terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A gestão ultraliberal de Michel Temer e o desmonte da Previdência*


CTB
  
Mas esse sistema corre perigo. A proposta de reforma da Previdência que foi encaminhada ao Congresso pelo governo federal - Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287 -, no final de 2016, já está sendo chamada de PEC da Crueldade pela forma como penaliza as populações mais pobres e vulneráveis.
 
Ela também abre espaço para a privatização do maior sistema de distribuição de renda da América Latina. O que se desenha é uma mudança, para pior, em centenas de municípios brasileiros caso essa proposta seja aprovada, e um prejuízo aos cerca de 35 milhões de brasileiros e brasileiras hoje atendidos pelo sistema.
 
A previsão é que a PEC 287 entre em votação no Congresso no mês de abril, após o cumprimento da tramitação parlamentar da matéria, que inclui 40 audiências até a votação.
 
Um fator explica a aceitabilidade do Congresso de uma proposta tão perversa: a aprovação de uma outra proposta, tão draconiana quanto a da Previdência, a PEC 241 (agora PEC 55), que congela os gastos públicos por 20 anos. Ela é parte do tripé perverso de Temer. Para garantir essa aprovação, o presidente sem voto teria que sinalizar que haveria outras fontes de recursos e que esses virão dos investimentos destinados à seguridade social do nosso povo. E ainda vem por aí a reforma trabalhista.
 
Desmonte da Previdência
 
O pacote proposto por Temer prevê aumento do tempo de contribuição com a mudança da idade mínima para a aposentadoria. Se hoje a idade média das pessoas ao se aposentarem é de 55 anos, caso a reforma de Temer seja aprovada, esta idade média pode ultrapassar 70 anos.
 
O governo justifica sua proposta de aumento do tempo de contribuição com a cantilena de um fictício “rombo da Previdência”. É bom lembrar que, ao integrarem a Seguridade Social, as ações nas áreas de Previdência, saúde e assistência social estão contempladas com orçamentos superavitários. O que não pode é o governo seguir retirando recursos destes setores para garantir o superávit primário e bancar o serviço da dívida pública.
 
Dados da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP), publicados em 2016, comprovam que a receita bruta da Seguridade Social em 2015 foi de R$ 675,1 bilhões e que neste mesmo ano foram gastos nas áreas da Previdência, saúde e assistência social R$ 651,2 bilhões, ou seja, houve um superávit de R$ 23,9 bilhões. E mais, se analisarmos os últimos quatro anos, esse superávit é ainda maior (2014, R$ 53,8 bilhões; 2013, R$ 76,2 bilhões; 2012, 82,7 bilhões).
 
É bom destacar que o sistema possui um leque de fontes de financiamento que garantem seu orçamento. Veja no quadro a seguir: das pessoas ao se aposentarem é de 55 anos, caso a reforma de Temer seja aprovada, esta idade média pode ultrapassar 70 anos. O governo justifica sua proposta de aumento do tempo de contribuição com a cantilena de um fictício “rombo da Previdência”. É bom lembrar que, ao integrarem a Seguridade Social, as ações nas áreas de Previdência, saúde e assistência social estão contempladas com orçamentos superavitários. O que não pode é o governo seguir retirando recursos destes setores para garantir o superávit primário e bancar o serviço da dívida pública.
 
Dados da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), publicados em 2016, comprovam que a receita bruta da Seguridade Social em 2015 foi de R$ 675,1 bilhões e que neste mesmo ano foram gastos nas áreas da Previdência, saúde e assistência social R$ 651,2 bilhões, ou seja, houve um superávit de R$ 23,9 bilhões. E mais, se analisarmos os últimos quatro anos, esse superávit é ainda maior (2014, R$ 53,8 bilhões; 2013, R$ 76,2 bilhões; 2012, 82,7 bilhões). É bom destacar que o sistema possui um leque de fontes de financiamento que garantem seu orçamento.
 
Diferentemente do que defende Temer, a sociedade não está nada feliz com a fixação da idade mínima em 65 anos, e tempo de contribuição de 49 anos, praticamente meio século de trabalho e contribuição ininterruptos, para quem desejar a aposentadoria integral. Pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Instituto Vox Populi, publicadas em maio e junho de 2016 respectivamente, apontam alta rejeição por parte dos brasileiros à Reforma da Previdência de Temer.
 
A pesquisa da CNI indicou que 92% são contra a aposentadoria acima dos 60 anos, e 77%, segundo o Vox Populi, dizem que a reforma vai piorar a vida dos brasileiros. A ironia na defesa de Temer pela ampliação da idade mínima é que o presidente sem voto deu entrada na sua aposentadoria aos 55 anos, em 1996. O ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), fiel defensor do desmonte da Previdência, seguiu a mesma receita e se aposentou em 1998, aos 53 anos.
 
Temer mira trabalhador e trabalhadora rurais
 
O pacote do presidente sem voto atinge em cheio os trabalhadores e trabalhadoras rurais. A proposta estabelece que a idade mínima para aposentadoria de homens e mulheres seja de 65 anos. Hoje, os trabalhadores e trabalhadoras rurais têm como idade mínima para se aposentar 60 e 55 anos, respectivamente.
 
O governo de plantão esquece que há duas condições específicas do trabalho rural que justificam a manutenção da idade de aposentadoria dos trabalhadores rurais (60 anos) e trabalhadoras rurais (55 anos): o início precoce da atividade laboral e o trabalho penoso realizado ao longo de toda a sua vida.
 
Na área rural, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 78,2% dos homens e 70,2% das mulheres começam a trabalhar com idade precoce, inferior a 15 anos. Isso significa que a mulher rural trabalha, em média, 41 anos e o homem 46, para alcançarem o direito à aposentadoria no valor de um salário-mínimo.
 
A mudança também impactará na economia dos munícipios, já que os benefícios previdenciários rurais ajudam também a distribuir renda entre os municípios brasileiros. Enquanto a maior parte da arrecadação das contribuições para a Seguridade Social provém dos municípios mais ricos, os benefícios pagos aos segurados rurais permitem que seja feita a distribuição dos recursos arrecadados em municípios onde os segurados têm pouca capacidade contributiva.
 
De acordo com o Instituto de Pesquisa em Econômica Aplicada (IPEA), no mês de janeiro de 2016 foram distribuídos R$5,6 bilhões em benefícios previdenciários rurais a 4.908 municípios brasileiros com população de até 50 mil habitantes.
 
Mito do déficit
 
O tão propalado “rombo da Previdência” apontado pela gestão Temer e com amplo eco nos meios de comunicação no país é uma falácia, uma mentira, uma ficção. Estudo do professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Eduardo Fagnani, comprova que “o déficit vem de uma contabilidade inconstitucional que não considera a parte do Estado”.
 
Na mesma linha, a professora de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Gentil, complementa afirmando que “o déficit seria uma farsa provocada por uma distorção do mercado financeiro, que fecharia os olhos para um artigo da Constituição Federal que exige participação da União na composição da Seguridade Social, da qual a Previdência Social faz parte”.
 
Segundo ela, o chamado rombo da Previdência é uma mentira construída a partir dos mais variados artifícios financeiros. Em primeiro lugar, a questão está mal posta: não se deve falar em déficit da Previdência, mas da seguridade social. Não existe sequer um orçamento da Previdência Social que permita identificar o déficit propalado pelo governo. Essa metodologia é utilizada pelos setores que desejam implodir o sistema.
 
A Constituição Federal instituiu o “orçamento da seguridade social” (art. 165, § 5o, III), que engloba a Previdência, a assistência social e a saúde. Esses três segmentos são financiados por recursos comuns, dentre os quais se sobressaem as receitas oriundas das contribuições de seguridade social (contribuições dos empregados e empregadores, Cofins, CSL etc.), cobradas para custear não apenas as aposentadorias e pensões, mas também os programas de assistência social e de saúde.
 
Interesses rentistas
 
Em entrevista ao programa da Rede Globo, Fantástico, em julho deste ano (2016), o ministro interino Eliseu Padilha anunciou que só com o desmonte da Previdência Social tiraríamos o país da crise. Mas o que ele não disse é que o real motivo para esse desmonte é a garantia, ao sistema financeiro, do pagamento dos juros.
 
O mesmo ministro não apontou que entre janeiro e dezembro de 2015 o pagamento dos juros custou R$ 450 bilhões, o equivalente a 8,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. E mais, o governo fez enormes desonerações desde 2011.
 
Em 2015, chegaram a um valor estimado em R$ 282 bilhões, equivalente a 5% do PIB, sendo que 51% dessas renúncias foram de recursos da Seguridade Social. Essas desonerações não produziram o resultado previsto pelo governo, ou seja, que os setores beneficiados elevassem os investimentos no setor produtivo. Pelo contrário, elas se transformaram em margem de lucro para os mesmos setores que hoje defendem a Reforma da Previdência.
 
3.996 municípios serão afetados
 
Os números demonstram que os recursos da Previdência movimentam a economia da maioria dos municípios brasileiros. Em 2012, por exemplo, o pagamento dos benefícios em 3.996 municípios brasileiros ultrapassou os repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Esse número representa 71,8% do total de cidades.
 
Além disso, o pagamento dos benefícios estimula a economia e é essencial para manter a segurança social de milhões de famílias e redistribuir a renda no país em muitos municípios. É preciso ficar claro que a Previdência Social, bem como outros direitos sociais, é uma conquista assegurada pela Constituição Federal de 1988. Muitos propagam a falsa visão de que os custos previdenciários e das políticas sociais não cabem no orçamento público federal.
 
De acordo com a Anfip, porém, a Previdência Social beneficia cerca de 90 milhões de pessoas direta e indiretamente. Somente em 2015, a Previdência (urbana e rural) beneficiou diretamente quase 30 milhões de famílias ou cerca de 90 milhões de pessoas (considerando uma família com três membros). Sema Previdência, mais de 70% dos idosos estariam na pobreza extrema.
 
A hora é de defesa desse importante sistema. Que fique bem claro que a unidade na luta passa por cima das divergências políticas e partidárias. A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) está na linha de frente da luta em defesa de uma Previdência Social pública e inclusiva.
 
O desafio está presente. Vamos mostrar ao povo que o governo ilegítimo liderado por Temer, produto se um golpe parlamentar, não tem autoridade moral para impor o retrocesso neoliberal ao povo brasileiro. Seguiremos na luta em defesa da classe trabalhadora, da democracia e do Brasil.
 
Adilson Araújo

*Artigo publicado originalmente na Revista Princípios na Ed. 145 – Novembro/Dezembro 2016
**Presidente Nacional da CTB
 



Fonte: Portal CTB via Vermelho

O discurso de Meryl Streep contra Trump no Globo de Ouro


  
"O instinto de humilhar, quando é feito por alguém da esfera pública, por alguém com poder, infiltra-se na vida de todos nós, porque de certa forma dá permissão para todos fazerem o mesmo. O desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita violência. Quando os mais poderosos usam sua posição para intimidar os outros, todos nós perdemos", foi o discurso de Meryl Streep ao receber o Prêmio Carreira do Globo de Ouro, na noite de domingo (08).

A atriz usou mais que o dobro do tempo que tinha disponível (de apenas três minutos) e o impacto do evento de cinema mundial para ressaltar a importância dos artistas, da liberdade de imprensa e dos estrangeiros, no ano em que Donald Trump comandará os Estados Unidos.

"Vocês e todos nós neste auditório pertencemos aos segmentos mais vilipendiados da sociedade norte-americana neste momento. Pensem nisso: Hollywood, estrangeiros e a imprensa", disse Meryl, logo na introdução de sua fala. "Mas o que é Hollywood, afinal de contas? É apenas um monte de gente de lugares diferentes", seguiu.

A homenageada por contundente carreira no cinema e nas artes cênicas contou que nasceu e foi educada em escolas públicas de Nova Jersey. Que Viola Davis nasceu em uma fazenda da Carolina do Sul, mas cresceu em Rhode Island. Que Sarah Jessica Parker é de uma família grande de Ohio, enquanto Sarah Paulson foi criada por mãe solteira no Brooklyn. Amy Adams é italiano e Natalie Portman nasceu em Jerusalém, Ruth Negga é da Etiópia e foi criada na Irlanda, Ryan Gosling é canadense e Dev Patel nasceu no Quênia e cresceu em Londres.

"Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros. E se você expulsar todos eles [dos Estados Unidos], não terá nada para assistir além de futebol e artes marciais, que não são artes", concluiu.

Sem citar o nome de Donald Trump, a atriz disse que "houve muitas e muitas atuações poderosas este ano que fizeram trabalhos de tirar o fôlego, cheios de compaixão, mas teve uma atuação este ano que me chocou, que cravou um gancho no meu coração".

"Não foi nada boa. Mas foi eficaz e conseguiu o que queria, fez o público alvo rir e mostrar os dentes. Foi aquele momento em que a pessoa que estava pedindo para sentar na cadeira mais respeitada do nosso país imitou um repórter com deficiência, alguém sobre quem tinha superioridade no privilégio, no poder e na capacidade de ripostar. Ver isto partiu-me o coração e é algo que ainda não consegui esquecer, porque não foi num filme, foi na vida real."

A referência de Meryl Streep foi a um comício de Trump na Carolina do Sul, em novembro de 2015, quando o então candidato à Presidência dos Estados Unidos ridicularizou publicamente o jornalista Serge Kovaleski, do The New York Times, que tem dificuldades nas articulações por artrogripose.

"E esse instinto de humilhar, quando é feito por alguém em uma esfera pública, por alguém poderoso, é infiltrado na vida de todos nós, porque de certa forma dá permissão a outros para fazerem o mesmo", afirmou.

Ao concluir, a atriz norte-americana também defendeu a importância do jornalismo. "Precisamos de uma imprensa com princípios para fiscalizar o poder, para cobrar cada absurdo. É por isso que os fundadores colocaram a imprensa e suas liberdades na Constituição. E peço que a Associação de Jornalistas Estrangeiros de Hollywood e todos da nossa comunidade se juntem a mim no apoio ao Comitê de Proteção aos Jornalistas, porque vamos precisar deles para seguir adiante, e eles vão precisar de nós para proteger a verdade."

Antes de deixar o palco, Meryl Streep finalizou que "temos de lembrar uns aos outros, todos os dias, do privilégio e da responsabilidade de agir com empatia."

O discurso da atriz foi imediatamente criticado por Donald Trump. Nas redes sociais, publicou uma sequências de posts chamando a atriz de "superestimada". "Meryl Streep, uma das atrizes mais superestimadas de Hollywood, não me conhece, mas me atacou ontem à noite no Globo de Ouro", disse.

"Pela centésima vez, eu nunca zombei de um repórter deficiente (nunca faria isso), eu simplesmente o imitei rastejando quando ele mudou completamente uma história de 16 anos que ele havia escrito para me denegrir. Mas uma vez a mídia desonesta", retrucou.

Trump também publicou que a atriz "é uma lacaia", "puxa-saco" e "amante" de Hillary Clinton. No dia seguinte, o The New York Times conversou com o mais novo presidente dos Estados Unidos. Ao jornal, disse que não ficou surpreso com o discurso, lembrando que a atriz "participou de uma convenção de Clinton".

Assista à integra do discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro:

 

 Fonte: GGN via Vermelho

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Filme inglês mostra tragédia que Temer nos prepara

Se há vários motivos para aplaudir o filme "Eu, Daniel Blake," de Ken Loach, Palma de Ouro do Festival de Cannes, um dos mais importantes do mundo, é fácil reconhecer a razão principal.

Centrado na luta de um carpinteiro para proteger seus direitos, a obra apresenta um retrato sem enfeites do colapso do Estado de bem-estar social na Inglaterra, país que, entre outros benefícios sociais, construiu um sistema público de saúde gratuito e universal, ponto de partida para diversos países, inclusive o nosso SUS.

Do ponto de vista dos 200 milhões de  brasileiros, Eu, Daniel Blake ganha uma importância especial pela conjuntura política, de guerra aberta do governo Temer e da equipe de Henrique Meirelles contra a CLT e programas sociais como Bolsa Família, Previdência Social e Minha Casa Minha Vida. Neste momento, Loach mostra o destino de um dos países mais ricos do planeta, antiga potência imperial, que se encontra numa etapa posterior do processo que leva ao Estado Mínimo.

"Eu, Daniel Blake" registra numa cena a condição de cidadãos britânicos que passam fome.

A tradução para a realidade brasileira exige adaptações importantes, como uma renda per capta menor, um patrimônio acumulado também menor -- apesar do crescimento dos últimos anos. Considerando que os seres humanos tem necessidades básicas semelhantes em qualquer latitude, pode-se imaginar o tamanho da tragédia em curso. 

O mundo que se vê na tela retrata uma classe trabalhadora capaz de gestos individuais de solidariedade mas vencida em derrotas sociais imensas, onde homens e mulheres são obrigados a lutar de forma individual por seus direitos e improvisar caminhos no limite da ilegalidade para reforçar a dispensa. Num momento divertido, retrata-se um cidadão que engorda os ganhos pelos labirintos da globalização, fazendo contrabando de tênis produzidos na China.

No mundo pós-moderno de Eu, Daniel Blake, as ações coletivas sequer são cogitadas. A existência de sindicatos, que já foram uma glória do movimento operário, nem é mencionada. Ao longo do filme, o protagonista está mergulhado numa realidade que os brasileiros conhecem muito bem: no combate por direitos estabelecidos junto aos serviços de telemarketing, enfrentando um exasperante labirinto de recomendações e explicações que nada resolvem. São apenas uma forma cínica encontrada pelos governantes para adiar a entrega de um direito que as duas partes sabem que é liquido e certo -- mas dificilmente será reconhecido.

Nas cenas finais, o filme mostra o que vem depois. Após perder os direitos como trabalhador, o protagonista também é destituído de direitos como cidadão e acaba sendo tratado como criminoso comum quando  tenta de realizar um protesto por conta própria.

Com preciosas lições para a atualidade, Eu, Daniel Blake  tem uma omissão do ponto de vista histórico. Você vai para casa perguntando como tudo aquilo pode acontecer.

Em vários momentos, o filme faz referências esparsas ao governo responsável pela tragédia social do país, o Partido Conservador. Está correto. Nos 18 anos em que permaneceram no poder, onze deles com Margaret Thatcher  como primeira-ministra, os conservadores fizeram um trabalho meticuloso e profundo para destruir o Estado de Bem-Estar Social. O problema é que, a seguir, o Partido Trabalhista ocupou o governo por treze anos. Em dez deles, Tony Blair foi o primeiro ministro e, contrariando as expectativas da maioria dos britânicos, nada fez para reverter a herança recebida. Em 2010, o Labour sofreu uma nova derrota nas urnas e até agora não se recuperou.

Cabia ao Labour, pelo seu lugar na história do país, o papel de resistir aos ataques contra os direitos da maioria. A recusa em assumir este lugar também ajudou a criar um mundo no qual a questão social virou caso de polícia -- e este também é um debate que interessa aos brasileiros de 2017. Sem resistência, seus direitos também vão se transformar em poeira.  

Fonte: Brasil 247

Massacre de Manaus expõe falácia da privatização de presídios


Foto: EBC
Sistema prisionalSistema prisional
Em setembro último, o STF frustrou o ministro e o obrigou a fazer óbvio: utilizar os recursos do fundo para o que ele foi criado, na construção, reforma, ampliação, modernização e aprimoramento de estabelecimentos penais. A quem interessa o sucateamento do já combalido sistema penitenciário? Ao que parece, apenas às empresas interessadas em lucrar administrando presídios e políticos financiados por elas.

O Massacre de Manaus expôs a falácia de que a privatização de presídios traz eficiência para o sistema. O Compaj (Complexo Penitenciária Anísio Jobim) foi concedido à iniciativa privada há mais de dois anos e abrigava durante a rebelião o triplo de detentos em relação a sua capacidade, segundo o próprio governo do Estado. Peritos ouvidos pelo UOL afirmaram que a gestão terceirizada facilitou o massacre. Numa inspeção realizada pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em outubro do ano passado, o Compaj foi classificado como “péssimo” para a ressocialização dos presos, que estão sem nenhuma assistência social, jurídica, educacional e de saúde – uma tragédia anunciada. Ainda segundo o relatório do CNJ, presos que ainda não foram condenados pela Justiça ficam em celas com outros já condenados. Ou seja, um inocente ou um ladrão de goiaba pode desfrutar da convivência diária com um líder de facção criminosa de alta periculosidade condenado por homicídio. O crime organizado agradece ao Estado pelos serviços prestados nessa parceria de sucesso.

É com essa excelência que estão funcionando os presídios de Manaus cujas administrações estão sob os cuidados da iniciativa privada: superlotação, livre trânsito de armas e drogas, disputa sangrenta entre facções criminosas. A empresa que lucra com a tragédia chama-se Umanizzare (“humanizar” em italiano) – uma ironia que está em sintonia com a era da pós-verdade. Se os lucros ficam com a empresa (recebeu R$651 milhões dos cofres públicos entre 2013 e 2016), a responsabilidade em garantir condições dignas para o cumprimento da pena ainda é do Estado.


Site da Umanizzare – no mundo encantado da privatização, morar num presídio privatizado é como estar numa colônia de férias. No mundo real, os presídios brasileiros – privatizados ou não – são o quartel general do crime organizado.
A Umanizzare é uma grande doadora eleitoral. A empresa doou R$ 300 mil para a campanha do governador reeleito do Amazonas, José Melo (PROS). Já seus acionistas doaram R$ 212 mil ao ex-deputado federal Carlos Souza (PSD-AM), que é – vejam só que curioso – réu por tráfico de drogas. Se sobrou dinheiro para a empresa bancar políticos amigos, faltou para investir no pessoal que trabalha no inferno dos presídios. Os funcionários não têm plano de carreira e a média salarial é de R$1.700. Não é à toa que, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária do Amazonas (Seap), só no ano de 2016, ao menos 53 presos fugiram e oito túneis foram construídos em presídios administrados pela iniciativa privada – um choque de eficiência!

E como reagiram nossos servidores públicos responsáveis pela manufatura dessa bomba-relógio?

Bom, o presidente não-eleito ficou quatro dias calado diante da segunda maior chacina ocorrida na história do seu país. Quando apareceu, apresentou um novo Plano de Segurança com mais do mesmo e classificou a escandalosa omissão do Estado que resultou em 56 mortos de “acidente pavoroso”. Pior: afirmou que os agentes estatais não podem ser responsabilizados, já que o presídio é terceirizado – o que é mentira, porque a segurança dos presos é uma responsabilidade do Estado, segundo a Constituição.

Alckmin lavou as mãos e disse que “não há nenhuma relação com São Paulo”. Nenhuma mesmo, a não ser o fato de o PCC ter crescido absurdamente nos presídios paulistas durante suas gestões antes de se espalhar pelo Brasil. O monstro cresceu tanto que o governo teve que sentar com Marcola, líder da facção, para negociar o fim da onda de ataques de 2006. O governador não parece também ter visto grande problema no Massacre do Carandiru – episódio que pariu o PCC – já que chegou a nomear um dos acusados da chacina como chefe da ROTA.

Já o governador do Amazonas minimizou o massacre dizendo que entre as vítimas “não tinha nenhum santo. Eram estupradores e matadores”, numa reflexão que caberia confortavelmente na caixa de comentários do G1. É como se a qualidade dos crimes dos mortos amenizasse o flagrante descumprimento da Constituição e a violação dos Direitos Humanos pelo Estado. Em seguida, o governador culpou a eficiência da sua gestão no combate ao tráfico de drogas: “em dois anos de governo, nós já apreendemos 21 toneladas de drogas, o que representa o quantitativo apreendido por todos os outros governos que me antecederam, e praticamente dobramos a população carcerária com prisões voltadas sobretudo para essa questão de tráfico de drogas”.

É justamente essa fracassada guerra às drogas e o seu consequente encarceramento em massa que contribuem para a instalação do caos no sistema penitenciário. A lógica que levou ao massacre é apresentada como solução: é preciso prender mais gente, construir mais presídios e, de preferência, conceder suas administrações às empresas cujos lucros aumentam de acordo com o número de presos.

Na sexta-feira, houve novo massacre com 33 mortos em um presídio estatal de Roraima e, ao que tudo indica, comandado pelo PCC. Foram duas matanças em uma semana – número maior que o desejado pelo ex-secretário de Temer, Bruno Júlio (PMDB), que caiu após dizer que “tinha que fazer uma chacina por semana”.

Se levarmos em conta o Plano de Segurança apresentado por Temer, cuja vertente principal é a construção de presídios, o ciclo que fortalece o crime organizado permanecerá. O Zé das Couves entra na cadeia por roubar galinha ou vender baseado e é obrigado a integrar alguma facção criminosa em troca de proteção para ele e sua família. Foi assim que o PCC nasceu, cresceu e tornou-se o monstro que comanda o sistema carcerário e articula o crime organizado fora dele. Essa política fracassada não é novidade, todos os governos anteriores insistiram nela. E lá vamos nós, mais uma vez, enxugar iceberg com paninho de prato…


*João Filho é cientista social e jornalista. Autor do Jornalismo Wando.
Fonte: Vermelho

Petrobras, esquartejar para privatizar


  
A mídia nacional noticiou que a Petrobras concluiu a venda de 100% da Petrobras Chile ao Southern Cross Group. E que o negócio representa o avanço do programa de venda de ativos da Petrobras que, junto com o leilão do pré-sal, vai reacender o movimento de desconcentração da produção de óleo e gás no Brasil.

"A desintegração ainda traz riscos empresariais desnecessários ao tornar a geração de caixa vulnerável a variação dos preços relativos do petróleo e de seus derivados", adverte Felipe Coutinho, presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET), em artigo publicado no site da entidade.

Até agora, segundo ele, "foram alienados campos de petróleo, malha de gasodutos, unidades petroquímicas, usinas térmicas, terminal de gaseificação e participações na produção de etanol".

Assista trecho do seminário Privatização Fatiada da Petrobras, que foi realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia 26 de outubro do ano passado e teve como palestrantes o vice-presidente da AEPET, Fernando Leite Siqueira; o economista José Carlos de Assis e o professor da UFRJ, Daniel da Conceição.

 

De Brasília, com PT no Senado via Vermelho

Assange: Temer teve reuniões privadas com a embaixada americana


Segundo Assange, "Michel Temer teve reuniões privadas na embaixada dos Estados Unidos e forneceu informações políticas às quais muitos não tinham acesso. Não digo que ele tenha sido um espião pago. Falo de outra coisa: de trocar informação por apoio político". A administração de Barack Obama, que tem John Kerry como secretário de Estado, apoiou três golpes recentes na América Latina: os de Honduras, Paraguai e Brasil.

Assista abaixo um trecho da entrevista que, em breve, será publicada na íntegra pelo Nocaute:


 

 Fonte: Blog Nocaute via Vermelho

Temer promove arrocho ao reajustar salário mínimo apenas pela inflação


Reprodução
  
Os 14 anos de aumento real geraram ganho acima da inflação de 77% para o salário mínimo. Esse crescimento ajudou a movimentar a economia nacional, uma vez que só este ano o mínimo injetará R$ 35 bilhões no mercado de consumo e renderá R$ 18,8 bilhões em arrecadação para o governo. Mínimo mais alto também empurra para cima pisos de diversas categorias profissionais, com efeitos positivos em toda a cadeia econômica.
 
Luta sindical 
A recuperação do valor do salário mínimo – achatado pelos governos militares e desidratado nos anos Fernando Henrique – é resultado direto da luta sindical. Vale recordar que, em 2004, as Centrais iniciaram pressão junto ao governo Lula pela recuperação do mínimo. Houve três marchas a Brasília e forte articulação política. Lula iniciou a política de recuperação (em 2006, o aumento real foi de 13,04%), depois reafirmada e oficializada pela presidenta Dilma.
 
Arrocho
Ao congelar o mínimo conforme o INPC, o governo Temer visa, também, aprofundar o arrocho previdenciário, uma vez que 48,3% dos beneficiários recebem até um salário mínimo – e eles representam 68,6% do total de todos os beneficiados pela Previdência.

Leia aqui a íntegra da nota técnica do Dieese:

 



Fonte: Agência Sindical via Vermelho