segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Goiás é o segundo Estado com mais homicídios de mulheres

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De acordo com a pesquisa, Goiás registrou taxa de 8,4 homicídios por 100 mil mulheres, o número é superior à média nacional, de 4,6 homicídios por 100 mil mulheres. Goiás fica atrás apenas de Roraima, que teve taxa de 9,5 para cada 100 mil mulheres.

O levantamento aponta ainda que a violência letal registrada no ano foi maior contra mulheres pretas e pardas, uma vez que a taxa de homicídios relativa a essas mulheres se mostrou quase duas vezes superior àquela relativa a homicídios de mulheres brancas. Este dado se repete na maior parte dos estados brasileiros.

Os números mostram também que entre 2006 e 2014 o registro deste tipo de violência tem aumentado. Enquanto a taxa de homicídios de mulheres brancas residentes no Estado aumentou em 53%, passando de 3,6 a 5,5, a taxa de homicídios de mulheres pretas e pardas aumentou em 96%, passando de 5,3 a 10,4 homicídios por 100 mil mulheres.

Em relação aos registros de estupro, Goiás apresentou um número de ocorrências para cada grupo de 100 mil mulheres mais de duas vezes inferior à taxa de estupros registrada no País. Este dado foi citado na pesquisa do Observatório, mas foram publicados inicialmente no 10° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para a professora da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Bartira Macedo de Miranda, os dados mostram que Goiás é um Estado de população machista e com cultura autoritária que perdura mesmo em meio ao aumento do debate em relação à violência contra a mulher. “Faltam políticas públicas direcionadas principalmente às mulheres mais pobres. No caso dos estupros, sabemos que os dados ainda estão longe da realidade porque a maior parte das vítimas não fazem denúncia”, lamenta a especialista.

Bartira afirma ainda que o problema de todos os tipos de violência contra a mulher está no fato de o Estado tratar a segurança pública com a ideia de combate e guerra e não em um paradigma de proteção dos direitos. A falta de divulgação periódica dos dados, afirma a professora, também é um empecilho, pois impede o conhecimento da população sobre o assunto e também barra a pesquisa de especialistas em segurança.

A pesquisa aponta esta falta de informação por parte da Polícia Civil de Goiás. Já a Secretaria de Estado de Segurança Pública, a pedido do Observatório, informou que, no ano de 2014, foram registradas 20.092 ocorrências relacionadas à violência contra mulheres, perfazendo uma taxa de 605,3 ocorrências para cada 100 mil mulheres residentes no estado.

A delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Formosa, Fernanda Lima, lembra que os números da pesquisa não separam os casos de feminicídio e de homicídio. “É importante lembrar que alguns assassinatos acontecem durante assaltos ou em decorrência de outra criminalidade urbana. Mas no que diz respeito a registrar o número de homicídio de mulheres, a pesquisa cumpre seu papel e os números são realmente altos”, avalia a delegada.

Ainda de acordo com Fernanda, em relação à violência doméstica, o número realmente tem crescido devido a criação de mecanismos que levam cada vez mais mulheres a denunciarem os casos. “Existem estados que o número de estupros, praticado por familiares ou desconhecidos, é menor. Isso acontece porque as mulheres não têm a mesma possibilidade de procurar uma delegacia, como existe aqui”, explica Fernanda. A delegada afirma também que, a longo prazo, os indicadores começarão a diminuir pois os resultados das denúncias e das políticas públicas vão começar a aparecer. “A estatística nua e crua não representa a realidade”, conclui.
 

Fonte: Mais Goiás via Vermelho

Destruição do SUS e do Estado Nacional


  
A lógica dos neoliberais é que a democracia não cabe no orçamento. Como se o orçamento não fosse uma peça importante no debate do tamanho do estado na construção do projeto nacional de desenvolvimento de um país.

A recomposição do capitalismo pós-crise imobiliária de 2008 vem colocando na ordem do dia a diminuição do papel do estado nas políticas públicas entre outras medidas de caráter restritivo que vem fragilizando a soberania das nações. Na mesma lógica os representantes do pensamento neoliberal aqui no Brasil defendem que o mercado deve regular 100% das políticas de estado: isto significa que os interesses do capital deve estar no comando da gestão pública, seja através da terceirização dos serviços, das fundações, entre outras formas de gestão privada.

É comprovado que os gastos do orçamento nas políticas públicas contribuem consideravelmente na movimentação da economia, seja através dos empregos diretos ou indiretos ou no financiamento de projetos socialmente inclusivos. Esse tipo de gasto é fundamental nas políticas sociais do país, numa perspectiva desenvolvimentista, na lógica de um projeto includente, sustentável, soberano e democrático. Considerando que ele define o tipo, o papel e o tamanho do estado no financiamento do projeto de nação, nesse sentido é estratégico o debate do tamanho do orçamento enquanto instrumento que potencializa as políticas públicas de saúde e educação entre outras que amplie a universalização dos direitos sociais, do acesso à cidadania e do fortalecimento do estado nacional nas atividades econômicas estratégicas ao desenvolvimento do país e sua soberania nacional.

Sabe-se que o golpe de estado no Brasil faz parte da recomposição geopolítica no mundo, em que o capital financeiro internacional utiliza de instrumentos políticos, econômicos, diplomáticos e quando necessário militar, para impor seus interesses numa região ou em um país de referencia regional.

Hoje os golpes de estado se dão através do parlamento, da grande mídia, do Judiciário, e com apoio de setores reacionários comprometidos com os interesses estrangeiros. Importante ressaltar que a viabilização dos seus objetivos estratégicos consiste na aprovação de emendas antidemocráticas à Constituição Federal, como forma de legitimar a retirada de direitos sociais e trabalhistas. Outra trincheira dos conservadores é a via diplomática, com ações que objetivam enfraquecer a liderança do Brasil na América Latina. Adiciona-se a esta lógica a opção dos conservadores pelo distanciamento com os países que compõem o BRICS. Essas medidas comprovam que as forças que hoje estão no comando central da República estão implementando uma política de alinhamento ao grande capital, em particular o o norte-mericano. Uma das vertentes de enfraquecimento do Estado nacional foi à aprovação no congresso nacional da política de privatização do patrimônio público, na entrega dos serviços públicos a iniciativa privada-PP, caso mais recente a privatização das telecomunicações e a entrega de todo patrimônio desse setor ao capital, o que na prática inviabiliza o projeto de desenvolvimento soberano do país.

Com o advento do golpe, o que está em discussão é se o orçamento estará a serviço dos mercados ou do estado, do desenvolvimentismo ou do rentísmo, em fortalecer a saúde pública ou a saúde privada. Esta deve ser nossa preocupação no atual quadro político: a centralidade da nossa reflexão estratégica. Nesse sentido, temos aí um conflito de interesses que não é técnico, mas político e de projeto de nação. Projeto para qual classe e, com qual conteúdo de classe? Esse é o grande debate nacional. Vamos impedir que o país caminhe para a barbárie, vamos lutar pelo progresso social, por um projeto que nos aproxime da transição rumo a uma sociedade mais avançada e socialmente mais justa e democrática.

Está na lógica do sistema capitalista a limitação de direitos sociais e trabalhista, menos direitos para o povo e mais lucro para o capital, o paraíso para as elites e o martírio para a classe trabalhadora. O exemplo mais emblemático na conjuntura atual é essa proposta conservadora do governo Temer chamada de “Uma ponte para o futuro” – que na verdade é um ataque aberto aos direitos sociais duramente conquistados nos últimos trinta anos pela sociedade, além da retirada de direitos conquistados nos últimos oitenta anos, com destaque os ataques a CLT entre outras de valor histórico, as elites querem de volta a Velha República, os tempos de um país desindustrializado e agrário, destruição de todas as conquistas pôs revolução de trinta, querem de volta aquele estado que dependia do estrangeiro para tudo.

Diante da profunda recessão econômica precisamos lutar para que o Estado invista mais em políticas públicas como meio de garantirmos mais acesso da população aos serviços de qualidade, na valorização do trabalho, garantindo mais direitos sociais. Considerando que no momento a luta aberta entre a democracia e a barbárie é o termômetro da luta de classes, luta entre e os interesses do capitalismo e dos trabalhadores, entre o mercado e o estado, dos interesses daqueles que estão querendo impor a todo custo no Brasil. A “ponte para o futuro” que não levará o Brasil a um porto seguro, mas sim ao acirramento do conflito social, e é por isso que o campo progressista defende o fortalecimento do estado enquanto os neoliberais o mercado. O momento exige a construção de uma Frente Ampla em defesa dos direitos, da democracia e da soberania nacional.

Outro fator de alta relevância é que o desmonte do SUS, enquanto parte do desmonte do Estado Nacional tem como tônica a privatização dos serviços públicos, a precarização do trabalho, na lógica do capital é imperioso a desregulamentação de tudo, da terceirização geral no trabalho a diminuição do tempo de aposentadoria como a retrógada proposta de reforma da previdência entre outras restrições sociais e democráticas de dimensão histórica. É com a orientação do mercado e a serviço do capital financeiro que atualmente esta gente administra o país.

Algumas das propostas conservadoras colocadas como alternativas à crise econômica é a diminuição do tamanho e o caráter do SUS, transformando num SUS para pobres, sem qualidade, universalidade e equidade; diante dessa lógica conservadora é urgente aprofundar o debate da saúde pública, como a Desvinculação de Recursos da União, dos Estados e dos Municípios nesta e em outras políticas públicas, além da incorporação no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2017 da União (PLDO 2017) do dispositivo da antiga PEC-24155 que congela as despesas primárias no nível de 2016 por 20 anos, principalmente as sociais, o que representará uma queda das despesas per capita e reduzirá drasticamente o já insuficiente financiamento do SUS e da Seguridade Social em 413 bilhões. Exemplo, se a EC 95 estivesse em vigor a partir de 2003, deixariam de ser investidos no SUS nesse período R$ 135 bilhões até 2015, uma perda anual média de recursos equivalente a R$ 21 bilhões (ou cerca de 20% a menos do que foi aplicado pela União em 2015 em ações e serviços públicos de saúde).

O SUS é fundamental para o Brasil porque, apesar de todas as suas dificuldades, ele é um dos sistemas de saúde mais avançados do mundo, seu sentido de universalidade e de equidade torna-o democrático, importante destacar que ele é a expressão mais acabada enquanto conquista social consagrada na Constituição cidadã de 1988; preservá-lo num país em desenvolvimento, em recessão econômica e sob- feroz ataque aos direitos sociais significa fazer o contraponto da lógica neoliberal, é tratar a saúde pública enquanto política de Estado.

Apesar dos ataques diários da grande mídia o SUS é fundamental na vida da nação, o momento exige seu fortalecimento, considerando que ele por sua importância faz a diferença para parcela majoritária da população quando o assunto é saúde pública de qualidade, universal e equânime.
Fazer a privatização do SUS é cometer crime de “lesa pátria”, é levar milhões de brasileiros a morrer sem atendimento. Defende-lo na atualidade significa defender o estado numa política estratégica condicionada à qualidade de vida do povo, isso pressupõe que precisamos reforçá-lo através do financiamento adequado e perene ao seu pleno funcionamento. Atualmente, os gastos públicos consolidados em saúde (federal, estaduais e municipais) equivalem a 3,9% do PIB no Brasil; é preciso lutar para que se atinja gasto público mínimo segundo parâmetros internacionais para sistemas de cobertura universal, ou 8% do PIB, que é o mínimo internacional para gastos públicos com sistemas de acesso universal como o SUS, para que ele possa cumprir sua função social que é a de garantir saúde de qualidade com universalidade, equidade e aumento de cobertura ao povo brasileiro.

Quando o governo Temer aprovou a PEC 93 de desvinculação das receitas da União, estado e municípios para a saúde. Os conservadores aprovaram diminuir os gastos público com a saúde pública, na prática aceleram a destruição da estrutura do SUS. Porem o maior e devastador ataque a saúde pública no Brasil foi à aprovação da EC 95 que congela por 20 anos os gastos federais na saúde, estendendo este crime as demais políticas públicas, na prática essa orientação neoliberal resultará na extinção em curto prazo do SUS por absoluta “asfixia financeira”.

Na verdade, precisamos combater os interesses daqueles que apoiaram o golpe de estado e que hoje cobram a conta via Ministério da Saúde, cobrança que é expressa na proposta de expansão do mercado de planos de saúde, na acintosa proposta do chamado plano popular de saúde. Com destaque aos que atuam no complexo industrial da saúde, que estão muito interessados na privatização do setor, seja na gestão, na área de insumos, tecnologia de informação ou medicamentos.

Precisamos analisar este contexto tendo em consideração que a saúde pública e privada em conjunto representa 8,2% do PIB brasileiro. Trata-se de uma atividade econômica que vai muito além da prestação de serviços à população é, portanto, uma área de grande interesse e disputa do capital nacional e internacional.

Por isso, é preciso que a sociedade brasileira lute pelo SUS constitucional, aquele que garante a saúde como um direito. Um SUS universal, com qualidade e equidade, enquanto obrigação do Estado e direito do cidadão; não permitamos a volta do tempo anterior ao SUS em que os mais pobres eram tratados como indigentes e a atenção à saúde estava garantida somente para aqueles que faziam parte do mercado formal de trabalho.

A luta pelo SUS preconizado na Constituição é parte da luta pelo restabelecimento da democracia, pela normalidade da vida democrática do país, significa que o povo brasileiro precisa derrotar o golpe de estado que colocou a frente da presidência da república um governo ilegítimo que é fruto desse golpe. Precisamos o quanto antes eleger o presidente da República através do voto popular. Nesse sentido é importante reafirmar; Pela democracia, Diretas já.

Defesa da Constituição Federal do Brasil
Defesa da Democracia
Defesa dos Direitos
Defesa do SUS


 *Wanderley Gomes da Silva é diretor de Saúde da CONAM, conselheiro nacional de Saúde e militante do Partido Comunista do Brasil

Fonte: Vermelho

Mobilização do povo e unidade ampla para derrotar o governo golpista


A mobilização do povo é o centro da lutaA mobilização do povo é o centro da luta
A esquerda, por seu turno, aprofundou suas divisões, não somente com o confronto entre partidos do mesmo campo, mas também no interior de cada um.

Superado o debate sobre a posição do PCdoB nas eleições das mesas da Câmara e do Senado, viro a página, com olhos postos no rumo da luta por transformações revolucionárias no Brasil e no mundo, e nas tarefas imediatas.

Importa agora, diante da emergência que o país está vivendo, sob golpe de Estado, empenhar-se para fazer convergir posições a fim de enfrentar o governo golpista e suas medidas lesivas aos direitos do povo, batalha que se prenuncia dura, porquanto os presidentes eleitos das duas casas legislativas, embora afirmando que promoverão o diálogo em torno das matérias legislativas correspondentes a essas medidas, foram taxativos em dizer que darão toda a prioridade à sua aprovação, destacadamente as reformas previdenciária e trabalhista, ainda neste semestre, explicitando de antemão sua identidade com estas.

As forças progressistas devem ter a consciência de que se confrontarão com o rolo compressor da maioria governamental tanto na Câmara quanto no Senado, onde a “defesa da autonomia do Legislativo” será grandiloquente, por razões corporativas, nos embates contra um Judiciário discricionário e legiferante, mas se adaptará ao ditame do Executivo, com o qual alterna relações de submissão e cumplicidade. Não se espera das atuais maiorias no parlamento e das suas lideranças senão empenho extremado para viabilizar a agenda do governo. Assim, objetivamente, nos embates em torno dessa agenda os presidentes recém-eleitos agirão, como se depreende de suas declarações e atitudes, não como chefes de um poder independente, sua precípua função, mas como líderes de fato do governo golpista.

O povo brasileiro espera das forças progressistas que atuam no parlamento oposição firme e consequente à agenda do governo e de sua base de apoio, capacidade de denúncia na tribuna e no plenário, resistência e luta, o exercício do direito à obstrução, a criação de condições para deter a virulenta ofensiva da coalizão governista, de que fazem parte as mesas diretoras. E o voto contrário a todas e quaisquer medidas lesivas à soberania nacional e aos direitos sociais, trabalhistas, previdenciários, civis, humanos e democráticos.

Será tanto mais eficaz esta luta, quanto for plena a compreensão sobre o caráter do regime instituído desde o golpe de Estado de 2016, cujo desfecho teve como protagonista principal esta mesma maioria parlamentar reacionária e golpista.

Por isso, a ação no parlamento no atual momento político, do ponto de vista das forças progressistas, tem como pressuposto a luta contra o regime golpista, a oposição tenaz, firme, inconciliável e consequente ao governo usurpador e ilegítimo de Michel Temer, o uso dos meios disponíveis para impedir a aplicação da sua agenda, em consonância com os movimentos sindicais e populares, agrupados em torno da Frente Brasil Popular, e as ações nas ruas e em outros âmbitos da luta social.

É preciso compreender o caráter central na tática das forças progressistas da luta pela derrubada do governo e para derrotar sua agenda. Com o golpe de 2016, o Brasil está vivendo uma etapa política inteiramente nova. Se não se tiram todas as lições disso, corre-se o risco de fazer uma luta apenas retórica contra o regime do golpe, focando a ação parlamentar e política apenas sobre os seus efeitos mais nocivos.

A propósito, é falsa a tese de que diante do “golpe dentro do golpe” e da proeminência da Operação Lava Jato na situação política, o “mal menor” seria a permanência, mesmo enfraquecido, do presidente usurpador, ilegítimo e golpista no poder até 2018. Falso também arriar a bandeira “Fora, Temer!” sob a alegação de que não há correlação de forças para derrubar o governo e o pretexto de que seria “quase impossível” convocar eleições diretas antecipadas, e vencê-las, na hipótese de que se realizassem. Assim, a luta pela eleição direta para presidente da República deveria, segundo esse argumento, ser feita sem ênfase, entrando no foco como palavra de ordem de ação apenas “caso o governo Temer se inviabilize”.

Mais falso ainda e prejudicial ao combate das forças progressistas, porque as atiraria no colo do inimigo, é a tese recorrente de que a saída para a crise política é o entendimento, a conciliação nacional entre o governo, as forças que o apoiam e a oposição. Partindo da constatação de que a divisão de campos “não se restringe a uma disputa entre golpistas e não golpistas”, propõe-se a aliança com uma das alas do golpe, supostamente o centro político. Certamente, é necessária uma formulação não simplista, que corresponda à complexidade da situação, mas a pior de todas elas seria a que escamoteasse a existência de um campo golpista.

O combate ao arrocho draconiano que o governo está promovendo na economia também tem de ser feito com frontalidade, porquanto implica perda de direitos do povo. Em pleno período do pré-golpe, as vacilações quanto a esse combate se expressavam por meio da tese de que o arrocho fiscal era obrigatório, “com Dilma ou sem Dilma”.

A luta contra o governo Temer e a coalizão que o sustenta será dura, intensa e de longo fôlego. Exigirá a mobilização e a organização do povo nas ruas, locais de trabalho, moradia e estudo, parlamento nacional, parlamentos estaduais e municipais e demais instituições de poder local. Seu êxito dependerá da unidade das esquerdas e da ampla união de forças democráticas, progressistas e patrióticas.

Para os comunistas será sempre imperioso combinar uma tática ampla, combativa e flexível com uma estratégia revolucionária de emancipação nacional e social, com perspectiva socialista. Qualquer dissonância entre tática e estratégia nos levaria ao oportunismo – de direita ou de “esquerda”.


*Membro do Comitê Central, Comissão Política e Secretariado Nacional do PCdoB. Editor do Resistência
Fonte: Vermelho

Marisa e o papel político da mulher na construção da democracia

  

E isso desde a campanha pelas Diretas, Já! Ela enfrentou com muita coragem a Marcha das Mulheres contra a ditadura em nosso país. Com a mesma disposição, encarou, ao lado de seu companheiro, as pressões que se abatem sobre quem ousa se aproximar do poder.

Marisa Letícia

Fonte: Agência Brasil via Vermelho

Modelo de sistema prisional aumenta criminalidade e ataca direitos


Foto: PEU ROBLES / AGÊNCIA PÚBLICA
  
A primeira penitenciária privada do país foi inaugurada há quatro anos em Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte. O curto espaço de tempo bastou para que a Umanizzare, empresa que administra o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, expusesse a arapuca do modelo neoliberal de encarceramento privado, com 56 presos mortos e mais de 180 foragidos depois de 17 horas de rebelião.

O transbordamento do caos do sistema penitenciário no início de 2017, que contabilizou a morte de mais de 130 presos em apenas 15 dias, foi além: colocou em xeque a eficiência da privatização penitenciária e estilhaçou a vitrine marqueteira do governo de Michel Temer, que insiste em apontar a cogestão do Estado com empresas privadas como saída para o que chamou de “acidente”. A ideia da privatização do sistema penitenciário é velha. Foi pauta no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, período em que o encarceramento em massa foi insuflado no país. Na década de 1990 havia cerca de 90 mil presos, e hoje são quase 700 mil.

O Ministério Público pediu ao governo do Amazonas o encerramento do contrato com o consórcio do qual a Umanizzare faz parte, alegando indícios de irregularidades como superfaturamento, mau uso do dinheiro público, conflito de interesses empresariais e má gestão. A empresa recebe R$ 4,7 mil mensais por preso do Compaj, enquanto a média nacional, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), é de R$ 2,4 mil. O MP suspeita que esse dinheiro não foi empregado em infraestrutura e apoio aos detentos.

“As prisões privadas não são menos onerosas para estados e contribuintes nem tampouco operam em níveis minimamente aceitáveis de eficiência. Ao contrário, ao configurar um contexto institucional avesso a estratégias de reabilitação de detentos, o funcionamento concreto das prisões privadas vai desmanchando qualquer aparência de efetividade de metas e indicadores de qualidade fixados em contratos de gestão”, argumenta o professor da Universidade de São Paulo (USP) Laurindo Dias Minhoto, autor do livro Privatização dos Presídios e Criminalidade (2000).

Para ele, privatizar presídios, fomentar o mercado de previdência privada pela desmontagem da previdência pública, bloquear o aumento de gastos em saúde e educação e, no mesmo passo, intensificar o processo de mercantilização de direitos sociais e privatização de escolas, universidades, centros de saúde, são medidas que nada possuem de natural e necessário como estratégias de enfrentamento do déficit público. “Desse ângulo, as chacinas recorrentes em nossos presídios e a captura do sistema penitenciário pelo crime organizado não deixam de ser também desdobramentos do que se poderia ver como ‘austericídio’ à brasileira”, diz.

Lucro e pena de morte

A avalanche de dados sobre sistema penitenciário brasileiro é macabra. O que resume o caos é o fato de o Brasil ter mais de 300 presos para cada 100 mil habitantes, enquanto o indicador mundial é de 144 presos por 100 mil habitantes, de acordo com o Centro Internacional para Estudos Prisionais (ICPS, na sigla em inglês – ONG ligada à Universidade de Essex, na Inglaterra).

“Tendo em vista a situação de barbárie estrutural que qualifica historicamente o funcionamento das prisões brasileiras, o leitor poderia muito bem se perguntar: mas, afinal, o que pode piorar? Por que não experimentar a privatização? Em primeiro lugar, é certo que a situação calamitosa de nossas prisões dificilmente encontra similar em outros lugares: a pena de privação de liberdade no Brasil implica muitas vezes uma condenação à morte fast track e não ‘a fogo lento’ como se diz da condenação a penas longas em sistemas mundo afora”, diz Laurindo Minhoto. “Desse ponto de vista, uma prisão privada é pouco mais do que uma estratégia de exploração comercial dessa situação por meio de financiamento público, pois convém não esquecer que é o próprio Estado que banca a participação e a expansão do setor privado nessa área.”

O advogado Paulo Malvezzi, assessor jurídico da Pastoral Carcerária, considera que a privatização dos presídios aprofunda o sistema de encarceramento massivo, o qual é seletivo e responde à necessidade de controle social de alguns grupos, que de alguma maneira lucram com o modelo, seja com construção, alimentação, hotelaria, lavanderia, entre outros setores de negócios. “Quanto mais presos, mais lucro; quanto maior a pena, mais lucro”, afirma.

Em 2014, a Pastoral fez um estudo sobre a privatização de presídios. Há hoje no país 30 prisões privatizadas nos estados de Santa Catarina, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas e Amazonas. Os contratos mais comuns são de cogestão, em que o estado é responsável pela direção da unidade, guarda e escolta externa, enquanto a empresa privada assume serviços de saúde, alimentação, limpeza, vigilância e escolta internas, além da manutenção das instalações.

A Pastoral Carcerária se opõe à privatização e sugere parceria com organizações da sociedade civil e sem fins lucrativos para que sejam oferecidos aos presos serviços mais dignos de alimentação, assistência médica e educação. Desde 2003, defende agenda nacional pelo desencarceramento junto com outras entidades. “Um dos pilares é vedar a privatização do sistema, que conta com apoio de grupos que patrocinam o encarceramento em massa, e também conter a mídia que vende medo, discurso de ódio e favorece o punitivismo exacerbado. Somente com ação política é possível desmontar o pensamento coletivo de que bandido bom é bandido morto. Este modelo de sistema não serve para conter criminalidade e violência”, diz Malvezzi.

Seletividade

O advogado criminal Hugo Leandro, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, afirma que existe um recorte muito definido fortalecido pelos filtros de preconceito que auxiliam na punição de negros e pobres desde a abordagem policial. “O Direito Penal é instrumento a serviço do Estado e também de quem ocupa papel importante no Estado, desde o império, quando havia ímpeto de punir setores da sociedade discriminados por quem estava no poder. Se naqueles tempos o alvo era a população negra, hoje são os negros e pobres”, afirma.

O caso do estudante Rodolpho Gonçalves Carlos da Silva, herdeiro do maior grupo da indústria alimentícia da Paraíba e da afiliada local da TV Globo, ilustra a seletividade. Neto do ex-senador e ex-vice-governador da Paraíba José Carlos da Silva Junior, ele foi acusado de atropelar e matar um agente do Detran ao fugir de uma blitz da Operação Lei Seca na madrugada de 21 de janeiro, em João Pessoa, mas não está preso, apesar de testemunhas o virem fugir sem prestar socorro à vítima – o agente Diogo Nascimento Sousa, de 34 anos, morreu.

“A Justiça Criminal é visivelmente mais forte do que o cidadão porque oferece tratamento menos rude aos que têm dinheiro e a lógica das agências penais é impulsionada e legitimada pela sociedade. Difícil dizer se é ontologicamente social ou se é construída. O nível de debate hoje é muito mal colocado na mídia. Destilam ódio nos outros. A sociedade é punitivista, principalmente contra a classe social mais baixa”, afirma o advogado.

Com incremento da população prisional no Brasil de cerca de 7% ao ano – a de mulheres é de 10,7% ao ano –, não há indicadores de que o encarceramento produza qualquer resultado positivo na redução da criminalidade nem justifique o enorme custo social e financeiro de mandar cada vez mais pessoas à prisão. Do Levantamento de Informações Penitenciárias (Infopen), de dezembro de 2014, consta que, no Brasil, o cárcere tem reforçado mecanismos de reprodução de um ciclo vicioso de violência que, como padrão, envolve a vulnerabilidade, o crime, a prisão e a reincidência e, por vezes, serve de combustível para facções criminosas.

A onda de privatizações viabiliza o mercado das prisões: remuneração das empresas por número de presos, cláusulas contratuais de ocupação mínima que asseguram artificialmente o retorno do investimento (quanto maior o número de vagas, mais azeitada a máquina do encarceramento em massa), trabalho prisional em condições muito aquém dos mínimos legais. Os contratos de PPPs são para projetar, construir e financiar presídios, em concessões que podem durar 30 anos.

Além disso, a fim de comprovar a eficiência do sistema privatizado, o estado contratante propõe-se a escolher a dedo detentos que assegurem o status quo das unidades, rasgando de vez a Lei de Execução Penal, mal seguida, principalmente na detenção provisória e separação de presos por gravidade de delito.

Hoje existem no mundo aproximadamente 200 presídios privados, sendo metade deles nos Estados Unidos. O modelo começou a ser implementado naquele país ainda nos anos 1980, no governo Ronald Reagan, seguindo a lógica de aumentar o encarceramento e reduzir os custos, e hoje atende a 7% da população carcerária. O modelo também é difundido na Inglaterra – lá implementado por Margareth Thatcher – e foi fonte de inspiração da PPP de Minas Gerais, segundo o então governador Antônio Anastasia (PSDB). Em Ribeirão das Neves, o contrato da PPP foi assinado em 2009, na gestão do então governador Aécio Neves (PSDB).

Nos documentos da PPP da gestão Aécio disponíveis no site do governo mineiro, fala-se inclusive no retorno ao investidor. Afinal, são empresas que passaram a cuidar do preso e empresas buscam o lucro. Há também a exploração da mão de obra dos encarcerados. O trabalho do preso é 54% mais barato porque as condições de trabalho não são regidas pela CLT, mas sim pela Lei de Execução Penal (LEP), de 1984. Se a Constituição de 1988 diz que nenhum trabalhador pode ganhar menos de um salário mínimo, a LEP afirma que os presos podem ganhar 75% de um salário mínimo, sem benefícios.

“O lucro que as empresas auferem com essa onda de privatização não vem tanto do trabalho prisional, ou seja, da exploração da mão de obra cativa, mas do fato de que os presos se tornaram uma espécie de consumidores dos produtos vendidos pela indústria da segurança e da infraestrutura necessária à construção de complexos penitenciários”, detalha o professor Leandro Minhoto.

Ausência do Estado

A presidenta do Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo, Fernanda Magano, afirma que de 1990 para frente, após o massacre do Carandiru, houve uma reação dos presos, que começaram a se organizar em facções, parte disso ainda herança do Comando Vermelho, no Rio, e do PCC, em São Paulo. “O que observamos em 2006 foram rebeliões e ataques como demonstração de força dessas facções para fora e dentro dos presídios”, diz. “Quem trabalha dentro do sistema ouve que há acordo tácito do PSDB (que governa o estado desde 1995) com as facções, mas não há provas. O fato é que no decorrer dos últimos anos 10 anos não teve nenhuma manifestação tão intensa como a de 2006”, observa a dirigente.

Para a psicóloga, a ausência do poder público produziu quase um Estado paralelo, no qual famílias de detentos são reféns desse controle. Segundo ela, existe um paradoxo, porque as facções ajudam o contato da família com seus presos e oferecem proteção dentro e fora dos presídios. Contrária às privatizações, Fernanda Magano defende que a tutela de presos é dever do Estado e que a privatização do sistema retroalimenta o crime e perpetua a existência dos presídios como negócio. “Existem modelos que falam do abolicionismo penal porque o cárcere produz exclusão social”, afirma.

O presidente da Federação Brasileira dos Servidores Penitenciários (Febrasp), Leandro Alan Vieira, considera a privatização do sistema imoral e inconstitucional. “É uma forma mercantilista de explorar a prisão. Os governos gastam mais e há mais o risco de rebeliões”, diz.

Para ele, terceirizar significa fragilizar o sistema, ao permitir superfaturamento nos contratos, concessão a empresas que fazem doações a políticos e até a possibilidade de uma empresa pertencer ao crime organizado ou financiar campanhas políticas em troca do apoio à privatização. “As unidades prisionais deveriam ser ressocializadoras e de segurança. Essas responsabilidades não podem ser transferidas para terceiros.”


Fonte: Rede Brasil Atual via Vermelho

Pobreza encurta a vida mais que qualquer outra doença


Foto: Eduard Korniyenko/Reuters
A pobreza é um fator determinante da saúde, mas não é combatida como tal.A pobreza é um fator determinante da saúde, mas não é combatida como tal.
Um estudo sobre 1,7 milhão de pessoas, publicado pela revista médica The Lancet, traz de volta esse problema negligenciado: a pobreza encurta a vida quase tanto quanto o sedentarismo e muito mais do que a obesidade, a hipertensão e o consumo excessivo de álcool.

O estudo é uma crítica às políticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que não incluiu em sua agenda este fator determinante da saúde — tão importante ou mais do que outros que fazem parte de seus objetivos e recomendações.

Morbidade e mortalidade 
“O baixo nível socioeconômico é um dos mais fortes indicadores de morbidade e mortalidade prematura em todo o mundo. No entanto, as estratégias de saúde global não consideram as circunstâncias socioeconômicas pobres como fatores de risco modificáveis”, dizem os autores do estudo publicado pela The Lancet, cerca de trinta especialistas de instituições de prestígio como a Universidade de Columbia, o King’s College de Londres, a Escola de Saúde Pública de Harvard e o Imperial College de Londres.

Seu trabalho se concentrou nos dados de 1,7 milhão de pessoas para analisar como o nível socioeconômico influi na saúde e na mortalidade em comparação com outros fatores mais convencionais, como o tabagismo ou a obesidade. O resultado está de acordo com estudos anteriores: a pobreza é um agente que afeta a saúde de forma tão sólida e consistente como o tabaco, o álcool, o sedentarismo, a hipertensão, a obesidade e o diabetes. Além disso, a capacidade de encurtar a vida é maior do que vários desses fatores. O baixo nível socioeconômico reduz a expectativa de vida em mais de 2 anos (2,1) em adultos entre 40 e 85 anos; o alto consumo de álcool reduz em meio ano; a obesidade encurta 0,7 ano; o diabetes reduz a expectativa de vida em 3,9 anos; a hipertensão em 1,6 ano; o sedentarismo, 2,4 anos; e o pior, reduzindo a média de vida 4,8 anos, o hábito de fumar.

A pobreza pode ser modificada
“Da mesma maneira que se pode promover o abandono do hábito de fumar ou o esporte entre a população, o artigo defende que a pobreza também pode ser modificada”

A escolha desses fatores não é casual: são aqueles tomados pela OMS para combater as doenças não contagiosas no seu plano para reduzir sua incidência em 25% até 2025, o chamado objetivo 25x25. “Nossas descobertas sugerem que as estratégias e ações globais definidas no plano de saúde da OMS excluem de sua agenda um importante determinante da saúde”, criticam os pesquisadores, liderados por Silvia Stringhini, do Hospital Universitário de Lausanne. E acrescentam: “A adversidade socioeconômica deve ser incluída como fator de risco modificável nas estratégias de políticas de saúde locais e globais e no monitoramento do risco para a saúde”.

Da mesma maneira que se pode promover o abandono do hábito de fumar ou o esporte entre a população, o artigo defende que o fator socioeconômico também pode ser modificado em todos os níveis, com intervenções como a promoção do desenvolvimento na primeira infância, as políticas de redução da pobreza ou a melhoria no acesso à educação. Portanto, as estratégias de prevenção para as doenças crônicas estão equivocadas por não abordarem “poderosas soluções estruturais”.

Não é ideologia, mas ciência
“A força da evidência do efeito do nível social sobre a mortalidade, como exemplifica o estudo de Stringhini e seus colegas, agora é impossível de ignorar”, diz um comentário na The Lancet assinado por Martin Tobias, especialista do Ministério da Saúde da Nova Zelândia. Ele acrescenta: “Eles baseiam seu argumento não na ideologia política, mas na ciência rigorosa”. De acordo com o epidemiologista, ter baixo nível socioeconômico “significa ser incapaz de determinar o próprio destino, privado de recursos materiais e com oportunidades limitadas, que determinam tanto o estilo de vida quanto as oportunidades de vida”.

“A evidência diz que a desigualdade mata. Estamos interessados na saúde do país, tanto na dos pobres quanto na dos ricos?”, pergunta Manuel Franco.
O pesquisador espanhol Manuel Franco, que não participou do estudo, acredita que “é importante que os autores mostrem que o fator socioeconômico importa, e importa tanto quanto os apontados pela OMS”. “A evidência diz que a desigualdade mata. Estamos interessados na saúde do país, tanto na dos pobres quanto na dos ricos? Esse fator não é atacado porque não interessa”, diz Franco, epidemiologista da Universidade de Alcalá de Henares, especialista nos efeitos dos fatores sociais e ambientais sobre a saúde.

Franco explica como nos países ricos (o estudo foi centrado em dados do Reino Unido, França, Suíça, Portugal, Itália, Estados Unidos e Austrália) há diferenças “insuportáveis” na expectativa de vida dentro da mesma cidade, como Barcelona, Madri, Glasgow ou Baltimore. “E a diferença não para de crescer: a expectativa de vida dos pobres não cresce como a dos ricos”, denuncia. E conclui: “Fazemos pesquisas para melhorar alguma coisa. Sabemos que existem fatores estruturais que prejudicam a saúde, mas as autoridades não querem atacá-los, preferem falar apenas dos fatores individuais: pratique esporte, não fume”.
 

Fonte: El País via Vermelho

Clementina, de uma voz do povo emerge o canto ancestral


Clementina gravou primeiro LP aos 65 anos e despertou, segundo Paulinho da Viola, o valor do povo negro na formação da nossa culturaClementina gravou primeiro LP aos 65 anos e despertou, segundo Paulinho da Viola, o valor do povo negro na formação da nossa cultura
Era a noite de 7 de dezembro de 1964, e o palco era do Teatro Jovem, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Clementina usava um vestido bordado de rendas claras, que custara três vezes o valor de seu salário como doméstica.

Naquela manhã, Clementina de Jesus acordou tomada pela ansiedade. Aquela “nega” trabalhadora, prestes a completar 63 anos e que tinha passado a vida cantando entre amigos, subiria pela primeira vez em um palco para cantar profissionalmente.
Antes de entrar em cena, tomou uma garrafa inteira de Cinzano, conforme revelou anos depois em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS).

A garganta continuou seca do mesmo jeito. Aí tocou a sineta. Tocou uma e eu, firme. Tocou duas, eu dei mais um gole e me benzi. Tocou três e eu me benzi pra baixo, pra cima e entrei. Entrei e não vi nada. Soltei a voz como se estivesse em casa e foi aquele sucesso.


Ela era acompanhada por César Farias ao violão. Exímio violonista e pai de um rapazinho que também estava no palco, Paulo César, o Paulinho da Viola, além de Elton Medeiros na percussão. Todos testemunhavam o "nascimento" artístico de Quelé, em uma noite aberta pelo jovem talento Turíbio Santos, violonista clássico, em projeto chamado O Menestrel.

A iniciativa visava a unir o erudito e o popular, conforme explicou, no texto de apresentação do show, o produtor Hermínio Bello de Carvalho, responsável pelo "descobrimento" de Clementina, a quem passaria a chamar de mãe. Naquela época, ela ganhava a vida como empregada doméstica.

"Nossa ideia é aproximar os dois públicos, da música popular e erudita, e dar-lhes o melhor de cada gênero num só espetáculo (e invoco o exemplo de Bernstein apresentando Louis Armstrong). Temos sobre a matéria um entendimento eclético, porque sabemos que a música não é arte unilateral, nem privativa de castas favorecidas economicamente."

Contada em detalhes, essa história, entre tantas, está no livro Quelé, A Voz da Cor: Biografia de Clementina de Jesus, lançada em janeiro (editora Civilização Brasileira, do grupo Record, 384 páginas). Uma obra surgida de um trabalho de conclusão de curso (TCC) de quatro estudantes da Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista: Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz. Três deles nem tinham nascido quando Clementina morreu, em 19 de julho de 1987, aos 86 anos: Felipe e Raquel têm 26 anos e Luana está com 27.

Janaína era uma menina de 5 anos, que tempos mais tarde conheceria o LP Canto dos Escravos e se encantaria pela voz poderosa daquela senhora, então com 81 anos. A apaixonada pesquisa consumiu seis anos, consulta a aproximadamente 600 edições de jornais e a variadas fontes, mais de 40 entrevistas, 40 viagens.

“A história e a cultura do povo banto transmitidas oralmente pela mãe fez de Tina uma mulúduri – herdeira –, sem imaginar que o seu futuro lhe reservava a função de transmitir e perpetuar os cantos ancestrais de matriz africana”, escrevem os autores. Clementina, chamada de Tina em casa, começou a cantar em coro de igreja aos 7 anos, em Valença, interior do Rio, onde nasceu, em 7 de fevereiro de 1901. Filha de Paulo, pedreiro e carpinteiro, e Amélia, parteira e rezadeira.

Entre seus muitos méritos, o livro ressalta as origens de Clementina, que bem pequena ouvia os cantos trazidos pelos escravos africanos. Assim ela falou ao MIS sobre sua mãe:

Ela estava lavando roupa, eu ali por perto. Lavando e cantando, e de vez em quando ela dizia: “Tina, vá acender esse cachimbo”. E eu respondia: “Sim, senhora”. Botava fumo, acendia e trazia pra ela, e ela estava cantando. Assim que eu aprendi uma coisinhas gostosas que ela cantava. A roupa batia na prancha, marcando o passo do canto, espirrando água e sabão na minha cara. E eu acocorada, cantando baixinho, para aprender com a mãe. 


Os quatro autores contam que Clementina foi criada "sobre duas distintas vertentes: o catolicismo e as religiões de matrizes africanas, como o candomblé, presente em muitos de seus cantos". O pai ajudou a construir a igreja de Carambita, bairro de Valença onde a família morava e de onde sairia em 1908 para morar no Rio, em Jacarepaguá.

Carpinteiro e quase sem instrução, Paulo adorava receber os amigos para encontros sempre animados por sua viola. A pequena Tina gostava de acompanhá-lo na cantoria de modinhas, jongos e cantos de trabalho, reforçando a presença de valores religiosos africanos mesclados à fé católica nos alicerces da família.

Janaína conta que se impressionou com o disco Canto dos Escravos, que tinha, além de Clementina, o sambista paulista Geraldo Filme e a carioca Tia Noca. "O que mais fiquei encantada foi com a ancestralidade dela. Ela cantava de memória, pela cultura oral", disse no programa Sem Censura, da TV Brasil, no último dia 26 de janeiro.

Elo perdido

As palavras do pesquisador Jairo Severiano reforçam essa visão. "Com seu canto vigoroso, rascante, inusitadamente grave e suas canções primitivas, impregnadas de negritude, a neta de escravos e pretos forros Clementina de Jesus, a Quelé, é a prova cabal da presença da África na MPB", escreveu, ao receber um exemplar do livro sobre Clementina.

Acrescenta Severiano: "Nas palavras do historiador Ary Vasconcelos, 'ela tem para a música popular brasileira uma importância que presume corresponder na antropologia, a do achado de um elo perdido'. E é o casamento dessa presença africana, especialmente na rítmica, com melodia e harmonia de inspiração europeia que constitui o aspecto mais fascinante do samba, nosso mais importante gênero musical. Uma caraterística, pois, só possível pela participação de figuras como Quelé, Donga e Pixinguinha em sua formação".

Certidão de batismo, assinada a seis meses de sua morte, aos 86 anos. Felizmente sua voz foi descoberta duas décadas antes


O primeiro disco, Clementina de Jesus, é de agosto de 1966, quando a cantora já estava com 65 anos. Como se registra no livro, lá estão samba, cantos de pastorinhas, batucadas... E os cantos da infância. Para que isso acontecesse, foi decisivo o encontro entre Hermínio Bello de Carvalho e Clementina, em 1964, na Taberna da Glória, no Rio, aos pés do outeiro que leva o nome da padroeira. Depois de alguns desencontros, o poeta consegue se aproximar da cantora. Ela pede demissão do trabalho doméstico, para espanto da patroa, e estreia no final daquele ano, no show O Menestrel.

Dali em diante, não para mais. A partir de março de 1965, participa do mítico espetáculo Rosa de Ouro, no mesmo Teatro Jovem, produzido por Hermínio, com gente como Elton Medeiros, Araci Cortes e Paulinho da Viola. No ano seguinte, vai a Senegal, para o I Festival Mundial de Artes Negras, e se destaca em uma apresentação em um estádio. Na mesma viagem, canta no Festival de Cannes, na França. Ali, onde estava hospedada, Clementina conheceu uma musa italiana.

Foi tudo muito bom, cantei aquelas coisas que sempre canto e estava no mesmo andar do meu apartamento aquela mulher, a mais bonita do mundo... como é mesmo o nome dela? A Sophia Loren, não é? Eu vi que ela é mesmo muito bonita, mas é bruta, sabe? Ela tarraco, tarraco, tarraco, tratava assim mesmo o marido.

"Vai dar galho"


São várias histórias, como a de como Clementina conheceu Albino Corrêa Bastos da Silva, o Albino Pé Grande, que seria o seu grande amor. Integrante da Unidos da Riachuelo (bairro da zona norte carioca) e depois portelense declarada, ela estava no Morro da Mangueira quando viu Albino, 10 anos mais novo, e pensou: "Que mulato bonito!". Era 1938, e Clementina tinha uma filha, Laís, de um namorado que não assumiu o relacionamento. Ao jornalista Millôr Fernandes, d'O Pasquim, ela contou sobre o início do namoro, bem ao seu estilo direto, em entrevista resgatada no livro.

"É, vai dar galho esse negócio", eu disse. Chamei ele e falei: "Olha, meu amigo, meu caso é esse: se gostar de mim, gosta, se não gostar, não gosta. Vou ser sincera com você. Você trabalha?" Ele disse que trabalhava, sim. Na Estrada de Ferro Central de brasil. Boas falas! E eu: "Porque eu trabalho, meu filho. Eu não quero ninguém pra ficar nas minhas costas não. Você é bonito e eu sou uma crioula e coisa e tal, morou? Resultado, estamos juntos há 37 anos. Casadinhos, civil e religioso.

Clementina, que acabou se aproximando da verde-e-rosa, e Albino – que de ferroviário passaria a estivador – ficaram juntos até a morte dele, em junho de 1977. Os seis últimos anos foram particularmente difíceis, depois que Albino sofreu um infarto e passou a precisar de cuidados constantes. Tiveram uma filha, Olga, nascida em 1943 (em 1940, o recém-nascido Euclides morreria em pouco tempo, em consequência de uma pneumonia; Laís, a primogênita, morreu em 1974, depois de sofrer um acidente vascular cerebral).

Lançada pelo "filho" Hermínio em 1964, Clementina terá atividade intensa nas décadas seguintes. Em 1968, por exemplo, grava o disco Gente da Antiga, com Pixinguinha e João da Baiana, participa do espetáculo Mudando de Conversa, que viraria LP, com Nora Ney e Ciro Monteiro, e lança Fala Mangueira!, com pesos pesados da escola: Cartola, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça, além da cantora Odete Amaral. Em 1971, em entrevista ao Correio da Manhã, ela reclamaria que o carnaval estava ficando diferente, "só tem pula-pula, ninguém sabe sambar".

Ainda viriam, entre outros álbuns, Clementina, Cadê Você? (1970) e Marinheiro Só, em 1973, no mesmo ano em que participam da gravação do LP Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento, na faixa Escravos de Jó, podada pela censura – três anos depois, em Geraes, gravaria com Milton a impagável Circo Marimbondo.

O disco Marinheiro Só, faixa-título de um samba de roda do Recôncavo Baiano recolhido por Caetano Veloso, tem a presença marcante do percussionista Naná Vasconcelos. Assim ele se refere à cantora:

Clementina é a prova de que a África é a espinha dorsal da nossa cultura. A música dela é realmente de corpo e alma.

Também presente no álbum, assim Paulinho da Viola se refere a Quelé, um apelido que ela recebeu ainda na infância, de um vizinho em Valença:

Essa figura cantando curimas, cantando pontos, cantando sambas de partido-alto, acho que nunca tinha acontecido na nossa música. O impacto que isso provocou fez com que muita gente tivesse uma ideia, a partir de então, da importância dos artistas e do povo negro na formação da nossa cultura.

Fúria após 13 horas de estrada


Muita gente achou que Clementina pararia depois da partida de Pé, como ele era chamado carinhosamente. Mas ela continuou na estrada. Literalmente. Um mês depois, em julho de 1977, Milton reuniu amigos para uma apresentação em sua Três Pontas, em Minas Gerais – uma praça chamada Travessia havia sido inaugurada diante da casa de seus pais. Muitos amigos. Quelé foi de carro, do Rio até Três Pontas, com Chico Buarque e Francis Hime. Segundo relato de Milton, a viagem durou duas vezes mais tempo que o previsto, o que deixou a cantora furiosa.

Eu lembro que, quando ela chegou, desceu do carro brava, mas muito brava: "Vocês dizem que são seis horas de viagem. Foram 13 horas! Não se pode fazer isso com uma velha". Aí eu olhei pro Chico: "Você demorou 13 horas pra chegar aqui?", e ele respondeu: "A estrada é muito comprida". E eu: "Chico!? Onde vocês pararam por essa estrada?"


Chico e Francis acabariam confessando que o roteiro teve várias paradas para abastecimento. Não exatamente do carro.

É também de 1977 o lançamento de um disco de Clara Nunes (As Forças da Natureza) que traria uma faixa que se tornaria, possivelmente, a mais conhecida canção a falar da própria Clementina. Com refrão inconfundível, P.C.J (Partido Clementina de Jesus) foi composta por Candeia.

Não vadeia, Clementina!
Fui feita pra vadiar!
Não vadeia, Clementina!
Fui feita pra vadiar! Eu vou!
Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou


Ela também ficou brava durante as gravações de Clementina e Convidados, em 1979. Irritou-se com as exigências de Fernando Faro, responsável pela produção, conforme ele mesmo contou, com humor. Foi o primeiro álbum sem a presença de Hermínio.

Clementina certa vez ficou tão irritada que ameaçou, ao final das gravações, me presentear com uma feijoada com veneno.

Canto dos escravos, canto final

E assim foi Clementina, já com a saúde abalada após sofrer um derrame, em 1973, e tendo de cuidar do seu querido Pé. A sua última aparição em estúdio foi em 1985, na gravação da trilha sonora do filme Chico Rei, de Walter Lima Jr. Ela interpretou Quilombo de Dumbá e Chico Reina, cantos de origem religiosa, como lembram os autores do livro.

Naquele 1985, Quelé tinha uma filha, sete netos, seis bisnetos e dois tataranetos. Um show no Circo Voador, no Rio, foi feito para ajudá-la, como se lia em um folheto: "Ela gostaria de ganhar como presente a linha de seu telefone, cortada por falta de pagamento". E também reclamava de calotes de empresários.

Bem antes disso, em 1979, com constantes problemas financeiros, Clementina escreve uma carta (reproduzida no livro) ao ministro da Previdência, Jair Soares, pedindo aposentadoria como cantora. O texto é ilustrativo das relações entre o povo e o poder público no Brasil.

A nêga Clementina de Jesus já passou por muita coisa na vida.
E hoje, para viver, beirando os 80 anos, necessita ainda se locomover por esse Brasil inteiro fazendo a única coisa que ainda pode: cantar.
Mas a nêga véia está cansando, seu Ministro. O que me dá forças prá prosseguir é essa juventude maravilhosa, que me recebe de braços abertos prá todo lugar onde vou.
Depois de trabalhar muitos anos como doméstica, com marido dando duro na estiva, me sobra bem pouco para viver, prá dar sustento aos meus netos.


No final, conta que tem outros na mesma situação difícil:

Pois é, doutor Ministro: a nêga véia e muitas outras pessoas do nosso meio estão no mesmo pagode.

A resposta, dois dias depois, é protocolar, anotam os biógrafos.

Em 1982, Clementina participa de um LP especial, o 11º e último de sua carreira. O Canto dos Escravos, com Geraldo Filme e Tia Doca, se inspirava no livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, de Aires da Mata Machado Filho, publicado em 1943, e pretendia reproduzir cantos dos trabalhadores em Diamantina. O disco, do selo Marcus Pereira, foi gravado em 45 dias. O produtor Marcus Vinícius de Andrade reparou na memória de Quelé.

Os africanos têm um ditado assim: toda vez que morre um velho negro, é uma biblioteca que vai embora.

Clementina guardava cantos aprendidos na infância com sua mãe. Mas não conseguia memorizar uma letra aprendida minutos antes. Sofreu para concluir sua parte em O Canto dos Escravos, com ajuda do produtor Marcus Vinícius e do percussionista Papete. E prosseguiu de show em show, até 1987 – há registro de uma apresentação, como convidada do cantor Badu Bisou, em 24 de maio, no bairro do Méier, zona norte do Rio. Menos de um mês depois, sofre novo derrame – o quinto – e fica internada até 19 de julho, um domingo, quando morre, às 2 da manhã.

Quelé não queria ficar parada, queria cantar. A capa do livro é ilustrativa: mostra uma animada Clementina no baile Rosa de Ouro, em 18 de fevereiro de 1966, no tradicional Hotel Glória, em comemoração aos 77 anos do cordão carnavalesco. No início da carreira, 63 anos completados, Quelé, em entrevista à revista Fatos & Fotos, sabia que o sucesso não mudaria nada: "Serei sempre a personagem que está aqui. Só não vou fazer mais salgadinhos e doces pra fora, coisa que só fazia pra ajudar na despesas".

"Os jovens biógrafos fugiram dos lugares-comuns e abordaram o real significado de Quelé para a nossa cultura, escavacaram suas raízes africanas e também a importantíssima questão da oralidade: tudo que aprendeu com a mãe já era a herança musical que a ela foi passada por seus antepassados. Canções, portanto, centenárias. E meu trabalho era registrar aqueles tesouros", escreveu Hermínio. "Respondo, sempre, repito, que nunca descobri coisa alguma, apenas exercia a arte de prestar atenção."

Os quatro estudantes prestaram muita atenção e amplificaram uma voz do povo, que fez emergir cantos ancestrais.
 

Fonte: Rede Brasil Atual via Vermelho