quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Aprovação da PEC 55 é marcada por repressão em Brasília


  
Num esquema de segurança rigoroso, a Polícia Militar do Distrito Federal bloqueou, nesta terça-feira (13) toda a área da Esplanada dos Ministérios. Os policiais também exigiram dos manifestantes vistoria em todos os seus instrumentos e bolsas e proibiram desde paus de bandeiras a produtos como vinagre, bolas de gude e máscaras, entre outros, com a justificativa de que o objetivo da ação é fazer com que os atos públicos programados aconteçam de forma pacífica. Mesmo assim, não conseguiram impedir a ida das pessoas ao local, que prometem ficar até a noite, portando faixas e cartazes contra o governo Temer.

“Acham que vão nos intimidar, depois do que aconteceu no último dia 29, mas estamos aqui para dizer o que pensamos, protestar contra esse governo formado por envolvidos na Lava Jato e reivindicar nosso direito de livre expressão”, disse o estudante de arquitetura Tiago Ornellas, integrante da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ele se referiu às manifestações realizadas durante a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 em primeiro turno no Senado, duas semanas atrás – que foram marcadas por repressão policial, com bombas de efeito moral e spray de pimenta usados contra a população.


Mais de cinco mil manifestantes, em sua maior parte estudantes, professores, sindicalistas e funcionários públicos, que estão realizando atos em todo o país, protestam contra o governo Michel Temer, contra a PEC 55, que congela os gastos públicos – aprovada no início da tarde pelo Senado Federal –, a reforma da Previdência e a reforma do ensino médio.

Muitos deles também portam faixas onde está inscrito “Diretas Já”, como forma de pressionar os parlamentares pela votação de proposta que trata do tema, no Congresso.

Detenções

Informações da secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal são de que em meio às abordagens e revistas realizadas em todos que entraram na Esplanada, foram feitas três detenções, por conta do porte de alguns instrumentos tidos como mais violentos, mas essas pessoas foram conduzidas à delegacia e liberadas logo em seguida.

“Sabemos dos danos dessa PEC e que os estragos vêm por aí, mas não podemos perder a esperança, porque temos consciência do nosso poder de luta. Os movimentos estão articulados e temos de fazer isso mesmo, vir para a rua mostrar nossa indignação. Queremos a saída de Temer e a convocação de eleições diretas no país”, afirmou a professora Edilza Rocha.





Fonte: Rede Brasil Atual (RBA) via Vermelho
Vídeo: Mídia Ninja

Todo mundo vai perder com a reforma da Previdência, diz professor


EBC/ARQUIVO
Todo mundo vai perder com a reforma da Previdência, diz mestre em DireitoTodo mundo vai perder com a reforma da Previdência, diz mestre em Direito
Com medo da perda do voto, essa relíquia preciosa em tempos de negação da política, parlamentares só resolvem enfrentar as reformas necessárias quando as finanças chegaram à beira do colapso.

Da maneira como o texto foi apresentado pelo governo, todos devem perder de alguma forma. Pelo menos, é essa a avaliação do professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Wagner Balera. Mestre em Direito Tributário, Balera conversou com o The Intercept Brasil sobre a reforma da Previdência, cuja discussão ainda promete ir longe e que impactará a vida de todos os brasileiros.

Mitos, meias-verdades e muitas informações desencontradas são proferidas sobre a Previdência. Em Brasília, os burocratas não se entendem sequer nas contas para identificar o número real do déficit previdenciário. Nesse emaranhado de tabelas e gráficos, o dois mais dois dificilmente chegará ao resultado quatro. Coisa de burocrata.

Para Balera, o governo usa um argumento falso para justificar o rombo da Previdência. Segundo ele, o problema não é a arrecadação, mas que parte do orçamento da Seguridade Social é constantemente desviado para outras finalidades. O professor também criticou a postura do governo em tratar a reforma da Previdência dos militares separadamente, como se fossem um grupo melhor que o restante da sociedade. Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

The Intercept Brasil: Professor, começando com o básico, questiono: a reforma da Previdência é realmente necessária?Wagner Balera: Eu considero que é algo absolutamente necessário. E o primeiro fundamento é que a sobrevida média do brasileiro aumenta constantemente. O sistema foi pensado para outra realidade. O que é o raciocínio previdenciário? Você está vivendo mais tempo, você vai ter que trabalhar mais. Esse é o principal motivo pelo qual uma reforma é necessária. É uma questão de dado estatístico, em virtude do aumento da expectativa de vida.

A reforma também se justifica tendo em vista a diminuição da natalidade, porque a Previdência funciona com uma lógica intergeracional. A geração presente é responsável pelo financiamento das prestações da geração pretérita, e a geração futura vai financiar as prestações da geração presente.

O governo tem utilizado um argumento falso, um argumento mentiroso, quando ele justifica a necessidade da reforma previdenciária. O Estado brasileiro – e não é esse governo aqui, nem o anterior nem o anterior ao anterior – utiliza a falsidade de que a Previdência está quebrada.

A Previdência não está quebrada?Isso é uma enorme falsidade. O que é que está fazendo o Estado brasileiro? Ele está destruindo um modelo que a nossa Constituição criou que se chama Seguridade Social. A Constituição Federal de 1988 originou a Seguridade Social, na qual integram a saúde, a previdência e a assistência. Três setores englobados numa só realidade. E a Constituição criou um orçamento separado do Orçamento do Estado para a Seguridade Social.

A União tem as suas receitas, a Seguridade Social tem as suas receitas. Então, a Previdência integra o orçamento da Seguridade Social, que foi contemplado pela Constituição com diversas fontes de receita.

Quais fontes são essas?A primeira, a mais antiga, é a contribuição sobre a folha. Você, como trabalhador empregado, paga uma contribuição sobre o seu salário. O seu patrão paga uma contribuição sobre o seu salário, e essa é a contribuição sobre a folha, que é chamada folha de salários, folha de pagamento. Essa é uma das contribuições.

Eu não posso falar assim: "A previdência está quebrada". De fato, o que se arrecada com a contribuição sobre a folha não paga os benefícios devidos pelo INSS. Ficaria faltando dinheiro. Mas é por isso que existe a Seguridade Social, o orçamento da Seguridade Social e as despesas são da Seguridade Social, não da Previdência. É uma questão conceitual que não é da minha cabeça, é o que está na Constituição.

A Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) é um dos tributos de maior arrecadação do Brasil, só perde para o Imposto de Renda. Então, é um manancial imenso de dinheiro que o Estado brasileiro arrecada.

E para onde está indo todo esse dinheiro arrecadado?Entrou tanto dinheiro que começaram a desviar esse dinheiro. Por isso que é falso o argumento do déficit. Porque, a partir de 1994, começaram a desviar dinheiro das contribuições sociais e continuam desviando.

Este ano, o desvio foi ampliado. Antes desviavam 20%, depois passaram a desviar 25%, e, agora, vão desviar 30% de um troço chamado Desvinculação das Receitas da União (DRU). Isso nada mais significa do que tirar dinheiro da Seguridade Social e jogar para qualquer outra coisa que o Estado queira fazer com esse dinheiro. Como é que você pode falar que o negócio tá quebrado se estão desviando dinheiro desse segmento para outras áreas? Então, esse é o falso argumento da reforma. A reforma é necessária, é imprescindível, mas não sob o argumento de que (a Previdência) está quebrada.

Qual o principal problema dessa reforma? Tem algum ponto principal de polêmica?Eu considero imprescindível a fixação de uma idade mínima para as aposentadorias. Nada explica o fato de não haver essa idade hoje. Ela só não passou em 1998, na emenda constitucional nº 20, porque o Antônio Kandir, que era deputado (PSDB-SP) naquele tempo, errou o voto.

O outro ponto importante da reforma é aquele que veda a acumulação de benefício de aposentadoria com pensão. A Previdência significa que o Estado vai conceder a você a garantia das suas necessidades básicas. A Previdência não prometeu, nem promete a ninguém, a manutenção do status. Então, se alguém já recebe aposentadoria, por que também vai receber pensão do outro? Não tem sentido. Isso é completamente impróprio em um sistema universal e solidário, como é o da Previdência.

Na proposta enviada pelo governo Temer ao Congresso, os militares ficaram de fora.Os militares são brasileiros como eu e você. Do ponto de vista previdenciário, assim como eu tenho direito a proteção social mínima, é isto que se deve a eles também. Uma coisa um pouco esquisita é você tratar esse grupo como se ele fosse um grupo à parte. Estou falando do ponto de vista previdenciário.

Do ponto de vista previdenciário, o militar fica velho como eu fiquei velho, fica doente como eu fiquei doente e assim por diante. Então, não tem por quê. Não pode ser tratado à parte. A reforma avança, mas ainda fica isso de excluir esse grupo como se esse grupo fosse melhor que os outros.

O que o sr. acha de os homens e as mulheres se aposentarem com a mesma idade?
É uma conquista da sociedade, a igualdade do homem e da mulher. Especialmente dos requisitos para a obtenção dos benefícios previdenciários, porque não existe nenhuma justificativa técnica para terem tratamento diferenciado. Até porque isso é estatística, as mulheres vivem mais tempo que os homens.

O senhor chegou a falar que uma unificação das regras do regime geral e dos funcionários públicos corrigiria uma injustiça, já que hoje temos dois mundos. Que injustiça seria essa e que mundos seriam esses?O mundo dos servidores públicos é o mundo dos privilegiados. Os salários são a base contributiva deles e são a base do benefício que eles recebem. Por exemplo, se o servidor ganhava R$ 10 mil trabalhando 35 anos de serviço, que é o requisito para a chamada aposentadoria integral, ele vai continuar ganhando R$ 10 mil, o salário dele. Enquanto isso, no regime do INSS, se o sujeito ganha R$ 10 mil e o teto atual (do INSS) é R$ 5.189, ele vai ganhar, no máximo, R$ 5.189. Do ponto de vista previdenciário isso é injusto, porque cria duas classes: a classe A, que tem a melhor previdência; e a classe B, que tem uma previdência de até R$ 5.189.

Qual seria a justiça? A previdência garante as necessidades básicas. Se a nossa previdência tem um limite geral de R$5.189, ele tem que valer para todo mundo. "Ah, mas eu quero ter uma aposentadoria melhor". Perfeitamente. Você compra um plano de previdência privada. Só você vai custear, não a sociedade toda. É nesse sentido que eu falo da injustiça.

O senhor acha que algumas ocupações deveriam ter um regime diferenciado como, por exemplo, a de trabalhador rural?Há dois pontos perversos na proposta enviada pelo governo. Um é esse do (trabalhador) rural. Como é que ele contribui hoje? Com um percentual sobre o resultado da comercialização de sua produção. Porque assim é a vida do rurícola. É sobre o que ele produz que ele ganha. Segundo a proposta, o rurícola vai contribuir com salário, portanto é uma ficção. O trabalhador rural que recebe salário é exceção, é o que que trabalha na agroindústria. Então é uma ficção porque está se inventando que o rurícola ganha salário mínimo, e isso não é verdadeiro, porque muitos não ganham nem um salário mínimo.

É outra realidade. Então, eles nivelam todo mundo pelo salário mínimo, e o que é pior: para esse grupo vão ser exigidas noventa contribuições. Isto é, estão chutando as aposentadorias rurais para daqui a oito anos. Escandaloso. Um negócio dessa seriedade sendo tratado a toque de caixa.

Então, o produtor rural, do jeito que está sendo discutida essa reforma, sairia prejudicado?Muito prejudicado. Eu achei um dos pontos mais perversos da PEC.

Outro agravante em relação aos mais pobres é o seguinte: como são corrigidos os benefícios em manutenção? Eles são corrigidos segundo critério de reajustamento do salário mínimo. Cada vez que o salário mínimo aumenta, aumenta nas mesmas proporções o valor dos benefícios de proteção. Esse é o critério atual. Isto não é adequado porque atrela uma realidade, que é a realidade previdenciária, a outra realidade, que é o salário mínimo. São coisas diferentes, porque não é toda vez que aumenta o salário mínimo que aumenta a arrecadação.

O governo manteve a vinculação ao salário mínimo, menos para o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Então, mais pra frente, pode ser que o benefício que hoje é um salário mínimo, amanhã seja de 70% do salário, 60% do salário mínimo, aviltando ainda mais a situação dos pobres. Uma coisa sem pé nem cabeça.

Nessa reforma em discussão no Congresso, quem serão os maiores beneficiados, as empresas ou os trabalhadores?Todos vão perder.

Todos vão perder?Todos vão perder. É uma reforma restritiva de direitos, o que é normal quando você está em uma crise, em um caminho para cortar despesas.

Se o estado fosse ideal no Brasil, ele deixaria de desviar o dinheiro, ele não prorrogaria a DRU, mas sim acabaria com a DRU, deixaria de desviar o dinheiro. Isso sim é uma responsabilidade do Estado. Independentemente de sua cor partidária, todos os governantes têm patrocinado esse descalabro que é a DRU. Então, a coisa ideal era acabar com isso. O dinheiro da seguridade social tem que acabar na seguridade social.
 

Fonte: The Intercept Brasil via Vermelho

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Jandira: A verdade sobre a reforma da Previdência


  


Do Portal Vermelho
Vídeo:Repórter do Dia

A PEC 55 e os impactos sobre as mulheres


  
A Proposta de Emenda Constitucional nº 55 visa a instituir o Novo Regime Fiscal que limita os gastos do poder executivo, supremo tribunal federal, senado federal, ministério público e defensoria pública da união. Pela nova regra definida pela PEC 55, os limites de despesas serão calculados para 2017 pela despesa primária paga no exercício de 2016 corrigida em 7,2% e, após este período, pela variação do IPCA calculado nos últimos 12 meses do exercício anterior[1].

Esta regra valerá para os próximos 20 anos, o que incorrerá no congelamento dos gastos com bens e recursos públicos essenciais à população e demandará necessariamente reformas estruturais no país, como a previdência social e a lei de valorização do salário mínimo.

Os impactos da PEC sobre as mulheres estão relacionados de forma direta com a sua inserção no mercado de trabalho, o que se traduz nos nichos de trabalho feminino, diferenças salariais e no fato de as mulheres serem as principais responsáveis pelos trabalhos reprodutivos, ou seja, aqueles destinados ao cuidado e manutenção da casa e de seus membros.

Com a aprovação da PEC, a tendência é aprofundar as desigualdades de gênero, na medida em que a proposta possui impacto direto sobre as populações mais vulneráveis. Isto ocorre tanto pela revisão das regras para previdência social e da lei de valorização do salário mínimo, como também pelos impactos em setores onde as mulheres possuem maior representatividade, como a saúde e educação. Vejamos cada uma delas:

No que tange à previdência social, a necessidade de limitar os gastos públicos trará como contrapartida a mudança nas regras previdenciárias hoje vigentes. Tal reforma acarretará impactos importantes sobre as mulheres, na medida em que as propostas apontam para a equiparação da idade mínima entre homens e mulheres, revisão das regras de pensão, proibição do acúmulo de pensão e aposentadoria, além da perda da possibilidade de antecipação da aposentadoria para os professores de educação básica, o que afeta principalmente as mulheres, devido ao seu maior peso nessa categoria.

Atualmente a previdência social possui um papel importante para a diminuição das desigualdades de gênero e raça no mercado de trabalho. A diferença entre o tempo de aposentadoria para homens e mulheres teria a finalidade de compensar o maior tempo feminino dedicado aos afazeres domésticos e, por conseguinte, a menor capacidade de as mulheres contribuírem para a previdência.

A necessidade de “caberem” as atuais demandas sociais no congelamento dos gastos trata a necessidade imediata de outra importante reforma, a saber: a revisão da política nacional de valorização do salário mínimo.

Isso porque a PEC 55 prevê, entre as sanções no caso de descumprimento da lei, a proibição de reajuste de despesa obrigatória acima da variação da inflação. Segundo Laura Carvalho (2016), como boa parte das despesas obrigatórias são indexadas ao salário mínimo, atropelaria a lei de reajuste, impedindo sua valorização real, mesmo se a economia estiver crescendo.

A revisão da Lei de Valorização do Salário Mínimo afetaria principalmente as mulheres, uma vez que elas estão superrepresentadas nessa faixa salarial. Segundo dados do Censo Demográfico de 2010, 33,7% das mulheres e 25,7% dos homens tinham rendimento mensal de até um salário mínimo. Dentre as mulheres, 40,3% eram mulheres negras e 50,5% alocadas em zonas rurais. Entre as regiões brasileiras, a Nordeste possui maior representação de mulheres na faixa salarial de até um salário mínimo, totalizando 48,5% das mulheres ocupadas, sendo 50,8% das mulheres negras e 59,3% das que vivem nas zonas rurais.

Por definir regras que congelam os recursos destinados para a saúde e a educação, a PEC afeta marcadamente as mulheres. Isto ocorre tanto pelo lado da diminuição da oferta de recursos pelo Estado, incorrendo na sobrecarga de trabalho feminino para o cuidado das crianças e idosos, mas também por serem setores que empregam majoritariamente força de trabalho feminina.

Além disso, como as mulheres vivem mais do que os homens, dependem mais dos recursos na sua fase final de vida, tendendo a ter doenças crônicas e dependendo de remédios de uso contínuo.

Quanto à distribuição das mulheres por agrupamento de atividades, os dados da PNAD – IBGE de 2014 indicam maior presença das mulheres em setores afetados diretamente pela PEC, principalmente “educação, saúde e serviços sociais”, que correspondem a 18,2% do total das ocupadas em comparação com 4,3% dos homens.

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O terceiro setor com maior presença feminina, seguido de comércio e reparação (17,5%) é o emprego doméstico, com 13,9% das mulheres ocupadas. Esta categoria será impactada diretamente pela revisão da lei do salário mínimo, já que grande parte das empregadas domésticas está alocada nessa faixa salarial. Além disso, o congelamento salarial e da carreira dos servidores públicos federais impacta em um segmento com alta presença feminina de maior escolaridade, e que possui maior igualdade salarial por gênero.

A menor presença do Estado como provedor de recursos voltados para as atividades reprodutivas tende a aprofundar o papel da mulher como ofertante desses recursos de forma não remunerada. A desigualdade de tempo entre homens e mulheres destinadas para essas atividades já é bastante relevante, segundo dados da PNAD/IBGE de 2012: enquanto quase a totalidade das mulheres maiores de 16 anos afirmam exercer atividades domésticas, entre os homens o percentual é de 50%. Neste ano, as mulheres despenderam, em média, 23,56 horas semanais aos afazeres domésticos e os homens apenas 6 horas.

É importante pontuar que o impacto da sobrecarga de trabalhos reprodutivos afeta principalmente as mulheres de baixa renda, por terem menor acesso aos recursos privados (escolas de educação infantil, escola em tempo integral, lavanderia, restaurantes etc.) e dependerem principalmente da oferta de recursos públicos.

Famílias de baixa renda, em geral, estão alocadas em regiões periféricas ou zonas rurais, despendendo mais tempo para deslocamento ao trabalho, hospitais e escolas. As regiões, muitas vezes, não têm saneamento básico adequado e as famílias não têm condições de adquirir eletrodomésticos, que diminuem o tempo de trabalho destinado aos afazeres domésticos.

São a partir, prioritariamente, desses elementos que identificamos que a PEC 55 trará consequências nefastas para o conjunto dos trabalhadores. No entanto, “a classe trabalhadora tem dois sexos”, e, nessa pesagem desigual, conseguimos identificar que as mulheres serão demasiadamente afetadas.

REFERÊNCIAS

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estatísticas de gênero, uma análise do Censo Demográfico. 2010. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em
 

Escrito por Juliane Furno, Cristina Pereira Vieceli, Priscila Von Dietrich, Marsala Maciel Machado, Anelise Manganeli.
Fonte: Vermelho

Colonialismo na Palestina demanda reforço da denúncia e da resistência


Moara Crivelente
Soldados israelenses nas ruas e mercados da cidade antiga de Jerusalém.Soldados israelenses nas ruas e mercados da cidade antiga de Jerusalém.
Há 56 anos neste mês, a Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu a histórica “Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais” (Resolução 1514 da Assembleia Geral), mas casos como o da Palestina, do Saara Ocidental e de Porto Rico continuam pendentes. A luta anticolonial persiste.

A expansiva ocupação do território proposto pela ONU na Resolução 181 para o Estado da Palestina há quase sete décadas, no fim do Mandato Britânico, corre abertamente desde a Guerra de Junho de 1967 – com administração e presença militar, a captura de terras palestinas e a construção de colonatos israelenses. Entretanto, a política por trás das definições continua relevante sobretudo na construção da análise daquilo a que se resiste e das estruturas que sustentam esta realidade.

Grande parte dos movimentos palestinos e solidários, jornalistas e acadêmicos volta a enfatizar o tratamento da chamada “Questão Palestina” como uma de colonialismo de povoamento, cujo percurso histórico inclui o genocídio, a limpeza étnica, a ocupação militar e a guerra aberta no processo de colonização da Palestina. Na Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948, em vigor a partir de 1951, genocídio pressupõe a “intenção de destruição” de um grupo – o que é em geral considerado difícil de se identificar – e limpeza étnica é mais especificamente a remoção forçada de uma população ou grupos de determinado território. Ambos os termos são contestados pelos defensores das políticas israelenses, esforço do qual historiadores e juristas participam de forma instrumental.

Outros ponderam o uso do conceito “colonialismo” devido à sua aplicação a casos muito diversos: aqueles em que a população indígena tornou-se minoritária e os antes colonizadores firmaram-se como a elite política e econômica; os que se sustentaram da escravidão e cuja expansão geográfica expulsou os indígenas, ou que os incorporaram ou exploraram sua força de trabalho; lembrando que indígenas e escravizados articularam diferentes formas de resistência, entre várias outras questões.

À ponderação, os primeiros respondem reconhecendo a necessidade de cautela e rigor na análise e na denúncia, ainda assim firme e contundente, de estruturas e das táticas que as sustentam, inclusive como produtos históricos, uma análise que deve servir à luta política e à resistência, à solidariedade entre povos que enfrentem ou não condições semelhantes de opressão. (Foto: Posto de controle militar israelense em Hebron, na Palestina ocupada. Moara Crivelente)

Trabalhos cautelosos não faltam entre autores palestinos, israelenses e estrangeiros que analisam a “Questão Palestina” do ponto de vista do colonialismo e do imperialismo ainda hoje atravancando a História. Para Omar Salamanca, Mezna Qato, Kareem Rabie e Sobhi Samour, editores de uma importante coletânea de 2012 dedicada a esta discussão – Past is Present: Settler Colonialism in Palestine (“Passado é Presente: Colonialismo de Povoamento na Palestina”, sem tradução) – é necessária uma abordagem internacionalista na qual “a luta palestina contra o colonialismo sionista de povoamento só pode ser vencida se inserida nas e potencializada pelas lutas mais abrangentes – todas anti-imperialistas, antirracistas e que lutem por fazer outro mundo possível.”

Colonialismo, ocupação militar e violações

Hoje existem mais de 130 colonatos classificados apenas por Israel de “regulares” – e tratados como “comunidades” – com 570 mil habitantes, de acordo com a ONU, em um território palestino fragmentado em inúmeras porções cercadas, muradas ou desconectadas por postos de controle militar e diferentes categorias de permissão para movimentação ou estradas segregadas. Tudo isso dentro do zoneamento em frações de controle militar e civil completo ou partilhado entre Israel e a Autoridade Palestina (as zonas A, B ou C), proporcionado por um “processo de paz” lançado ainda em 1993, cujo legado é a ocupação entranhada.

No final de novembro, dias após o avanço da proposta de lei para regularizar entre 50 e 100 “postos” construídos em mais de 800 hectares de terras palestinas e habitados por colonos israelenses de forma irregular até mesmo nos padrões de Israel, o relator especial da ONU Michael Lynk disse que a “legalização retroativa” dos colonatos, cuja maior parte foi estabelecida em terras palestinas privadas, “será outro prego no caixão da solução de dois Estados”. Ou seja, enterra-se, como já fartamente denunciado, o estabelecimento efetivo do Estado da Palestina e a vigência do direito à autodeterminação do povo palestino, há 68 anos pendentes.

Candidato à reeleição, Benjamin Netanyahu discursa diante das construções na colônia de Har Homa,
em Jerusalém Oriental, palestina, em março de 2015. (Foto: Olivier Fitoussi / Haaretz)

Quer sejam “postos irregulares” ou “colonatos”, segundo as Convenções de Genebra – instrumentos do Direito Internacional Humanitário que regula os conflitos armados – ambos são violações. A transferência de população nas circunstâncias de uma ocupação militar é, mais especificamente, uma violação da Quarta Convenção de Genebra de 1949, ratificada por Israel em 1951. Apesar do peso da denúncia, estas constatações não são novidade, sobretudo no período do atual governo de Benjamin Netanyahu, iniciado em 2009 na missão bem-sucedida de expandir os colonatos israelenses na Palestina.


Aliás, estes são argumentos e regulamentos que as autoridades israelenses não ignoram, como já vastamente notado. Os promotores da ocupação, da colonização da Palestina e da “limpeza étnica” de um povo que insiste em resistir alegam contestar as “interpretações” dos que recorrem ao direito internacional para denunciar a nakba, a catástrofe contínua.

À maquinaria trabalhando para transformar a linguagem jurídica a favor da ocupação nunca falta combustível. Especialistas há tempos classificam a prática de lawfare: conduzir a ofensiva, direta ou indireta, através – e não apesar – do direito, instrumentalizado como uma arma. O termo ficou conhecido no Brasil com a denúncia do “constitucionalismo” para legitimar o ilegítimo – como o golpe de Estado e a perseguição política na tendenciosa Lava Jato – mas foi cunhado em 2001 pelo general estadunidense Charles Dunlap, que rechaçava assim a oposição às guerras imperialistas e a denúncia dos crimes em que elas se sustentam como violações do direito internacional.

Bairro murado palestino em Jerusalém Oriental, Shuafat. Foto: Moara Crivelente.
Para legitimar a ocupação e a colonização da Palestina, o princípio é semelhante, envolvendo acadêmicos, jornalistas, líderes políticos, organizações não-governamentais e até o Exército, com um departamento específico para isso, ajudando a promover uma anexação da Palestina apresentada no “juridiquês”. No esforço está incluída a justificação do encarceramento massivo dos palestinos, as constantes ofensivas militares, o bloqueio à Faixa de Gaza, a construção do muro de cerca de 800 quilômetros de extensão, as diferentes permissões ou proibições da movimentação, a destruição de casas e plantios pelo próprio Exército ou por colonos frequentemente protegidos pelos soldados, entre outras expressões do controle militar e colonial de Israel sobre a Palestina.

Legalizar “postos irregulares” é mais uma mensagem inequívoca do objetivo das forças mais extremistas em Israel de anexar a Palestina, mensagem já emitida, por exemplo, em 1980, quando uma lei estendeu a gestão israelense a Jerusalém Oriental, trocando o termo “anexação” da porção palestina por “unificação” da cidade. Membros do atual gabinete do governo de Benjamin Netanyahu em Israel também já disseram-no abertamente, como o ministro da Educação Naftali Bennett.

Esta "ambição abertamente afirmada deveria alarmar os interessados em ver o direito internacional respeitado e todos aqueles que desejam uma paz duradoura para todos os habitantes de Israel e da Palestina", disse o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al-Hussein, nesta quinta-feira (8). O alto-comissário reafirmou que os colonatos -- "regulares" ou não na lei israelense -- são o principal obstáculo à paz e a principal causa das violações dos direitos humanos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental ocupadas.

Da parte estadunidense, enquanto o secretário de Estado John Kerry e o diplomata Martin Indyk – no Fórum Saban entre líderes dos dois países promovido pelo Instituto Brookings – repetiam a ladainha sobre a teimosia do governo israelense a respeito das colônias que os EUA retoricamente condenam como “contra-producentes”, bilhões de dólares enviados anualmente ao setor militar de Israel e um inestimável apoio político garantem que a nakba siga adiante.

O direito ou as discussões conceituais não podem substituir a mobilização política contra as estruturas opressivas, mas podem ser uma ferramenta de luta. Colonialismo de povoamento, limpeza étnica e segregação racista – sejam comparáveis ou não as casos como o da África do Sul, segundo as discussões conceituais – são categorias que devem sustentar as denúncias do que é perpetuado e perpetrado na Palestina ocupada e da situação a que está submetido, jamais sem resistência, o povo palestino.


*Moara Crivelente é doutoranda em Política Internacional, diretora de Comunicação do Centro Brasileiro de Solidariedade entre os Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e assessora da Presidência do Conselho Mundial da Paz
Fonte: Vermelho

100 anos de samba e a origem negra da música latina

Ricardo Beliel / BrazilPhotos
  

Quando você pensa na cultura da Argentina, que imagens ou expressões artísticas povoam a sua mente? É quase natural que o tango – e um casal de dançarinos sensualmente bailando ao som melancólico do acordeão – espete na cabeça, ao lado de outros clichês, como filmes de Darín, a tirinha da Mafalda e os pampeiros solitários de Borges.

Seja em solo brasileiro, seja no território de nuestros hermanos, certa musicalidade “genuína” parece conformar, e confirmar, aspectos importantíssimos da identidade nacional. Trata-se de uma construção cultural, com relevantes pitadas de política. De qualquer forma, essas duas manifestações rítmicas, cujo estabelecimento se deu há mais ou menos um século, têm em comum uma vigorosa origem afrodescendente, apesar de enfrentarem tentativas de branqueamento.

Não é à toa que dois homens negros assinem a autoria das primeiras músicas registradas do tango e do samba: respectivamente Rosendo Mendizábal e Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga.

Mas os tanguistas e sambistas não constituem os únicos grupos de musicistas do continente a contar com essa privilegiada ancestralidade. De Cuba ao Uruguai, a América Latina inteira deve a gênese e o desenvolvimento de sua música aos descendentes de africanos que aqui viveram ou vivem. Entre eles, o candombe, a salsa, a habanera e a rumba.

E quem tiver disposição para transpor a barreira física do Río Grande, achará muitas – praticamente exclusivas – impressões digitais de afro-americanos na geração do blues, do jazz, do rock, do pop e da gospel music.

Comecemos do nosso quintal, antes de olharmos para a grama dos vizinhos. Nestes dias que correm, celebram-se cem anos da composição da música Pelo telefone, que, com o tempo, passou a ser lembrada como o primeiro samba a ganhar o mercado fonográfico. Gravada no começo de 1917 por Baiano e Donga – este último, detentor do direito autoral da letra, após registro na Biblioteca Nacional –, tornou-se imediatamente um sucesso fabuloso, e talvez não houvesse folião carioca daquele Carnaval que não tivesse na ponta da língua os seus versos, que pediam o abandono das mágoas e anunciavam a chegada da alegria.

Reprodução do primeiro samba gravado, Pelo telefone. Por razões técnicas, não havia instrumentos de percussão nas gravações fonográficas dos primeiros sambas. Eles só foram incluídos nos discos a partir de 1929.

O hit veio embalado em polêmica. Frequentadores da casa de uma influente mãe-de-santo no centro do Rio de Janeiro, a baiana Hilária Batista de Almeida (conhecida como Tia Ciata), reclamaram parte na criação da música, que não seria filha somente de Donga – que, ao lado de figuras como Pixinguinha, também participava das celebrações promovidas por Tia Ciata.

A reivindicação deles fazia todo o sentido. Segundo a historiadora Fabiana Lopes da Cunha, espaços comunitários em geral liderados por mulheres constituíam o cerne da organização social e cultural de africanos e seus descendentes no Rio daquela época.

Tratava-se de uma população vulnerável às reformas urbanísticas cheias de megalomania que, desde a gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), buscavam transformar a região central do Rio num reflexo das grandes capitais da Europa, expulsando moradores pobres e negros para os morros circunvizinhos e os subúrbios. Tia Ciata, emigrada de Salvador no século XIX, habitava as imediações da Praça Onze, área que chegou a desfrutar do apelido de Pequena África antes de ser desmantelada pelo trator do “progresso”.

Ela e outras matriarcas baianas associadas ao candomblé costumavam promover festas e rodas musicais que, para muitos estudiosos, são o próprio celeiro do samba urbano moderno, “corroborando assim a tese de que este gênero teve uma origem coletiva e que tinha por finalidade alegrar, acompanhado por palmas e ao som rítmico dos batuques”, como escreve Cunha no livro Da marginalidade ao estrelato: o samba na construção da nacionalidade.

O pesquisador e compositor Nei Lopes nos lembra em seu Dicionário escolar afro-brasileiro que, antes do século XX, o termo samba era um 'genérico de várias antigas danças brasileiras de origem africana e da música que acompanha cada uma' delas.

O vocábulo, provindo do quimbundo semba (em que significa “umbigo”), possuía tanta difusão que já se fazia registrar inclusive em romances do final do século XIX, como o naturalista Bom-Crioulo, do cearense Adolfo Caminha. No texto, publicado em 1895 e que descreve o romance homossexual de um ex-escravo marinheiro, lemos que num certo navio da Marinha brasileira eram frequentes os “sambas à noite, na proa”. Uma alternativa lúdica às péssimas condições a que a tripulação – boa parte, afrodescendente – era submetida nas jornadas diárias.

O fato é que Pelo telefone integra um conjunto de composições que alterariam a paisagem rítmica do Rio naquela conturbada belle époque. Até então, nos carnavais pulava-se ao som de polcas, tangos, marchas. Ao longo dos anos 1920, o advento das rádios e de novas gravadoras ajudou a impulsionar e a moldar o samba carioca como um gênero musical distinto: os instrumentos de percussão, essa evidente herança de sociedades negras, só foram instituídos nos discos a partir de 1929, pelo Bando dos Tangarás, composto por figuras como João de Barro e Noel Rosa.

O samba carioca, além de ir conquistando o público, caiu na graça da intelligentsia modernista, ávida pela descoberta de “raízes genuínas” da cultura brasileira. Sintomático é que Macunaíma, livro de Mario de Andrade cujo protagonista é um mestiço de negro, índio e branco (algo como a “síntese” do que é “ser brasileiro”), tenha sido publicado pouco antes de Casa-grande e senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, obra de 1933 fundamental na construção da ideia de uma suposta “democracia racial” no Brasil.

Essa mentalidade se encaixaria como uma luva aos interesses dos poderes políticos que chegaram à Presidência após a Revolução de 1930. Por meio de representações culturais, em especial durante o Estado Novo (1937-1945), as autoridades buscavam transmitir a noção de harmonia racial num país cuja Abolição – canhestra – da escravatura mal completara cinco décadas. Foi assim que “o samba carioca começou a colonizar o carnaval brasileiro, transformando-se em símbolo de nacionalidade”, relata o antropólogo Hermano Vianna, em O mistério do samba.

“Na representação vitoriosa dos anos 1930, o brasileiro nasce, portanto, onde começa a mestiçagem. A mistura deixou de ser desvantagem para tornar-se elogio, e diversas práticas regionais associadas ao popular – na culinária, na dança, na música, na religião – seriam devidamente desafricanizadas, por assim dizer”, argumentam as historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, em Brasil: uma biografia.

A capoeira, a feijoada, o samba, todos concebidos em território brasileiro no contexto das diásporas africanas, passavam a ser 'nem brancos nem negros', signos de uma 'brasilidade' racial falsamente simétrica que, no fundo, apenas tentava relativizar suas origens africanas. Será por acaso que nossa 'embaixatriz do samba' é uma mulher branca nascida em Portugal?

Tango: um legado africano no Plata
Durante a era colonial, Buenos Aires foi um entreposto de venda de escravizados africanos (especialmente povos bantos, como angolas, congos, benguelas e moçambiques) para várias regiões da América hispânica, entre elas o Peru, a Bolívia e o Chile, além da vizinha Montevidéu. A população negra na cidade que se tornaria a capital da futura Argentina somava números expressivos ao fim do século XVIII, perfazendo metade da dos brancos.

A partir da virada do Oitocentos, do processo de emancipação da Espanha e da consolidação do território nacional, os governos locais puseram em marcha sucessivas políticas racistas com o sentido de reduzir e eliminar a presença de afrodescendentes no país: recrutando-os forçadamente para guerras e até estimulando-os à emigração. Doenças como a febre amarela também contribuíram para a diminuição de afro-argentinos no período.

Como não poderia deixar de ser, no entanto, africanos e seus descendentes legaram uma gigantesca herança para a cultura local. O que se considera hoje uma das expressões finas da alma portenha, o tango, tem traços africanos do nome ao ritmo.

Explica-nos a musicóloga Isabelle Leymarie, em seu livro Del tango ao reggae. Músicas negras de América Latina y del Caribe: “Os rituais congos [dos africanos chegados à região] se chamavam candombes (que, segundo certa etimologia, provém do banto ka n’dombele, ‘rezar aos deuses’) ou também tambús ou tangos.” Por sinal, o termo milonga, que define um famoso estilo de canto ao violão muito associado ao tango e aos pampas, igualmente provém de uma língua banto, o quimbundo, e originalmente significa “palavras”, “discussão” ou “lamento”.

Na transição do século XIX para o XX, Leymarie diz que músicos negros argentinos se tornaram “os primeiros compositores de tango de salão, contribuindo para lhe dar o seu sabor característico”. Entre os quais, o já mencionado Rosendo Mendizábal (autor, em 1897, do primeiro tango registrado em partitura, El entrerriano) e o pianista Alejandro Vilela. “Mais tarde, o pianista e bandoneonista Enrique Maciel e o bandoneonista Ernesto Natividad de la Cruz lhe deram uma fisionomia mais moderna.” Outro nome que se destaca no tango do período é o de Gabino Ezeiza, nascido no bairro negro de San Telmo, em Buenos Aires.

O enorme afluxo de imigrantes brancos trouxe aportes europeus para o tango, que, depois de experimentar uma profícua temporada em Paris na década de 1910, espalhou-se pelo mundo (chegando mesmo ao Brasil). O êxito na Europa tornava o tango bastante mais palatável à elite bonaerense; não tardaria para que esse estilo se transformasse, algo como o samba no Brasil, numa espécie de representação da “identidade argentina” – devidamente embranquecida, é óbvio.

Candombe, habanera, calipso, salsa e muito mais
Na margem oposta do Río de la Plata, o candombe, elaborado por escravizados bantos, segue como um dos gêneros musicais e dançantes mais característicos do Uruguai. Assim como o samba e o tango, tornou-se patrimônio da humanidade reconhecido pela Unesco. Notável pela utilização de três tambores (“repique”, “piano” e “chico”), o candombe se originou em manifestações ritualísticas vinculadas à coroação dos reis congos, organizadas por escravizados em solo americano já no século XVIII.

Essas celebrações, que fundiam religiões africanas ao catolicismo, agregando-lhes elementos políticos (a tentativa de emular uma realeza africana entre os escravizados), perderam os seus aspectos místicos, mas ainda se conservam musicalmente, sendo bastante populares no Carnaval uruguaio. Em Minas Gerais, no Brasil, o candombe sobrevive em sua dimensão religiosa no Congado, com cerimônias ao longo do calendário.

Martinho da Vila já disse que 'toda a música das Américas, dançante ou não, tem origem no continente africano'. Constatamos isso facilmente, de acordo com ele, observando desde a “contagiante música ligeira cubana”, além da habanera (nascida em meados do século XIX e que se alastrou pelo mundo como fogo em palha seca), até o funk e as sonoridades antilhanas, que nos presentearam com o reggae, por exemplo. Os mais recentes calipso e salsa, com seus tambores, são gêneros caribenhos que se espalharam pelo globo no fim do século passado. Sucessos ainda mais próximos de nós, os fenômenos do zouk e do kuduro parecem atestar a nossa permanente vocação latina para as musicalidades de África.
 

Fonte: Calle 2 via Vermelho

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Jandira Feghali: Falta coragem política


Foto: Reprodução/Flickr
  
Um, alçado ao poder num golpe execrável contra a democracia, é sustentado por lobos famintos em seus interesses nada republicanos. Sem voto, Temer tem mantido um governo voltado para rentistas, burocratas e uma elite conservadora. Ressuscita um projeto fracassado nas urnas tantas vezes e tenta, como um anão moral que é, fazer valer reformas que surrupiam direitos da população.

O mesmo acontece no Rio, onde a dupla Pezão / Dornelles tenta impor um pacote de maldades que suprime direitos sociais e tenta ampliar, de forma covarde, a contribuição de servidores ao Estado. Tentou acabar com o aluguel social, o bilhete único, renda jovem, entre outros. Sem transparência nas isenções fiscais e nos contrato de terceirização, falta de planejamento, além de denúncias de desvio de recursos no governo Sergio Cabral, fica cada vez mais obscura a fronteira para a população fluminense.

É muito mais fácil para eles apontar seus canhões para o trabalhador quando há muito dinheiro em dívidas de milionários ou várias empresas com seus impostos desonerados, a exemplo de joalherias (não é mesmo, Cabral?).

Esse tipo de covardia se repete na esfera nacional, com a proposta de Temer em triturar a aposentadoria dos brasileiros. E quem paga essa conta? Justamente os cidadãos mais jovens ou que estão prestes a se aposentar. Muitos contribuintes só conseguirão alcançar seu benefício com praticamente 70 anos.

Não haverá saída para o país ou o Estado do Rio se não houver esforço para tributar grandes fortunas, reformar o sistema tributário, incentivar a cadeia produtiva, o conteúdo nacional e cobrar as dívidas das empresas. Não basta cortar recursos através de PECs ou exigir mais dos servidores e aposentados. São saídas perversas.

Enquanto não houver uma agenda avançada e sensível socialmente, com altivez e coragem política para implementá-la, sustentada por governos eleitos, não teremos saídas justas para nossa gente.

* É médica, deputada federal (PCdoB/RJ) e líder da oposição


Fonte: Vermelho