terça-feira, 13 de dezembro de 2016

100 anos de samba e a origem negra da música latina

Ricardo Beliel / BrazilPhotos
  

Quando você pensa na cultura da Argentina, que imagens ou expressões artísticas povoam a sua mente? É quase natural que o tango – e um casal de dançarinos sensualmente bailando ao som melancólico do acordeão – espete na cabeça, ao lado de outros clichês, como filmes de Darín, a tirinha da Mafalda e os pampeiros solitários de Borges.

Seja em solo brasileiro, seja no território de nuestros hermanos, certa musicalidade “genuína” parece conformar, e confirmar, aspectos importantíssimos da identidade nacional. Trata-se de uma construção cultural, com relevantes pitadas de política. De qualquer forma, essas duas manifestações rítmicas, cujo estabelecimento se deu há mais ou menos um século, têm em comum uma vigorosa origem afrodescendente, apesar de enfrentarem tentativas de branqueamento.

Não é à toa que dois homens negros assinem a autoria das primeiras músicas registradas do tango e do samba: respectivamente Rosendo Mendizábal e Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga.

Mas os tanguistas e sambistas não constituem os únicos grupos de musicistas do continente a contar com essa privilegiada ancestralidade. De Cuba ao Uruguai, a América Latina inteira deve a gênese e o desenvolvimento de sua música aos descendentes de africanos que aqui viveram ou vivem. Entre eles, o candombe, a salsa, a habanera e a rumba.

E quem tiver disposição para transpor a barreira física do Río Grande, achará muitas – praticamente exclusivas – impressões digitais de afro-americanos na geração do blues, do jazz, do rock, do pop e da gospel music.

Comecemos do nosso quintal, antes de olharmos para a grama dos vizinhos. Nestes dias que correm, celebram-se cem anos da composição da música Pelo telefone, que, com o tempo, passou a ser lembrada como o primeiro samba a ganhar o mercado fonográfico. Gravada no começo de 1917 por Baiano e Donga – este último, detentor do direito autoral da letra, após registro na Biblioteca Nacional –, tornou-se imediatamente um sucesso fabuloso, e talvez não houvesse folião carioca daquele Carnaval que não tivesse na ponta da língua os seus versos, que pediam o abandono das mágoas e anunciavam a chegada da alegria.

Reprodução do primeiro samba gravado, Pelo telefone. Por razões técnicas, não havia instrumentos de percussão nas gravações fonográficas dos primeiros sambas. Eles só foram incluídos nos discos a partir de 1929.

O hit veio embalado em polêmica. Frequentadores da casa de uma influente mãe-de-santo no centro do Rio de Janeiro, a baiana Hilária Batista de Almeida (conhecida como Tia Ciata), reclamaram parte na criação da música, que não seria filha somente de Donga – que, ao lado de figuras como Pixinguinha, também participava das celebrações promovidas por Tia Ciata.

A reivindicação deles fazia todo o sentido. Segundo a historiadora Fabiana Lopes da Cunha, espaços comunitários em geral liderados por mulheres constituíam o cerne da organização social e cultural de africanos e seus descendentes no Rio daquela época.

Tratava-se de uma população vulnerável às reformas urbanísticas cheias de megalomania que, desde a gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), buscavam transformar a região central do Rio num reflexo das grandes capitais da Europa, expulsando moradores pobres e negros para os morros circunvizinhos e os subúrbios. Tia Ciata, emigrada de Salvador no século XIX, habitava as imediações da Praça Onze, área que chegou a desfrutar do apelido de Pequena África antes de ser desmantelada pelo trator do “progresso”.

Ela e outras matriarcas baianas associadas ao candomblé costumavam promover festas e rodas musicais que, para muitos estudiosos, são o próprio celeiro do samba urbano moderno, “corroborando assim a tese de que este gênero teve uma origem coletiva e que tinha por finalidade alegrar, acompanhado por palmas e ao som rítmico dos batuques”, como escreve Cunha no livro Da marginalidade ao estrelato: o samba na construção da nacionalidade.

O pesquisador e compositor Nei Lopes nos lembra em seu Dicionário escolar afro-brasileiro que, antes do século XX, o termo samba era um 'genérico de várias antigas danças brasileiras de origem africana e da música que acompanha cada uma' delas.

O vocábulo, provindo do quimbundo semba (em que significa “umbigo”), possuía tanta difusão que já se fazia registrar inclusive em romances do final do século XIX, como o naturalista Bom-Crioulo, do cearense Adolfo Caminha. No texto, publicado em 1895 e que descreve o romance homossexual de um ex-escravo marinheiro, lemos que num certo navio da Marinha brasileira eram frequentes os “sambas à noite, na proa”. Uma alternativa lúdica às péssimas condições a que a tripulação – boa parte, afrodescendente – era submetida nas jornadas diárias.

O fato é que Pelo telefone integra um conjunto de composições que alterariam a paisagem rítmica do Rio naquela conturbada belle époque. Até então, nos carnavais pulava-se ao som de polcas, tangos, marchas. Ao longo dos anos 1920, o advento das rádios e de novas gravadoras ajudou a impulsionar e a moldar o samba carioca como um gênero musical distinto: os instrumentos de percussão, essa evidente herança de sociedades negras, só foram instituídos nos discos a partir de 1929, pelo Bando dos Tangarás, composto por figuras como João de Barro e Noel Rosa.

O samba carioca, além de ir conquistando o público, caiu na graça da intelligentsia modernista, ávida pela descoberta de “raízes genuínas” da cultura brasileira. Sintomático é que Macunaíma, livro de Mario de Andrade cujo protagonista é um mestiço de negro, índio e branco (algo como a “síntese” do que é “ser brasileiro”), tenha sido publicado pouco antes de Casa-grande e senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, obra de 1933 fundamental na construção da ideia de uma suposta “democracia racial” no Brasil.

Essa mentalidade se encaixaria como uma luva aos interesses dos poderes políticos que chegaram à Presidência após a Revolução de 1930. Por meio de representações culturais, em especial durante o Estado Novo (1937-1945), as autoridades buscavam transmitir a noção de harmonia racial num país cuja Abolição – canhestra – da escravatura mal completara cinco décadas. Foi assim que “o samba carioca começou a colonizar o carnaval brasileiro, transformando-se em símbolo de nacionalidade”, relata o antropólogo Hermano Vianna, em O mistério do samba.

“Na representação vitoriosa dos anos 1930, o brasileiro nasce, portanto, onde começa a mestiçagem. A mistura deixou de ser desvantagem para tornar-se elogio, e diversas práticas regionais associadas ao popular – na culinária, na dança, na música, na religião – seriam devidamente desafricanizadas, por assim dizer”, argumentam as historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, em Brasil: uma biografia.

A capoeira, a feijoada, o samba, todos concebidos em território brasileiro no contexto das diásporas africanas, passavam a ser 'nem brancos nem negros', signos de uma 'brasilidade' racial falsamente simétrica que, no fundo, apenas tentava relativizar suas origens africanas. Será por acaso que nossa 'embaixatriz do samba' é uma mulher branca nascida em Portugal?

Tango: um legado africano no Plata
Durante a era colonial, Buenos Aires foi um entreposto de venda de escravizados africanos (especialmente povos bantos, como angolas, congos, benguelas e moçambiques) para várias regiões da América hispânica, entre elas o Peru, a Bolívia e o Chile, além da vizinha Montevidéu. A população negra na cidade que se tornaria a capital da futura Argentina somava números expressivos ao fim do século XVIII, perfazendo metade da dos brancos.

A partir da virada do Oitocentos, do processo de emancipação da Espanha e da consolidação do território nacional, os governos locais puseram em marcha sucessivas políticas racistas com o sentido de reduzir e eliminar a presença de afrodescendentes no país: recrutando-os forçadamente para guerras e até estimulando-os à emigração. Doenças como a febre amarela também contribuíram para a diminuição de afro-argentinos no período.

Como não poderia deixar de ser, no entanto, africanos e seus descendentes legaram uma gigantesca herança para a cultura local. O que se considera hoje uma das expressões finas da alma portenha, o tango, tem traços africanos do nome ao ritmo.

Explica-nos a musicóloga Isabelle Leymarie, em seu livro Del tango ao reggae. Músicas negras de América Latina y del Caribe: “Os rituais congos [dos africanos chegados à região] se chamavam candombes (que, segundo certa etimologia, provém do banto ka n’dombele, ‘rezar aos deuses’) ou também tambús ou tangos.” Por sinal, o termo milonga, que define um famoso estilo de canto ao violão muito associado ao tango e aos pampas, igualmente provém de uma língua banto, o quimbundo, e originalmente significa “palavras”, “discussão” ou “lamento”.

Na transição do século XIX para o XX, Leymarie diz que músicos negros argentinos se tornaram “os primeiros compositores de tango de salão, contribuindo para lhe dar o seu sabor característico”. Entre os quais, o já mencionado Rosendo Mendizábal (autor, em 1897, do primeiro tango registrado em partitura, El entrerriano) e o pianista Alejandro Vilela. “Mais tarde, o pianista e bandoneonista Enrique Maciel e o bandoneonista Ernesto Natividad de la Cruz lhe deram uma fisionomia mais moderna.” Outro nome que se destaca no tango do período é o de Gabino Ezeiza, nascido no bairro negro de San Telmo, em Buenos Aires.

O enorme afluxo de imigrantes brancos trouxe aportes europeus para o tango, que, depois de experimentar uma profícua temporada em Paris na década de 1910, espalhou-se pelo mundo (chegando mesmo ao Brasil). O êxito na Europa tornava o tango bastante mais palatável à elite bonaerense; não tardaria para que esse estilo se transformasse, algo como o samba no Brasil, numa espécie de representação da “identidade argentina” – devidamente embranquecida, é óbvio.

Candombe, habanera, calipso, salsa e muito mais
Na margem oposta do Río de la Plata, o candombe, elaborado por escravizados bantos, segue como um dos gêneros musicais e dançantes mais característicos do Uruguai. Assim como o samba e o tango, tornou-se patrimônio da humanidade reconhecido pela Unesco. Notável pela utilização de três tambores (“repique”, “piano” e “chico”), o candombe se originou em manifestações ritualísticas vinculadas à coroação dos reis congos, organizadas por escravizados em solo americano já no século XVIII.

Essas celebrações, que fundiam religiões africanas ao catolicismo, agregando-lhes elementos políticos (a tentativa de emular uma realeza africana entre os escravizados), perderam os seus aspectos místicos, mas ainda se conservam musicalmente, sendo bastante populares no Carnaval uruguaio. Em Minas Gerais, no Brasil, o candombe sobrevive em sua dimensão religiosa no Congado, com cerimônias ao longo do calendário.

Martinho da Vila já disse que 'toda a música das Américas, dançante ou não, tem origem no continente africano'. Constatamos isso facilmente, de acordo com ele, observando desde a “contagiante música ligeira cubana”, além da habanera (nascida em meados do século XIX e que se alastrou pelo mundo como fogo em palha seca), até o funk e as sonoridades antilhanas, que nos presentearam com o reggae, por exemplo. Os mais recentes calipso e salsa, com seus tambores, são gêneros caribenhos que se espalharam pelo globo no fim do século passado. Sucessos ainda mais próximos de nós, os fenômenos do zouk e do kuduro parecem atestar a nossa permanente vocação latina para as musicalidades de África.
 

Fonte: Calle 2 via Vermelho

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Jandira Feghali: Falta coragem política


Foto: Reprodução/Flickr
  
Um, alçado ao poder num golpe execrável contra a democracia, é sustentado por lobos famintos em seus interesses nada republicanos. Sem voto, Temer tem mantido um governo voltado para rentistas, burocratas e uma elite conservadora. Ressuscita um projeto fracassado nas urnas tantas vezes e tenta, como um anão moral que é, fazer valer reformas que surrupiam direitos da população.

O mesmo acontece no Rio, onde a dupla Pezão / Dornelles tenta impor um pacote de maldades que suprime direitos sociais e tenta ampliar, de forma covarde, a contribuição de servidores ao Estado. Tentou acabar com o aluguel social, o bilhete único, renda jovem, entre outros. Sem transparência nas isenções fiscais e nos contrato de terceirização, falta de planejamento, além de denúncias de desvio de recursos no governo Sergio Cabral, fica cada vez mais obscura a fronteira para a população fluminense.

É muito mais fácil para eles apontar seus canhões para o trabalhador quando há muito dinheiro em dívidas de milionários ou várias empresas com seus impostos desonerados, a exemplo de joalherias (não é mesmo, Cabral?).

Esse tipo de covardia se repete na esfera nacional, com a proposta de Temer em triturar a aposentadoria dos brasileiros. E quem paga essa conta? Justamente os cidadãos mais jovens ou que estão prestes a se aposentar. Muitos contribuintes só conseguirão alcançar seu benefício com praticamente 70 anos.

Não haverá saída para o país ou o Estado do Rio se não houver esforço para tributar grandes fortunas, reformar o sistema tributário, incentivar a cadeia produtiva, o conteúdo nacional e cobrar as dívidas das empresas. Não basta cortar recursos através de PECs ou exigir mais dos servidores e aposentados. São saídas perversas.

Enquanto não houver uma agenda avançada e sensível socialmente, com altivez e coragem política para implementá-la, sustentada por governos eleitos, não teremos saídas justas para nossa gente.

* É médica, deputada federal (PCdoB/RJ) e líder da oposição


Fonte: Vermelho

Pesquisa Datafolha: 63% querem a renúncia de Temer e diretas já


Foto: Jorge William / Agência O Globo
 Cresce a rejeição a Temer e o desejo de novas eleições para presidente Cresce a rejeição a Temer e o desejo de novas eleições para presidente
A pesquisa revela que 63% dos entrevistados, ou seja, a maioria da população brasileira, quer a renúncia de Michel Temer ainda em 2016 para que possam ser convocadas novas eleições diretas para presidente. O desejo dos brasileiros guarda sintonia com outro dado da pesquisa: a queda da popularidade de Temer. Em julho, quando ainda ocupava interinamente a presidência em razão do afastamento de Dilma Rousseff, Temer tinha sua gestão avaliada por 31% da população como ruim ou péssima. Na pesquisa divulgada hoje a avaliação negativa chega a 51%, novamente a maioria da população. A pesquisa foi realizada nos dias 7 e 8 de dezembro, antes da divulgaçãoo da delação do diretor da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, que envolve Temer e seu núcleo político em denúncias de pagamento de propinas.

No mesmo período de julho a dezembro, a expectativa da população com a economia do país piorou. Segundo a Folha de São Paulo, “a situação econômica do país piorou na avaliação de 65% da população e se manteve como estava para 25%; 9% disseram que houve melhora”.

O jornal afirma ainda que “para 66%, a inflação vai aumentar; 19% apostam que ficará como está e 11% preveem queda. O crescimento do desemprego é aguardado por 67%. Outros 16% disseram que diminuirá e 14% acham que fica estável’. Em pleno período de compras natalinas 59% acham que o poder de compra vai cair, 20% acha que não sofrerá alterações e 15% ainda espera que aumentará”. Sobre a situação pessoal do entrevistado, diz a Folha “a percepção de piora recente corresponde a 50% dos brasileiros. Para 38%, ficou como estava e 10% disseram que melhorou”. 


 Do Portal Vermelho, com informações da Folha de São Paulo

Proposta de reforma da Previdência é 'um monstro', afirma Paim


Agência Senado
Senador Paulo Paim: "(A reforma é) uma proposta truculenta, que é quase uma ofensa ao povo brasileiro".Senador Paulo Paim: "(A reforma é) uma proposta truculenta, que é quase uma ofensa ao povo brasileiro".
O senador afirmou que as alterações no sistema previdenciário não vão passar do jeito que estão e pediu aos brasileiros que esqueçam rivalidades políticas para se unirem contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, que está tramitando na Câmara.

"Não acredito que essa reforma seja para valer. Não é que o governo não queira fazer uma mudança e esteja aqui para brincar com o Senado e com a Câmara. Claro que não é isso. Mas mandou uma reforma irreal, absurda, tipo aquela história do bode na sala. Uma proposta truculenta, que é quase uma ofensa ao povo brasileiro - afirmou.

Para Paulo Paim, existem outros meios de se enfrentar os problemas atuais do sistema, como o combate à sonegação, à fraude e à corrupção.

- Estou com o projeto na mão. Fiquei abismado com esse relatório. Como é que alguém pega uma revolução como esta, uma revolução do mal... E diga-se de passagem: não atinge os poderosos; só atinge os trabalhadores. Dizem que vão economizar R$ 650 bilhões. De onde saem? Dos bancos? Dos grandes empresários? Nem um centavo. Saem do trabalhador - disse.

Vídeo explicativo

O senador recomendou a todos que assistam ao vídeo produzido pela Frente Parlamentar em Defesa da Previdência Social, da qual ele é um dos coordenadores, mostrando "a farsa do déficit previdenciário". A publicação está em todas as redes sociais e tem mais de um milhão de acessos, segundo ele.


Confira o vídeo:




Fonte: Agência Senado via Vermelho

Intelectuais pelo Fora Temer e todos os retrocessos que representa




O vídeo conta com a participação de:

Amélia Cohn
Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer
André Singer
Clarice Cohn
Eleonora Menicucci
Erminia Maricato
Francisco de Oliveira
Gabriel Cohn
Gilberto Maringoni
Heloisa Buarque de Almeida
Jaime Oliva
Jean Tible
João Adolfo Hansen
João Vergílio Cuter
Kabengele Munanga
Kenarik Boujikian
Laura de Mello e Souza
Leon Kossovitch
Luiz Alberto Moniz Bandeira
Marcia Tiburi
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Maria Rita Kehl
Michael Löwy
Newton Bignotto
Olgária Matos
Pablo Ortellado
Paul Singer
Paulo Arantes
Paulo Sérgio Pinheiro
Pedro Estevam Serrano
Raquel Rolnik
Roberto Schwarz
Ruy Fausto
Sérgio Cardoso
Sérgio Rezende
Vladimir Pinheiro Safatle
Walnice Nogueira Galvão
Valéria Villela
 

Do Portal Vermelho


Vídeo: Coletivo "Em Defesa dos Direitos Conquistados"

Fábio Konder Comparato: um Judiciário sem controle algum


Fábio Konder ComparatoFábio Konder Comparato
Confira:

JusDh: O pedido de impeachment de Gilmar Mendes aponta um comportamento partidário por parte de Gilmar Mendes, e acusa o ministro de ferir a Constituição, o Código de Ética e a Lei Orgânica da Magistratura. O senhor considera que a postura do Ministro é uma postura isolada dentro do STF?
Fábio Comparato: De todos os atuais Ministros do Supremo Tribunal Federal, o desempenho de Gilmar Mendes é o que mais deixa a desejar. É por isso que decidimos ingressar com o pedido de impeachment, exatamente para alertar os demais Ministros e a opinião pública quanto ao perigo de generalização desse mau procedimento. Na verdade, atualmente os Ministros de nossa Suprema Corte de Justiça não estão sujeitos a controle jurídico algum, pois não há nenhum Poder acima do tribunal e dos magistrados que o compõem. A Constituição Federal dispõe em seu artigo 102 competir precipuamente ao Supremo Tribunal Federal “a guarda da Constituição”. O Conselho Nacional de Justiça é um órgão constitucional, com competência para controlar o cumprimento dos deveres funcionais dos juízes, declarados no Estatuto da Magistratura (art. 103-B, § 4º). Ninguém pode negar, nem mesmo o Ministro Gilmar Mendes, que os Ministros do Supremo Tribunal Federal fazem parte da magistratura e devem, por conseguinte, cumprir os deveres impostos pelo Estatuto da Magistratura. Ora, abusando de sua condição de instância judiciária máxima, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade 3.367 do Distrito Federal, decidiu que “o Conselho Nacional de Justiça não tem nenhuma competência sobre o STF e seus Ministros”. Ou seja, o tribunal decidiu isentar-se do cumprimento de qualquer dever funcional, ainda que previsto na Constituição, da qual foi declarado guardião.

Esse não a primeira vez que um pedido de impeachment de um ministro do STF foi protocolado no Senado Federal. Até o momento, nenhum desses pedidos foi acatado pelo Senado. O senhor avalia que há dificuldade em colocar em questionamento as posturas e decisões do STF? Por quê?
Levando-se em conta que os Senadores são sujeitos à jurisdição do Supremo Tribunal Federal nas infrações penais comuns, e sabendo-se que vários dos atuais Senadores respondem a inquéritos criminais, ou já são réus em ações penais, é óbvio que o Senado Federal não é o órgão apropriado para julgar os crimes de responsabilidade cometidos pelos Ministros do Supremo Tribunal. Consta, aliás, que Sua Excelência, o Sr. Presidente do Senado Federal, responde a inquérito criminal no Supremo. Ora, ele, evidentemente, assim que recebeu a petição de impeachment de Gilmar Mendes, determinou o seu arquivamento. Ou seja, aplicou-se o velho costume do “dá lá, toma cá”.

De que forma a composição do Sistema de Justiça contribuiu para a manutenção de uma prática pouco democrática e que nem sempre observa a garantia dos direitos humanos?
Até a promulgação da Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35, de 14/03/1979), não eram definidos os deveres funcionais dos magistrados. E até a promulgação da Emenda Constitucional nº 45, de 8/12/2004, que instituiu o Conselho Nacional de Justiça, não havia nenhum órgão de controle da atuação dos magistrados, incumbido de julgar o cumprimento de tais deveres. Verificamos, portanto, que durante um século e meio após a Independência, os nossos magistrados atuaram isentos de qualquer controle, a não ser o mui esporadicamente exercido por eles mesmos.

Dois exemplos históricos são ilustrativos dessa tradição de irresponsabilidade.

Em sua viagem ao redor do mundo, pela qual comprovou sua teoria da evolução das espécies, Charles Darwin fez uma estadia de vários meses no Brasil em 1832. Pôde então verificar o seguinte, conforme reportado em seu diário de viagem:

“Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer vantagem sobre os miseráveis e os pobres”.

O segundo exemplo diz respeito ao Supremo Tribunal de Justiça, o mais alto órgão judiciário no tempo do Império. Ao final do seu reinado,em declaração ao Visconde de Sinimbu, D. Pedro II não pôde conter-se e desabafou:

“A primeira necessidade da magistratura é a responsabilidade eficaz; e enquanto alguns magistrados não forem para a cadeia, como, por exemplo, certos prevaricadores muito conhecidos do Supremo Tribunal de Justiça, não se conseguirá esse fim”.

Quais caminhos e possibilidades o senhor considera necessário para tornar o Sistema de Justiça menos intangível, no que se refere à sua composição e na avaliação de suas próprias ações?
Desde sempre a magistratura brasileira, com raras e mui honrosas exceções, fez parte integrante do poder oligárquico, que predominou em nosso país desde o início da colonização portuguesa. Ora, um costume multissecular, entranhado na mentalidade coletiva e preservado pelas instituições políticas, não desaparece em pouco tempo. O processo de reforma em profundidade do Poder Judiciário será, portanto, concomitante ao processo de extinção do regime oligárquico; ou seja, não se fará da noite para o dia e, uma vez iniciado (o que ainda não aconteceu), irá durar várias gerações. O que se pode fazer hoje para provocar o início desse processo é propor algumas medidas específicas, as quais, como o pedido de impeachment de Gilmar Mendes, serão no começo certamente denegadas, mas, sendo reiteradas, acabarão por abalar a opinião pública, abrindo os olhos da maioria do povo, que não faz parte da oligarquia. Uma dessas medidas é a transformação do Supremo Tribunal Federal em Alta Corte Constitucional, reduzindo a sua competência e determinando que a nomeação de seus Ministros seja feita pelo Congresso Nacional, dentre candidatos escolhidos preliminarmente pelo Conselho Nacional de Justiça, o Conselho Superior do Ministério Público e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. É o que consta da Proposta de Emenda Constitucional nº 275/2013, por mim redigida e apresentada à Câmara dos Deputados pela Deputada Luiza Erundina. A segunda medida é a reorganização do Conselho Nacional de Justiça, a fim de que ele não seja composto por uma maioria de magistrados, como agora, e passe a ter explicitamente jurisdição sobre os Ministros do Supremo Tribunal Federal. A terceira medida seria, simplesmente, reintroduzir em nossa Constituição a ação popular contra magistrados, como determinavam os artigos 156 e 157 da Constituição de 1824:

Art. 156 – Todos os Juízes de Direito e os Oficiais de Justiça são responsáveis pelos abusos de poder e prevaricações que cometerem no exercício de seus Empregos; esta responsabilidade se fará efetiva por Lei regulamentar.

Art. 157 – Por suborno, peita, peculato e concussão, haverá contra eles ação popular, que poderá ser intentada dentro de ano e dia pelo próprio queixoso, ou por qualquer do Povo, guardada a ordem do Processo obedecida na Lei.


Fonte: JusDH, entrevista de Franciele Petry Schramm via Vermelho

Flávio Dino defende frente ampla pela democracia e o desenvolvimento


Foto: Gilson Teixeira
  
Em sua sala no Palácio dos Leões, sede do governo do Maranhão, em São Luís, o governador Flávio Dino (PCdoB) guarda um altar. Nele estão imagens de líderes revolucionários: à esquerda, o vietnamita Ho Chi Minh, no meio, o chinês Mao Tsé-Tung e ao seu lado, o chileno Salvador Allende. Diante do trio repousa o Livro Vermelho e outra obra, O pensamento de Che Guevara. Na parede à direita está uma grande pintura de São Francisco de Assis. A junção entre as figuras históricas e o frade italiano evidencia o perfil do único governador comunista do Brasil. Suas marcas são justiça social, proteção dos mais pobres e defesa da igualdade. Caminha sempre “do lado esquerdo do rio da vida”, mesmo que sinuoso.

Depois de mais de meio século de oligarquia Sarney, Dino ganhou a eleição em primeiro turno, com mais de 63% dos votos válidos, na segunda vez em que disputou o cargo. A vitória é sinal de mudanças no eleitorado maranhense. No pleito municipal, o PCdoB passou de cinco prefeituras para 46. A base aliada montada por Dino, que inclui PT e PSDB (de seu vice, Carlos Brandão), levou 150 dos 217 municípios. O partido foi flexível com as novas adesões. Recebeu filiações do PT, PDT, PV e até do PMDB, de José Sarney e Michel Temer.

Mas Dino não passou pelas dificuldades de quem vive nas áreas vulneráveis do Maranhão, estado mais pobre do país. Nasceu em São Luís, em 30 de abril de 1968. É filho dos advogados Rita Maria e Sálvio Dino, também político. Estudou no Colégio Marista, onde se tornou líder do movimento estudantil e integrou o coro pelas Diretas Já e pelo impeachment de Fernando Collor de Mello. Formou-se bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Exerceu o cargo de juiz federal por 15 anos até se tornar político, em 2006. Filiou-se ao PCdoB. Foi presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), lugar que ocupou até se candidatar.

Teve quatro filhos: Vinícius, Marcelo, Artur e Davi. Perdeu Marcelo, aos 13 anos, em um atendimento médico confuso, que não conseguiu conter uma crise de asma. A essa dor chamou de “amputação irreparável”.

Fã do papa Francisco, acredita que a fé é importante, mas para enfrentar o momento conservador que o Brasil atravessa é preciso montar uma frente única de esquerda. Para ele, isso depende de Lula.



Brasileiros: Governador Flávio Dino, o Maranhão parece ter se tornado o estado da resistência: elegeu pela primeira vez um governador do Partido Comunista do Brasil e confirmou a preferência pela esquerda nas eleições municipais. Como o senhor avalia esse fenômeno? 

Flávio Dino: É um sinal claro de aprovação ao governo. Como houve um poder longo, continuado, duradouro e muito cristalizado, é natural que não seja em um ano ou dois que isso desapareça. Assim como em 2014, creio que em 2016 também houve uma espécie de plebiscito, comparando esse longo passado de domínio oligárquico, coronelista, com essa experiência nova, de um ano e dez meses de governo.

O senhor tem afirmado que é necessário criar uma frente política para unificar a esquerda e “olhar para frente”. O que quer dizer?


É importante não valorizar tanto a absurda cobrança de que a esquerda tem que fazer autocrítica, que vem dos setores políticos que não têm nenhuma autoridade para cobrar autocrítica da esquerda. É evidente que a revisão de caminhos e decisões é necessária para você não cometer os mesmos erros e aprender com caminhos que não se revelaram os melhores. Mas não é essa a questão principal, senão você não sai do lugar, fica preso a esse debate de quem errou mais e acaba se colocando em uma posição de uma espécie de tribunal da história. Nós estamos numa situação de muita defensiva até no terreno internacional, é um caminho difícil, de interdição de debates. Uma tentativa de impor uma agenda única como verdade absoluta. Um caminho de retrocessos sociais. Às vezes, da escuridão nasce a luz. É mais ou menos por aí que eu imagino que a frente atuaria.

Como se daria esse processo?


Quando tivemos experiências frentistas em outros países do mundo, derivou exatamente de contextos de dificuldades. A Frente Ampla Uruguaia surgiu num momento em que a esquerda não encontrava expressão institucional em razão da força de uma bipolarização que havia entre duas correntes partidárias do campo conservador. Foi a necessidade de constituir uma frente partidária junto com movimentos sociais que acabou criando a corrente política que se tornou a mais forte 20 ou 30 anos depois da sua fundação. Quando você vê a conjuntura chilena, era difícil fazer a transição do regime ditatorial do [Augusto] Pinochet para uma democracia política tão frágil naquele momento, que era fortemente tutelada pelo próprio Pinochet e pelos militares. Aí surge a Concertación [de Partidos por la Democracia], ultrapassando ressentimentos do passado entre os socialistas, comunistas e democratas cristãos. Ressentimentos atinentes ao próprio governo do (Salvador) Allende, que poderiam determinar que não houvesse essa união nunca. Quem foi o culpado da queda do governo do Allende? Se eles ficassem discutindo isso não teria surgido a Concertación chilena e muito provavelmente as correntes à direita teriam conseguido prorrogar seu poder. Isso vale para a Frente Sandinista, vale para o rearranjo partidário na Itália após a devastação da Operação Mãos Limpas, vale num certo sentido, embora tenha resultado numa derrota, para a tentativa de uma Frente Popular na França para resistir ao nazismo, que os espanhóis depois não conseguiram fazer e por isso o Francisco Franco acabou sendo vitorioso na Guerra Civil Espanhola. Em todos os momentos históricos de retrocesso, de perda de direitos, de defensiva do campo progressista, sempre se encontra uma saída em arranjos institucionais mais amplos. Por isso eu tenho falado na frente, como um caminho para você sair do canto do ringue, que é mais ou menos onde a esquerda acabou ficando no Brasil, objetivamente.

Em que momento aconteceu esse crescimento das correntes conservadoras no Brasil?


Em 2014 esse crescimento era nítido. Isso vem de 2013. Se você observa o que aconteceu em 2013, compreende muito claramente o que aconteceu em 2016. As sementes foram plantadas ali. Aquela disputa de ideias que nós perdemos definiu quase tudo o que veio depois. Até o impeachment, até este momento atual, tudo foi semeado na perda ideológica que nós tivemos naquele momento. Para sair disso, sugiro, proponho e tenho sustentado que você não pode ser exclusivista, não pode ter monopólio de verdade e de virtude e sobretudo tem que voltar a seduzir a sociedade. Porque há um apartamento, um distanciamento, um fosso brutal, da política institucional em relação ao povo. E a esquerda tem sua participação. Ela perdeu aderência, a capacidade de atrair setores mais amplos. Os resultados eleitorais mostram isso, o impeachment mostra isso.

Como a esquerda pode recuperar esse lugar?


Uma possibilidade seria uma longa trajetória de acúmulo novamente, como fizemos nos anos 1970 e 1980. Paradoxalmente, temos pontos de apoio muito poderosos de onde se pode reconstruir rapidamente uma posição política mais forte. Por isso que eu proponho uma frente que tivesse esse sentido tático. Não uma frente estratégica, que debata longamente se a via é insurrecional ou não, não é nada disso. É uma frente tática contingencial em torno de um programa político de reforma, de defesa da democracia, do Estado de Direito, do desenvolvimento e da distribuição de renda.

De 2013 para cá, houve alguma mudança na aceitação dessa proposta?

Acho que há muita indefinição ainda. Tem muita gente sustentando essa posição. Agora, eu não vejo nenhum ator político que tenha a relevância e a força que o ex-presidente Lula tem. Embora eu não seja adepto da visão de que a história depende dos indivíduos apenas, por outro lado, em momentos históricos importantes, a atuação de determinados indivíduos é decisiva. Então, a evolução disso depende em larga medida das posições que o presidente Lula venha a defender. É possível fazer uma frente de esquerda no Brasil sem o PT? Claro que não. Então, eu me sinto mais ou menos nessa situação: um ator de um outro partido esperando um pouco o debate do PT, a posição do Lula.

Sobre o pleito para presidente em 2018, quem o senhor vê como candidato mais provável da esquerda? 

Até onde a vista alcança nós temos dois nomes postos, que são mais naturais: o ex-presidente Lula, uma liderança popular incontestável e impressionante, porque mantém a liderança nas pesquisas mesmo diante de dois, três anos de desconstrução de imagem; e quem mais acumulou além dele fora do PT é o Ciro [Gomes, do PDT], pela sua experiência e clareza de posições. Repito: até onde a vista alcança. Nós estamos num terreno de muita imprevisibilidade. Tem aquelas interrogações relativas à conjuntura econômica. A economia volta a crescer, não volta a crescer? O efeito do desemprego é uma chave de análise de conjuntura determinante e que não está nítida ainda. A própria dita reforma política, partidária, etc. Teremos frente, não teremos? É outra chave de conjuntura que não está clara. Temos a Operação Lava Jato, que ninguém sabe o que vai acontecer. Na hora em que você soma todas as variáveis, é muito difícil hoje fazer previsões, não só em relação à esquerda, mas em relação a todos os campos políticos. A indefinição é geral. Basta fazer a seguinte pergunta: quem é o candidato do PSDB? Ninguém sabe.

O senhor acha que o Brasil está correndo o risco de uma eleição indireta em 2017? 

Acho que é muito difícil realmente essa hipótese, falando politicamente. Eu apostaria mais numa acomodação em torno do governo do Michel Temer do que numa eleição indireta, que seria uma outra instabilidade dentro do campo político que fez o impeachment. Dependeria de uma decisão judicial do TSE, que também acho muito difícil que ocorra, por uma série de razões não jurídicas.

Como jurista, o que o senhor pensa sobre a Lava Jato e o uso da delação premiada como sua ferramenta principal? 

A Operação Lava Jato tem muito mais acertos do que erros, sem dúvida. Tem um mérito indiscutível de revelar fatos absurdos, graves, envolvendo o uso indevido de dinheiro público. Porém, como tudo na vida, não pode ser santificada. Eu sou católico, apostólico, romano no terreno da fé, da metafísica. No terreno do mundo sensível, visível, material, não consigo enxergar nem pessoa nem instituição que sejam isentas de defeitos. Óbvio que a Operação Lava Jato não pode fugir a essa regra – e seus atores também não podem. Há problemas, um deles é o modo como certos institutos processuais têm sido usados. Nenhum jurista brasileiro, isento, independente, vai discordar de uma constatação segundo a qual o direito brasileiro foi reescrito nos últimos dois anos. Muita coisa que nós aprendemos que era de um jeito, de repente virou de outro.

Por exemplo?


O cabimento ou não de prisão preventiva. Nós todos aprendemos que era extrema, excepcional, temporária, dificílima de manter, relacionada a fatos processualmente objetivos. Aprendemos de um jeito. Hoje a prisão preventiva está absolutamente banalizada. No longo arco da história, que é muito maior que a conjuntura, isso não me parece correto. A mesma coisa se dá em relação a esses institutos do chamado “Direito premial”, por exemplo, a delação premiada, leniência, etc. São experimentos novos no Brasil e que têm se prestado a uma série de incongruências internas ao sistema. Nós temos pessoas que cometeram fatos gravíssimos e que estão soltas. E pessoas que cometeram fatos menos graves e estão condenadas a 40 anos de prisão por em algum momento terem sido objeto de delação de a, b ou c, sabe Deus em que conjunturas. Quando você está no calor dos acontecimentos é muito difícil discernir isso. Aristóteles diz isso quando trata das condições de julgamento. Fala que a proximidade do juiz em relação ao objeto que ele julga acaba gerando distorções. Estamos no meio do processo. Daqui a alguns anos vai ficar muito evidente que nós vivemos em um período em que vigorou uma espécie de “Direito excepcional”. O que é quase uma antinomia porque o Direito existe para dar a nós todos uma certa margem de segurança e de previsibilidade nas relações sociais. No momento em que as regras são umas hoje e amanhã podem ser quaisquer outras, você tem uma perda da própria função do Direito enquanto constituição humana, enquanto construto cultural. Por exemplo, um delator fala alguma coisa hoje e daqui a duas semanas ele muda de ideia. Isso vai gerando um esgarçamento da função do Direito. Acho que esse é o grande ponto de interrogação em relação à Operação Lava Jato. Os méritos e acertos do combate à corrupção são indiscutíveis. A questão é saber, falando do ponto de vista jurídico, se isso justifica qualquer coisa. A meu ver, não. É esse cuidado que está faltando em quem hoje exerce funções no Direito de um modo geral.

Que relação há entre resolver a corrupção e solucionar a injustiça social?

Você não pode achar que é apenas em razão da corrupção política que o Brasil é injusto como é. Isso é um desserviço ao país. Impõe-se um tema, esse tema aparentemente passa a ser a única fonte de problemas, e com isso você oculta outros tantos problemas tão ou mais graves, e outras tantas corrupções tão ou mais graves. Por exemplo, a desigualdade obscena que existe, a injustiça ínclita, inerente ao sistema tributário no Brasil, em que as pessoas mais ricas pagam menos tributos que as pessoas mais pobres. Isso não é uma forma de corrupção? No Brasil hoje ninguém debate isso. Porque se impôs uma agenda única. Claro que você tem que combater a corrupção política nos termos da lei, segundo as regras do jogo constitucional. Mas não pode ser vendido como ilusão, em que feito isso o Brasil será outro. Ou que a Operação Mãos Limpas na Itália não deu certo porque os políticos não deixaram. Pelo amor de Deus. Quem estuda a Operação Mãos Limpas a sério sabe exatamente que ela chegou aos seus limites e que não foi por conta dos políticos. Foi porque chegou num limite social e a sociedade resolveu eleger o Berlusconi. Isso não foi culpa dos políticos.

Esse tipo de pensamento também contribui para enfraquecer a crença nos partidos políticos? Abre um caminho para o fascismo?

É o que está acontecendo no Brasil. Um grupo é arregimentado, reunido para invadir a Câmara dos Deputados [em novembro pessoas invadiram a Câmara e pediram intervenção militar]. Isso não é uma coisa qualquer. É um escândalo. Aquelas pessoas não se reuniram ali, não se encontraram na Esplanada e disseram “vamos ali invadir a Câmara”. Não. Elas foram arregimentadas, coordenadas para praticar aquele crime grave contra a democracia e as instituições do Estado. O que alimenta esse tipo de atitude? Quando você olha o sentido do voto em muitas unidades federadas, estados e municípios, encontra muito claramente essa desconstrução. Quando você elege a violência física como forma de luta. Isso é a negação da política, da convivência democrática, do pluralismo. Essa desconstrução dos partidos, da política, em todos os países do mundo resultou na vitória e na hegemonia de correntes à direita, de matiz fascista, adeptas da violência. Isso está se revelando no Brasil. Está muito longe de ser majoritário. Mas nós não podemos esquecer que quando essas correntes apareceram na Itália e na Alemanha, também estavam muito longe de ser majoritárias. Numa conjuntura econômica adversa, de desemprego, de crise, um [Donald] Trump ganha a eleição. Alguém achava que o Trump ia ganhar a eleição há um ano? Aliás, o chanceler brasileiro [José Serra] disse que isso não aconteceria jamais. Todos nós achávamos a mesma coisa. Mas numa conjuntura de desesperança, de descrença nas instituições, de negação da política, do vale tudo, de que não tem regras, o Trump ganha a eleição. Como Hitler tomou o poder na Alemanha e Mussolini na Itália.

A Constituição está sendo questionada?

Sim, de maneiras até inusitadas. Por exemplo, essa ideia de colocar na Constituição por 20 anos o limite de gastos. Não há antecedentes no Direito Constitucional no planeta. Em nenhum tempo. Nunca ninguém tentou nada parecido. Eu respeito muito a imaginação e a criatividade do povo brasileiro. Mas é preciso que as coisas tenham uma certa lógica e você analise a experiência de outros povos. É uma tentativa de, por intermédio disso, que é um equívoco jurídico, político, social, anular o regime de direitos que foi consagrado na Constituição. Isso é bom para o Brasil? Uma sociedade que já tem dificuldades óbvias de convivência, traduzidas, por exemplo, na violência urbana gigantesca, alimentada pelo desemprego em massa, pelas desigualdades absurdas, você vai desagregar ainda mais? Até o pobre pato amarelo, se fosse chamado para o debate, ia entender que não interessa a ele, porque ele também pode ser vítima. Ele próprio pode ir para a panela.

Em termos de direitos, um dos principais problemas do Maranhão é a situação do sistema carcerário. O Complexo Penitenciário de Pedrinhas continua recebendo denúncias de violações. Como o governo lida com esse quadro? 

Ampliamos o número de vagas, inauguramos novas penitenciárias. Agora, sem melhorar a distribuição de renda e as oportunidades não existe política de segurança pública. Uma política puramente repressiva é enxugar gelo. Ainda há um problema no país que não é uma questão do estado: a cultura do encarceramento. Houve, por uma série de razões, a ideia de que punir é igual a prender, a ponto de que se a pessoa não for presa é como se ela não tivesse sido punida. É um equívoco monumental. Isso vale de reflexão para várias situações da Lava Jato. Muito seguramente, se houvesse uma mudança da cultura do encarceramento, a situação ia ser bem melhor. Isso vale para o Maranhão e vale para qualquer outro estado. Quando se imaginou há alguns séculos a privação de liberdade como pena, deveria ser excepcional e não algo que fosse sinônimo de punição. Crimes cometidos sem violência e sem grave ameaça à pessoa devem receber outra resposta penal. Vou dar o exemplo mais evidente: a problemática das drogas. Você tem nas penitenciárias milhares de pessoas presas por tráfico. Não são grandes traficantes, atacadistas. São as mulas, as pequenas peças da engrenagem. Vão ficar lá cinco ou seis anos. Isso vai resolver algum problema? Claro que não porque tem outro fazendo aquele papel.

Qual é a solução?


A questão central é ver o tempo de duração do processo penal, das prisões provisórias e, sobretudo, essa história da cultura do encarceramento. Enquanto a sociedade, inclusive o Judiciário, não enxergar que nem sempre prender é o melhor remédio, realmente o sistema penitenciário vai estar posto em xeque no Brasil. Nenhum Estado consegue funcionar bem em uma sociedade intrinsecamente violenta como a nossa. A questão é que se importou aqui a cultura do encarceramento dos Estados Unidos, que é produzir uma sociedade de encarcerados. É uma contrautopia, como se isso fosse resolver algum problema. Não vai resolver. Essa situação nossa é exemplar. É um sistema em que eu boto cada vez mais dinheiro, que falta em outras políticas públicas, porque é inelástico, mas eu tenho que botar, tenho que melhorar o sistema. A melhora depende de uma estrutura social mais justa e de uma cultura melhor acerca do papel das penas privativas de liberdade. É um debate urgente para enfrentar essa questão penitenciária no Brasil.

O Maranhão é o segundo estado mais negro do Brasil e um dos que mais matam jovens negros. Que medidas estão sendo tomadas para enfrentar o racismo?

Primeiro dizer o tempo inteiro que o racismo existe. Essa é a premissa número 1. Parece uma commodity, uma coisa óbvia, mas durante muito tempo o racismo não foi reconhecido, pelo contrário. Segundo, adotar medidas coerentes com a constatação e reiteração da existência do racismo. Por exemplo, implantamos uma política de cotas no serviço público, não existia. Tenho defendido políticas de cotas há muitos anos, como uma medida transitória. Primeiro para sublinhar o problema, porque quando alguns falam de boca cheia de meritocracia, eu acho lindo, desde que o ponto de partida fosse igual para todo mundo. Se for igual, eu sou a favor do mérito. Desde que todas as pessoas, desde o útero materno, tenham acesso aos mesmos direitos. Enquanto houver mães que fazem sete pré-natais e houver mães que fazem zero, como é que você vai falar em meritocracia? Enquanto houver criança que vai para a pré-escola e criança que não vai, como é que você fala em meritocracia? É o que se dá em relação ao racismo. Só a atitude de falar nele já é transformadora. E adotar políticas públicas. Por exemplo, aqui no estado houve uma insurreição popular chamada Balaiada. Seu grande líder foi Negro Cosme. Não há nada com o nome de Negro Cosme no Maranhão. Nada. Sancionei uma lei instituindo um dia em homenagem a ele e à Balaiada. São desde medidas como essa até um decreto que regulamenta como reconhecer comunidades e propriedades quilombolas, destinando recursos para uma rota cultural com ações para as comunidades, como abastecimento de água, estrada, estímulo à produção. Há também capacitação de professores em História e Cultura Africana, além de uma campanha de respeito à liberdade religiosa.

Para concluir: quem é Flávio Dino?

Tenho 48 anos, sou cristão, católico, fã do papa Francisco, me formei em uma escola religiosa [Colégio Marista], que naquele momento vivia o calor da Teologia da Libertação. A partir dessa formação, vivi o fim da ditadura e o começo da democracia, me integrei no movimento estudantil em 1983, fiz a campanha das Diretas como militante secundarista em 1984, e a partir daí me apaixonei pela política, pelo lado esquerdo do rio da vida. Continuo nele até hoje. Claro que, como todo o rio da vida, ele é sinuoso, mas sempre do mesmo lado desse rio. Tenho muita alegria com tudo o que faço profissionalmente, fui deputado, fui juiz, sou professor, hoje governo o Maranhão. Me dedico muito às coisas que faço, tenho quatro filhos lindos. Torço para o Sampaio Correia, do Maranhão. Gosto de coisas difíceis, por isso quando tem jogo nacional torço para o Botafogo. Sou comunista graças a Deus, e estou dedicado a uma missão: defender a igualdade e a justiça social, e entregar o Maranhão para o próximo governador em condições melhores do que eu recebi. Não tenho uma visão salvacionista em relação a isso, de que vou fazer milagre, não sou candidato a fazer milagre. Se eu pudesse, faria. Porque a injustiça me dói na alma. Sou inconformado, sou insatisfeito. Acho que as coisas têm jeito. Sou um otimista na ação, como o velho [filósofo marxista Antonio] Gramsci determinava e eu procuro seguir. Pessimista na teoria ou na crítica e otimista na razão ou na vontade, ou na ação. É um momento da minha vida que estou vivendo com o máximo de energia possível. Depois vou fazer outra coisa. Mas sempre do lado esquerdo do rio da vida e militante das causas de justiça social, direitos humanos. Não tenho a pretensão e o desejo de virar político profissional. Não imagino que isso seja bom. A dedicação a um cargo político deve ser transitória. Há dez anos eu exerço cargos políticos, mas não é uma coisa que eu vá fazer até ficar bem velhinho. Tenho desejo de ficar bem velhinho, se for possível. Mas não de ficar no cargo a, b, c. Não é o que me move. Em algum momento vou procurar contribuir de outro jeito. Considero que é um processo coletivo de transformação de um estado, que não depende só de mim. Por isso é preciso não só caminhar nessa direção, mas olhar para os lados e fazer com que muita gente caminhe na mesma direção. Porque se você estiver caminhando sozinho, mesmo que a direção esteja certa, está errado. Você nunca pode caminhar sozinho, mesmo que ache que está certo.
 

Fonte: revista Brasileiros via Vermelho

Colaborou Kátia Passos, dos Jornalistas Livres