terça-feira, 15 de março de 2016

A pauta oculta do impeachment

Pré-Sal para petroleiras globais. Fim da demarcação indígena. “Direito” ao armamento pessoal. Veto à família homoafetiva e muito mais. Que projetos escondem-se atrás da suposta “luta contra corrupção”. Por Cristina Fróes de Borja Reis, Tatiana Berringer e Maria Caramez Carlotto*


  
A condução coercitiva do ex-presidente Lula em 4 de março foi, até o momento, o episódio mais grave da atual crise econômica e política no Brasil. A crise nos coloca diante de uma ameaça, diretamente ligada à correlação de forças existente na sociedade: os interesses do grande capital financeiro, há muito questionados, podem retomar completamente o controle do jogo.

Diante do espetáculo criado pela imprensa na chamada “luta contra a corrupção”, os interesses dominantes amplamente representados no Congresso aproveitam-se da cortina de fumaça para impor sua agenda regressiva ao país. Ao invés de discutir com seriedade e aprovar uma reforma política que pusesse fim ao financiamento empresarial de campanhas eleitorais, que é a base da estrutura do sistema político brasileiro criado no fim da ditadura militar e que está na raiz do escândalo atual, oportunisticamente resgata-se antigas e derrotadas ideias sob a forma de projetos de lei (PL), propostas de emendas constitucionais (PEC) e projetos de resolução do Senado (PRS) à aprovação sob regime de urgência. O rápido exame de alguns deles evidencia como atentam contra a soberania nacional, a democracia e os direitos humanos no Brasil.

Começando pela economia, o PRS 84/2007, apresentado pelo senador José Serra (PSDB/SP), estabelece um teto para a dívida pública líquida e bruta da União, reduzindo a autonomia de política macroeconômica do Estado (na sua capacidade de atuação anticíclica). Isso significa, no curto prazo, aprofundar o ajuste fiscal em curso desde 2015 e comprometer as possibilidades de saída da crise pois, também no médio e longo prazo, o estímulo tributário e de gastos públicos é fundamental para acender a dinâmica de investimentos doméstica. Duas das questões mais sensíveis e que afeta diretamente os gastos públicos são a reforma da previdência e a política de valorização do salário mínimo. Ambas estão sendo transformadas em prejuízo dos trabalhadores (como ficou claro no começo de 2015 com a imediata investida, naquele momento mal sucedida, para alterar a regra da valorização do mínimo e na Medida Provisória 680/2015, no sentido da flexibilização das leis trabalhistas), dos aposentados e da própria autonomia de política econômica e social.

A Lei de Responsabilidade das Estatais (PLS 555/2015), cujo relator é o senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), é mais uma proposta em curso que fere o princípio da autonomia, ao criar um marco regulatório que enquadra as empresas estatais na lógica do mercado financeiro. Além de impedir filiados a partidos e sindicalistas de participarem na composição dos conselhos e diretorias, prioriza quem tem experiência no mercado. Tal reforma possibilita, sob a imagem de um falso republicanismo, a captura por parte de grupos particulares privados, nacionais ou estrangeiros, dos bens públicos que impactam fortemente na atividade econômica nacional e na inserção geopolítica do país.

Aqui residem dois movimentos igualmente perniciosos. O primeiro é a ameaça aos direitos de militantes de partidos e sindicatos — algo que fortalece a ampla propaganda de criminalização da política atualmente em curso, subtraindo dos atores políticos seus instrumentos legítimos de representação. Na esteira de um suposto esforço de combate à corrupção, difunde-se uma ideologia elitista e tecnicista, que associa toda e qualquer atividade política à busca do auto-interesse, ao descaso com a coisa pública quando não à simples prevaricação, como se o mercado e as estruturas burocráticas do Estado não fossem, eles também, permeados de interesses e visões ideológicas.

O segundo movimento é o de recondução da política externa e da margem de manobra do Estado diante das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos, já que o posicionamento geopolítico no campo energético é crucial para a soberania brasileira e latino-americana. Ao contrário, o movimento de curso é de privatização dos recursos naturais e um benefício da maior participação dos grupos financeiros internacionais, representando uma subtração da soberania nacional e o fortalecimento deles.

É exatamente a soberania nacional que está em jogo com a aprovação pelo Senado Federal do PLS 131/ 2015, também de autoria do senador José Serra e atualmente tramitando na Câmara como PL 4567/2016. O projeto estabelece que a Petrobrás terá a prerrogativa de escolher se quer ser operadora do campo do Pré-Sal ou se prefere se abster da exploração mínima de 30% obrigada pela lei. Portanto, abre possibilidade para o capital privado, nacional e estrangeiro, se apropriar ainda mais de um recurso estratégico. Além disso, limita o poder fiscalizador que a estatal brasileira exerceria sobre a exploração do campo. Ou seja, não somente não garante que as operações passem a ser feitas maximizando lucratividade e eficiência, como desconsidera as implicações mais abrangentes de sua operação sobre a estrutura produtiva doméstica e suas consequências distributivas – em prejuízo, novamente, dos interesses da maioria dos brasileiros.

Falando na possibilidade de maior participação estrangeira na propriedade de ativos brasileiros, está em trâmite um texto substitutivo ao PL 4059/12 para flexibilizar o processo de compra de terras brasileiras por estrangeiros. O texto contraria parecer publicado pela Advocacia Geral da União — que veda, por exemplo, empresas estrangeiras adquirirem imóvel rural com mais de 50 módulos de exploração indefinida. Paralelamente, também se fortalecem os interesses ruralistas com a PEC 215/ 2000, que tem como objetivo retirar do Executivo o poder para demarcar terra indígena, transferindo a palavra final sobre demarcação das terras para o Congresso Nacional. Na prática, as terras ditas “tradicionais” passarão a ser interpretadas como qualquer outra propriedade rural. Ainda sobre esse tema, seguiu para a câmara dos Deputados a PEC 71/2011 (relatada pelo senador Blairo Maggi (PR/MT) e aprovada de forma unânime no Senado), que prevê a indenização a proprietários rurais com áreas incidentes em Terras Indígenas.

Há ainda a tentativa de flexibilização do estatuto do desarmamento. O texto substitutivo, do deputado Laudivio Carvalho (PMDB-MG), aprovado em uma comissão especial do Congresso, facilita a obtenção do porte de armas por mudar os requisitos necessários para o cidadão comum receber autorização para circular nas ruas portando armas de calibre permitido. Trocando em miúdos, será facilitado o acesso às armas por particulares, possibilitando, no limite, que novas milícias possam atuar concorrentemente às forças do Estado – aumentando, ao invés de retrair a violência.

Também no campo dos direitos civis, o PL 5069/ 2013 do deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) aprovado pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara, altera regras sobre o aborto, criminalizando quem preste qualquer auxílio ou orientação. No caso de estupro, o texto prevê que o aborto seja permitido somente com exame de corpo delito. Já o Estatuto da Família, PL 6583/2013, de autoria do deputado Anderson Ferreira (PR/ PE), sedimenta uma definição excludente de entidade familiar (“o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”), o que tem como consequência a exclusão do casamento homossexual e também da adoção por famílias formadas por homossexuais marcando um retrocesso enorme nos poucos direitos conquistados pela comunidade LGBT.

Ainda aguarda apreciação do Senado Federal a PEC 171, proposta originalmente em 1993, sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Além de especialistas concordarem de modo quase unânime que a medida não afasta efetivamente adolescentes do crime, seu efeito político imediato é isentar o Estado do compromisso com políticas de juventude, combatendo-se o efeito e não a causa da criminalidade, como o comprova a experiência de outros países. A medida é absurda dentre outros motivos porque já existem leis que responsabilizam menores infratores. Todos esses diferentes projetos simbolizam enormes retrocessos nos direitos civis, que prejudicam principal e diretamente as vidas das mulheres, jovens e LGBTs.

Enquanto emergem aparatos legais tão polêmicos, é assustadora a aprovação da lei anti-terrorismo pelo Plenário do Senado em 24 de fevereiro de 2016, que reformula o conceito de “organização terrorista”. Como alardeiam os críticos, e também a Organização das Nações Unidas (ONU), o projeto agride os direitos humanos porque a tipificação para o crime de terrorismo está ampla e abre margem para a repressão de movimentos sociais e manifestações populares. Em nota, a ONU reforçou que definições imprecisas não são compatíveis com a perspectiva das normas internacionais de Direitos Humanos. Ou seja, no atual contexto em que os diversos atores políticos deveriam se fortalecer para fazer escutar suas vozes e disputar o poder, reprime-se seu direito fundamental de se organizar, movimentar e manifestar.

Mesmo que se seja a favor de um ou mais dos projetos aqui tomados apresentados, há de concordar que a premissa elementar, de que o que não pode ser limitado é a garantia da preservação das instituições democráticas. Ou seja, não é hora para decisões tão importantes serem tomadas sem amplo debate na esfera pública, com espaço para crítica e reflexão. A prioridade é, também, zelar pelos direitos humanos e pelas conquistas sociais que efetivamente melhoraram as condições de vida da maioria da sociedade brasileira. É preciso pensar também se essa ofensiva contra empresas brasileiras e contra o atual governo é genuinamente uma tentativa de combater a corrupção e moralizar a política nacional, ou se é uma investida seletiva a favor dos interesses financeiros e internacionais, contra a alteração da correlação de forças da sociedade brasileira dos últimos anos – em que se fortaleceu a posição do Brasil na geopolítica mundial ao mesmo tempo em que se retirou milhões de pessoas da miséria, aumentou-se a remuneração real média dos trabalhadores e atingiu-se a menor taxa de desemprego observada desde o fim da ditadura militar.

*Cristina Fróes de Borja Reis, Doutora em Economia pela UFRJ, Professora de Economia e Relações Internacionais na UFABC, autora da monografia premiada pelo Tesouro Nacional Os efeitos do investimento publico sobre o desenvolvimento econômico: análise aplicada para a economia brasileira entre 1950 e 2006 (2008).

*Tatiana Berringer, Doutora em Ciência Política pela UNICAMP, Professora de Relações Internacionais na UFABC, autora do livro A burguesia brasileira e a política externa nos governos FHC e Lula .(2015).

*Maria Caramez Carlotto, Doutora em Sociologia pela USP, Professora de Relações Internacionais na UFABC, autora do livro Veredas da mudança na ciência brasileira. Discurso, institucionalização e práticas no cenário contemporâneo (2013).
 

 Fonte: Outras Palavras via Vermelho

PLS 555 reduz capacidade do Brasil de retomar desenvolvimento

O projeto de lei do senado 555 é o primeiro ponto de pauta para a sessão do senado desta terça-feira (15). Desde agosto do ano passado como pauta prioritária na Casa, o projeto tem esbarrado na persistência do movimento social que vê na iniciativa a privatização das empresas estatais brasileiras e a redução da capacidade do país continuar investindo em desenvolvimento.

Por Railídia Carvalho


site diga nao pls 555
Manifestantes reivindicam que o projeto seja melhor debatido com a sociedade Manifestantes reivindicam que o projeto seja melhor debatido com a sociedade 
O PLS 555 transforma estatais em sociedades anônimas e abre o capital dessas empresas para o mercado. Se for aprovado no Senado o projeto será encaminhado para a Câmara dos Deputados.

A gravidade do projeto unificou as seis centrais de trabalhadores, que têm realizado diversas atividades pelo Brasil para alertar sobre o perfil privatista e as consequências que a aprovação desse projeto terá sobre os programas sociais. 

Para Rita Serrano, presidente do Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas, a dimensão do impacto do texto do PLS ainda não chegou ao conhecimento do grande público e nem de prefeitos e governadores por exemplo. “Eles ainda não sabem que as mudanças chegarão às empresas estaduais e municipais”, lembrou Rita. 

Ela também citou a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o Bndes, a Eletrobras e a Petrobras como os principais indutores do desenvolvimento do país nos últimos 12 anos.“A Caixa e o BB baixaram taxa de juros, ampliaram o crédito agrícola e o crédito habitacional. A caixa tem 70% do crédito do programa habitacional do país. É a maior gerenciadora de programas sociais”, ressaltou. 

“O BB é o maior financiador da agricultura familiar do médio e do pequeno agricultor. O Bndes é o maior financiador da pequena e média empresa. A Eletrobras levou luz para todos, um programa de levar energia elétrica onde não tinha. A Petrobras descobriu a maior reserva de petróleo do mundo, o pré-sal”, enumerou Rita.

Ela complementou: “Ao acabar com as poucas estatais que sobraram, porque na década de 90 acabou quase tudo, quem vai impulsionar o desenvolvimento do país? O capital privado não é. Porque o capital privado só tem interesse no lucro”, enfatizou.

Mobilização

Além das atividades de esclarecimento sobre o PLS, os comitês em defesa das estatais que tem sido organizados pelo Brasil tem recomendado que sejam enviados e-mails aos senadores para que votem contra o projeto. Neste link cada um pode opinar se é a favor ou contra a iniciativa. Na noite desta segunda-feira (14), 1069 pessoas votaram não enquanto 32 votaram a favor.

Acompanhe mais informações sobre o PL no site Diga Não ao PLS 555
 



Do Portal Vermelho

"Absurda manipulação da competência", diz jurista sobre Lava Jato

Em entrevista ao Portal Vermelho, nesta segunda-feira (14), o professor de Direito Constitucional Luiz Tarcísio Teixeira comentou a decisão da juíza Maria Priscilla Ernandes Veiga de Oliveira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que remeteu a competência da denúncia apresentada por promotores do Ministério Público contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, e apontou uma “manipulação de competência” na Lava Jato.

Por Dayane Santos


Luiz Tarcísio Teixeira Ferreira é professor de Direito ConstitucionalLuiz Tarcísio Teixeira Ferreira é professor de Direito Constitucional
Ele afirma que essa concentração de processos em Curitiba se baseia na tese de que o ex-presidente teria recebido por palestras e, coincidentemente, teria recebido dinheiro das principais acusadas da Lava Jato. Portanto, o que Lula recebeu seria produto também da corrupção e como ele está investigando a corrupção na Petrobras, seria competente para mais essa investigação.

“Isso é uma absurda manipulação da competência. Ora, qualquer advogado que receber da Odebrecht, por exemplo, não pode ser acusado de receber dinheiro de corrupção. Qualquer pessoa que receba de qualquer empreiteira envolvida na Lava Jato não pode ser acusada de receber dinheiro ilícito”, denuncia.

O professor destaca ainda que o conjunto probatório de ambas as ações são completamente arbitrários e não poupa críticas: “Estamos vendo um verdadeiro tribunal de exceção. Nem todas as coisas devem dizer respeito a Curitiba, não existe somente um juiz neste país que decida sobre isso”.

E completa: “A palestra por ele [Lula] ministrada não é prova de participação dele em qualquer operação da Lava Jato. Isso é um artifício primário que estão fazendo para deslocar a competência para Curitiba”.

O professor expressou sua indignação diante de tais manobras que violam os princípios os direitos e garantias fundamentais. “Dou aula há trinta anos, sou advogado há quase 34 anos, e nunca vi um quadro de exceção tão absoluto como o que estamos vivendo. Não sei para que servem os professores de Direito Constitucional como eu, nem os advogados e professores que trabalham na área penal ou de processo penal. Tudo que está sendo feito arrepia os princípios absolutos da Constituição”, concluiu Luiz Teixeira.
 

Do Portal Vemelho

segunda-feira, 14 de março de 2016

Rui Falcão: Dia 18, dia de defender a democracia

A desfaçatez e a truculência da classe dominante não têm limites. Para quem ainda se ilude com o discurso de seus representantes na mídia monopolizada e no parlamento, supostamente contra a corrupção e a favor da democracia, o sequestro de Lula, na última sexta-feira, dia 4 de março, foi um choque de realidade.

Por Rui Falcão*, no site do PT


  
Diante da reação da militância, dos movimentos sociais e do ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal, o presidente Lula respondeu à altura. Relembrou que sempre atendeu os convites para depor, daí a desnecessária e injusta “condução coercitiva” e a pirotécnica invasão do Instituto Lula, de seu apartamento e das residências de filhos e colaboradores.

Disse mais. Que não vão intimidá-lo, nem impedir que continue a lutar pelo que acredita, pelo PT, pelos trabalhadores e pelo Brasil. Se necessário, será candidato em 2018, retomando as viagens e participando de manifestações populares.

Bastou isso para que saudosos da ditadura invocassem, logo no dia seguinte, a intervenção militar em defesa da lei e da ordem que Lula e os petistas estariam a ameaçar. E, para completar, três promotores em busca de notoriedade denunciaram o ex-presidente, pedindo sua prisão preventiva. Ambas, a denúncia e o pedido de prisão, além de violentarem a filosofia (confundiram Engels com Hegel) e atentarem contra o vernáculo, carecem de fundamento legal.

Na semana que começa, temos um grande desafio: encher as ruas em todo o País, no dia 18, sexta-feira, em defesa da democracia, dos presidentes Lula e Dilma, contra o golpe e por mudanças na economia. A esta convocação, nenhum de nós pode faltar!
 


*Rui Falcão é presidente nacional do PT
Fonte: Vermelho

Vanessa Grazziotin: O alvo não é só Dilma

A edição do domingo (13) do Estadão deixou claro o verdadeiro propósito de determinados setores da mídia em conluio com as forças mais retrógradas da sociedade. Além do golpe pregado abertamente num editorial que nos faz lembrar a 1964, o jornal paulista publicou entrevista de uma página com o presidente do banco Credit Suisse, José Olympio Pereira, para quem “a Constituição de 88 deu mais direitos que o país poderia suportar”.
Foto: Agência Senado

  
Elevado ao posto de porta-voz do mercado, Olympio Pereira diz que Dilma precisa sair porque não consegue fazer as reformas estruturantes para superar a crise. A reforma a que ele se refere são as mudanças na Previdência, nas leis trabalhistas, a desindexação de gastos do salário mínimo, entre outras.

Na sua opinião o país está pagando a conta da Constituição de 1988. “Ela deu muito mais direitos do que o país pode arcar”, vocifera.

Quem faz o ataque a uma das maiores conquistas da sociedade brasileira revela ainda quem era capaz de promover esse desmonte: “Em 2014 batemos na trave com Aécio Neves. Ele estava com uma equipe excepcional montada pelo Armínio Fraga”.

Que reforma cara-pálida? O que eles querem, a oposição demo-tucana, o mercado, sobretudo as empresas transnacionais e os setores rentistas, está expresso nas palavras desse senhor. Na verdade, eles querem é promover o desmonte do Estado para o qual os constituintes dedicaram o monopólio ou o controle pleno da exploração do subsolo, dos recursos hídricos e do petróleo. Querem também a completa flexibilização dos direitos dos trabalhadores, ou seja, sua subtração.

O alvo neoliberal são as conquistas históricas dos trabalhadores que estão lá na Constituição de 1988. São a redução de 48 para 44 horas na jornada de trabalho, o abono de férias, o décimo terceiro salário, o seguro-desemprego, a licença-maternidade entre outros.

Estamos falando da expansão dos direitos sociais dos trabalhadores urbanos, do campo e os domésticos.

Ou seja, o alvo não é só a presidente Dilma que querem tirar do mais alto posto da República sem nenhuma prova. Há uma ataque frontal a uma das maiores conquistas do povo brasileiro: a Constituição Cidadã. Amanhã retornarei novamente ao assunto.

Vanessa Grazziontin (PCdoB) é senadora pelo estado do Amazonas
 


Fonte; Vermelho

Haroldo Lima: A busca por uma saída democrática

Inequivocamente foram grandes as manifestações do domingo, 13 de março de 2016. Afinal, foi grande o volume de dinheiro gasto pelos seus organizadores, na sequência dos investimentos que estão sendo feitos para desestabilizar o governo constitucional brasileiro.

Por Haroldo Lima, especial para o Portal Vermelho


  
Conseguiu-se sim, unificar palavras-de-ordem contra Dilma, Lula e pró Moro; foram distribuidas camisas em profusão; fizeram-se desfilar inúmeros caminhões de som; bonecos gigantes; bandeiras quilométricas, todas das mesmas cores e talhadas no mesmo estilo. E tudo isto, de norte a sul deste país continental, em todas as capitais e grandes cidades. É um custo enorme. Quem o financiou?

Algumas pistas nós temos. A mega manifestação de São Paulo contou com as catracas abertas do metrô, autorizadas pelo governo do PSDB, e pagas com o dinheiro do contribuinte. Desde muitos dias antes, a grande mídia fazia a mobilização para as passeatas, conclamando o povo para o ato. No dia 13, a GloboNews, da Rede Globo, com uma legião de jornalistas, cobriu os eventos de todas as partes do Brasil, desde cedo de manhã até a noite, sem intervalos. Uma coisa estupenda. E estranha. De onde vem tanto interesse, o que é mesmo que a Globo quer? Combater a corrupção?  Mas então, por que ela não começa pagando a exorbitância de dinheiro que deve ao Governo?

Há precisamente 52 anos, na famosa sexta-feira 13 de março de 1964, um evento memorável realizou-se no Rio de Janeiro, o grande comício da Central do Brasil. Diversos oradores falaram, o último foi o presidente João Goulart.

Todo a grande mobilização visava objetivos elevados, nacionais, democráticos e populares - as reformas de base. Perfilavam-se aí as reformas agrária, bancária, administrativa, universitária, política. O presidente assinou dois decretos, desapropriando refinarias e entregando-as à Petrobras e desapropriando terras bem localizadas, para fins de reforma agrária.

O comício da Central do Brasil pregava o progresso, sem ferir a Constituição vigente. Apesar disso, as elites, assombradas com a possibilidade da ascensão das massas, juntou-se ao governo americano e incitaram os militares brasileiros a romperem com a Constituição e derrubarem o governo. O golpe se deu 18 dias depois do grande comício. Instaurou-se uma ditadura no país, que durou 21 anos.

As manifestações havidas agora, 52 anos depois, voltam-se contra um governo constitucional, ocupado por uma pessoa contra quem não há uma só acusão de crime cometido que ensejaria sua retirada do Governo. Agridem Lula, o maior líder popular já surgido nas Américas, o operário que alterou a geografia da fome no mundo, retirando do Mapa da Fome da ONU um dos maiores países que lá estavam com cadeira cativa - o Brasil.

As manifestações de agora atacaram corretamente a corrupção, que é um absurdo de fato, mas que só passou a ser concentradamente combatida a partir dos governos de Lula e Dilma. Porque, não nos esqueçamos: quando foi feita a farra da venda de uma porção de nossas estatais, a corrupção campeou; houve gravação acertando negócio espúrio com a voz, nunca negada, do próprio então presidente da República, FHC. E que se fez? Nada. Os deputados cujos votos foram comprados por R$ 200 mil cada, para aprovarem a reeleição do próprio FHC, tiveram seus nomes publicados em jornais, alguns declararam que receberam mesmo, o dinheiro, e o que se fez? Exatamente nada.
Corrupção começou a ser combatida quando Lula e Dilma liberaram essa atividade.

Há 52 anos, o comício da Central, que não pregava golpe, terminou sendo pretexto para o golpe de 1964.

As manifestações de agora, querem o que? Combater a corrupção? Mas ela está sendo combatida, e poucos duvidam que deixará de ser na hora em que um golpe aparecer e forem afastados os personagens que têm garantido esse combate. Querem tirar a Dilma? Por que? Ela foi eleita com 54 milhões de votos, e só poderia ser retirada legalmente do poder se for comprovada que cometeu crime de responsabilidade. Já fizeram de tudo para encontar esse crime da Dilma, e não conseguiram. Alijá-la na marra, ou com pretextos fúteis, levianamente construídos, é um golpe na Constituição e aí o país perde as referências de sua vida, o arbítrio aparece, a insegurança, e tempo sombrio avança sem saída à vista.

A impopularidade da presidenta Dilma é, sem dúvida, decorrência do insucesso de seu governo. Este, é fruto da situação geral difícil por que passa a economia do mundo e dos erros da propria gestão Dilma. A gestão Dilma é séria, mas não tem sido desenvolvimentista. Assistiu, sem maiores iniciativas, à desindustrialização do país, ao recuo enorme da produção do setor de bens de capital. Suspendeu, por cinco anos, as licitações para blocos exploratórios de petróleo, atrofiando um setor que crescia bem. Estabeleceu políticas de preços de combustíveis que prejudicaram bastante a Petrobras.
Descoberta a riqueza do pré-sal, já lá se vão 10 anos e fizemos um único leilão, de um único bloco, nessa província. Sem falar dos juros elevados, moeda, por anos, valorizada etc.

Entretanto, no regime presidencialista, impopularidade não é razão para se retirar presidente. Se querem retirar a Dilma, para alterar a política do país, que ganhem as eleições de 2018, como ela ganhou as de 2014.

Um futuro de trabalho e progresso para os brasileiros, passa pelo respeito à Constituição. Esta, ainda que tenha debilidades, é a que mais tempo garantiu ao Brasil uma existência sem golpe. Tem suas lacunas, mas tem avanços importantes. Nenhuma constituição do mundo garante uma relação tão grande de direitos individuais e coletivos, como a nossa, no seu artigo 5º.

Contudo, a crise está aí. Temos que procurar uma saída, saída para o governo, mas saída para o Brasil, nos marcos da Constituição.

Para que o Governo possa governar é preciso ser fortalecido, com gente representativa de setores amplos, de liderança na sociedade, de capacidade comprovada. Pessoas dessa importância devem ser chamadas ao governo e não podem se furtar a colaborar com a busca de uma saída. Quem precisa de apoio não é a Dilma, é o Brasil. Meter nosso país agora em um "buraco-negro", é fazer o jogo de seus inimigos. Mesmo a oposição, sem perder sua identidade, deve colaborar na necessária travessia.

A chefe de Estado, que tem demonstrado a fibra admirável de uma mulher de luta, deve também ser mais solícita, perceber a gravidade do drama pelo qual passa o país, reconhecer a correção de críticas que lhe são feitas, abertas ou veladas, de que escuta pouco, prestigia pouco, compartilha pouco, a responsabilidade grande que tem.


Haroldo Lima é engenheiro, ex-deputado federal e membro do Comitê Central do PCdoB



Fonte: Vermelho

Mídia usa atos para criar discurso de “juízo final” e insuflar golpe

Após os atos do domingo (13) convocados por movimentos ligados à direita conservadora, a mídia uniformizou o discurso para dizer que “a megamanifestação” emparedou o governo da presidenta Dilma Rousseff.

Por Dayane Santos


Reprodução
  
Assim como fez durante toda a semana, a imprensa insuflou as manifestações buscando dar um caráter de um apoio unânime da população contra o governo.

De fato, o governo da presidenta Dilma enfrenta uma insatisfação popular, resultado da crise econômica que o país atravessa. Mas o que se viu nas ruas neste domingo foi mais do mesmo.

“A grande imprensa criou um clima de fim de governo, de juízo final e de insuflamento ao linchamento político, moral e físico de quem defende o governo e, particularmente de quem é do PT. Esse contexto todo foi o que insuflou as manifestações”, avaliou Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Para ele, “as manifestações são significativas e legítimas” pois se trata de um direito do cidadão de protestar em face da crise e do descontentamento com o governo Dilma. “As manifestações de hoje são equivalentes às que ocorreram entre março e abril do ano passado. O que mudou foi o agravamento da crise”, pontuou.

De acordo com a mídia, os protestos aconteceram em todos os estados do país. Os comentaristas das emissoras de TV repetem insistentemente que os números “são surpreendentes”. Que foram manifestações “nunca vistas na história do país”. Tudo isso para dizer que há todas as condições para dar um golpe contra o governo.

A jornalista da GloboNews, Renata Lobrete, não escondeu o discurso golpista ao afirmar que, “fazendo as contas olhando para as ruas, vai custar muito caro apoiar o governo depois deste domingo”.

Apesar do discurso do espetacularizante da imprensa - que atuou como organizadora do evento -, o que vimos neste domingo foi uma repetição do discurso de intolerância e criminalização da política vista nos atos anteriores.

Além disso, o que vimos foi uma maioria de famílias do mesmo nível da pirâmide social vista nos atos anteriores que votaram no candidato da direita nas eleições de 2014, o que nos leva à raiz desta crise política que é resultado do inconformismo com o resultado das urnas.

Ação orquestrada?

Para o professor Aldo Fornazieri, as ações de setores do Judiciário influenciaram diretamente os atos deste domingo. “Acho que as manifestações foram insufladas por atos politicamente orientados por parte do Judiciário. Primeiro, com a condução coercitiva do ex-presidente Lula e, depois, com o pedido da prisão preventiva por parte do Ministério Público de São Paulo”, frisou.

Ele também destacou que o vazamento da suposta delação do senador Delcídio do Amaral, publicada pela revista IstoÉ, também tive influência. “Me parece que não há dúvidas de que a IstoÉ é uma revista engajada num golpe político-jurídico desde março do ano passado’, lembrou.

Sobre a atuação da oposição que tenta surfar nas manifestações, Fornazieri destacou: “A oposição não tem força social. Ela vai a reboque dos movimentos que convocam esses atos desde o ano passado. A oposição não tem força, o que demonstra que está ganhando muito pouco com tudo isso”.

Fornazieri disse que outro elemento que se verifica nessa conjuntura é a adesão maior de setores empresariais.

“A Fiesp que apoiou o golpe de 1964 e apoiou a ditadura está apoiando novamente essas manifestações. Uma instituição liderada por um empresário que não tem empresa”, ressaltou.

O professor considera que a participação do governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, nos atos revela uma falta de prudência.

“É um direito que lhe assiste participar das manifestações, mas falta prudência do governador porque tivemos por parte da Polícia Militar a invasão da plenário de apoiadores do ex-presidente Lula, no sindicato dos metalúrgicos em Diadema. E a PM é comandada pelo governador. E provavelmente no dia 18 teremos manifestações em favor do governo. Em caso de confronto, o governador ficará numa situação muito difícil”, frisou.
 

Do Portal Vermelho