quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A encruzilhada entre a democracia e a oligarquia de direita

Nenhum direito a menos – esta consigna resume o motivo da manifestação ocorrida na terça-feira (16), reunindo unitariamente as centrais sindicais brasileiras.

Esta manifestação ocorreu no mesmo dia em que a presidenta constitucional Dilma Rousseff, divulgou a carta intitulada Mensagem da Presidenta da República Dilma Rousseff ao Senado Federal e ao Povo Brasileiro. 

Ela manifestou sua inequívoca adesão à convocação de um plebiscito pela convocação de novas eleições para a presidência da República. “Quem deve decidir o futuro do país é o nosso povo”, disse, em defesa da legalidade e da democracia.

O sonho dos golpistas é completar, até o final deste mês, o ataque à democracia iniciado desde a reeleição de Dilma Rousseff. E que tomou forma com a chantagem do então presidente da Câmara dos Deputados, o ineváfel Eduardo Cunha, em conluio com os demais golpistas e o ilegítimo Michel Temer.

Aquela confraria - aliada a setores do Ministério Público Federal, do judiciário e da Polícia Federal – brandiu a bandeira da suposta luta contra a corrupção para tentar legitimar o golpe. Foi a história repetida à exaustão pela mídia patronal a seu serviço.

Mas o objetivo do golpe não é combater a corrupção, ao contrário do que alegam! A tomada do poder visa inicialmente a acobertar corruptos notórios. Mas seu alvo principal é destruir todas as conquistas sociais alcançadas sob a Constituição de 1988 e efetivadas, ou ampliadas, nos governos Lula e Dilma. 

O objetivo principal é restaurar a velha ordem política, anterior à Constituição de 1988 e vigente sob a ditadura militar de1964. Com todas as conseqüências econômicas, sociais e culturais desse retorno, que atinge de forma brutal os ganhos civilizacionais alcançados pelo Brasil e pelos brasileiros.

Esta é a verdadeira razão de ser do golpe apelidado de legal com o uso do disfarce constitucional dado a ele pelos golpistas.

Foi o atalho encontrado pelas forças conservadoras e de direita para chegar à presidência da República depois de sua quarta derrota sucessiva para as forças progressistas, democráticas e de esquerda, desde 2002. 

Os golpes de estado, como o atual em curso no Brasil, são preparados e conduzidos por poderes de estado, e por suas corporações públicas, que ampliam crescentemente sua autonomia funcional e administrativa chegando até o centro do poder. E que levada ao mais alto cargo da República pelo golpe parlamentar que resultou na perspectiva de uma farra fiscal impensável configurada nos déficits previstos para este ano e para o próximo. Cujo objetivo, não se tenha dúvidas, será pagar a conta do impeachment!

É o preço do projeto de poder da classe dominante capitalista, financeira, as forças conservadoras brasileiras, que se utilizaram avidamente do atalho, golpista para impor a volta à velha ordem. Ordem antidemocrática e autoritária, que destrói o pacto de progresso social, e de consolidação da ordem econômica de desregulamentação financeira, de liberdade de ação para o capital, impondo políticas de austeridade e cortes de despesas primárias essenciais – o capitalismo contemporâneo, dito neoliberal. Que restaura e aprofunda o círculo vicioso e perverso de juros altos e câmbio valorizado - desastre que levou à desindustrialização e a enormes déficits nas contas externas e deu adeus ao desenvolvimento nacional. O golpe é a saída encontrada pela oligarquia financeira e por representantes do imperialismo.

O Brasil encontra-se, hoje, outra vez, na encruzilhada histórica que coloca em jogo seu destino como nação soberana e também do povo brasileiro – avançar ou retroceder em nossa trajetória civilizacional.

É por isso que a premissa para restaurar a democracia, o Estado Democrático de Direito é a volta da presidenta constitucional e legítima Dilma Rousseff.

Encruzilhada perante a qual os senadores estão postos - condenar o absolver uma presidenta sem crime de responsabilidade. Em síntese, hoje, é o eco mais uníssono: Fora Temer!


Fonte: Vermelho

Dilma reforça plebiscito: Quem deve decidir o futuro do país é o povo


Roberto Stuckert Filho
  
“Todos sabemos que há um impasse gerado pelo esgotamento do sistema político, seja pelo número excessivo de partidos, pelas práticas políticas questionáveis a exigir profunda transformação nas regras vigentes. Estou convencida da necessidade e darei apoio irrestrito à convocação de plebiscito para consultar a população sobre a realização antecipada de eleições, bem como sobre a reforma política e eleitoral”, afirmou a presidenta.

Sobre o processo de impeachment Dilma reforçou que é uma fraude contra o seu mandato porque não há crime de responsabilidade.

“Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo ‘conjunto da obra’. Quem afasta o presidente pelo ‘conjunto da obra’ é o povo e, só o povo, nas eleições. Por isso, afirmamos que, se consumado o impeachment sem crime de responsabilidade, teríamos um golpe de Estado. O colégio eleitoral de 110 milhões de eleitores seria substituído, sem a devida sustentação constitucional, por um colégio eleitoral de 81 senadores”, salientou.

E finalizou: “O que peço aos senadores e senadoras é que não se façam a injustiça de me condenar por um crime que não cometi. Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente. A vida me ensinou o sentido mais profundo da esperança. Resisti ao cárcere e à tortura. Gostaria de não ter que resistir à fraude e à mais infame injustiça”.

Confira a íntegra da “Mensagem ao Senado e ao povo brasileiro”:

Brasília, 16 de agosto de 2016

Dirijo-me à população brasileira e às Senhoras Senadoras e aos Senhores Senadores para manifestar mais uma vez meu compromisso com a democracia e com as medidas necessárias à superação do impasse político que tantos prejuízos já causou ao País.

Meu retorno à Presidência, por decisão do Senado Federal, significará a afirmação do Estado Democrático de Direito e poderá contribuir decisivamente para o surgimento de uma nova e promissora realidade política.

Minha responsabilidade é grande. Na jornada para me defender do impeachment me aproximei mais do povo, tive oportunidade de ouvir seu reconhecimento, de receber seu carinho. Ouvi também críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho essas críticas com humildade e determinação para que possamos construir um novo caminho.

Precisamos fortalecer a democracia em nosso País e, para isto, será necessário que o Senado encerre o processo de impeachment em curso, reconhecendo, diante das provas irrefutáveis, que não houve crime de responsabilidade. Que eu sou inocente.

No presidencialismo previsto em nossa Constituição, não basta a desconfiança política para afastar um Presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade. E está claro que não houve tal crime. Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo “conjunto da obra”.

Quem afasta o Presidente pelo “conjunto da obra” é o povo e, só o povo, nas eleições. Por isso, afirmamos que, se consumado o impeachment sem crime de responsabilidade, teríamos um golpe de estado. O colégio eleitoral de 110 milhões de eleitores seria substituído, sem a devida sustentação constitucional, por um colégio eleitoral de 81 senadores. Seria um inequívoco golpe seguido de eleição indireta.

Ao invés disso, entendo que a solução para as crises política e econômica que enfrentamos passa pelo voto popular em eleições diretas. A democracia é o único caminho para a construção de um Pacto pela Unidade Nacional, o Desenvolvimento e a Justiça Social. É o único caminho para sairmos da crise.

Por isso, a importância de assumirmos um claro compromisso com o Plebiscito e pela Reforma Política. Todos sabemos que há um impasse gerado pelo esgotamento do sistema político, seja pelo número excessivo de partidos, seja pelas práticas políticas questionáveis, a exigir uma profunda transformação nas regras vigentes.

Estou convencida da necessidade e darei meu apoio irrestrito à convocação de um Plebiscito, com o objetivo de consultar a população sobre a realização antecipada de eleições, bem como sobre a reforma política e eleitoral. Devemos concentrar esforços para que seja realizada uma ampla e profunda reforma política, estabelecendo um novo quadro institucional que supere a fragmentação dos partidos, moralize o financiamento das campanhas eleitorais, fortaleça a fidelidade partidária e dê mais poder aos eleitores.

A restauração plena da democracia requer que a população decida qual é o melhor caminho para ampliar a governabilidade e aperfeiçoar o sistema político eleitoral brasileiro. Devemos construir, para tanto, um amplo Pacto Nacional, baseado em eleições livres e diretas, que envolva todos os cidadãos e cidadãs brasileiros.

Um Pacto que fortaleça os valores do Estado Democrático de Direito, a soberania nacional, o desenvolvimento econômico e as conquistas sociais. Esse Pacto pela Unidade Nacional, o Desenvolvimento e a Justiça Social permitirá a pacificação do País.

O desarmamento dos espíritos e o arrefecimento das paixões devem sobrepor-se a todo e qualquer sentimento de desunião. A transição para esse novo momento democrático exige que seja aberto um amplo diálogo entre todas as forças vivas da Nação Brasileira com a clara consciência de que o que nos une é o Brasil.

Diálogo com o Congresso Nacional, para que, conjunta e responsavelmente, busquemos as melhores soluções para os problemas enfrentados pelo País. Diálogo com a sociedade e os movimentos sociais, para que as demandas de nossa população sejam plenamente respondidas por políticas consistentes e eficazes.

As forças produtivas, empresários e trabalhadores, devem participar de forma ativa na construção de propostas para a retomada do crescimento e para a elevação da competitividade de nossa economia.

Reafirmo meu compromisso com o respeito integral à Constituição Cidadã de 1988, com destaque aos direitos e garantias individuais e coletivos que nela estão estabelecidos. Nosso lema persistirá sendo “nenhum direito a menos”.

As políticas sociais que transformaram a vida de nossa população, assegurando oportunidades para todas as pessoas e valorizando a igualdade e a diversidade deverão ser mantidas e renovadas. A riqueza e a força de nossa cultura devem ser valorizadas como elemento fundador de nossa nacionalidade.

Gerar mais e melhores empregos, fortalecer a saúde pública, ampliar o acesso e elevar a qualidade da educação, assegurar o direito à moradia e expandir a mobilidade urbana são investimentos prioritários para o Brasil. Todas as variáveis da economia e os instrumentos da política precisam ser canalizados para o País voltar a crescer e gerar empregos.

Isso é necessário porque, desde o início do meu segundo mandato, medidas, ações e reformas necessárias para o País enfrentar a grave crise econômica foram bloqueadas e as chamadas pautas-bomba foram impostas, sob a lógica irresponsável do “quanto pior, melhor”.

Houve um esforço obsessivo para desgastar o governo, pouco importando os resultados danosos impostos à população. Podemos superar esse momento e, juntos, buscar o crescimento econômico e a estabilidade, o fortalecimento da soberania nacional e a defesa do pré-sal e de nossas riquezas naturais e minerárias.

É fundamental a continuidade da luta contra a corrupção. Este é um compromisso inegociável. Não aceitaremos qualquer pacto em favor da impunidade daqueles que, comprovadamente, e após o exercício pleno do contraditório e da ampla defesa, tenham praticado ilícitos ou atos de improbidade.

Povo brasileiro, Senadoras e Senadores,

O Brasil vive um dos mais dramáticos momentos de sua história. Um momento que requer coragem e clareza de propósitos de todos nós. Um momento que não tolera omissões, enganos, ou falta de compromisso com o País.

Não devemos permitir que uma eventual ruptura da ordem democrática baseada no impeachment sem crime de responsabilidade fragilize nossa democracia, com o sacrifício dos direitos assegurados na Constituição de 1988. Unamos nossas forças e propósitos na defesa da democracia, o lado certo da História.

Tenho orgulho de ser a primeira mulher eleita presidenta do Brasil. Tenho orgulho de dizer que, nestes anos, exerci meu mandato de forma digna e honesta. Honrei os votos que recebi.
Em nome desses votos e em nome de todo o povo do meu País, vou lutar com todos os instrumentos legais de que disponho para assegurar a democracia no Brasil. A essa altura todos sabem que não cometi crime de responsabilidade, que não há razão legal para esse processo de impeachment, pois não há crime.

Os atos que pratiquei foram atos legais, atos necessários, atos de governo. Atos idênticos foram executados pelos presidentes que me antecederam. Não era crime na época deles, e também não é crime agora.

Jamais se encontrará na minha vida registro de desonestidade, covardia ou traição. Ao contrário dos que deram início a este processo injusto e ilegal, não tenho contas secretas no exterior, nunca desviei um único centavo do patrimônio público para meu enriquecimento pessoal ou de terceiros e não recebi propina de ninguém.

Esse processo de impeachment é frágil, juridicamente inconsistente, um processo injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente.

O que peço às senadoras e aos senadores é que não se faça a injustiça de me condenar por um crime que não cometi. Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente.

A vida me ensinou o sentido mais profundo da esperança. Resisti ao cárcere e à tortura. Gostaria de não ter que resistir à fraude e à mais infame injustiça. Minha esperança existe porque é também a esperança democrática do povo brasileiro, que me elegeu duas vezes Presidenta.

Quem deve decidir o futuro do País é o nosso povo. A democracia há de vencer.

Dilma Rousseff

 

Do Portal Vermelho

Renato Rabelo: O golpe é para impor a velha ordem política


Foto: Eder Bruno
 O Golpe é para impor a velha ordem política O Golpe é para impor a velha ordem política
Ao processo de ruptura constitucional contido no curso de um impeachment fraudado no Brasil não interessa provar inocência ou culpa da presidenta Dilma Rousseff. Semelhante ao ocorrido no Paraguai e Honduras, o único objetivo perseguido aqui é destituir o presidente da República pelo novo modelo de intervenção golpista, seguido na atualidade pelas oligarquias de direita.

Assim sucede na sétima potência econômica do mundo, o Brasil, onde a classe dominante pretende consumar no final deste mês de agosto a grande operação derruba-presidenta. A pantomima do impeachment em marcha segue o rito através de um golpe parlamentar com benção judicial, onde não se prova devidamente o crime de responsabilidade da presidenta.

Em nosso país cresce amplamente a consciência de rejeição ao presidente interino, demonstrada nas últimas pesquisas de opinião pública. E entre as camadas mais esclarecidas de dentro e de fora do país (quase unanimidade) torna-se presente a conclusão de que culmina na história política brasileira mais um golpe de Estado, hoje, sem tropas e blindados e sem as urnas – a léguas do voto popular.

No entanto, este foi o atalho encontrado, que resultou de tentativas conspirativas e depois escrachadas de um consórcio político das forças conservadoras dominantes, após a quarta derrota eleitoral sucessiva infligida pelas forças progressistas, democráticas e de esquerda. Essas forças dominantes formaram uma coalizão parlamentar, empresarial, judicial e com ampla ação midiática, que sem pejo se aproveitaram e contaram impávidos com o difamado presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do vice-presidente da República, Michel Temer, os quais completaram uma simbiose canalha entre a trapaça e a traição, com base promíscua em seus grupos na Câmara e no Senado. Pasmem! Usaram uma fachada de vestais na luta contra a corrupção. Uma trama urdida que deflagrou e conduziu o processo de impeachment arranjado e simplesmente se aboletaram no centro do poder de Estado.

Aonde se chegou a terra amada Brasil? É inédita essa situação no país, em que a oligarquia de direita, no afã de capturar o poder, se utilizar de gente tão escrachada que (des)qualifica o governo interino desde sua origem: governo que vive sobressaltado pelo homem bomba, que se resolve abrir a boca afunda o governo e enterra a Câmara. É por isso que o governo provisório vive seu impasse original, não pode abandonar a figura detonadora do impeachment, alma gêmea do presidente interino, financiador de meio regimento de deputados. O efeito bumerangue resultante será arrasador. Isto é realmente o que é recôndito do processo de impeachment, assumido pela denominada elite dominante conservadora brasileira.

Daí a situação na qual o governo usurpador, o presidente da Câmara recém eleito e a base de apoio nessa casa se juntam, reféns da ameaça, para adiar para sempre, descaradamente, o julgamento de Eduardo Cunha na Câmara, com o beneplácito dos incentivadores do golpe e seus beneficiados. O crime é inevitavelmente escancarado.

É preciso distinguir nas aparências o fundo da questão. Os golpes de Estado, como o atual em curso no Brasil, são preparados e conduzidos por poderes de Estado, e por suas corporações públicas, que ampliam crescentemente sua autonomia funcional e administrativa chegando até o centro do poder. A desestabilização do poder Executivo levou ao crescimento de autoridades e maior disputa entre poderes. E extrapolação de função das corporações públicas atropelando, até mesmo, o modelo clássico de liberalismo. O poder que ocupou a ponta do iceberg no processo de impeachment foi a Câmara e o Senado, que resulta num golpe parlamentar. Por conseguinte, o Orçamento Federal deste ano e do próximo será devidamente utilizado para pagar a conta do impeachment – lançaram mão de um déficit primário de mais de 170 bilhões de Reais em 2016. Imaginem se isso acontecesse no governo Dilma!

Mais significativo ainda é que desde os primórdios da crise política o embate não era apenas entre a presidenta -- que “não sabia fazer política” e políticos “profissionais” -- mas o que estava em jogo era e é um projeto de poder da classe dominante capitalista, financeira globalizada, as forças conservadoras brasileiras, que se utilizaram avidamente de um atalho, por meio da via golpista, para a volta à ORDEM POLÍTICA fundada na sua concepção de Estado, antidemocrática e autoritária, desmontando um pacto de progresso social, e de consolidação da ordem econômica de desregulamentação financeira, liberação do fluxo de capital, tudo pela estabilidade da moeda, através de políticas de austeridade, com cortes de despesas primárias essenciais – o capitalismo contemporâneo, dito neoliberal.

Segue então a linha dos países capitalistas centrais, nos quais a grande crise capitalista é respondida com o resgate antes de tudo do grande capital,
principalmente o financeiro, desemprego aberto, concentração e centralização da riqueza, aprofundando o fosso da desigualdade.

Por isso, é que a crise mundial, sistêmica, não encontrou ainda uma solução de superação. No caso do Brasil, vejam o tamanho do resgate financeiro: Congelamento das despesas federais, desde o nível mais baixo, por 20 anos. Eles é que vão se apropriar de enorme parcela do Orçamento federal, que aproximadamente equivale a uma queda de 50% per capta das despesas federais, num desmonte sem paralelo das sofridas conquistas sociais, atingindo de cheio o destino do SUS e do sistema de educação público. E mais, na vigência desse governo usurpador, porquanto ele se volta para a manutenção da base macroeconômica, que vem, sobretudo, desde o plano Real, presa ao círculo vicioso e perverso de juros altos e câmbio apreciado – desastre que levou à desindustrialização do país e a enormes déficits nas contas externas e deu adeus ao desenvolvimento nacional.

Por isso que a presidenta Dilma foi acerbamente desqualificada quando tentou sair desse círculo vicioso e conduzir, o que eles cunharam como sendo uma nova matriz macroeconômica, considerando isto a causa do descaminho econômico. E mais, agora sua enaltecida equipe econômica segue o mesmo padrão moldado pela ortodoxia ultraliberal brasileira de manter e justificar sempre os juros altos, diante de um curso de dois anos de uma queda de 8% da economia, ou seja, em plena recessão.

Em suma o golpe é a saída para fundamentalmente instituir essa velha ordem política, que pela via eleitoral seria inviável. As forças conservadoras pró-submissão às potências imperialistas, para imporem sua ordem republicana, ostensivamente e rapidamente já iniciaram e indicaram nesses dois meses, que seu desiderato e sua avidez são essencialmente voltados para desmontar o pacto de conquistas democráticas, sociais e de igualdade de direitos lavrados na Constituinte de 1988. É um retrocesso do avanço civilizacional em mais de três décadas.

À volta a ordem política conservadora e de realinhamento as grandes potências, imperialistas, como versa seu conceito estatal, parte da hipertrofia de corporações e ações de inteligência, que amolda até o próprio Ministério Público Federal e a Policia Federal, distinguindo sua doutrina de “inimigo interno” ou a “teoria dos fatos”, que neste momento histórico no Brasil, situa-se na existência engendrada de uma “organização criminosa” conduzida pelo PT e por Lula e seus aliados, com os cunhados “núcleos políticos e operacionais”. A criminalização é seletiva e a repressão se intensifica tendo como norte esse inimigo interno. A utilização desregrada da Lei antiterror já começa ser aplicada visando criminalizar a ação dos movimentos sociais.

A pretendida consumação da farsa do impeachment ainda este mês, que conduz à concretização do golpe de Estado, é uma viragem para consolidação e desenvolvimento dessa velha ordem política, com suas consequências econômica, social e cultural, razão de ser do golpe dito legal. E recorrentemente, quando as forças conservadoras voltam ao poder central, vêm para ficar.
Enfim, nosso país está essencialmente diante de uma disjuntiva que coloca em jogo o destino da Nação e do povo brasileiro – avançar ou retroceder em nossa trajetória civilizacional. Por isso a premissa para restaurar a democracia, o Estado Democrático de Direito é a volta da presidenta da República, Dilma Rousseff, legalmente eleita com mais de 54 milhões de votos. Os senadores serão colocados diante dessa encruzilhada – condenar o absolver uma presidenta sem crime de responsabilidade.

A luta popular contra o golpe não recrudesceu. Ao contrario, a consciência e a luta contra o governo intruso e pela democracia se estendem. Os trabalhadores começam a se mobilizar mais amplamente diante de reformas estruturais reversas, antidemocráticas: as reformas da providência e trabalhista. Ganha força a alternativa política apresentada pela presidenta Dilma, que após sua volta proporá e se empenhará pela convocação de um plebiscito, onde o povo é convocado para se pronunciar sobre a antecipação ou não da eleição direta presidencial. Esse é o anseio de ampla maioria do povo, no atual estágio da crise. Em contraste, os mais diversos setores e porta-vozes das forças conservadoras, fogem das urnas como o diabo da cruz, e se insurgem contra essa alternativa de renovação da democracia. Em síntese, hoje, é o eco mais uníssono: Fora Temer!
 

*Renato Rabelo foi presidente nacional do PCdoB, atualmente é presidente da Fundação Maurício Grabois.
Fonte: Vermelho

Frente Brasil Popular convoca atos no desfecho do impeachment


PAULO PINTO / FOTOS PÚBLICAS
  
Segundo nota emitida pela frente, "afirmamos como fundamental o esforço de resistência ao golpismo nestes dias que nos separam da votação final. Seja qual for o cenário que prevalecerá, a ofensiva conservadora não cessará, portanto, é fundamental que os movimentos populares estejam nas ruas, convocando o povo brasileiro à resistência".

A frente realizará um ato político com a presença de Dilma Rousseff reunindo intelectuais, personalidades, partidos políticos e lideranças populares, que representam o campo democrático e lutaram durante a jornada de lutas contra o Golpe de Estado. O ato será em São Paulo, com data a ser definida.

No próximo 29 de agosto, dia em que Dilma será julgada no Senado, será convocado um dia nacional de luta contra o golpe, com uma grande concetração ocorrendo em Brasília, local que ocorrerá o julgamento. Um acampamento será montado no local.

No momento que a direita avança sua consolidação no poder através de um golpe parlamentar que culminou com o processo de impeachment sem fundamentos legais, manifestações espontâneas ou convocadas pelos movimentos sociais acontecem diariamente no país. Nesta terça-feira (16)  ocorrerão atividades em Minas e Pernambuco rechaçando o governo interino Temer.

Na quarta-feira (17) a Frente Povo Sem medo convoca uma manifestação pelo Fora Temer, às 14h, no Metrô Arthur Alvim, na capital paulista.


Do Portal Vermelho com informações da Frente Brasil Popular 

    Paulo Nogueira: Futebol tomado pela Globo é herança de João Havelange


    Premiação dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro: festa nas mãos da GloboPremiação dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro: festa nas mãos da Globo
    Havelange, na CBF, forjou uma aliança extremamente lucrativa com a então jovem Globo de Roberto Marinho.

    A Globo ganhou bilhões com o monopólio das transmissões de futebol. E Havelange levou sua cota em propinas para garantir que a Globo jamais perdesse seu privilégio, expresso monetariamente em cotas publicitárias multimilionárias, para não falar da audiência trazida pelas partidas.

    A parceria, a partir de um certo momento, incluiu não só a CBF como a Fifa. Foi quando Havelange assumiu o comando da Fifa.

    É documentado o escândalo dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Havelange foi subornado para que uma emissora brasileira transmitisse a Copa. O jornalista brasileiro Jamil Chade conta, em seu livro sobre a sujeira da Fifa, detalhes da negociata.

    Quem transmitiu a Copa para o Brasil foi a Globo, como sabemos.

    Na CBF, Havelange tratara de deixar ao ir para a Fifa seu genro, Ricardo Teixeira, para que o esquema com a Globo não fosse interrompido.

    A Globo, com Teixeira na CBF, continuou a desfrutar das mamatas das transmissões de futebol.

    As coisas se complicaram pessoalmente, num determinado momento, entre Havelange e Teixeira. O motivo não poderia ser mais comum nas rupturas entre sogros e genros: Teixeira se divorciou da filha de Havelange.

    Mas a Globo não perdeu nada com a briga entre seus dois aliados no futebol.

    O saldo de tudo pode ser resumido assim: a Globo, Havelange e Teixeira ganharam barbaramente com o futebol brasileiro. E o futebol brasileiro ficou em ruínas: campos precários, gramados parecidos com pasto, arquibancadas vazias.

    E um terrível êxodo dos melhores jogadores.

    É um padrão que se repete onde quer que a Globo se meta: para ela os lucros. Para a outra parte, e não estou falando aqui de parceiros como Havelange, as ruínas. No cinema, com a Globofilmes, é a mesma coisa.

    Havelange legou a Globo para o futebol brasileiro.

    Cada vez que você dormir no meio de um jogo às dez da noite, lembre-se dele.


    *Fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
    Fonte: Vermelho

    terça-feira, 16 de agosto de 2016

    O Brasil que luta feito mulher na Rio 2016


     Joana Maranhão mantém se mantém protagonista mesmo sem medalha olímpica Joana Maranhão mantém se mantém protagonista mesmo sem medalha olímpica
     Era domingo à tarde no Rio de Janeiro olímpico e alguns dos bairros mais cenográficos da cidade foram cortados pelas ciclistas que disputavam o melhor tempo na categoria ciclismo de estrada. A brasileira Flávia Oliveira não ganhou medalha, mas entrou para a história como o melhor lugar na categoria jamais conquistado por uma brasileira. Ficou na sétima posição, a apenas 20 segundos de distância da primeira colocada. Das 68 ciclistas na disputa, apenas nove completaram a prova no mesmo minuto, o que mostra a façanha de Flavia, ainda que tenha ficado fora do pódio.

    Os novos ‘inquisidores’ tomam conta da rede


    No dia seguinte, a judoca Rafaela Silva brigava no tatame por sua vingança dourada. Na Olimpíada de Londres 2012, ela perdera nas oitavas de final, o que resultou em uma avalanche de críticas e xingamentos, inclusive racistas, nas redes sociais. Chegou a ser chamada de macaca. Aquilo havia abalado o emocional da judoca a ponto de fazê-la pensar em parar de lutar.

    Mas o Rio seria a sua revanche. Com um wazari aplicado na líder do ranking, Sumiya Dorjsuren, da Mongólia, Rafaela Silva conquistou o primeiro - e até agora único - ouro do Brasil nesta Olimpíada. As mulheres, dede o início, representavam a grande esperança de medalha no judô brasileiro. Mariana Silva quase chegou lá, perdendo na semifinal, nesta terça. Levando em conta que a participação feminina no judô em uma olimpíada é coisa recente - só passou a ser permitida em 1992 - as judocas avançam com uma velocidade de canhão em relação aos atletas homens no Brasil. Em Londres 2012, Sarah Menezes conquistou o único ouro do esporte.

    A vitória acachapante de Rafaela Silva, porém, não foi capaz de frear o duro tribunal das redes sociais. No mesmo dia em que o Brasil ganhava seu primeiro ouro, no tatame, perto dali, na piscina, a nadadora brasileira Joanna Maranhão ficava de fora da semifinal dos 200 metros Medley. Os inquisidores da Internet rapidamente reagiram com ofensas, xingando a nadadora e remexendo em uma história pesada do seu passado.

    Mas, ainda que longe dos tatames, Joanna não fugiu da briga. “As pessoas não gostarem do meu rendimento é um direito delas”, disse a atleta ao canal SporTV. “Nem todo mundo compreende a grandiosidade e a competitividade que é a natação mundial, o quanto que brigamos para chegar na final. Mas desejar que eu seja estuprada, que minha mãe morra, que um bandido me mate, que eu me afogue. Falar que a história da minha infância foi algo que inventei para estar na mídia, isso ultrapassa”, disse.

    Em 2008, a nadadora reuniu forças para revelar publicamente em uma entrevista que sofreu abuso sexual de ex-treinador, Eugênio Miranda. Agora, tanto tempo depois, usam dessa história para atingir a nadadora, que reagiu. “Quando vem para a história da minha infância, o desrespeito às mulheres, pelo fato de ser do Nordeste, aí vou ter que tomar medidas jurídicas”, afirmou ao canal de TV.

    Poucas horas depois da derrota de Joanna, o Estádio Deodoro era palco de uma cena que entrou para a história das olimpíadas, sem envolver medalhas. A jogadora de rugby da seleção brasileira, Isadora Cerullo, foi pedida em casamento. Por sua namorada. E aceitou, beijando-a na frente de toda a imprensa e da torcida. A cena ocorreu após a Austrália ser coroada com o ouro. O Brasil não subiu no pódio com o rugby, mas em tempos de estatuto da família, a jogadora, cuja foto rodou o mundo, ganharia fácil uma medalha pela luta contra o preconceito.

    O simples fato de esta ser a Olimpíada com a maior participação feminina da história (45% das atletas são mulheres) já seria um dado a ser minimamente comemorado. Mas isso é pouco. As atletas brasileiras querem disputar também o protagonismo dos Jogos, no quadro de medalhas, com suas desafiantes histórias, e não só encaixadas nos estereótipos de gênero. E até o momento vem conseguindo.

    São elas que estão carregando nas costas o peso da expectativa e da busca de uma alegria da pátria do futebol. A seleção brasileira feminina ganhou o primeiro jogo por 3 a 1 contra a China, na sexta-feira. Na partida seguinte, no sábado, fez mais bonito ainda e deu uma goleada na Suécia, vencendo por 5 a 1. Nesta terça, empatou em 0 a 0 contra a África do Sul, mas ainda assim saíram de campo aplaudidas em Manaus. Enquanto isso, a seleção masculina de futebol amarga uma triste decadência: ficou no zero a zero nas duas partidas que jogou até o momento.

    Não é à toa que se tornou emblemática a imagem da camiseta da seleção com o nome de Neymar - riscado. Por cima, aparece escrito Marta, a estrela do futebol feminino. Não é pouca coisa. A maioria do tempo, as mulheres, apesar dos avanços históricos e recentes que ajudaram inclusive a disputar modalidades olímpicas reservadas aos homens, sequer aparecem lado a lado com os homens. Elas ganham menos (inclusive no esporte, basta ver as diferenças salariais nas equipes de futebol e vôlei brasileiros), trabalham mais, são a maior parcela de vítimas de violência doméstica e nem sendo figuras públicas escapam de escrutínio preconceituoso. É por isso que a Rio 2016, a julgar pelos últimos dias, parece emplacar um novo bordão para sepultar o clichê machista: agora é lute como uma mulher.


    Fonte: El Pais via Vermelho

    Disparidade: Mulheres recebem menos na maioria dos esportes


    divulgação
    Se Marta recebesse por gols ganharia cerca de 12 mil reais enquanto Neymar receberia 905 mil reais por golSe Marta recebesse por gols ganharia cerca de 12 mil reais enquanto Neymar receberia 905 mil reais por gol
    Em um caso que ganhou destaque recentemente, o time brasileiro vencedor da Liga Mundial de vôlei feminino de 2016 levou pra casa um cheque de 200 mil dólares, valor cinco vezes inferior ao recebido pelo primeiro lugar da Liga Mundial masculina.

    Em entrevista ao Gênero e Número, a oposta Sheilla Castro, bicampeã olímpica e integrante da atual equipe de vôlei campeã, critica a diferença entre as premiações. “Muito discrepantes os prêmios no masculino e feminino. Nunca formalizamos nenhuma reclamação, mas já conversamos com o Ary [Graça, atual presidente da Federação Internacional de Vôlei], quando ele era presidente da CBV”, disse a jogadora.

    A diferença de remuneração é ainda mais notória quando se olha para o prêmio em dinheiro oferecido pela FIFA, órgão de gestão do futebol no mundo que apenas em 2013 teve a primeira mulher em seu comitê executivo, a burundesa Lydia Nsekera. Enquanto a equipe feminina dos EUA ganhou US$ 2 milhões da organização por vencer a Copa do Mundo do ano passado, a seleção masculina alemã arrecadou US$ 35 milhões após ser campeã da Copa do Mundo de 2014. Se o prêmio fosse dividido pelos jogadores em campo, a receita das americanas não chegaria a US$ 200 mil por atleta, enquanto os alemães embolsariam mais de US$3 milhões individualmente.
     
    Sheilla afirma que a justificativa dada para a disparidade é a diferença de patrocinadores, o que impactaria no valor que entra. “Se é ou não verdade, eu não sei”, disse.

    As contas bancárias dos atletas refletem essa diferença. Na última classificação divulgada pela Forbes, entre os cem atletas mais bem pagos do mundo há apenas duas mulheres: as tenistas Serena Williams, que recebe US$ 28,9 milhões, e Maria Sharapova, com US$ 21,9 milhões por ano, respectivamente 40º e 88º no ranking. Valores altos, mas nem metade do que recebe a estrela masculina do tênis Roger Federer, US$ 67 milhões.

    Se no tênis, um dos esportes mais equânimes em termos de gênero, onde todos os principais torneios oferecem prêmios idênticos nas disputas femininas e masculinas, a diferença de salários e patrocínios dos primeiros do ranking ainda é considerável, no futebol ela atinge seu ápice.

    Neymar e Marta são dois expoentes dessa a paixão nacional, e estarão em campo na disputa pelo ouro olímpico. Ela já foi eleita cinco vezes melhor jogadora do mundo pela Fifa e marcou 103 gols com a camisa da seleção. Ele conquistou o terceiro lugar na última votação para melhor do mundo, e chegou a 50 gols defendendo o Brasil. Mas é na conta bancária que a diferença entre os dois se sobressai: Marta recebe de salário anual US$400 mil contra US$14,5 milhões de Neymar, de acordo com a Forbes. Se fossem pagos por gols, cada bola na rede da Marta valeria cerca de US$3,9 mil (cerca de R$12,2 mil), enquanto as do Neymar valeriam US$290 mil (cerca de R$905 mil).
     
    Pode ser moralmente escandaloso que Marta receba tão menos que Neymar? Em um mercado movido a patrocínios, tudo parece justificável. As receitas patrocinadas da Copa do Mundo masculina chegaram a US$ 529 milhões. No mundial feminino, US$ 17 milhões de investimentos privados.
     
    Visibilidade e popularidade são palavras-chave para entender por que os esportes femininos atraem menos patrocínios. “A mídia dá pouca visibilidade às conquistas das mulheres, aos campeonatos das mulheres”, explica Silvana Goellner, professora da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em questões de gênero no esporte. “A mídia produz muito a representação do esporte para os homens, então como vamos tê-las como inspiração?”, questiona Silvana.

    Os acordos de transmissão e direitos televisivos exercem uma poderosa influência nos negócios esportivos. A popularidade dos jogos, com o comparecimento aos estádios para ver as equipes femininas, também afeta diretamente a receita dos campeonatos e o interesse das emissoras. Quanto menos pessoas prestigiam as atletas, menos elas são noticiadas e televisionadas. Quanto menos são noticiadas e televisionadas, menos pessoas têm o interesse despertado e as prestigiam. Um círculo vicioso que explica em grande parte a batalha para equalizar economicamente as competições feminina e masculina.


    Por Mariana Mazotte para revista Web Gênero e Número, Agência Pública
    Fonte: Vermelho