momento de necessária autocrítica da classe jornalística e da responsabilidade em torno do nosso trabalho, está a necessidade de que os receptores dessas informações, a população que habita o ambiente virtual, questione os conteúdos, busque vozes dissonantes e pense duas vezes antes de clicar em “compartilhar”. Ali pode existir uma propaganda, não um fato. 


Fonte: Opera Mundi via Vermelho

CTB denuncia agenda neoliberal do governo Temer


Foto: CTB
  
O encontro foi marcado pela comemoração do 9º aniversário da CTB, que teve seu congresso de fundação realizado na capital mineira, e contou com a saudação da deputada federal Jô Moraes (PCdoB-PB).

Além dos informes das seções estaduais, a secretaria de comunicação também apresentou seu crescimento no período. No encerramento do evento, foram aprovadas moções em homenagem a dom Paulo Evaristo Arns, falecido nesta quinta (15), e ao centenário de nascimento do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, importante expoente da esquerda brasileira.

Nesta sexta (16) também foi lembrada a data que marca os 40 anos do crime que ficou conhecido como a Chacina da Lapa, quando uma operação do exército brasileiro no comitê central do PCdoB, em São Paulo, no bairro da Lapa, culminou na execução de três dirigentes do partido, em 1976.

No campo da política internacional, a central lançou uma moção de repúdio à exclusão da Venezuela do Mercosul.


Leia a íntegra da resolução aprovada: 



Resolução da 16º reunião da Direção Nacional da CTB

Reunida em Belo Horizonte nos dias 15 e 16 de dezembro de 2016, a Direção Nacional da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) aprovou a seguinte resolução:

1- O país está imerso na mais profunda crise econômica de sua história e padece também uma crise política e institucional. O desemprego atinge níveis inéditos, os salários estão sendo arrochados e as condições de trabalho precarizadas. O congelamento dos gastos públicos tende a agravar ainda mais a situação. O pacote anunciado ontem pelo governo, recheado de medidas paliativas e contrárias aos interesses populares, não vai resolver os problemas. É preciso reduzir substancialmente as taxas de juros, combater o rentismo e mudar a política econômica;

2- Reiterar às centrais a proposta de realização de uma nova Plenária Nacional da Classe Trabalhadora para debater a conjuntura, atualizar a plataforma e definir um plano de luta unitário em defesa dos direitos sociais, da democracia e da soberania nacional;

3- Denunciar e combater o retrocesso neoliberal que vem sendo imposto ao país após a consolidação do golpe que afastou a presidenta Dilma e resultou no governo impopular e ilegítimo presidido por Michel Temer;

4- Repudiar a agenda dos golpistas é frontalmente contrária aos interesses da classe trabalhadora e da nação brasileira. O congelamento dos gastos públicos por 20 anos compromete o futuro da saúde e educação públicas, habitação, reforma agrária, a política de valorização do salário mínimo (que já será reajustado abaixo da inflação), assim como a infraestrutura e o desenvolvimento nacional.

5- Rejeitar as propostas de mudanças nas regras da Previdência e na legislação trabalhista. O objetivo final é a completa privatização da saúde, educação e Previdência.

6- Combater a abertura do pré-sal ao capital estrangeiro, a retomada do programa de privatizações (PPI). Tais medidas, aliadas ao abandono da política de conteúdo local e a nova política externa comandada pelo chanceler golpista José Serra, submissa aos Estados Unidos, atentam contra a soberania nacional;

7- Realizar uma campanha nacional em defesa da Seguridade Social e contra a PEC 287;

8- Combater a criminalização dos movimentos e das lutas sociais e defender a democracia;

9- Defender a bandeira de Diretas Já para a Presidência;

10- Lutar contra o Projeto de Lei 4302-98, sobre terceirização, que acaba com os direitas trabalhistas;

11- Auditoria Cidadã da dívida pública;

12- Repudiar toda forma de violência contra a mulher e reafirmar a busca da igualdade entre homens e mulheres, inspirada nos valores de igualdade de direitos como forma de construção da emancipação da classe trabalhadora e na busca de uma sociedade socialista;

13- Intensificar a resistência, a mobilização e a luta para barrar o retrocesso, em aliança com o Fórum das Centrais, a Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo e outros setores democráticos, com a convicção de que é preciso construir uma frente ainda mais ampla, com forte respaldo nas bases e criar as condições para deflagrar uma greve geral para barrar a restauração neoliberal;

Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2016
Direção Nacional da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil)


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

PEC 55: Milhões deixarão de ser atendidos, diz economista


  
“O primeiro problema é no prazo de 20 anos, fixado por emenda à Constituição. Mesmo grandes empresas não trabalham com prazo maior do que cinco anos. Se o próprio governo, amanhã, quiser mudar esse prazo terá de recorrer a nova emenda constitucional, que exige ampla e sólida maioria e todo tipo de negociação. Programação de 20 anos eu desconheço em outro lugar do mundo.”

Prejuízo das políticas sociais
“A definição das despesas, ou seja, do que você vai cortar e quanto, define a própria qualidade da iniciativa. Cortar despesas sociais, mas manter o orçamento comprometido em 42% pra pagar juros e serviços da dívida, já mostra quem será beneficiado e quem será prejudicado com a PEC.

Juros reais entre 8 e 9% estão fora de qualquer padrão mundial, onde o juro real máximo, atualmente, está em 2%. Pagar a dívida é correto. Mas vincular à taxa Selic quase 1/3 da dívida da União é muito grave.”

“Há uma ilusão de que é o macro que move a economia. Não é. O que move é o micro - ou seja, a compra, a venda, o consumo, a disposição das famílias, o crédito, o salário, o poder de compra, a reforma, a soma das pequenas obras, o valor da aposentadoria, os negócios, as iniciativas.”

Milhões de brasileiros sem atendimento

"O Brasil vive um ciclo de envelhecimento da população, com desdobramentos na própria produtividade. Isso, também, elevará gastos com a saúde. Não há como fugir disso. Se eu corto investimentos na saúde e também reduzo benefícios da Previdência, fica claro que não vou dar conta de atender esses milhões de brasileiros.”

“A crise reduziu os investimentos diretos. A crise gerou também redução de impostos e de recolhimentos para os governos, ou seja, para o Estado – aqui se incluem os entes estaduais e os municípios. Portanto, a PEC corta em cima de uma base já achatada. Os indicadores econômicos não mostram sinais de recuperação. Desse jeito, a recessão vai se agravar.”


Fonte: Agência Sindical via Vermelho

Novos documentos: EUA conheciam plano de golpe na Argentina


Télam
Entrega dos documentos desclassificados pelos EUA, em Buenos AiresEntrega dos documentos desclassificados pelos EUA, em Buenos Aires
Em 28 de fevereiro, agentes de inteligência dos EUA já haviam informado o presidente que um emissário do Exército argentino acabara de chegar em Washington “com instruções para o adido militar para prepará-lo para a tomada de poder em Buenos Aires”. O emissário também transmitiu orientações para responder à mídia dos EUA “sobre os eventos que ocorreriam” na Argentina. Esses textos fazem parte das mais de 500 páginas de novos documentos desclassificados pela administração de Barack Obama sobre a ditadura argentina.

“Isso adiciona provas documentais a uma verdade histórica que era conhecida na região: que os Estados Unidos estavam envolvidos no golpe de [Augusto] Pinochet no Chile e que, no mínimo, tinham conhecimento das rupturas institucionais nos outros países da região e não fizeram nada para evitá-los”, diz o diretor-executivo do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS), Gastón Chillier.

“Não há documentação que aponte para uma participação dos Estados Unidos no golpe, mas o presidente tinha todas as informações, e o poder se baseia nas informações”, disse por telefone Carlos Osorio, diretor do projeto do Cone Sul da National Security Archive (NSA), com sede nos EUA.

O material entregue ao Governo de Mauricio Macri, que está disponível on-line, mostra detalhadamente cada um dos movimentos do Exército argentino e da Operação Condor, o plano repressivo lançado por vários regimes militares do Cone Sul para perseguir e assassinar guerrilheiros e opositores políticos e sindicalistas fora de suas fronteiras.

Pela primeira vez, são reveladas provas que até mesmo ativistas de direitos humanos reconhecidos internacionalmente foram alvos da repressão regional. “O objetivo básico da missão das equipes enviadas ao exterior pela Operação Condor era liquidar terroristas de primeira linha. Os não terroristas também eram candidatos a serem assassinados. O político da oposição uruguaio Wilson Ferreira e alguns líderes da Anistia Internacional foram mencionados como alvos”, observa um relatório de 9 de maio de 1977.

Segundo o Governo dos EUA, os membros dessas equipes receberam um curso de capacitação em Buenos Aires” e os países participantes planejaram enviar uma equipe a Londres “disfarçados como homens de negócios, para monitorar atividades suspeitas na Europa”.

De acordo com a CIA, outro dos objetivos da Operação Condor “era coletar material sobre a adesão, localização e atividades políticas de grupos de direitos humanos para identificar e expor suas conexões socialistas marxistas e socialistas”. Os militares buscaram dados semelhantes sobre integrantes da Igreja Católica.

Um dos documentos mais chocantes é o depoimento de 14 páginas de Alfredo Bravo, copresidente e fundador da Assembleia Permanente de Direitos Humanos da Argentina. Bravo foi sequestrado por homens à paisana durante uma classe em setembro de 1977 e colocado em um carro sem placa em direção a um centro de detenção clandestino em La Plata (a 60 quilômetros ao sul de Buenos Aires), onde foi torturado por 10 dias.

“Aplicaram-lhe um aguilhão elétrico no peito, no pescoço e na cintura”, descreve o relatório enviado ao assessor de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski. “Bravo disse que, quando terminaram, estava ‘tão cheio de eletricidade’ que sua mandíbula e língua estavam paralisadas.” O ativista argentino também foi sistematicamente espancado, torturado com jatos de água gelada e fervente e submetido ao submarino, que consiste em submergir a vítima várias vezes até deixá-la a ponto de se afogar.

Este é o segundo lote de documentos desclassificados pelo governo Obama, como parte do compromisso assumido pelo presidente quando visitou a Argentina em março passado, em razão do aniversário de 40 anos do golpe de Estado. “Acredito que temos a responsabilidade de confrontar o passado com honestidade e transparência”, disse Obama.


Fonte: El País via Vermelho