quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Altamiro Borges: Previdência privada aplaude a “reforma”


Ilustração: Bira Dantas
 Ilustração: Bira Dantas Ilustração: Bira Dantas
E o [site] Kibeloco: ‘A reforma é simples: se você não é militar, não vai se aposentar’. A Reforma da Previdência é simples: você não vai se aposentar! Pronto! E adorei a charge do ATorres com uns véinhos numa mesa branca: ‘Seu Astrodo, o senhor está entre nós? Já saiu sua aposentadoria, seu Astrodo’”.

Deixando as brincadeiras de lado, a contrarreforma do covil golpista representará, se for aprovada, um dos mais duros ataques aos direitos dos trabalhadores na história do país. Mas tem um setor que está rindo à toa – e não é piadinha. Os poderosos empresários dos planos de previdência privada vão ganhar fortunas com a medida. Eles apoiaram o “golpe dos corruptos” que alçou Michel Temer ao poder e serão regiamente recompensados. Apenas com o anúncio das principais regressões da “reforma” da Previdência milhares de brasileiros já estão procurando estes fundos para garantir a sua aposentadoria. Parte deles é controlada pelos banqueiros, que estão excitadíssimos!

Reportagem publicada na Folha nesta segunda-feira (12) informa que “de janeiro a outubro, a captação líquida dos fundos, descontando os resgates das novas aplicações, cresceu 20% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a Fenaprevi, entidade que reúne as empresas que vendem planos de previdência... Para o presidente da entidade, Edson Franco, os números mostram que o segmento resistiu à crise econômica e pode ter lucrado com a discussão sobre a reforma da Previdência... Especialistas afirmam que guardar dinheiro para complementar a renda na aposentadoria será a único caminho para manter o padrão de vida”.

Ou seja: o trabalhador vai se ferrar de verde e amarelo. A idade mínima para aposentadoria será de 65 anos e ele precisará comprovar 49 anos de contribuição para receber 100% do benefício. No desespero, milhares depositarão seus parcos recursos nos fundos de previdência privada, que abocanharão ainda mais grana dos brasileiros. Até os “midiotas” mais tacanhos que foram às ruas para rosnar pelo “Fora Dilma” já devem estar percebendo que foram usados como massa de manobra dos mesquinhos empresários. “‘Seu Astrodo, o senhor está entre nós? Já saiu sua aposentadoria, seu Astrodo”!
 

*Altamiro Borges é presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e membro do Comitê Central do PCdoB
Fonte: Vermelho

Laurindo Lalo Leal Filho: O apoio midiático à PEC da morte


OxDoPoema
O apoio midiático à PEC da MorteO apoio midiático à PEC da Morte
A PEC 55 limitando os gastos públicos por 20 anos é um dos pilares do golpe de Estado perpetrado em 31 de agosto deste ano contra o governo da presidenta Dilma Rousseff.

Dois outros são a entrega do pré-sal às multinacionais do petróleo e a criminosa reforma da Previdência.

A ação golpista não estancou na destituição da governante eleita pelo voto popular.

Constituiu-se na atual legislatura uma maioria parlamentar capaz de aprovar qualquer medida antipopular e antinacionalista que seja apresentada.

Com isso, uma composição eventual de parlamentares ganha força para golpear conquistas históricas consagradas na Constituição de 1988.

Os que votam representam, em sua grande maioria, os setores econômicos diretamente interessados na obtenção dos dividendos a serem obtidos com as chamadas reformas. Basta ver quais são os financiadores de suas campanhas eleitorais.

Nesta data o alvo é o desmonte dos serviços públicos de saúde e de educação, através da “PEC da Morte”, com profundo interesse dos setores empresariais dessas áreas.

Num mesmo dia 13 de dezembro, há 48 anos, uma sexta-feira, o ministro da Justiça do governo militar, Luiz Antonio Gama e Silva, ex-reitor da USP, aparecia na TV para introduzir um rol de decisões tomadas horas antes pelo Conselho de Segurança Nacional e lidas, em seguida, pelo locutor Alberto Curi, da Agência Nacional.

Disse ele que o presidente da República, a partir daquele momento e à revelia do Legislativo e do Judiciário, poderia decretar o recesso do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e câmaras municipais, intervir nos estados e municípios, suspender os direitos políticos por dez anos de qualquer cidadão, cassar os mandatos de parlamentares e impor o estado de sítio.

Era o Ato Institucional número 5 suspendendo o habeas corpus para crimes contra a segurança nacional, a ordem econômica e a economia popular e decretando o fim da vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade nas funções públicas. Em seguida o locutor leu o texto do Ato Complementar número 38, decretando o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado.

Jornais que quatro anos antes impulsionaram o golpe de Estado e o saudaram efusivamente passaram a ser recolhidos nas bancas antes do sábado clarear. A censura instalou-se nas redações.

Quase meio século depois, numa coincidência simbólica de datas, a mídia volta a apoiar um novo golpe, ainda que sob o disfarce de uma legalidade de ocasião. Faz isso no noticiário do dia a dia, naturalizando as medidas impopulares como se não houvesse alternativas. Espaços generosos são abertos para os defensores dos “ajustes” fiscais, num martelar impiedoso sobre uma população privada de análises contraditórias.

Em alguns momentos, essa mídia vai além, sai da rotina e escancara sua visão de país expondo os mecanismos para alcançar tais objetivos. Exemplo emblemático é o editorial da Folha de S. Paulo, publicado na primeira página da edição de 13 de setembro de 2015, com a pretensão de ser um ultimato à presidenta Dilma Rousseff.

Sob o título golpista de “Última chance” a Folha não perdoa. Esquecendo a importância dos investimentos públicos para o reaquecimento da economia insiste na contenção de despesas que, segundo o jornal, “deve se concentrar em benefícios perdulários da Previdência, cujas regras estão em descompasso não só com a conjuntura mas também com a evolução demográfica nacional. Deve mirar ainda subsídios a setores específicos da economia e desembolsos para parte dos programas sociais”.

E vai além afirmando que “as circunstâncias dramáticas também demandam uma desobrigação parcial e temporária de gastos compulsórios em saúde e educação, que se acompanharia de criteriosa revisão desses dispêndios no futuro”.

Reivindicação atendida pela PEC 55. Resta saber agora até quando a mídia conseguirá camuflar seus efeitos deletérios dourando a pílula de uma realidade que se avizinha trágica.
 

*Laurindo Lalo Leal Filho é sociólogo, jornalista e professor de Jornalismo da ECA-USP 
Fonte: Vermelho

Aprovação da PEC 55 é marcada por repressão em Brasília


  
Num esquema de segurança rigoroso, a Polícia Militar do Distrito Federal bloqueou, nesta terça-feira (13) toda a área da Esplanada dos Ministérios. Os policiais também exigiram dos manifestantes vistoria em todos os seus instrumentos e bolsas e proibiram desde paus de bandeiras a produtos como vinagre, bolas de gude e máscaras, entre outros, com a justificativa de que o objetivo da ação é fazer com que os atos públicos programados aconteçam de forma pacífica. Mesmo assim, não conseguiram impedir a ida das pessoas ao local, que prometem ficar até a noite, portando faixas e cartazes contra o governo Temer.

“Acham que vão nos intimidar, depois do que aconteceu no último dia 29, mas estamos aqui para dizer o que pensamos, protestar contra esse governo formado por envolvidos na Lava Jato e reivindicar nosso direito de livre expressão”, disse o estudante de arquitetura Tiago Ornellas, integrante da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ele se referiu às manifestações realizadas durante a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 em primeiro turno no Senado, duas semanas atrás – que foram marcadas por repressão policial, com bombas de efeito moral e spray de pimenta usados contra a população.


Mais de cinco mil manifestantes, em sua maior parte estudantes, professores, sindicalistas e funcionários públicos, que estão realizando atos em todo o país, protestam contra o governo Michel Temer, contra a PEC 55, que congela os gastos públicos – aprovada no início da tarde pelo Senado Federal –, a reforma da Previdência e a reforma do ensino médio.

Muitos deles também portam faixas onde está inscrito “Diretas Já”, como forma de pressionar os parlamentares pela votação de proposta que trata do tema, no Congresso.

Detenções

Informações da secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal são de que em meio às abordagens e revistas realizadas em todos que entraram na Esplanada, foram feitas três detenções, por conta do porte de alguns instrumentos tidos como mais violentos, mas essas pessoas foram conduzidas à delegacia e liberadas logo em seguida.

“Sabemos dos danos dessa PEC e que os estragos vêm por aí, mas não podemos perder a esperança, porque temos consciência do nosso poder de luta. Os movimentos estão articulados e temos de fazer isso mesmo, vir para a rua mostrar nossa indignação. Queremos a saída de Temer e a convocação de eleições diretas no país”, afirmou a professora Edilza Rocha.





Fonte: Rede Brasil Atual (RBA) via Vermelho
Vídeo: Mídia Ninja

Todo mundo vai perder com a reforma da Previdência, diz professor


EBC/ARQUIVO
Todo mundo vai perder com a reforma da Previdência, diz mestre em DireitoTodo mundo vai perder com a reforma da Previdência, diz mestre em Direito
Com medo da perda do voto, essa relíquia preciosa em tempos de negação da política, parlamentares só resolvem enfrentar as reformas necessárias quando as finanças chegaram à beira do colapso.

Da maneira como o texto foi apresentado pelo governo, todos devem perder de alguma forma. Pelo menos, é essa a avaliação do professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Wagner Balera. Mestre em Direito Tributário, Balera conversou com o The Intercept Brasil sobre a reforma da Previdência, cuja discussão ainda promete ir longe e que impactará a vida de todos os brasileiros.

Mitos, meias-verdades e muitas informações desencontradas são proferidas sobre a Previdência. Em Brasília, os burocratas não se entendem sequer nas contas para identificar o número real do déficit previdenciário. Nesse emaranhado de tabelas e gráficos, o dois mais dois dificilmente chegará ao resultado quatro. Coisa de burocrata.

Para Balera, o governo usa um argumento falso para justificar o rombo da Previdência. Segundo ele, o problema não é a arrecadação, mas que parte do orçamento da Seguridade Social é constantemente desviado para outras finalidades. O professor também criticou a postura do governo em tratar a reforma da Previdência dos militares separadamente, como se fossem um grupo melhor que o restante da sociedade. Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

The Intercept Brasil: Professor, começando com o básico, questiono: a reforma da Previdência é realmente necessária?Wagner Balera: Eu considero que é algo absolutamente necessário. E o primeiro fundamento é que a sobrevida média do brasileiro aumenta constantemente. O sistema foi pensado para outra realidade. O que é o raciocínio previdenciário? Você está vivendo mais tempo, você vai ter que trabalhar mais. Esse é o principal motivo pelo qual uma reforma é necessária. É uma questão de dado estatístico, em virtude do aumento da expectativa de vida.

A reforma também se justifica tendo em vista a diminuição da natalidade, porque a Previdência funciona com uma lógica intergeracional. A geração presente é responsável pelo financiamento das prestações da geração pretérita, e a geração futura vai financiar as prestações da geração presente.

O governo tem utilizado um argumento falso, um argumento mentiroso, quando ele justifica a necessidade da reforma previdenciária. O Estado brasileiro – e não é esse governo aqui, nem o anterior nem o anterior ao anterior – utiliza a falsidade de que a Previdência está quebrada.

A Previdência não está quebrada?Isso é uma enorme falsidade. O que é que está fazendo o Estado brasileiro? Ele está destruindo um modelo que a nossa Constituição criou que se chama Seguridade Social. A Constituição Federal de 1988 originou a Seguridade Social, na qual integram a saúde, a previdência e a assistência. Três setores englobados numa só realidade. E a Constituição criou um orçamento separado do Orçamento do Estado para a Seguridade Social.

A União tem as suas receitas, a Seguridade Social tem as suas receitas. Então, a Previdência integra o orçamento da Seguridade Social, que foi contemplado pela Constituição com diversas fontes de receita.

Quais fontes são essas?A primeira, a mais antiga, é a contribuição sobre a folha. Você, como trabalhador empregado, paga uma contribuição sobre o seu salário. O seu patrão paga uma contribuição sobre o seu salário, e essa é a contribuição sobre a folha, que é chamada folha de salários, folha de pagamento. Essa é uma das contribuições.

Eu não posso falar assim: "A previdência está quebrada". De fato, o que se arrecada com a contribuição sobre a folha não paga os benefícios devidos pelo INSS. Ficaria faltando dinheiro. Mas é por isso que existe a Seguridade Social, o orçamento da Seguridade Social e as despesas são da Seguridade Social, não da Previdência. É uma questão conceitual que não é da minha cabeça, é o que está na Constituição.

A Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) é um dos tributos de maior arrecadação do Brasil, só perde para o Imposto de Renda. Então, é um manancial imenso de dinheiro que o Estado brasileiro arrecada.

E para onde está indo todo esse dinheiro arrecadado?Entrou tanto dinheiro que começaram a desviar esse dinheiro. Por isso que é falso o argumento do déficit. Porque, a partir de 1994, começaram a desviar dinheiro das contribuições sociais e continuam desviando.

Este ano, o desvio foi ampliado. Antes desviavam 20%, depois passaram a desviar 25%, e, agora, vão desviar 30% de um troço chamado Desvinculação das Receitas da União (DRU). Isso nada mais significa do que tirar dinheiro da Seguridade Social e jogar para qualquer outra coisa que o Estado queira fazer com esse dinheiro. Como é que você pode falar que o negócio tá quebrado se estão desviando dinheiro desse segmento para outras áreas? Então, esse é o falso argumento da reforma. A reforma é necessária, é imprescindível, mas não sob o argumento de que (a Previdência) está quebrada.

Qual o principal problema dessa reforma? Tem algum ponto principal de polêmica?Eu considero imprescindível a fixação de uma idade mínima para as aposentadorias. Nada explica o fato de não haver essa idade hoje. Ela só não passou em 1998, na emenda constitucional nº 20, porque o Antônio Kandir, que era deputado (PSDB-SP) naquele tempo, errou o voto.

O outro ponto importante da reforma é aquele que veda a acumulação de benefício de aposentadoria com pensão. A Previdência significa que o Estado vai conceder a você a garantia das suas necessidades básicas. A Previdência não prometeu, nem promete a ninguém, a manutenção do status. Então, se alguém já recebe aposentadoria, por que também vai receber pensão do outro? Não tem sentido. Isso é completamente impróprio em um sistema universal e solidário, como é o da Previdência.

Na proposta enviada pelo governo Temer ao Congresso, os militares ficaram de fora.Os militares são brasileiros como eu e você. Do ponto de vista previdenciário, assim como eu tenho direito a proteção social mínima, é isto que se deve a eles também. Uma coisa um pouco esquisita é você tratar esse grupo como se ele fosse um grupo à parte. Estou falando do ponto de vista previdenciário.

Do ponto de vista previdenciário, o militar fica velho como eu fiquei velho, fica doente como eu fiquei doente e assim por diante. Então, não tem por quê. Não pode ser tratado à parte. A reforma avança, mas ainda fica isso de excluir esse grupo como se esse grupo fosse melhor que os outros.

O que o sr. acha de os homens e as mulheres se aposentarem com a mesma idade?
É uma conquista da sociedade, a igualdade do homem e da mulher. Especialmente dos requisitos para a obtenção dos benefícios previdenciários, porque não existe nenhuma justificativa técnica para terem tratamento diferenciado. Até porque isso é estatística, as mulheres vivem mais tempo que os homens.

O senhor chegou a falar que uma unificação das regras do regime geral e dos funcionários públicos corrigiria uma injustiça, já que hoje temos dois mundos. Que injustiça seria essa e que mundos seriam esses?O mundo dos servidores públicos é o mundo dos privilegiados. Os salários são a base contributiva deles e são a base do benefício que eles recebem. Por exemplo, se o servidor ganhava R$ 10 mil trabalhando 35 anos de serviço, que é o requisito para a chamada aposentadoria integral, ele vai continuar ganhando R$ 10 mil, o salário dele. Enquanto isso, no regime do INSS, se o sujeito ganha R$ 10 mil e o teto atual (do INSS) é R$ 5.189, ele vai ganhar, no máximo, R$ 5.189. Do ponto de vista previdenciário isso é injusto, porque cria duas classes: a classe A, que tem a melhor previdência; e a classe B, que tem uma previdência de até R$ 5.189.

Qual seria a justiça? A previdência garante as necessidades básicas. Se a nossa previdência tem um limite geral de R$5.189, ele tem que valer para todo mundo. "Ah, mas eu quero ter uma aposentadoria melhor". Perfeitamente. Você compra um plano de previdência privada. Só você vai custear, não a sociedade toda. É nesse sentido que eu falo da injustiça.

O senhor acha que algumas ocupações deveriam ter um regime diferenciado como, por exemplo, a de trabalhador rural?Há dois pontos perversos na proposta enviada pelo governo. Um é esse do (trabalhador) rural. Como é que ele contribui hoje? Com um percentual sobre o resultado da comercialização de sua produção. Porque assim é a vida do rurícola. É sobre o que ele produz que ele ganha. Segundo a proposta, o rurícola vai contribuir com salário, portanto é uma ficção. O trabalhador rural que recebe salário é exceção, é o que que trabalha na agroindústria. Então é uma ficção porque está se inventando que o rurícola ganha salário mínimo, e isso não é verdadeiro, porque muitos não ganham nem um salário mínimo.

É outra realidade. Então, eles nivelam todo mundo pelo salário mínimo, e o que é pior: para esse grupo vão ser exigidas noventa contribuições. Isto é, estão chutando as aposentadorias rurais para daqui a oito anos. Escandaloso. Um negócio dessa seriedade sendo tratado a toque de caixa.

Então, o produtor rural, do jeito que está sendo discutida essa reforma, sairia prejudicado?Muito prejudicado. Eu achei um dos pontos mais perversos da PEC.

Outro agravante em relação aos mais pobres é o seguinte: como são corrigidos os benefícios em manutenção? Eles são corrigidos segundo critério de reajustamento do salário mínimo. Cada vez que o salário mínimo aumenta, aumenta nas mesmas proporções o valor dos benefícios de proteção. Esse é o critério atual. Isto não é adequado porque atrela uma realidade, que é a realidade previdenciária, a outra realidade, que é o salário mínimo. São coisas diferentes, porque não é toda vez que aumenta o salário mínimo que aumenta a arrecadação.

O governo manteve a vinculação ao salário mínimo, menos para o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Então, mais pra frente, pode ser que o benefício que hoje é um salário mínimo, amanhã seja de 70% do salário, 60% do salário mínimo, aviltando ainda mais a situação dos pobres. Uma coisa sem pé nem cabeça.

Nessa reforma em discussão no Congresso, quem serão os maiores beneficiados, as empresas ou os trabalhadores?Todos vão perder.

Todos vão perder?Todos vão perder. É uma reforma restritiva de direitos, o que é normal quando você está em uma crise, em um caminho para cortar despesas.

Se o estado fosse ideal no Brasil, ele deixaria de desviar o dinheiro, ele não prorrogaria a DRU, mas sim acabaria com a DRU, deixaria de desviar o dinheiro. Isso sim é uma responsabilidade do Estado. Independentemente de sua cor partidária, todos os governantes têm patrocinado esse descalabro que é a DRU. Então, a coisa ideal era acabar com isso. O dinheiro da seguridade social tem que acabar na seguridade social.
 

Fonte: The Intercept Brasil via Vermelho

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Jandira: A verdade sobre a reforma da Previdência


  


Do Portal Vermelho
Vídeo:Repórter do Dia

A PEC 55 e os impactos sobre as mulheres


  
A Proposta de Emenda Constitucional nº 55 visa a instituir o Novo Regime Fiscal que limita os gastos do poder executivo, supremo tribunal federal, senado federal, ministério público e defensoria pública da união. Pela nova regra definida pela PEC 55, os limites de despesas serão calculados para 2017 pela despesa primária paga no exercício de 2016 corrigida em 7,2% e, após este período, pela variação do IPCA calculado nos últimos 12 meses do exercício anterior[1].

Esta regra valerá para os próximos 20 anos, o que incorrerá no congelamento dos gastos com bens e recursos públicos essenciais à população e demandará necessariamente reformas estruturais no país, como a previdência social e a lei de valorização do salário mínimo.

Os impactos da PEC sobre as mulheres estão relacionados de forma direta com a sua inserção no mercado de trabalho, o que se traduz nos nichos de trabalho feminino, diferenças salariais e no fato de as mulheres serem as principais responsáveis pelos trabalhos reprodutivos, ou seja, aqueles destinados ao cuidado e manutenção da casa e de seus membros.

Com a aprovação da PEC, a tendência é aprofundar as desigualdades de gênero, na medida em que a proposta possui impacto direto sobre as populações mais vulneráveis. Isto ocorre tanto pela revisão das regras para previdência social e da lei de valorização do salário mínimo, como também pelos impactos em setores onde as mulheres possuem maior representatividade, como a saúde e educação. Vejamos cada uma delas:

No que tange à previdência social, a necessidade de limitar os gastos públicos trará como contrapartida a mudança nas regras previdenciárias hoje vigentes. Tal reforma acarretará impactos importantes sobre as mulheres, na medida em que as propostas apontam para a equiparação da idade mínima entre homens e mulheres, revisão das regras de pensão, proibição do acúmulo de pensão e aposentadoria, além da perda da possibilidade de antecipação da aposentadoria para os professores de educação básica, o que afeta principalmente as mulheres, devido ao seu maior peso nessa categoria.

Atualmente a previdência social possui um papel importante para a diminuição das desigualdades de gênero e raça no mercado de trabalho. A diferença entre o tempo de aposentadoria para homens e mulheres teria a finalidade de compensar o maior tempo feminino dedicado aos afazeres domésticos e, por conseguinte, a menor capacidade de as mulheres contribuírem para a previdência.

A necessidade de “caberem” as atuais demandas sociais no congelamento dos gastos trata a necessidade imediata de outra importante reforma, a saber: a revisão da política nacional de valorização do salário mínimo.

Isso porque a PEC 55 prevê, entre as sanções no caso de descumprimento da lei, a proibição de reajuste de despesa obrigatória acima da variação da inflação. Segundo Laura Carvalho (2016), como boa parte das despesas obrigatórias são indexadas ao salário mínimo, atropelaria a lei de reajuste, impedindo sua valorização real, mesmo se a economia estiver crescendo.

A revisão da Lei de Valorização do Salário Mínimo afetaria principalmente as mulheres, uma vez que elas estão superrepresentadas nessa faixa salarial. Segundo dados do Censo Demográfico de 2010, 33,7% das mulheres e 25,7% dos homens tinham rendimento mensal de até um salário mínimo. Dentre as mulheres, 40,3% eram mulheres negras e 50,5% alocadas em zonas rurais. Entre as regiões brasileiras, a Nordeste possui maior representação de mulheres na faixa salarial de até um salário mínimo, totalizando 48,5% das mulheres ocupadas, sendo 50,8% das mulheres negras e 59,3% das que vivem nas zonas rurais.

Por definir regras que congelam os recursos destinados para a saúde e a educação, a PEC afeta marcadamente as mulheres. Isto ocorre tanto pelo lado da diminuição da oferta de recursos pelo Estado, incorrendo na sobrecarga de trabalho feminino para o cuidado das crianças e idosos, mas também por serem setores que empregam majoritariamente força de trabalho feminina.

Além disso, como as mulheres vivem mais do que os homens, dependem mais dos recursos na sua fase final de vida, tendendo a ter doenças crônicas e dependendo de remédios de uso contínuo.

Quanto à distribuição das mulheres por agrupamento de atividades, os dados da PNAD – IBGE de 2014 indicam maior presença das mulheres em setores afetados diretamente pela PEC, principalmente “educação, saúde e serviços sociais”, que correspondem a 18,2% do total das ocupadas em comparação com 4,3% dos homens.

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O terceiro setor com maior presença feminina, seguido de comércio e reparação (17,5%) é o emprego doméstico, com 13,9% das mulheres ocupadas. Esta categoria será impactada diretamente pela revisão da lei do salário mínimo, já que grande parte das empregadas domésticas está alocada nessa faixa salarial. Além disso, o congelamento salarial e da carreira dos servidores públicos federais impacta em um segmento com alta presença feminina de maior escolaridade, e que possui maior igualdade salarial por gênero.

A menor presença do Estado como provedor de recursos voltados para as atividades reprodutivas tende a aprofundar o papel da mulher como ofertante desses recursos de forma não remunerada. A desigualdade de tempo entre homens e mulheres destinadas para essas atividades já é bastante relevante, segundo dados da PNAD/IBGE de 2012: enquanto quase a totalidade das mulheres maiores de 16 anos afirmam exercer atividades domésticas, entre os homens o percentual é de 50%. Neste ano, as mulheres despenderam, em média, 23,56 horas semanais aos afazeres domésticos e os homens apenas 6 horas.

É importante pontuar que o impacto da sobrecarga de trabalhos reprodutivos afeta principalmente as mulheres de baixa renda, por terem menor acesso aos recursos privados (escolas de educação infantil, escola em tempo integral, lavanderia, restaurantes etc.) e dependerem principalmente da oferta de recursos públicos.

Famílias de baixa renda, em geral, estão alocadas em regiões periféricas ou zonas rurais, despendendo mais tempo para deslocamento ao trabalho, hospitais e escolas. As regiões, muitas vezes, não têm saneamento básico adequado e as famílias não têm condições de adquirir eletrodomésticos, que diminuem o tempo de trabalho destinado aos afazeres domésticos.

São a partir, prioritariamente, desses elementos que identificamos que a PEC 55 trará consequências nefastas para o conjunto dos trabalhadores. No entanto, “a classe trabalhadora tem dois sexos”, e, nessa pesagem desigual, conseguimos identificar que as mulheres serão demasiadamente afetadas.

REFERÊNCIAS

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estatísticas de gênero, uma análise do Censo Demográfico. 2010. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em
 

Escrito por Juliane Furno, Cristina Pereira Vieceli, Priscila Von Dietrich, Marsala Maciel Machado, Anelise Manganeli.
Fonte: Vermelho

Colonialismo na Palestina demanda reforço da denúncia e da resistência


Moara Crivelente
Soldados israelenses nas ruas e mercados da cidade antiga de Jerusalém.Soldados israelenses nas ruas e mercados da cidade antiga de Jerusalém.
Há 56 anos neste mês, a Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu a histórica “Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais” (Resolução 1514 da Assembleia Geral), mas casos como o da Palestina, do Saara Ocidental e de Porto Rico continuam pendentes. A luta anticolonial persiste.

A expansiva ocupação do território proposto pela ONU na Resolução 181 para o Estado da Palestina há quase sete décadas, no fim do Mandato Britânico, corre abertamente desde a Guerra de Junho de 1967 – com administração e presença militar, a captura de terras palestinas e a construção de colonatos israelenses. Entretanto, a política por trás das definições continua relevante sobretudo na construção da análise daquilo a que se resiste e das estruturas que sustentam esta realidade.

Grande parte dos movimentos palestinos e solidários, jornalistas e acadêmicos volta a enfatizar o tratamento da chamada “Questão Palestina” como uma de colonialismo de povoamento, cujo percurso histórico inclui o genocídio, a limpeza étnica, a ocupação militar e a guerra aberta no processo de colonização da Palestina. Na Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948, em vigor a partir de 1951, genocídio pressupõe a “intenção de destruição” de um grupo – o que é em geral considerado difícil de se identificar – e limpeza étnica é mais especificamente a remoção forçada de uma população ou grupos de determinado território. Ambos os termos são contestados pelos defensores das políticas israelenses, esforço do qual historiadores e juristas participam de forma instrumental.

Outros ponderam o uso do conceito “colonialismo” devido à sua aplicação a casos muito diversos: aqueles em que a população indígena tornou-se minoritária e os antes colonizadores firmaram-se como a elite política e econômica; os que se sustentaram da escravidão e cuja expansão geográfica expulsou os indígenas, ou que os incorporaram ou exploraram sua força de trabalho; lembrando que indígenas e escravizados articularam diferentes formas de resistência, entre várias outras questões.

À ponderação, os primeiros respondem reconhecendo a necessidade de cautela e rigor na análise e na denúncia, ainda assim firme e contundente, de estruturas e das táticas que as sustentam, inclusive como produtos históricos, uma análise que deve servir à luta política e à resistência, à solidariedade entre povos que enfrentem ou não condições semelhantes de opressão. (Foto: Posto de controle militar israelense em Hebron, na Palestina ocupada. Moara Crivelente)

Trabalhos cautelosos não faltam entre autores palestinos, israelenses e estrangeiros que analisam a “Questão Palestina” do ponto de vista do colonialismo e do imperialismo ainda hoje atravancando a História. Para Omar Salamanca, Mezna Qato, Kareem Rabie e Sobhi Samour, editores de uma importante coletânea de 2012 dedicada a esta discussão – Past is Present: Settler Colonialism in Palestine (“Passado é Presente: Colonialismo de Povoamento na Palestina”, sem tradução) – é necessária uma abordagem internacionalista na qual “a luta palestina contra o colonialismo sionista de povoamento só pode ser vencida se inserida nas e potencializada pelas lutas mais abrangentes – todas anti-imperialistas, antirracistas e que lutem por fazer outro mundo possível.”

Colonialismo, ocupação militar e violações

Hoje existem mais de 130 colonatos classificados apenas por Israel de “regulares” – e tratados como “comunidades” – com 570 mil habitantes, de acordo com a ONU, em um território palestino fragmentado em inúmeras porções cercadas, muradas ou desconectadas por postos de controle militar e diferentes categorias de permissão para movimentação ou estradas segregadas. Tudo isso dentro do zoneamento em frações de controle militar e civil completo ou partilhado entre Israel e a Autoridade Palestina (as zonas A, B ou C), proporcionado por um “processo de paz” lançado ainda em 1993, cujo legado é a ocupação entranhada.

No final de novembro, dias após o avanço da proposta de lei para regularizar entre 50 e 100 “postos” construídos em mais de 800 hectares de terras palestinas e habitados por colonos israelenses de forma irregular até mesmo nos padrões de Israel, o relator especial da ONU Michael Lynk disse que a “legalização retroativa” dos colonatos, cuja maior parte foi estabelecida em terras palestinas privadas, “será outro prego no caixão da solução de dois Estados”. Ou seja, enterra-se, como já fartamente denunciado, o estabelecimento efetivo do Estado da Palestina e a vigência do direito à autodeterminação do povo palestino, há 68 anos pendentes.

Candidato à reeleição, Benjamin Netanyahu discursa diante das construções na colônia de Har Homa,
em Jerusalém Oriental, palestina, em março de 2015. (Foto: Olivier Fitoussi / Haaretz)

Quer sejam “postos irregulares” ou “colonatos”, segundo as Convenções de Genebra – instrumentos do Direito Internacional Humanitário que regula os conflitos armados – ambos são violações. A transferência de população nas circunstâncias de uma ocupação militar é, mais especificamente, uma violação da Quarta Convenção de Genebra de 1949, ratificada por Israel em 1951. Apesar do peso da denúncia, estas constatações não são novidade, sobretudo no período do atual governo de Benjamin Netanyahu, iniciado em 2009 na missão bem-sucedida de expandir os colonatos israelenses na Palestina.


Aliás, estes são argumentos e regulamentos que as autoridades israelenses não ignoram, como já vastamente notado. Os promotores da ocupação, da colonização da Palestina e da “limpeza étnica” de um povo que insiste em resistir alegam contestar as “interpretações” dos que recorrem ao direito internacional para denunciar a nakba, a catástrofe contínua.

À maquinaria trabalhando para transformar a linguagem jurídica a favor da ocupação nunca falta combustível. Especialistas há tempos classificam a prática de lawfare: conduzir a ofensiva, direta ou indireta, através – e não apesar – do direito, instrumentalizado como uma arma. O termo ficou conhecido no Brasil com a denúncia do “constitucionalismo” para legitimar o ilegítimo – como o golpe de Estado e a perseguição política na tendenciosa Lava Jato – mas foi cunhado em 2001 pelo general estadunidense Charles Dunlap, que rechaçava assim a oposição às guerras imperialistas e a denúncia dos crimes em que elas se sustentam como violações do direito internacional.

Bairro murado palestino em Jerusalém Oriental, Shuafat. Foto: Moara Crivelente.
Para legitimar a ocupação e a colonização da Palestina, o princípio é semelhante, envolvendo acadêmicos, jornalistas, líderes políticos, organizações não-governamentais e até o Exército, com um departamento específico para isso, ajudando a promover uma anexação da Palestina apresentada no “juridiquês”. No esforço está incluída a justificação do encarceramento massivo dos palestinos, as constantes ofensivas militares, o bloqueio à Faixa de Gaza, a construção do muro de cerca de 800 quilômetros de extensão, as diferentes permissões ou proibições da movimentação, a destruição de casas e plantios pelo próprio Exército ou por colonos frequentemente protegidos pelos soldados, entre outras expressões do controle militar e colonial de Israel sobre a Palestina.

Legalizar “postos irregulares” é mais uma mensagem inequívoca do objetivo das forças mais extremistas em Israel de anexar a Palestina, mensagem já emitida, por exemplo, em 1980, quando uma lei estendeu a gestão israelense a Jerusalém Oriental, trocando o termo “anexação” da porção palestina por “unificação” da cidade. Membros do atual gabinete do governo de Benjamin Netanyahu em Israel também já disseram-no abertamente, como o ministro da Educação Naftali Bennett.

Esta "ambição abertamente afirmada deveria alarmar os interessados em ver o direito internacional respeitado e todos aqueles que desejam uma paz duradoura para todos os habitantes de Israel e da Palestina", disse o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al-Hussein, nesta quinta-feira (8). O alto-comissário reafirmou que os colonatos -- "regulares" ou não na lei israelense -- são o principal obstáculo à paz e a principal causa das violações dos direitos humanos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental ocupadas.

Da parte estadunidense, enquanto o secretário de Estado John Kerry e o diplomata Martin Indyk – no Fórum Saban entre líderes dos dois países promovido pelo Instituto Brookings – repetiam a ladainha sobre a teimosia do governo israelense a respeito das colônias que os EUA retoricamente condenam como “contra-producentes”, bilhões de dólares enviados anualmente ao setor militar de Israel e um inestimável apoio político garantem que a nakba siga adiante.

O direito ou as discussões conceituais não podem substituir a mobilização política contra as estruturas opressivas, mas podem ser uma ferramenta de luta. Colonialismo de povoamento, limpeza étnica e segregação racista – sejam comparáveis ou não as casos como o da África do Sul, segundo as discussões conceituais – são categorias que devem sustentar as denúncias do que é perpetuado e perpetrado na Palestina ocupada e da situação a que está submetido, jamais sem resistência, o povo palestino.


*Moara Crivelente é doutoranda em Política Internacional, diretora de Comunicação do Centro Brasileiro de Solidariedade entre os Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e assessora da Presidência do Conselho Mundial da Paz
Fonte: Vermelho