segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Nenhum desempregado a mais, reivindica João Pedro Stedile

João Pedro Stedile, da direção nacional do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Frente Brasil Popular, considera que 2015 foi "um ano perdido para os trabalhadores brasileiros". Em entrevista ao Brasil de Fato, Stedile reivindica para 2016. "Nenhum desempregado a mais", defende João Pedro.


Rafael Cavalcante
João Pedro Stedile, da direção nacional do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Frente Brasil Popular.João Pedro Stedile, da direção nacional do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Frente Brasil Popular.
Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato - Que balanço os movimentos que compõe a Frente Brasil Popular estão fazendo do ano que está terminando, em termos de lutas e de enfrentamentos políticos? 
João Pedro Stedile - A Frente Brasil Popular é uma frente ampla, uma aliança das mais diferentes formas de organização de nosso povo: movimentos populares, da juventude, sindicais e partidos. Nós sempre tomamos as deliberações por consenso, não temos instâncias de coordenação, nem porta-vozes. Assim, não posso e nem devo falar pela Frente Brasil Popular. Falo pelo que vejo nos movimentos da Via Campesina, nos movimentos populares e nas minhas andanças pelo Brasil. Em termos gerais, acho que podemos dizer que 2015 foi um ano perdido para os trabalhadores brasileiros. Um ano no qual a mediocridade política imperou. A maioria do povo brasileiro, com seus 54 milhões de votos, reelegeu a presidenta Dilma [PT]. Porém, setores das classes dominantes e os partidos mais conservadores não se deram por vencidos e quiseram retomar o comando do Executivo no tapetão. Começaram a conspirar desde a posse. Para isso se utilizaram dos espaços nos quais têm hegemonia - como a mídia corporativa, o poder Judiciário e o Congresso - para tentar derrubar a presidenta. O governo federal se assustou, montou um ministério medíocre, que não representa as forças que elegeram a presidenta. E passou o ano se defendendo, gerando uma situação de disputa e de manobras apenas em torno da pequena política.

E qual o balanço das mobilizações? 
Bem, aí acho que foi um ano bem disputado. No início, em março e abril, muitos setores da esquerda institucional não queriam ir para a rua. Fomos nós, os movimentos populares e as centrais sindicais, que insistimos na linha de que nossa principal disputa com a direita deveria ser na rua. A direita teve seu auge em março, e depois foi diminuindo em agosto, e caiu no ridículo em dezembro. E os movimentos populares fizeram o caminho inverso: fomos aumentando devagarzinho, e demos o troco em dezembro, com mobilizações de massa, em muitas capitais, principalmente São Paulo. Acho que agora conseguimos envolver não apenas os militantes, mas muita gente da base começou a se mexer e também foi pra rua. Acho que, na rua , o impeachment está derrotado. Pois a pequena burguesia reacionária que vociferava clamando pelo golpe, pela volta dos militares, não conseguiu mobilizar ninguém além deles mesmos. Além disso, a pequena burguesia na sociedade brasileira é insignificante, em termos de base social.

E na economia, qual é o balanço? 
O balanço é extremamente negativo na economia. A economia brasileira vive uma grave crise, fruto de sua dependência do capitalismo internacional e do controle hegemônico dos bancos e das empresas transnacionais. Terminamos o ano com queda de 4% no PIB. Caíram os investimentos produtivos, seja por parte do governo e empresas estatais, seja por parte dos empresários. O governo cometeu vários erros que agravaram a crise. Primeiro, trouxe um neoliberal para o Ministério da Fazenda, que certamente teria sido ministro da chapa Aécio Neves. As medidas neoliberais de aumento da taxa de juros de 7 para 14,15%, os cortes nos gastos sociais, o tal ajuste fiscal, só produziram mais problemas para o povo e para a economia. A inflação atingiu os 10% ao ano e o desemprego alcançou a média de 8,9% da população trabalhadora. O tesouro nacional pagou 484 bilhões de reais em juros e amortização aos bancos. Usaram dinheiro público para garantir o rentismo da especulação financeira, em vez de investir na solução de problemas e no investimento produtivo. Felizmente, o ministro caiu. Deixou, porém, um ano perdido. É preciso mudar a política econômica, não apenas o gerente.

Como os movimentos populares analisam a tragédia ambiental que aconteceu em Mariana?
2015 ficará marcado pelo maior crime ambiental da historia do país, e quiçá um dos maiores do planeta. E por que aconteceu? Pela sanha das mineradoras, no caso a Vale, de ter lucro máximo. Em outros países, o lixo das mineradores tem outro tratamento. Porém, custa mais caro. Aqui, acobertada por políticos por ela financiados e autoridades benevolentes, a Vale prefere deixar [os rejeitos] em barragens - procedimento, segundo os especialistas, que não tem nenhuma segurança. Já se romperam 5 barragens no país, e há outras 48 em condições semelhantes. Milhares de pessoas foram atingidas. Mataram o Rio Doce, em toda sua extensão de 700 quilômetros. E ninguém sabe como tudo isso poderá ser recuperado. Se tivéssemos um governo mais corajoso, era a hora de propor a reestatização da Vale, e usar todo seu lucro para reparar os danos causados. Aliás, está parado há anos o processo que anulou o leilão da Vale por fraude, no Tribunal Federal Regional do Pará.

Qual a avaliação da atuação do Congresso Nacional, em especial na Câmara dos Deputados, durante 2015 ? 
O Congresso foi o espelho maior da mediocridade da política durante o ano. Primeiro, elegeram Eduardo Cunha [PMDB-RJ] como presidente da Câmara, ainda que todos soubessem de suas falcatruas. E quando ele soube que a Procuradoria da República iria pedir sua destituição e prisão, se adiantou e propôs o impeachment da presidenta Dilma. Mas o feitiço voltou-se contra o feiticeiro e a presidenta Dilma foi salva, pela truculência e manipulação do feiticeiro, que usou de falsos argumentos. Tenho certeza que com o rito determinado pelo STF , certamente o governo terá os votos necessários na Câmara e no Senado para barrar o processo.

É necessário que o sr. Cunha seja julgado pelo STF o mais rápido possível. Porém, além das artimanhas do Ali Babá brasileiro, o Congresso se revelou extremamente conservador em todas as matérias encaminhadas, algumas sendo aprovadas, representando um retrocesso, uma destruição da constituinte de 88 e uma dicotomia total com os anseios e práticas da sociedade. Vários projetos esdrúxulos, sem sentido, estão percorrendo o Congresso, sobretudo na Câmara. Desde a diminuição da maioridade penal, a proibição de colocar nos rótulos que o produto é transgênico - negando informação ao consumidor, a autorização de uso para sementes estéreis; a privatização da Petrobras - projeto do senador Serra [PSDB], até medidas homofóbicas e extremamente reacionárias. Tudo isso é fruto da falência da democracia parlamentar brasileira, causada pelo sequestro que as empresas fizeram através do financiamento milionário das campanhas políticas. Segundo revelou o ex-ministro Ciro Gomes , o deputado Eduardo Cunha teria distribuído 350 milhões de reais de empresas para eleger deputados cupinchas, que agora o defendem...

E qual a solução para esse mal funcionamento da democracia brasileira?
Nós dos movimentos populares temos defendido a necessidade de uma reforma política profunda, que faça diversas modificações no regime político, no sistema eleitoral, para devolver ao povo o direito de escolher sem influências da mídia ou do capital. Há diversos projetos de lei apresentados na Câmara, por diversas entidades da Coalizão Democrática... Porém, esse Congresso não quer, e nem tem moral, para cortar seus próprios dedos. Então, só nos resta lutar por uma Assembleia Constituinte, que somente virá com o reascenso do movimento de massa. Portanto, ainda vai demorar, mas é a única saída política viável e necessária.

E tivemos alguma conquista na agenda da reforma agrária? Como andam as lutas e o governo nesse setor?
Também foi um ano perdido para os sem terra e para a agricultura familiar. O governo escalou uma boa equipe no Ministério do Desenvolvimento Agrário e no Incra, porém entregou o Ministério da Agricultura para o que tem de pior na política brasileira. E com os cortes do ajustes fiscal neoliberal, atingiu em cheio a reforma agrária. As poucas conquistas que ocorreram foram fruto de muita mobilização e pressão social. O governo não cumpriu sua promessa de acelerar o assentamento das 120 mil famílias acampadas, em todo país. Não houve nenhum novo contrato de construção de casas no meio rural. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) abandonou programas muito bons do PAA (programa de alimentos) que envolviam entrega simultânea para entidades urbanas; houve cortes de recursos para o Pronera e para a Ates (assistência técnica aos assentados). Tudo ficou parado ou piorou. Nos governos anteriores, havíamos conquistado o plano nacional de diminuição de uso de venenos (Pronara), sete ministros assinaram, mas a ministra do veneno na agricultura vetou, e a presidenta não teve coragem de promulgar. O programa de apoio a agricultura agroecológica (Planalpo), tem diretrizes boas, porém não tem recursos... e por aí vai. Perdemos um ano na agricultura familiar e na reforma agrária. Espero que o governo pare de se iludir com o agronegócio, que se locupleta com o lucro das exportações de commodities pelas empresas transnacionais, mas não representa nenhum ganho para a sociedade. E até no agronegócio os investimentos em maquinas e insumos caíram 30%.

Quais são as perspectivas políticas para o ano de 2016, na ótica dos movimentos populares? 
Nossa expectativa é de que até abril termine a novela do impeachment. E, a partir daí, o governo se recomponha com uma nova aliança de partidos governantes, com um novo ministério adequado à realidade da sociedade. E que o governo volte a assumir os compromissos que fez na campanha. Se o governo não der sinais que vai mudar, que vai assumir o que defendeu na campanha, será um governo que se auto-condenará ao fracasso. Pois não tem confiança das elites, que tentaram derrubá-lo, e ao mesmo tempo não toma medidas para a imensa base social, que é 85% da população brasileira. Espero que o governo tenha um mínimo de visão política para escolher o lado certo.

A CUT já se manifestou pela mudança da política econômica e fez críticas ao governo Dilma. Como você analisa esse processo?
A CUT e outras centrais sindicais tiveram um comportamento muito bom durante o ano de 2015, quando mobilizaram suas bases, contra o golpe, mas também em defesa dos direitos dos trabalhadores. Também li a nota da CUT que saúda a saída de Levy, mas alerta ao governo de que é preciso mudar a política econômica. E os sinais que o sr. Barbosa esta dando na imprensa não são bons, ao retomar a agenda neoliberal-empresarial, da reforma da previdência, para aumentar a idade mínima, a reforma tributária, para consolidar as desonerações e a reforma trabalhista para desmanchar a CLT. A CUT já avisou que vai lutar contra. E nós também estaremos juntos com o movimento sindical. Se o governo mexer na idade mínima da aposentadoria rural, haverá uma revolta no campo, e contra o governo. Estou apenas avisando.

Há alguma proposta alternativa de política econômica por parte dos movimentos populares? 

No ano de 2015, cerca de 150 dos nossos melhores economistas, que estão nas universidades, sindicatos e institutos de pesquisa passaram meses discutindo e apresentaram um documento com medidas de curto e de médio prazo para sairmos da crise econômica. O governo não deu bola. Foi preciso a Frente Brasil Popular exigir para que eles pudessem apresentar o documento ao governo, o que ocorreu apenas em 16 de dezembro passado. Tenho escutado muitos economistas, empresários, pesquisadores e políticos nacionalistas. E todos têm propostas claras. O problema é que o governo é surdo e autossuficiente. O governo precisa apresentar urgente um plano de retomada do crescimento da economia, e propor um pacto entre trabalhadores e empresários que cesse o aumento do desemprego. Nenhum desempregado a mais, a partir de agora.

Tenho ouvido propostas de que se poderia usar 100 bilhões de dólares de nossas reservas - que são de 350 bilhões - e, portanto, não afetaria o fluxo de comércio e nenhum pagamento externo. Com esses recursos, aplicar em investimentos produtivos na economia, como na construção civil, que rapidamente ativa toda economia, na infraestrutura das cidades, na agricultura familiar e na educação. Imaginem aplicar em alguns meses 400 bilhões de reais em investimentos produtivos, certamente ativariam a economia para voltar a crescer, garantindo emprego e renda também para os trabalhadores.

O governo deve diminuir a taxa de juros, e parte dos recursos pagos aos bancos em juros deslocar para a Petrobras, retomar suas obras, algumas faltam apenas 10% para serem concluídas e estão paradas. Repassar recursos também para o BNDES financiar a indústria e as grandes obras nas cidades. Propostas não faltam. alta é coragem pro governo construir uma grande coalizão social de forças populares e empresariais, para mudar o rumo da sua política econômica. Se ficar no rame-rame da burocracia e das contas públicas, será um governo fadado ao fracasso, e não haverá como defendê-lo. Para isso, ele precisa dar sinais logo.

Ainda que você avalie que a resolução do impeachment se dará no início do ano, como os movimentos estão se organizando para enfrentar a questão?
Durante o mês de janeiro cada movimento fará suas avaliações, balanços e tirará as lições de 2015. Depois, realizaremos nossa plenária nacional da Frente Brasil Popular, para ver o que vamos fazer em conjunto em 2016.

Por ora, há uma vontade política de que, nos dias ou na semana das votações decisivas do processo de impeachment, seja organizado um acampamento em Brasília e nas assembleias legislativas nas capitais. E também fazer vigílias massivas, em defesa da democracia e contra o golpe. Eu participei de uma mobilização e assembleia popular em Porto Alegre [RS], onde aprovamos que vamos repetir o acampamento em frente ao Palácio Piratini, em memória a Leonel Brizola, que em agosto de 1961 brecou o golpe contra Goulart, na sua campanha pela legalidade. Agora será a vigília pela democracia e repetiremos o acampamento em frente ao Palácio Piratini.

Tratando das expectativas e perspectivas para 2016, como as eleições municipais se inserem nesse cenário? 
A expectativa que temos é que o clima para mobilizações de massa aumentará durante o primeiro semestre de 2016: de um lado, diversos setores da classe trabalhadora estão enfrentando mais problemas com desemprego, inflação; de outro, mais setores sociais estão percebendo que somente sairemos da crise com mobilizações populares. O período eleitoral deve galvanizar as atenções apenas durante o calendário das campanhas. E, mesmo assim, como há um desânimo com a política institucional, é provável que nas grandes cidades haja uma apatia para o processo. Nas cidades do interior, o que determina as eleições municipais sempre gira em torno de pessoas e famílias.

Por último, na sua opinião, como as organizações populares e de esquerda devem se comportar no próximo ano? 
Nós temos ainda muitos desafios, históricos, que precisamos enfrentar no [próximo] ano e no médio prazo. A sociedade brasileira está enfrentando uma crise econômica, social, política e ambiental. E essa crise somente será superada com um projeto de país, que consiga aglutinar a maior parte da sociedade para criar uma nova hegemonia em torno dele. O capital financeiro e as corporações transnacionais querem a volta ao neoliberalismo, mas não conseguem hegemonia social, porque os brasileiros sabem que esse projeto interessa apenas aos grandes capitalistas. A burguesia interna, produtiva, não tem um projeto. A pequena burguesia queria o impeachment e será derrotada. E a classe trabalhadora ainda não tem unidade em torno de um projeto para o país. Está ainda atônita assistindo os problemas. Temos o desafio de articular todos os meios de comunicação alternativos populares, para fazer frente ao massacre diário da mídia burguesa. Temos o desafio de retomar o debate sobre a necessidade de uma reforma política, que somente virá com uma Assembleia Constituinte. E temos o desafio de pressionar o governo a mudar sua política econômica, para evitar o agravamento dos problemas da economia e da classe trabalhadora. E se o governo não mudar até abril, dando sinais claros de que lado está, certamente vai perder sua base social, e se transformará num governo de crise permanente até 2018.
 


Fonte: Vermelho

O Brasil democrático e progressista enfrentou a direita elitista

 A direita e a oposição neoliberal – ultraliberal, melhor dizendo – fizeram de 2015 uma extensão de 2014. O consórcio direitista, nele incluído grande parte dos meios de comunicação, não aceita a derrota sofrida na eleição presidencial e buscou, ao longo do ano, um atalho para o poder. 
 
A tentativa insana de romper a legalidade constitucional foi o roteiro seguido pela direita em 2015.
 
A ilegalidade de suas pretensões incluiu o golpismo do impeachment embora não haja crime de responsabilidade cometido pela presidenta Dilma Rousseff. Ou a proposta desesperada de anulação da eleição pelo TSE, mesmo depois deste tribunal já haver aprovado as contas de campanha de Dilma, e convocação de novo pleito. 
 
Mas o Brasil não é mais o país de meio século atrás. Fez um duro aprendizado democrático desde a resistência contra a ditadura de 1964, a campanha das diretas de vinte anos depois, o Fora Collor de 1992, a luta democrática e patriótica contra o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Luta concluída com a vitória das forças populares e democráticas na eleição de 2002, que escolheu Lula para a Presidência da República e abriu nova e promissora etapa na vida democrática em nosso país.
 
A resistência contra o golpismo da direita, ao longo de 2015, exprimiu este aprendizado democrático – o povo e suas entidades representativas saíram às ruas em defesa não apenas do mandado legítimo da presidenta Dilma Rousseff mas, sobretudo, da legalidade democrática.
 
Os fantasmas do golpismo estiveram encarnados não apenas nos derrotados de 2014, com o tucano Aécio Neves à frente. Esta imagem fantasmagórica surgiu também nas figuras que fazem parte da linha sucessória da presidenta da República. Arrancando a máscara conspiratória de Michel Temer, que chegou ao desplante de pensar em formar um eventual governo dirigido por ele. E de Eduardo Cunha, na mira não só do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados mas, sobretudo, da Procuradoria Geral da República, que solicitou seu afastamento da Presidência da Câmara, a cassação de seu mandato e sua prisão.
 
Estes fantasmas remetem a um passado longínquo e lembram a traição do vice-presidente João Café Filho ao presidente Getúlio Vargas, em 1954, e aos golpistas daquele ano trágico. 
 
A ação golpista da direita remete aos piores e mais instáveis momentos da República. Mas não passarão!
 
Não foi apenas a desmoralização da linha sucessória da Presidência da República que freou o golpismo. Foi principalmente a ação decidida do movimento popular e suas organizações representativas, cuja presença nas ruas cresceu ao longo do ano, em defesa da legalidade constitucional. 
 
Movimento que teve na presidenta Dilma Rousseff uma corajosa e decidida liderança, em defesa não apenas de seu mandato mas sobretudo da democracia.
 
Em certa medida o mês de dezembro, com a descabida e vingativa abertura do processo de impeachment pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, resumiu os embates ocorridos em 2015. 
 
O ano chega ao fim com a direita nas cordas, embora ainda com muita força e disposta a intensificar suas ações golpistas.
 
Dilma Rousseff recuperou forças e voltou a crescer na avaliação popular medida pelas pesquisas de opinião. O golpe é cada vez mais condenado pelos brasileiros e pela inteligência do país. E mesmo setores das classes dominantes – como por exemplo uma destacada socialite de São Paulo – se convencem de que nunca se combateu tanto a corrupção do que sob Lula e Dilma.
 
2016 será um ano de grandes embates políticos, mesmo porque haverá eleições municipais. Mas começa com a oposição de direita na defensiva, e o campo democrático e progressista com maior iniciativa política.
 
O governo criou as condições para retomar o desenvolvimentismo abandonado, sob pressão da direita, desde 2013. 
 
Será uma retomada em condições difíceis. Mas a volta do crescimento, a garantia do emprego e da renda são parte – junto com os programas sociais odiados pela direita – da agenda que o país precisa e luta por ela. 
 
Fala-se muito em datas – 2016, 2018, etc. Serão anos importantes, sem dúvida. Mas a disputa real e concreta é pelo avanço político, econômico e social do Brasil e dos brasileiros. 
 
A direita não aceita – nunca aceitou – o desenvolvimento de um Brasil para todos os brasileiros. Agiu, ao longo da história, contra qualquer tentativa de alcançar este objetivo. Esta é a disputa real, que move o golpismo reacionário. O desenvolvimento para todos ameaça os privilégios da direita e da elite reacionária, cujo esforço é voltar a um governo voltado apenas, como se dizia no passado, para 1/3 dos brasileiros, deixando os demais na pobreza, na miséria e na exclusão social. 
 
Os embates de 2015 deixaram cada vez mais claro que o Brasil democrático e progressista não aceita o golpe da direita elitista e vai continuar lutando para impedir que sejam derrotadas as conquistas do nosso país e do povo brasileiro. 

Fonte: Vermelho

A solução para a situação da Síria exige respeito pela soberania

A resolução 2254, sobre a situação na Síria, adotada unanimemente pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas no passado dia 18 de dezembro, com as suas contradições e ambiguidades e sendo um autêntico exercício de hipocrisia e cinismo para aqueles que – como os Estados Unidos, a França ou o Reino Unido – desde há cinco anos se lançaram na destruição da República Árabe Síria, não deixa de refletir a recente evolução da situação neste país.

Por Pedro Guerreiro, no Jornal Avante


  

Se a resolução começa por reafirmar o forte compromisso para com a soberania, independência, unidade e integridade territorial da República Árabe Síria, e com os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, ela contém igualmente os elementos que serão utilizados para continuar a colocar em causa tais “compromissos”, designadamente, por parte daqueles que até aqui nunca os respeitaram.

Isto é, impossibilitada que foi a consumação da destruição do Estado sírio, nomeadamente das suas instituições, depois de cinco anos de ingerência e de agressão por parte dos Estados Unidos e seus aliados da Otan e no Oriente Médio – que criaram e apoiaram todo o gênero de grupos mercenários que espalharam a morte e a devastação –, pretenderão alguns consumar agora e por esta via a dita “mudança de regime” na Síria, que, até aqui, não conseguiram impor pela guerra.

Se dúvidas existissem quanto às suas reais intenções, bastaria acompanhar as declarações dos representantes dos Estados Unidos, da França ou do Reino Unido, entre outras, no momento da adoção desta resolução no Conselho de Segurança. Com nuances, as suas declarações confluem na reafirmação do objetivo que continuam a considerar primordial, isto é, o afastamento do presidente da Síria, Bashar al-Assad, com base numa “transição política” por si calendarizada e com a inclusão/exclusão de quem por si fosse determinado. Se agora já anunciam a exclusão do denominado “Estado Islâmico”, por outro lado, sublinham a inclusão de grupos similares que participaram numa reunião recentemente realizada na Arábia Saudita – um dos países que sempre apoiou o dito “Estado Islâmico”.

Não deixa de ser igualmente significativo e clarificador que são aqueles que mais desrespeitaram a soberania e independência do Estado sírio e que são responsáveis pela brutal destruição deste país que, de novo, se posicionam na primeira linha (da continuação) da ingerência, impondo condições, determinando objetivos, acenando com ameaças, estabelecendo mecanismos que permitam a sua ação direta no terreno – no fundo, continuando a pretender decidir o que só ao povo sírio compete e cabe decidir.

A solução para a grave situação na Síria exige o efetivo respeito da soberania, da independência, da unidade e da integridade territorial da República Árabe Síria e não a ingerência e a intervenção externa com vista à imposição de uma dita “mudança de regime” – autêntica ação criminosa que os Estados Unidos com os seus aliados perpetraram, por exemplo, na Iugoslávia, no Iraque ou na Líbia, desprezando os princípios da Carta das Nações Unidas.

O imperialismo não vai desistir facilmente de concretizar o seu intento de destruir a República Árabe Síria e o seu posicionamento pan-árabe e anti-imperialista. Como antes, cabe às forças patrióticas e progressistas da Síria, cabe ao seu povo defender o seu Estado independente e soberano – com o apoio de outros Estados e a solidariedade das forças da paz e anti-imperialistas do mundo.

Fonte: Vermelho

CTB: “Retomada do desenvolvimento é o ajuste que o Brasil precisa”

Em entrevista ao portal de notícias da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), o presidente da entidade, Adilson Araújo, falou sobre a atuação da central em 2015, desafios e perspectivas para 2016. 


Portal Vermelho
  
Adilson deixou claro que a CTB é contra o impeachment de Dilma, porém é crítica à política de ajuste fiscal promovida pelo governo para sair da crise. Para o dirigente, “não é hora de fazer reformas nem reduzir direitos”. Ele afirma que o momento exige um plano de ação emergencial para destravar a economia. “A retomada do desenvolvimento é o ajuste que o Brasil precisa”, destaca.

Confira abaixo na íntegra a entrevista do presidente da CTB:


Portal CTB - Como foi 2015 para a CTB que, entre outras conquistas, recebeu filiações importantes como a do Sindicato dos Comerciários do Rio?


Adilson Araújo - A cada aferição do Ministério do Trabalho que define o nível de representatividade verificamos o real crescimento da CTB. Ao que tudo indica, devemos chegar à casa dos 11% em 2016. Isso é resultado de um trabalho coletivo, do esforço da Direção Nacional e das seções estaduais. O Projeto CORAL (Centro de Organização, Apoio e Logística às entidades sindicais), inaugurado nesta gestão, vem alimentando os processos de regularização e constituição de novas entidades sindicais e fortalecendo as CTBs nos estados. A conquista do Sindicato dos Comerciários foi histórica para o sindicalismo no Brasil. Uma turma jovem e comprometida com a luta classista assumiu, democraticamente, como o nosso apoio, a entidade, uma das mais importantes estruturas do sindicalismo brasileiro, que vinha sendo dominada há mais de cinco décadas por uma família.

Portal CTB - A realização do Simpósio da FSM e o Ato Mundial Anti-Imperialista confirmam o protagonismo internacional da CTB?

AA – A CTB organizou e recebeu a principal atividade da Federação Sindical Mundial (FSM) e o aniversário de 70 anos da instituição. O evento, que reuniu representantes de mais de 50 países, consagrou a atuação da CTB e demarcou o seu espaço no sindicalismo internacional. O encontro no Brasil, ocorrido em outubro, foi marcado também pela realização do Ato Mundial Anti-imperialista. Aconteceu num momento histórico e desafiador, num cenário de radicalização da luta de classes no Brasil, na América Latina, no mundo, com conflitos internacionais instigados pelo imperialismo. Ao aprovarmos a Carta de São Paulo, denunciamos o efeito devastador desta, que é uma das mais longas crises do capitalismo, que se alonga e ainda não encontrou seu desfecho. Estes eventos nos incluiram na luta internacional e deixaram claro que a chama da luta pelo Socialismo continua acesa, por um mundo livre das guerras de opressão, dos ataques à autodeterminação dos povos, das desigualdades, do ódio e do preconceito.

Portal CTB - Muitas perdas de direitos trabalhistas estiveram em pauta ao longo de 2015. No saldo final do ano, a CTB, o movimento sindical pode comemorar?

AA – O Congresso eleito, ainda mais conservador, trouxe para o centro da disputa política uma agenda regressiva, com vistas à flexibilização dos direitos e a precarização do trabalho. Resistimos à onda que queria sacramentar o PL da terceirização, de forma irrefreável e generalizada. No debate do PPE fomos pegos de surpresa com a reedição do “negociado sobre o legislado”, que somente saiu do relatório devido à pressão e importante articulação da nossa central com parlamentares na Câmara dos Deputados. Nem tudo está perdido. 2015 termina com a garantia de que a Política de Valorização do Salário Mínimo, sempre defendida por nós, será mantida no próximo ano. O salário mais uma vez foi reajustado acima da inflação – de R$ 788 para R$ 880 – a partir de 1º de janeiro. É bom lembrar que essa conquista é fruto da luta unitária das centrais sindicais.

Portal CTB - É notória a abertura do governo ao diálogo com as centrais sindicais. Sempre foi assim?

AA – Houve um tempo em que os trabalhadores eram tratados à base da mordaça e do chicote. Tinham aqueles que defendiam intervenção nos sindicatos e o fim das centrais sindicais. Vencemos etapas importantes com a vida democrática e conquistamos a legalização das centrais. Essa conquista permitiu maior abertura e diálogo com o governo, porque ele sabe que sua voz nas ruas é a classe trabalhadora. Seria um profundo equívoco romper com essa base social.

Portal CTB - Como a CTB e demais centrais reagiram ao anúncio de medidas que atingem os trabalhadores, a exemplo das reformas da Previdência e Trabalhista?

AA – Nos diversos encontros que tivemos com a presidenta Dilma em 2015 ela foi alertada de que não há acordo nessa história de alterar as regras da Previdência. As MPS 664 e 665 (que alteram as regras de seguro-desemprego, abono salarial e mudanças na concessão de pensão por morte e auxílio-doença) não agradaram. Outra mudança previdenciária pode frustrar ainda mais a sua base social. A palavra de ordem é resistir a qualquer medida que venha acarretar prejuízos. Sabemos ainda que as relações de trabalho precisam avançar muito para corrigir distorções e aperfeiçoar a tão atacada Legislação Trabalhista. No entanto, estamos diante de uma grave crise econômica e política – não é hora de fazer reformas nem reduzir direitos na busca pelo ajuste fiscal. O momento agora exige uma ampla unidade de forças para promover ações emergenciais de combate aos graves problemas que afligem o nosso povo e ameaçam o país. A classe trabalhadora vai resistir a toda e qualquer ameaça de retrocesso e perda de direitos.

Portal CTB - E qual seria a saída para esta crise?

AA – A retomada do desenvolvimento é o ajuste que o Brasil precisa. Como sugere o documento “Compromisso pelo Desenvolvimento”, apresentado ao governo pelas centrais sindicais e organizações empresariais, o plano emergencial para o Brasil voltar a crescer contempla a continuidade de investimentos em infraestrutura, a recuperação da nossa capacidade produtiva, geração emprego e renda, o redirecionamento da política econômica e o regime fiscal, entre outros. No texto, entregue em dezembro de 2015 à presidenta, apontamos 7 diretrizes para se chegar a isso, entre eles uma mudança na política econômica conservadora, redução dos juros, retomada dos investimentos públicos e privados, potencializar a produção industrial que vem pagando caro pelo processo de desindustrilização do país.

Portal CTB - A mobilização da classe trabalhadora foi massiva em defesa da democracia, como se viu no ato do último dia 16. Houve certo amadurecimento e conscientização da militância?

AA – Vivenciamos no Brasil um período em que prevalecia a política do arrocho salarial, do desemprego em alta escala, de privatizações e subserviência ao imperialismo norte-americano – era assim que o tucano FHC governava o país. Esse retrato merece ser comparado ao legado de conquistas alcançadas a partir dos governos Lula e Dilma. Ninguém, em sã consciência, vai querer voltar a um tempo obscuro, onde na cartilha neoliberal somente os ricos podiam tudo e a maioria da população, excluída e marginalizada, quase nada. O Ato do dia 16 de dezembro foi uma resposta necessária àqueles que advogam a tese do impedimento do mandato constitucional da presidenta, eleita democraticamente pelo voto popular. A classe trabalhadora é consciente do seu papel e não quer voltar ao passado.

Portal CTB - 2016 está aí. Quais os desafios da CTB para o próximo ano?

AA – O compromisso da CTB é promover a consciência de classe em suas bases e, mais do que nunca, a luta agora passa pela defesa da democracia, contra o golpe. Para a CTB fica evidente que esta tarefa vai exigir ampla unidade com os setores democráticos e progressistas da sociedade brasileira. Construir uma grande mobilização nacional nesta direção, pautando de forma acelerada a retomada do crescimento econômico será o caminho. Em 2016 a CTB continuará presente em todas as campanhas que atendam os interesses da classe trabalhadora e do país. Os êxitos alcançados nestes 8 anos de existência da central sindical que mais cresce no país sinalizam que estamos no caminho certo.
 


Fonte: Portal CTB via Vermelho

Brasil reduziu extrema pobreza em 63% em 10 anos

O Brasil reduziu em 63% a taxa da pobreza extrema na última década. A conclusão é do estudo Pnad 2014 – Breves análises, uma nota técnica feita com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), publicado no último dia (30) pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea).


MDS
Os avanços apontam crescimento real da renda do trabalhador e diminuição de desigualdades, além do aumento da escolaridade e das condições gerais de vida do brasileiro e inclusão das mulheresOs avanços apontam crescimento real da renda do trabalhador e diminuição de desigualdades, além do aumento da escolaridade e das condições gerais de vida do brasileiro e inclusão das mulheres
A publicação mostra que em 2014 o Brasil permaneceu em “franco processo de mudança social”, quando 2,48% da população estavam em situação de extrema pobreza, índice 63% menor que em 2004.

De 2013 a 2014, a taxa de pobreza extrema caiu 29,8%, “uma redução importante”, analisa do texto, que associa a queda à manutenção do aumento da renda e redução das desigualdades.

Na análise do Ipea, a base estruturante dos avanços sociais que vêm sendo feitos desde 2003 permanece. Há o crescimento real da renda do trabalhador e a diminuição de desigualdades, o aumento da escolaridade e das condições gerais de vida do brasileiro e a diminuição das brechas que separam negros de brancos, mulheres de homens, trabalhadores rurais de urbanos.

Na educação, o país alcançou a média nacional de dez anos de estudo, em 2014. Apesar das disparidades sociais, regionais e raciais, que permanecem, o Norte e Nordeste alcançaram médias próximas à nacional, com 9,3 e 9,2 anos de estudo, respectivamente.

As médias das mulheres, com 9,8 anos de estudo, e homens negro, com 9 anos, também estão abaixo da nacional.

Apesar dos avanços, o estudo evidencia ainda grandes desigualdades de gênero e raça entre os brasileiros, cujas mudanças são mais perceptíveis no longo prazo.

Em 2014, por exemplo, o Brasil possuía 2,4 milhões de mulheres negras desocupadas contra 1,2 milhão de homens brancos desempregados e, apesar de as distâncias terem diminuído desde 2004, os homens brancos ainda recebem rendimentos 60% superiores aos das mulheres negras.

O estudo Pnad 2014 – Breves análises foi organizado pelo diretor da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, André Calixtre. É composto por textos de vários pesquisadores, cada um analisando um conjunto de dados de um tema específico. Trata-se de uma interpretação do Ipea dos dados da Pnad, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 

Fonte: Agência PT de Notícias via Vermelho

Mais Médicos de 2015 é composto 100% por profissionais brasileiros

Enquanto 79% dos médicos que entraram no programa, de julho de 2013 a dezembro de 2014, são cooperados cubanos, todos os que entraram em 2015 são brasileiros


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No começo deste ano, além da opção existente desde o início do programa, na qual o médico atende por três anos na atenção básica do local para onde for designado, o Ministério da Saúde adicionou uma segunda alternativa para profissionais registrados no Brasil, em que eles passam apenas um ano clinicando e recebem, ao final, um bônus de 10% nas notas de concursos para ingresso em residências médicas.

Com a mudança feita em janeiro de 2015, foram abertas 4.146 vagas, das quais 92% foram preenchidas por profissionais com registro no Brasil e 8% por médicos brasileiros formados fora do País e sem registro. A cada três meses, o governo abre editais para repor vagas, caso haja desistências.
Foi esse bônus que atraiu Bruna da Silva a entrar no programa. Formada há cinco anos, a médica quer fazer residência em anestesiologia e acredita que o percentual de 10% a mais na nota a ajudará a atingir esse objetivo.
Bruna foi designada para trabalhar na cidade pernambucana de João Alfredo, que tem 32 mil habitantes e fica a cerca de 100 quilômetros da cidade onde ela morava, Recife. “Conseguimos resolver a vida de muitos pacientes e evitar que eles procurem o hospital.”
Como na maioria dos postos de atenção básica, hipertensão e diabetes são as maiores demandas do posto onde Bruna trabalha. “A equipe é muito boa, e agora os pacientes estão deixando de ir ao hospital por problemas que podem ser resolvidos nos postos, como controle de diabetes, de hipertensão, entre outros.”
Divergências
Desde o início do programa, em 2013, os editais sempre abrem chamadas primeiramente para médicos com registro no Brasil, em seguida, para os brasileiros formados no exterior. As vagas restantes, que até 2014 acabavam sendo a maioria, são ocupadas por profissionais da cooperação entre Brasil e Cuba, intermediada pela Organização Mundial da Saúde.
A grande divergência entre entidades médicas e governo com relação à iniciativa é que, enquanto a legislação brasileira exige registro nos CRMs para que os médicos possam atuar no País, a Lei 12.871, que institui o Mais Médicos, dispensa esse documento de pessoas formadas fora para atuação exclusiva no programa. Dessa forma, a maioria dos profissionais do Mais Médicos clinicam sem registro.
Sobre o programa
Criado em 2013, o Mais Médicos paga uma bolsa-formação a médicos para que eles atendam na atenção básica de regiões carentes. Médicos que se inscrevem individualmente ganham pouco mais de R$ 10 mil, já os cubanos recebem menos, pois parte do dinheiro fica com o governo cubano. Hoje, 18.240 profissionais clinicam p


Fonte:Portal Brasil com informações da Agência Brasil via Vermelho

A cantora do milênio é negra, brasileira e feminista: Elza Soares

Considerada “a melhor cantora do milênio” pela BBC, descrita como “uma mistura explosiva de Tina Turner e Celia Cruz” pela Time Out, e conhecida no mundo todo como A Rainha do Samba. Nascida na favela da Moça Bonita, passava a infância “rodando pião e brigando com os meninos”.


Foto: Cidade das artes
A CANTORA DO MILÊNIO É MULHER, NEGRA, BRASILEIRA E FEMINISTA: ELZA SOARESA CANTORA DO MILÊNIO É MULHER, NEGRA, BRASILEIRA E FEMINISTA: ELZA SOARES
Casou pela primeira vez aos 12 anos, teve seu primeiro filho aos 13, ficou viúva aos 21, e se tornou sensação internacional aos 30. Elza Soares não é apenas um ícone como artista, é também um ícone como pessoa, e um exemplo de superação. A vida não deu trégua pra essa mulher: teve que ser forte pra lidar com inúmeras dificuldades, e ainda assim, nunca deixou de subir no palco com um belo sorriso no rosto e contagiar a plateia com a alegria do samba.

 


Nada é doce e suave quando se trata de Elza Soares. Desde sua expressão dura, emoldurada por seu afro volumoso coroado com flores ou um turbante, até sua voz metálica, suas feições felinas, seu sorriso largo e rasgado, sobrancelhas desenhadas altas e arqueadas, e sua eloquência curta e grossa, aquilo que Elza transmite mais que tudo é força.

Hoje, tem 60 anos de carreira musical. Seu samba alegrou e inspirou três gerações, e continuará a alegrar e inspirar as próximas. Elza Soares é um clássico, e não apenas um daqueles clássicos antigos, tipo aquela galera que fez músicas geniais e se aposentam, ficando presas no passado. Ela é um clássico que provou que enquanto estiver viva vai continuar se adaptando às novas gerações e aos novos mundos, sempre dando um jeitinho de adaptar seu talento.



Em Outubro, surpreendeu os fãs, já acostumados a ouvir sua voz entre os batuques e aranhas do samba de raiz e da bossa tradicional, ao lançar um álbum, sem muito estardalhaço ou promoção prévia. Sim, Dona Elza fez a linha Beyoncé e surpreendeu os fãs com um álbum quando ninguém esperava, e como se não bastasse: o primeiro álbum inteiramente composto de músicas inéditas, depois de sua longa discografia recheada de interpretações de músicas muito bem conhecidas pelo Brasil. A princípio, é difícil de acreditar que uma senhora de 78 anos tenha lançado onze faixas tão contemporâneas, e tão relevantes em 2015. Os principais temas do “A Mulher do Fim do Mundo” é a violência contra a mulher, negritude, morte, e sexo.


Abrindo o álbum, a belíssima faixa “Coração do Mar” é um poema de Oswald de Andrade cantado acapella, um ode a uma terra imaginária, “terra que ninguém conhece”. “É um navio humano / Quente e negreiro / Do mangue”. Conforme a voz de Elza desaparece, surge um quarteto de cordas anunciando a próxima faixa, e talvez a mais bela do álbum, que rendeu seu título: “A Mulher do Fim do Mundo”. Em contraponto às cordas, aparece a percussão típica do samba, acompanhada da voz ríspida de Elza: “Meu choro não é nada além de Carnaval / É lágrima de samba na ponta dos pés”.

“Na chuva de confetes deixo a minha dor
Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida, dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou – e vou – até o fim cantar”

Eu fico arrepiada só de lembrar dessa música. É incrível como o trabalho de Elza pode soar tão familiar, tão tradicional, tão samba, e ainda assim, tão diferente e inovador. Sua voz nesse álbum, suja, pesada, carrega seus 60 anos de carreira, bem como seus 78 anos de dor – desde sua infância difícil até a recente morte de seu quinto filho. E ainda assim, Elza se mostra mais empoderada do que nunca, o que fica bem claro na terceira faixa do álbum: “Maria da Vila Matilde – Porque Se a da Penha é Brava, Imagine a da Vila Matilde”, faixa que mistura um samba sujo com rock.

“Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome e explicar meu endereço
Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”

Empoderamento de encher os olhos d’água, né? O melhor é o deboche que permeia essa faixa – Elza diz que quando o servidor público chegar ela oferece um cafezinho e mostra o roxo no seu braço, e que quando a mãe do agressor ligar, ”Eu capricho no esculacho / Digo que é mimado, que é cheio de dengo / Mal acostumado, tem nada no quengo”. Em entrevista, disse “Amor com pancada não existe. Mulher só deve gritar quando for de prazer”. E como coisa do destino, esse álbum foi lançado três semanas antes da prova do ENEM, cuja redação era justamente sobre a violência contra a mulher. Não é à toa que eu digo que a Elza é um clássico que continua relevante.

Seguem duas faixas agressivas e pós-apocalípticas: “Luz Vermelha” e “Pra Fuder”. A primeira é a descrição de um Rio de Janeiro após o fim do mundo, por onde Elza vaga, sobrevivente. A segunda é sobre uma experiência sexual em que Elza se sente como uma espécie de entidade nativa do fogo. Em entrevista para O Globo, Elza explica: “A mulher do fim do mundo é a que vai ficar. O fim do mundo é a eternidade. Sou espírita, dentro do espiritismo existe uma entidade que se chama Iansã. Ela é o fogo, a lava. Eu me vejo como essa entidade maravilhosa se incendiando, mas viva, viva eternamente”. Pra TV Carta, ainda completou: “Pra Fuder não é só sobre cama, não. É a mulher que bota pra fuder de verdade”.

Já tá sem fôlego depois de tanto samba (literalmente)? Pois segura esse tamborim aí que tem mais: a sexta faixa do CD é sobre “Benedita”, uma travesti traficante.

“Ele que surge naquela esquina
É bem mais que uma menina
Benedita é sua alcunha
E da muda não tem testemunha
Ela leva o cartucho na teta
Ela abre a navalha na boca
Ela tem uma dupla caceta
A traveca é tera chefona”

Talvez a faixa mais agressiva do álbum, ela transparece a realidade violenta da travesti no Brasil, e podemos sentir a adrenalina da perseguição policial às que traficam ou se prostituem. Ao longo da música, fica claro o porquê de Elza ter inserido essa faixa no álbum: ela se enxerga na travesti – violentada, injustiçada, forte, persistente e guerreira, Benedita é uma verdadeira “mulher do fim do mundo”, como a própria Elza. E Elza não simplesmente largou essa faixa e saiu correndo: em entrevistas sobre o álbum, quando questionada sobre a faixa, ela não deixa de falar sobre a situação da comunidade trans no nosso país, revoltada com a violência que sofremos. Rainha mesmo, né? Isso sim que é sororidade. Em entrevista à TV Carta, disse “A mulher não tomou ainda o conhecimento que uma mulher ajuda a outra, que a gente precisa ter mulheres do nosso lado. Precisamos de amigas.”

A faixa “Firmeza” é uma conversa descontraída entre jovens amigos que “se trombaram” na rua, provando o quão contemporânea Dona Elza realmente pode ser, simulando naturalmente um diálogo cheio de “qualés” e “firmezas”. “Beleza mano, fica com Deus / Quando der a gente se tromba, beleza? / Você é mermão muleque”. Em “Dança”, faixa mais tranquila que as cinco anteriores, que dialoga com o tango, Elza retorna a questões existenciais e espirituais. “Daria a minha vida a quem me desse o tempo / Soprava nesse vento a minha despedida / … / E se eu me levantar, ninguém vai saber / E o que me fez morrer, vai me fazer voltar”.

Se o álbum abriu com duas músicas belíssimas, ele também encerra com três faixas tão belas quanto. A instrumentação de “O Canal” tem forte influência da música africana, que acompanha o tema da letra: uma jornada espiritual. “Solto” é a única faixa sem distorções, fora o prelúdio acapella do álbum, “Coração do Mar”. Descreve o processo de morrer: a alma se desprendendo do corpo. E, finalmente, fechando o álbum com chave de ouro, “Comigo” começa num crescendo de ruídos e distorções, construindo a tensão do ouvinte. Ao chegar na metade da faixa, o ruído de repente cessa, e a voz de Elza surge novamente num acapella belo e singelo, que encerra o álbum:

“Levo minha mãe comigo
Embora já se tenha ido
Levo minha mãe comigo
Talvez por sermos tão parecidos
Levo minha mãe comigo
De um modo que não sei dizer
Levo minha mãe comigo
Pois deu-me seu próprio ser”

O novo álbum de Elza é fogo, é melancolia, é sofrimento e é liberdade, como há de ser o samba, como é Elza Soares, e como é a mulher brasileira. Empodera, toca na ferida, é aquele tapa na cara que dói, mas nos faz acordar. Trata de racismo, de misoginia, de transfobia. A voz de Elza está rouca, rasgada, e sempre prestes a falhar, e exatamente por isso, mais bela do que nunca. É uma cicatriz que mostra a força que ela precisou pra enfrentar o que enfrentou, e é bela, como as marcas da idade no seu rosto. “Boto o passado todo num cantinho, guardadinho em mim, mas sabendo que o now está aqui. Ontem já foi, amanhã não sei. Então, tem que ser agora”.

Elza Soares é o olhar misterioso de Capitu, a casca grossa de Maria da Penha, o sorriso alegre de Carmen Miranda, o braço forte de Dandara, tudo junto. É daquelas mulheres que fazem História pra lembrar às mulheres do Brasil que esse país é nosso.
 

Fonte: Revista Capitolina via Vermelho