quarta-feira, 15 de junho de 2016

Temer quer impedir acúmulo de benefícios sociais


MDS
  
Caso a medida se concretize, uma família que possui um idoso ou uma pessoa deficiente recebendo o Benefício de Prestação Continuada (BPC), por exemplo, não vai poder receber Bolsa Família, mesmo que a renda continue dentro do perfil do programa, de até R$ 154 mensais por pessoa.

"Hoje, é possível receber, simultaneamente, repasses do Bolsa Família, do abono salarial e do seguro-defeso (dado a pescadores). O tema, apesar de polêmico, motiva a área técnica do governo a racionalizar despesas em momento de forte queda de receita", diz a nota da coluna, ignorando o impacto social de uma iniciativa desta natureza.

Conselho de Ética aprova cassação de Cunha


  
Foram oito meses para que o Conselho de Ética conseguisse votar o relatório do deputado Marcos Rogério (DEM-RO) sobre a quebra de decoro do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Manobras e bate-boca marcaram o processo que acabou com a aprovação, por 11 votos contra 9, da cassação do parlamentar. No entanto, para afastar definitivamente Cunha da Câmara, a Comissão de Constituição, de Justiça e de Cidadania (CCJ) e o Plenário da Casa precisam validar a decisão.

“Acredito que a cassação [no Conselho] se deu mais por pressão da sociedade do que pela consciência política dos senhores deputados”, avalia o presidente Comissão de Legislação Participativa, Chico Lopes (PCdoB-CE).

A votação, após algumas horas de debate, durou menos de meia hora e surpreendeu os presentes. A pressão popular – e os bastidores políticos – fizeram com que a deputada Tia Eron (PRB-BA) acabasse tendo que dividir os holofotes com Wladimir Costa (SD-PA), que depois de ter feito incontáveis defesas de Cunha, votou favorável ao parecer de Rogério.

Para o líder da Bancada do PCdoB, Daniel Almeida (BA), o Conselho de Ética, apesar da demora, cumpriu seu papel. “Votos foram modificados na última hora. Agora, cabe trazermos rapidamente para o Plenário e assim colocarmos fim nas manobras e trapaças conduzidas por Cunha.”

No plenário da Câmara são necessários 257 votos para cassar o parlamentar, o equivalente a metade mais um dos 513 deputados, a maioria absoluta. Antes disso, Cunha pode ainda recorrer à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Confira abaixo a avaliação de Chico Lopes e da deputada Angela Albino sobre a decisão do conselho:



Bloqueio de bens


Instantes depois da decisão do Conselho de Ética, o juiz Augusto Cesar Pansini Gonçalves, da 6ª Vara Cível da Justiça Federal do Paraná, aceitou pedido de liminar do Ministério Público Federal (MPF) e decretou a indisponibilidade de recursos financeiros e bens de Cunha. Ele ainda decretou a quebra do sigilo fiscal de Eduardo Cunha desde o ano de 2007.

Além de Cunha, foram requeridos na ação de improbidade administrativa a mulher dele, Cláudia Cruz, o ex-diretor da Petrobras Jorge Luiz Zelada, o suposto operador João Henriques, e o empresário Idalécio de Oliveira. Eles também tiveram os bens bloqueados.

O pedido havia sido feito na segunda (13) em ação de improbidade administrativa. "Defiro o pedido de liminar (nos termos formulados pelo MPF) e decreto a indisponibilidade de recursos financeiros e bens dos réus, inclusive das empresas C3 Produções Artísticas e Jornalística LTDA. (...) e C3 Atividades de Internet LTDA", diz trecho da decisão.

Os cinco devem ser notificados para oferecer manifestações por escrito em até 15 dias. Mais cedo, Cunha havia pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão desta ação de improbidade administrativa.

O juiz rejeitou a alegação de que a ação deveria ser remetida ao STF. "O Superior Tribunal de Justiça pacificou o entendimento de que a ação de improbidade administrativa deve ser processada e julgada nas instâncias ordinárias, ainda que proposta contra agente político que tenha foro privilegiado no âmbito penal e nos crimes de responsabilidade", citou.



 Do Portal Vermelho, com PCdoB na Câmara e Brasil 247

Pesquisa mostra que 77% reprovam proposta de Temer para Previdência


Christian Braga/Jornalistas Livres
Manifestantes saem às ruas no dia 10 contra o governo Temer. Mobilização em São Paulo.Manifestantes saem às ruas no dia 10 contra o governo Temer. Mobilização em São Paulo.
A avaliação do governo de Temer é considerada negativa por 34% dos entrevistados. São 33% os que consideram o governo regular e 11% avaliam como positivo. 21% não souberam responder.

O aumento na idade para aposentadoria é considerado por 77% como ruim para os brasileiros, que também não estão satisfeitos com a diminuição de ministérios (46%) e com o fato de o governo não ter mulheres no chamado alto escalão (63%).

Se por um lado cresce a rejeição às medidas do governo Temer, de outro, aumenta o número de pessoas que desaprovam o impeachment da presidenta Dilma Rousseff como solução para os problemas do Brasil.
69% dos brasileiros não vêem o impeachment como a melhor saída. Os números mostram que essa posição ganhou adeptos em relação à pesquisa de abril, que registrou um percentual de 66% descrentes de que o afastamento definitivo de Dilma resolveria os problemas econômicos.
 
Diante deste cenário de falta de perspectivas revelado pela pesquisa, a possibilidade de uma nova eleição para presidente da República, ainda neste ano, se mostra como a opção para 67% dos entrevistados. 29% não concordam com uma nova eleição e 4% não sabem ou não responderam.

Sempre pode ficar pior

Em um mês como presidente interino, Michel Temer confirmou o título de governo ilegítimo e golpista. A imposição de uma agenda de desmonte das conquistas sociais e direitos trabalhistas, com efeitos trágicos nas parcelas mais pobres da população, não passou despercebida. Mesmo assim provocou espanto.
 
32% dos entrevistados afirmaram que o governo Temer é pior do que esperavam. 16% ainda o consideram tão ruim quanto achavam que seria e o mesmo percentual o classificou como melhor do que esperavam. 7% consideram o governo provisório tão bom quanto as expectativas e 29% não souberam ou não responderam.

Desmonte das conquistas sociais e trabalhistas

O governo Temer esboça a cada dia a falta de compromisso com as conquistas sociais e com a defesa de um projeto político neoliberal, aliado dos grandes empresários e banqueiros. Não à toa, o governo provisório coleciona em 30 dias cortes em programas de educação, saúde, moradia e apoio à projetos de lei como o que quebra o monopólio do Pré-sal e entrega para empresas estrangeiras.
 
50% dos entrevistados consideram ruim a quebra do monopólio do Pré-Sal. A mesma avaliação é feita pelos entrevistados quando questionados sobre o aumento  da privatização de empresas e de concessões de rodovias e aeroportos. A resposta para a avaliação é porque essas iniciativas prejudicam o Brasil.

Temer e sua equipe também abrem o caminho, apoiado pelo empresariado brasileiro que financiou o golpe, para a fragilização da legislação trabalhista brasileira enfraquecendo os direitos e a dignidade dos trabalhadores. 

Se na pesquisa anterior, aqueles que acreditavam que a conta ficaria nas contas do trabalhador era de 32%, no levantamento desta terça o percentual aumentou para 55%. Para esses a violação aos direitos dos trabalhadores vai se agravar. 

A pesquisa foi realizada entre os dias 7 e 9 de junho e ouviu duas mil pessoas em 116 municípios. Os entrevistados foram brasileiros, de áreas urbanas e rurais, com mais de 16 anos, residentes em todos os Estados do país, com exceção de Roraima e do Distrito Federal.

Clique aqui para conferir a pesquisa na íntegra

 


Do Portal Vermelho, com informações da CUT

Participe do lançamento das pré candidaturas de Davidson prefeito e Jorge Barbosa vereador


terça-feira, 14 de junho de 2016

A EBC e a construção da cidadania


  
Uma das bobagens propostas é a extinção da Empresa Brasileira de Comunicação. Logo a EBC, empresa pública, criada em 2007 para gerir as emissoras de rádio e televisão públicas federais. Empresa é responsável pela TV Brasil, TV Brasil Internacional, Rádios EBC, Agência Brasil, Radioagência Nacional, Portal EBC, produzindo conteúdos de qualidade e fazendo a diferença no país.

A ECB cuida de um bem ou valor de interesse público, a comunicação pública; ela [a Comunicação pública] é um conceito que começou a ser discutido há pouco tempo, e, portanto, ainda está em processo de construção.

A comunicação pública permeia áreas como: comunicação organizacional, comunicação científica, comunicação governamental, comunicação política e comunicação da sociedade civil organizada; essas têm em comum a função de estabelecer uma comunicação entre governo, Estado e sociedade.

Nessa linha, e tentando compreender a amplitude da comunicação pública, é possível afirmar que o tal Eliseu Quadrilha, digo, Padinha não tem noção de qual é o papel da comunicação pública; fala em evitar a concorrência com emissoras privadas e que o governo não tem interesse em concorrer com a mídia privada. Quanta ignorância...

Caro senhor “Quadrilha”, digo, Padilha as emissoras públicas, que existem em vários países do mundo e visam oferecer comunicação de qualidade, livres dos ditames dos mercados e dos interesses políticos e econômicos das famílias midiáticas que controlam grandes conglomerados de comunicação e, com esse poder, influem no processo político.

É possível um paralelo com a NOMIC, ou Nova Ordem Mundial de Comunicação. Ela surgiu no fim da década de 70, na UNESCO, como forma de garantir o direito à democracia, cidadania e liberdade de expressão para todos. Essa Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação é um projeto internacional de reorganização dos fluxos globais de informação por meio de diversas ações de governo e do terceiro setor.

Em 1977, uma comissão internacional desta organização iniciou um estudo sobre os problemas da comunicação no mundo e produziu três anos depois um documento — o chamado Relatório MacBride — propondo mudanças e estratégias para redistribuir e equilibrar os fluxos de informação entre países ricos e subdesenvolvidos. No entanto, a forte oposição por parte das organizações privadas de mídia, a partir de então, acabou relegando o projeto ao esquecimento. Nas décadas seguintes, a UNESCO praticamente substituiu a NOMIC em sua agenda política por outros temas, como democratização da comunicação, sociedade da informação e inclusão digital.

Senhor Quadrilha, digo, Padilha empresas como a EBC existem em vários países do mundo, como França, Espanha e Inglaterra, e tem por objetivo oferecer comunicação pública de qualidade, com liberdade e sem distorções; não se trata de concorrer com a mídia privada, os conteúdos e interesses não são coincidentes ou necessariamente colidentes. A comunicação pública é singular e distingue-se das demais por portar o interesse coletivo, ou seja, por colocar o interesse do público acima dos particulares (tanto nos negócios quanto na política) e é fruto do debate público, além de estimulá-lo. Há quem afirme que as transformações geradas na sociedade a partir da implantação da comunicação pública só são visíveis á longo prazo, pois a comunicação pública não visa apenas fornecer informações imediatas, mas também visa qualificar o cidadão para que exerça seu poder crítico e participativo.

É assim que ocorre a construção da cidadania, pois quando um assunto entre na arena pública, ele passa a integrar a agenda pública, tendendo a ser requalificado em termos cognitivos e normativos e a imprensa é a principal fonte de execução da comunicação pública (os assuntos públicos passam a entrar na mídia por portarem o interesse coletivo). Entretanto, somente os grupos hegemônicos podem se manifestar nela. Nesse sentido, a comunicação pública serve para dar voz a todas as classes e gerar espaços alternativos de discussão.

Eventual extinção da EBC é um crime, mais um, cometido por representantes e vassalos de uma elite imoral e autoritária, sem agenda, sem projeto e servil aos interesses privados.

Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, sócio da Maciel Neto Advocacia e autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”.


Fonte: Vermelho 

Breno Altman: Golpe contra liberdade de imprensa


Ao tentar amordaçar financeiramente a comunicação divergente, Michel Temer expõe as entranhas mais pútridas do processo que comandaAo tentar amordaçar financeiramente a comunicação divergente, Michel Temer expõe as entranhas mais pútridas do processo que comanda
A demissão ilegal do presidente EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), suspensa liminarmente pelo STF, também integra o portfólio de providências para minar veículos de informação críticos ao impeachment.

São igualmente sintomáticas, desta escalada antidemocrática, sentenças judiciais promulgadas por magistrados paranaenses, a pedido de agentes da Polícia Federal, censurando artigos do jornalista Marcelo Auler que denunciavam irregularidades na Operação Lava Jato.

Não estão a salvo sequer repórteres do diário Gazeta do Povo, de orientação antipetista, do mesmo Paraná: vários profissionais, em dezenas de cidades, estão sendo processados por denunciarem supersalários de juízes e promotores.

Poucas são as vozes, contudo, a se erguerem contra tais arbitrariedades, com o vigor necessário, para barrar tamanho retrocesso em nossa esfarrapada democracia.

A administração provisória se refastela com a possibilidade de esmagar qualquer dissidência jornalística que conteste sua legalidade ou defenda o retorno da presidente afastada, sob aplausos das facções mais sórdidas do reacionarismo.

As correntes conservadoras, aliás, sempre trataram de estigmatizar os partidos de esquerda como inimigos da liberdade de imprensa. Salta aos olhos, no entanto, a ironia de os governos petistas terem continuado a encher as arcas dos grupos corporativos de mídia, mesmo quando vários desses já estavam envolvidos na ofensiva golpista.

As velhas elites, porém, ao recuperarem a direção do Estado, varrem o pouco de pluralidade que, a duras penas, havia sido conquistado.

Os fatos são escandalosos: o segmento de veículos progressistas recebeu, em 2015, menos de 1% do orçamento publicitário da União e das estatais, faturando menos de R$ 15 milhões sobre um total de R$ 1,87 bilhões. Não alcançou 8% do valor de anúncios na internet, ao redor de R$ 235 milhões.

Falar em favoritismo ou abuso, portanto, não passa de escárnio.

As principais democracias do mundo, além de regras antimonopolistas, adotam políticas capazes de expandir o direito de expressão para todas as correntes de opinião, por meio de garantias legais, compras governamentais, cotas de anúncios e créditos estatais.

Um dos maiores entulhos herdados da ditadura é o regime de oligopólio da comunicação, com algumas famílias controlando quase 80% dos meios impressos, eletrônicos e audiovisuais, apesar de determinação constitucional em contrário.

Seus laços com grandes anunciantes privados e agências de publicidade, obedecendo tanto a interesses comerciais quanto a alinhamentos ideológicos, tornam praticamente inviável, apenas por mecanismos de mercado, o desenvolvimento de uma imprensa independente.

A diversidade editorial e informativa, assim, sem a salvaguarda de mecanismos públicos, fica à mercê da orientação corporativa de controladores privados.

As decisões excludentes e vingativas do presidente em exercício, nesse sentido, mais que reiteração de antiga chaga autoritária, representam agressão à liberdade de imprensa e à democracia.

Ao tentar amordaçar financeiramente a comunicação divergente, o senhor Michel Temer acaba por expor as entranhas mais pútridas do processo que até agora comanda.
 

*É jornalista e fundador do site Opera Mundi
Fonte: Vermelho

Golpistas ameaçam entregar setor nuclear ao mercado estrangeiro


Canteiro de obras da usina de Angra 3Canteiro de obras da usina de Angra 3
As propostas receberam, no dia 12 de maio parecer favorável do relator da Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados, onde tramitaram por longos nove anos, entre arquivamentos e desarquivamentos.  A expectativa é que em breve passem pelo plenário.

A PEC 122/07 pode inaugurar um novo tempo para o setor, agora com pesada participação estrangeira e sem reflexos no desenvolvimento nacional. Em entrevista ao Portal do Clube de Engenharia, o conselheiro Paulo Metri analisa os impactos que tais mudanças poderão trazer para o país.

O que a PEC 122 representa de fato para o setor nuclear nacional?

O deputado federal Alfredo Kaefer, do PSDB do Paraná, apresentou em 2007 a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no 122, que visa modificar os artigos 21 e 177 da nossa Constituição para excluir do monopólio da União a construção, operação e, implicitamente, a posse de reatores nucleares para fins de geração de energia elétrica. Hoje, só a empresa estatal Eletronuclear possui, constrói e opera no setor. Salvo engano, esta proposta será submetida brevemente à votação do plenário e pode ser aprovada sem grande debate. Na verdade, está se falando da permissão de entrada de empresas estrangeiras na geração nucleoelétrica no país.
 
Mas o texto da PEC determina a atuação de empresas nacionais no setor...

Não existe a possibilidade de uma empresa privada genuinamente nacional vir a ter esta atividade, por causa do porte e experiência requeridos. Podem até camuflar a entrada das empresas estrangeiras no setor, colocando empresas privadas nacionais genuínas na fachada, mas estas serão somente testas-de-ferro. É preciso diferenciar a assistência técnica externa dada a empresa brasileira, como é o caso da Areva, que assiste a Eletronuclear, do uso de uma empresa brasileira sem competência no setor como testa-de-ferro. Então, na prática, o modelo do setor proposto nesta PEC é o do convívio de subsidiárias das empresas nucleares estrangeiras com a única brasileira de porte e tradição: a Eletronuclear, que já possui Angra I, II e III.
 
Por que é importante preservar a construção, a manutenção e a operação de usinas nucleares na mão do Estado, como hoje determina a Constituição? 

As empresas estrangeiras não irão querer ter no Brasil todas as atividades de projeto, construção, fabricação de equipamentos e montagem das usinas. Seguramente, vão trazer o projeto e os equipamentos do exterior. A construção e a montagem podem vir a ser contratadas com empresas brasileiras, mas elas poderão também forçar para que construtoras e montadoras estrangeiras entrem aqui. Quanto ao ciclo do combustível, a proposta do deputado não menciona nada, mas elas irão importar, certamente, elementos combustíveis, o que maximizará a operação de suas unidades industriais no exterior. Não se pode esquecer que, além da obrigação de oferecer energia elétrica, a mais segura e barata possível, para a sociedade, outros objetivos do Estado são o de maximizar a geração de emprego e renda no Brasil, que estão incluídos na maximização das compras locais. Assim, este critério é muito melhor satisfeito pela Eletronuclear.
 
Há um mercado de produtos e serviços nucleares no mundo no qual o Brasil poderia se inserir em um futuro próximo. As mudanças propostas pela PEC podem impactar essa participação?

Com a introdução do novo modelo no Brasil, o país fica impedido de participar da parcela do mercado de produtos e serviços nucleares no mundo, permitida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Isso porque as subsidiárias estrangeiras aqui sediadas não irão participar de concorrências em outros países, por falta de interesse das matrizes de usar suas subsidiárias. Além disso, o lucro de uma eventual exportação não ficaria no país. O Brasil poderia tentar entrar, no futuro, com o consórcio Eletronuclear, Nuclep e INB, assistido pela Areva. Esta possibilidade futura está sendo negada com a introdução, hoje, do novo modelo, além do nível de desenvolvimento tecnológico dominado pelo país no setor vir a regredir.
 
Ainda em relação aos interesses e às práticas de matrizes e subsidiárias, há outras perdas?

Sim. O total das remessas de lucros e valores de assistência técnica para o exterior é superior no caso da adoção do modelo alienígena. A diferença entre os valores do modelo estatal e nacional e do modelo estrangeiro representa o montante que não será remetido para o exterior e será reinvestido no país.
 
Um ponto que sempre vem à tona em debates sobre a geração energética nuclear é a segurança. A abertura à iniciativa privada colabora com a segurança no setor? 

Na verdade, a construção e a operação privada de uma usina nuclear traz à tona o célebre conflito entre lucratividade e segurança. Sabe-se que, com o acréscimo de medidas de segurança, mais caro fica o investimento da usina. A iniciativa privada visa ter o máximo lucro, dentro de uma atuação segura da sua atividade. Contudo, é omitido que existem diferentes graus de segurança para qualquer empreendimento e, a cada aumento da segurança, existe um investimento adicional, que aumenta o investimento total. Também a escolha do grau de segurança a ser adotado em um empreendimento é uma decisão que leva em conta o impacto na lucratividade, e ninguém pode dizer, com certeza, qual é o grau mínimo de segurança suficiente. Desta forma, pode-se dizer que a construção e a operação de usinas nucleares diretamente pelo Estado podem resultar em usinas mais seguras, à medida que o Estado não procura a maximização do lucro.
 
A PEC prevê a criação de uma agência que regularia o setor. Essa agência não seria suficiente para garantir que as empresas privadas atendessem não só aos critérios de segurança, como também aos interesses da população?

Esse é um contra-argumento bastante utilizado. Há quem diga que existindo o ente do Estado fiscalizador da segurança nuclear, atualmente a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a segurança estará garantida. Entretanto, algumas das maiores agências reguladoras do país, a ANP, a ANEEL e a ANATEL, que fiscalizam setores abertos ao capital externo, são exemplos de agências dominadas pelas próprias empresas reguladas. A ANP já colocou mais de 1.000 blocos do território nacional em leilão para a busca de petróleo, atividade esta de pouco valor para a sociedade e de grande valor para as empresas estrangeiras. A ANEEL deixou as concessionárias cobrarem a mais dos consumidores por cerca de 10 anos. A ANATEL deixa o Brasil ter uma das maiores tarifas de telefonia do mundo, em flagrante ação de cartel das operadoras.
 
Caso a PEC passe, qual será a última trincheira de resistência?

Se passar, conto com a direção e o corpo técnico da CNEN, ou da Agência que venha a ser criada, para oferecer resistência aos assédios de cooptação do setor privado, que com certeza irão existir, uma vez que virão junto com este novo modelo.




Fonte: Portal do Clube de Engenharia via Vermelho