quinta-feira, 12 de novembro de 2015

As mentiras do sionista da Folha de S. Paulo

  

Um colunista da Folha de S. Paulo, João Pereira Coutinho, escreveu na quarta-feira (10) um artigo no jornal paulista intitulado “O adeus de Caetano Veloso” onde, a pretexto de criticar o cantor e compositor baiano, que condenou os crimes israelenses contra o povo palestino, desfia, em um tom falsamente tolerante, um rosário de mentiras visando justificar o genocídio contra o heroico e martirizado povo palestino. 


A falsa indulgência com que o colunista finge tratar o assunto é desmascarada logo no início do texto quando ele explica que a paz não existe porque “a parte árabe sempre recusou” trocar territórios pela paz. Notem a sutileza do raciocínio (e da linguagem, que fala em parte “árabe” e não parte “palestina”, embora os palestinos sejam árabes, o que se busca com este recurso é negar a existência dos palestinos como povo). Se não existe paz, a culpa é da “intransigência dos árabes”. Imagine o leitor a seguinte situação: ao voltar para casa você encontra ocupando o quarto dos seus filhos um invasor fortemente armado. Depois de tentar desalojá-lo sem sucesso você assiste, já muito ferido, o invasor ocupar a sala, a cozinha e o banheiro. Do último espaço que lhe resta, o corredor, você ainda resiste ao agressor superior em armas que lhe acusa, por sua resistência, de ser .... intransigente. Seria cômico se não fosse absolutamente trágico. Subjacente ao hipócrita texto perpetrado pelo sionista da Folha está a noção de que o Estado de Israel foi criado em uma terra de ninguém, corroborando aliás o slogan da propaganda sionista da época: “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Na verdade, toda a argumentação de João Pereira Coutinho apenas repete, com outras palavras, as falsas teorias sionistas sobre o conflito (leia aqui o artigo do colunista da Folha reproduzido por um blog). É certo que não existia um Estado Palestino na região quando da ocupação israelense, mas é inquestionável que existia sim um povo que era o dono da terra desde tempos imemoriais: o povo palestino.

O sionista “cândido”

Quando da ocupação israelense, viviam naquela região mais habitantes por quilômetro quadrado do que na Argentina ou nos Estados Unidos na mesma época. Desde então, os palestinos, que tinham 100% das terras, passaram a ter 45% em 1947, cerca de 35% em 1967 e com as negociações de paz de 1993, possuem hoje o controle de menos de 22% da Palestina histórica. Realmente, são muito intransigentes estes palestinos. Mas vocês acham que a culpa dos palestinos pelo conflito termina aí? Pois estão redondamente enganados. O sionista da Folha afirma que a ocupação da Faixa de Gaza só continua por conta dos mísseis que o Hamas joga contra Israel, e conclui candidamente: “o fim da ocupação da Cisjordânia foi adiado ‘sine die’, não por opção de Israel – mas porque os radicais deixaram Israel sem opções”. É assim que a 5ª potência militar do mundo, Israel, que recebe de seus parceiros estadunidenses ajuda militar de US$ 3 bilhões anuais (e o premiê israelense Benjamin Netanyahu já anunciou que pretende pedir mais US$ 50 bilhões) é atrozmente ameaçada por um povo sem exército, sem marinha, sem aeronáutica, que tem em sua defesa grupos guerrilheiros armados de forma precária.

O avassalador poder militar palestino

Segundo o relatório anual do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) da ONU, divulgado em maio de 2015, apenas a operação “Barreira de Proteção”, lançada pelo exército israelense contra a Faixa de Gaza em 2014, deixou um saldo de mais de 1.500 civis palestinos mortos, 11.000 feridos e 100.000 deslocados. Prestem atenção na palavra CIVIS. No total, 2.200 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza, incluindo combatentes e 550 crianças. Prestem atenção na palavra CRIANÇAS. E do lado israelense? Do lado israelense, segundo o mesmo relatório da ONU, 73 pessoas morreram, incluindo 67 soldados. Realmente, o colunista da Folha tem razão: a máquina de guerra palestina é avassaladora. Mas o maior absurdo de todo este texto de propaganda sionista assinado pelo Mossad, quer dizer, desculpem, por João Pereira Coutinho, acontece quando ele afirma que Israel “expressa o tipo de cosmopolitismo e familiaridade que não se encontra nas capitais islâmicas da vizinhança. Capitais de países onde democracia, respeito pelos direitos humanos ou igualdade entre os sexos são produtos raros. Seria uma pena que Caetano Veloso, um homem inteligente, trocasse Tel Aviv por Damasco, Teerã ou Riade”. Realmente, é muito cosmopolita um Estado onde seu Ministro de Relações Exteriores defende o extermínio de todo um povo. Declaração textual de Avigdor Lieberman: “Nossos soldados estão fazendo bem o trabalho em Gaza, mas a solução não é a invasão, a solução é como a que os Estados Unidos usaram com o Japão, em Hiroshima e Nagasaki”.

Mais cosmopolitismo israelense

O cosmopolitismo israelense se releva inteiramente pela sinceridade do cosmopolita Ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman: “Quando existe contradição entre valores democráticos e valores judaicos, os valores judaicos e sionistas são mais importantes”. Este tipo de declaração de maneira nenhuma é um caso isolado. O cinismo dos líderes sionistas vem de longe. A decantada Golda Meir declarou em 8 de março de 1969: "Como podemos devolver os territórios ocupados, se não existe para quem devolvê-los?" O que era perfeitamente compatível com sua afirmação taxativa de que “não existe um povo palestino”. O que o sionista da Folha tenta esconder é claro como o sol: o Estado de Israel é racista e teocrático, com muros do apartheid sendo construídos impunemente, pessoas constantemente expulsas de suas terras e obrigadas a usar documentos com cores diferentes apenas porque não são judeus “puros”, etc. A involuntária ironia final do João Pereira Coutinho está na citação à Riade como contraponto à “cosmopolita” Tel Aviv. Riade é a capital da Arábia Saudita, país com governo ditatorial e teocrático. Pois Israel, em conjunto com Arábia Saudita, EUA e Otan, faz na prática uma aliança militar com o Estado Islâmico contra o governo Sírio, que é, este sim, um governo laico, solidário, onde convivem fiéis de diferentes religiões e que garante direitos iguais às mulheres. No artigo do sionista da Folha aparece a ilustração de uma mão cheia de sangue, com certeza uma referência sádica ao sangue do povo “que não existe”, mas que, queiram ou não os sionistas e suas penas de aluguel, resiste, luta e vencerá.

Enquanto isso, em Portugal

Nesta quarta-feira (10) caiu o governo de direita de Portugal. É que estes portugueses - orgulhosos que são por um compatriota dar nome ao maior clube de futebol do mundo, o Vasco da Gama - não leem o colunista de uma nota só que escreve em O Globo, Nelson Motta, que conforme abordei na última Notas Vermelhas, havia informado “que a aliança de liberais e conservadores que sustenta o governo impôs uma derrota humilhante ao Partido Socialista”. Você só impõe uma “derrota humilhante” aos adversários se obtiver, por óbvio, uma vitória esmagadora. Pois não é que depois da “vitória esmagadora” a direita perdeu a maioria no parlamento e, portanto, a condição de sustentar um primeiro-ministro? Mais umas três vitórias ao estilo Nelson Motta e o Partido Comunista Português ganha o poder e constrói o socialismo em Portugal. Mas o interessante é como a mídia brasileira noticiou – ou escondeu – a queda do gabinete conservador, que perdeu a maioria mesmo com o apoio em bloco da mídia hegemônica portuguesa, desgastado pela receita neoliberal que aplicou. Não foi destaque em nenhum jornal ou portal do Brasil. O site da Revista Exame, por exemplo, deu a notícia, e lá pelas tantas reportou: “Enquanto no interior do plenário a oposição derrubava o governo, duas manifestações díspares aconteciam às portas do parlamento, uma em apoio dos conservadores e outro favorável aos grupos de esquerda. Milhares de pessoas se juntaram na região, separadas por um corredor de segurança e atentamente vigiadas pela polícia, que reforçou o esquema de segurança para evitar incidentes.” O texto da Exame, publicação da Editora Abril (sempre ela) dá a entender que as manifestações eram equivalentes, certo? Mas vejam a foto ao final do texto. A parte de cima é a manifestação da direita e abaixo a manifestação que exigia a queda do governo conservador. Essa nossa mídia empresarial parece piada. Ora, pois, pois.


 
 

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Fonte: Vermelho

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

“Luiz Gama deixa de ser um homem para se tornar uma ideia, o que é muito mais perigoso”

133 anos após sua morte, OAB concede ao ex-escravo e defensor dos direitos da população negra o reconhecimento como “maior advogado da história do país”. Em entrevista, Silvio de Almeida explica a importância, para o Direito e para a sociedade, da homenagem feita em um momento de retrocessos
Por Ivan Longo
“Há 133 anos, faleceu Luiz Gama e, após esse período, temos a oportunidade de reescrever a história. Ao apóstolo negro da Abolição, pelos seus relevantes serviços prestados junto aos tribunais na libertação dos escravos, a OAB Nacional e a OAB de São Paulo concedem o título de advogado.” Este trecho é parte do discurso do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcus Vinicius Furtado Coelho, feito em cerimônia na Universidade Presbiteriana Macknzie, em São Paulo, na noite da última terça-feira (3). Pela primeira vez na história do Brasil um homem já falecido recebe o título de advogado e, mais do que isso, é reconhecido como “o maior advogado da história do país”.
Para Silvio de Almeida, advogado, professor das universidades Mackenzie e São Judas Tadeu e presidente do Instituto Luiz Gama, isso é um sinal de que a sociedade brasileira é hoje um “espaço de disputas” e que, a qualquer avanço racista ou conservador, haverá, sim, “contradições” e “resistência”. Ele foi um dos primeiros a defender a tese de que a OAB deveria reconhecer a importância de Luiz Gama, historicamente invisibilizado na história e no Direito.
Nascido em 1830 na Bahia, Gama foi escravizado depois de ser vendido pelo pai para pagar uma dívida e, sete anos depois, ao conquistar sua libertação, se transformou em um dos maiores líderes abolicionistas da história do país. Sua atuação como advogado se deu depois de tentar, em 1850, entrar na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Impedido por ser negro, frequentou as aulas como ouvinte e, com o conhecimento adquirido, atuou na defesa de escravos.
Confira abaixo a entrevista com Silvio de Almeida sobre o legado de Luiz Gama e as novas possibilidades que se abrem após o seu reconhecimento oficial como advogado.
Fórum  Qual a importância – para a sociedade como um todo, para o movimento negro e a área do Direito – da homenagem e do reconhecimento de Luiz Gama como advogado?
Silvio de Almeida  Diante da conjuntura histórica que a gente vive, da perspectiva de retrocessos institucionais, de um retorno de posições conservadoras mais explícitas – em que racismo, machismo e homofobia vão se colocando de maneira mais frontal -, instituições como a OAB e as universidades brasileiras, que são conservadoras em sua formação, colocarem Luiz Gama numa posição de proeminência é sinal de que, diante de toda uma conjuntura bastante adversa há, sim, as contradições. São nesses momentos em que elas aparecem.
Isso sinaliza, de alguma forma, que a sociedade brasileira é um espaço de disputas. Disputa politica, disputa simbólica e, portanto, também disputa econômica. Luiz Gama se coloca neste momento, e agora para a comunidade negra em especial, como um símbolo de resistência e de que todo e qualquer avanço, seja de conservadorismo, seja de pautas econômicas prejudiciais à população, encontrarão, sim, adversários e resistência. Ele é um símbolo disso e vem em boa hora.
Do ponto de vista do Direito, acho que resgatar sua figura é algo importantíssimo. Ontem, no evento, o próprio presidente da OAB disse que Luiz Gama foi o maior advogado da história do Brasil. É a primeira vez que se dá um título de advogado para alguém que está morto e é a primeira vez que se d oá título de advogado para alguém que não é do Direito. O presidente da OAB disse: “Os heróis não se curvam às formalidades por que heróis são feitos para superar formalidades”. E eu também penso assim. Acho que os grandes homens e grandes mulheres são aqueles que lutam por um mundo mais justo independentemente da ordem do mundo. São aqueles que superam a ordem, superam a legalidade em nome de um projeto, em função de um mundo melhor.
Acho que, para o Direito brasileiro, para o pensamento jurídico, funciona assim: o maior advogado desse país tinha um olhar profundo sobre as questões políticas e para as questões econômicas. Fica uma lição para todo mundo, para os advogados, para o movimento social, para a sociedade. Não se pode pensar a questão racial como algo isolado das grandes questões estruturais, sejam políticas ou econômicas. Não se pode pensar as grandes questões nacionais sem que se leve em consideração a questão racial, em especial no Brasil. Essa é a lição que fica.
Cerimonia da OAB que concedeu à Luiz Gama o título de advogado (Foto: Reprodução/Facebook AfroMack)
Cerimônia da OAB que concedeu a Luiz Gama o título de advogado (Foto: Reprodução/Facebook AfroMack)
Fórum – Mesmo Luiz Gama já sendo tido como referência para uma parte dos advogados há algum tempo, por que, na sua opinião, se demorou tanto para haver esse tipo de reconhecimento formal?
Almeida - Primeiro que a OAB é uma instituição atravessada por uma prioridade que é a prioridade da branquitude. Os assuntos relativos à questão racial não passam naturalmente dentro de uma instituição tao grandiosa. Além disso, Luiz Gama não foi colocado oficialmente na história dos grandes advogados por que as condições estruturais, econômicas e simbólicas do Brasil nunca permitiram que um homem negro ocupasse um espaço de proeminência no lugar dos grandes advogados, que sempre estiveram ligados ao poder de alguma maneira. Então, acho que isso aí foi um marco. Um reconhecimento muito difícil para uma instituição formada como a OAB foi, tão poderosa.
Agora, acho que demorou tanto por que esse é um processo que é resultado de um amadurecimento do próprio movimento negro, que levou à frente essa reivindicação. Lembro que essa reivindicação surgiu quando eu estava fazendo uma palestra na Universidade Federal do Piauí e falei isso para o conselheiro da Ordem, porque o Instituto Luiz Gama já pensava nisso. E muita gente da OAB não conhecia a história do Luiz Gama. Ele foi invisibilizado na história por ser um homem negro. A partir do momento em que o movimento negro passou a falar dos feitos do Luiz Gama pessoas que não o conheciam passaram a conhecer sua história, que é incontornável. É uma questão de conhecimento de prática. Foi necessário mostrar para as pessoas e para os advogados quem foi ele.
Fórum – Como professor e advogado negro, acredita que o reconhecimento contribui para mudar o imaginário racista que permeia a área?
Almeida - Sim, sem dúvidas. O fato de Luiz Gama ser tido como o maior advogado do Brasil, simbolicamente, é um negocio importantíssimo. Ele, agora, é o maior dos advogados. E é um homem negro. Isso coloca um elemento bastante perturbador dentro do imaginário racista da sociedade brasileira. Mas ainda é um pedaço, um pedaço pequeno da história. A partir desse elemento que é colocado dentro do imaginário do que é advocacia, acho que a gente começa a disputar simbolicamente. E agora é isso, tem que pensar como a gente forma uma subjetividade capaz de incorporar essa missão do Luiz Gama. Temos um imaginário, um fruto plantado pelo e por ele que está sendo colhido pelo movimento negro.
Como isso vai refletir na formação dos juristas? Como fazer com que conheçam Luiz Gama? Muitos advogados ainda sequer sabem quem é, mesmo com anos de Direito. E a gente tem que pensar que o Direito é uma parte ainda bastante parcial da realidade. Existem as disputas econômicas, disputas políticas em alto grau. O racismo não é uma questão jurídica, é uma questão estrutural que tem a ver, portanto, com a economia política também. Há uma economia política do racismo e precisamos tratar isso. Luiz Gama foi um combatente, um aliado importante na luta contra o racismo. Mas agora ele deixa de ser um homem pra ser uma ideia, o que é muito mais perigoso – além de um aliado muito mais poderoso. A ideia do Luiz Gama tem um poder avassalador.
Fonte: Revista Fórum

E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi?

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Novembro é oficialmente o Mês da Consciência Negra no Brasil. Apesar de ser importante e necessária, especialmente por se tratar de um país que teve séculos de escravidão de pessoas negras, essa data ainda é bastante incômoda para uma parcela da população. Mesmo assim, o mês de novembro mobiliza o movimento negro e desperta um interesse temporário nas escolas, instituições e noticiários, que costumam abordar o tema do racismo superficialmente no período próximo ao dia 20.
Aqueles que falam dessa data muitas vezes se recordam de Zumbi dos Palmares, que é o grande ícone da luta contra o racismo por sua resistência contra a escravidão. Mesmo na escola, muitos ouvimos falar de Zumbi e aprendemos que ele foi líder do Quilombo de Palmares, onde negras e negros que fugiam da escravidão podiam encontrar refúgio e organização política. No entanto, pouquíssimos sabem de quem se tratava Dandara dos Palmares, uma figura tão importante quanto Zumbi.
Dandara foi esposa de Zumbi e, como ele, também lutou com armas pela libertação total das negras e negros no Brasil; liderava mulheres e homens, também tinha objetivos que iam às raízes do problema e, sobretudo, não se encaixava nos padrões de gênero que ainda hoje são impostos às mulheres. E é precisamente pela marca do machismo que Dandara não é reconhecida ou sequer estudada nas escolas. Lamentavelmente, nem mesmo os movimentos negro e feminista mencionam Dandara com a frequência que deveriam. De um lado, o machismo, que embora conte com o trabalho árduo das mulheres negras, não lhes oferece posição de destaque e voz de decisão. Do outro, o racismo, que só tem memória para mulheres brancas.
Nós, mulheres negras, crescemos sem nos encontrarmos nos livros de história, poesia, literatura ou sociologia. O machismo racista da sociedade parece nos dizer que não temos o direito de encontrar representatividade e inspiração para rompermos as amarras da discriminação institucional. Muitas sabemos de Dandara e outras mulheres negras importantes somente devido a nossas próprias pesquisas solitárias, ávidas por descobrir. E, infelizmente, somos nós as mesmas pessoas que lutam para que essas mulheres não sejam apagadas da história.
Alguns pesquisadores, como o professor Kleber Henrique, que escreveu este belíssimo texto sobre Dandara, evidenciam o papel dessa grande líder e falam de sua sede por liberdade. Mas salientam que até hoje não se tem conhecimento de como era o seu rosto ou de onde veio. Se Dandara fosse uma mulher negra contemporânea, provavelmente seria mal vista por todos que se negam a enxergar o racismo. Dandara não queria acordos pela metade e nem se vendia em troca de libertação parcial. Morreu como a heroína que foi em vida e, graças à sua luta, hoje temos força para continuar a batalha contra o racismo brasileiro.
Portanto, me recuso a aceitar que Dandara seja figura esquecida ou que continue sendo lembrada sob a sombra masculina de Zumbi. A mulher negra quer e conquista seu espaço, pois tem força, inteligência e capacidade para romper com paradigmas machistas e racistas. O mês da Consciência Negra precisa ser cada vez mais o mês de Dandara dos Palmares, da autonomia absoluta da mulher negra e da completa liberdade feminina, que protagoniza as trincheiras da resistência contra a discriminação por cor e gênero. Dandara vive.
Conheça o livro As Lendas de Dandara: www.aslendasdedandara.com.br
Foto de capa: Reprodução
Fonte: Revista Forum

Mar Harris: Capitalismo e Armas, uma história de amor

A violência se tornou um princípio estruturante da sociedade norte-americana, que agora começa a revelar uma guerra contra si mesma.

Por Mar Harris, no Counterpunch


Dinheiro e armasDinheiro e armas
Em fevereiro de 2008, eu escrevi o editorial de um jornal de Illinois intitulado "O que faz de alguém um assassino do campus?". O comentário foi motivado pelas mortes na Northern Illinois University (NIU) de cinco pessoas e 21 feridos nas mãos de um ex-aluno armado.

Na época, eu me lembrei da visita que fiz ao campus de DeKalb, Illinois, nos dias após o episódio de violência. Por ter sido um estudante naquela universidade anos antes, eu conhecia muito bem Cole Hall, onde o tiroteio ocorreu. Lembro do tempestuoso e frígido inverno daquele dia, enquanto dirigia para a cidade. Senti o peso da tristeza, sensação devidamente adequada à nevasca de angústia que então varria o campus.

Mesmo que o incidente da NIU não tenha sido o primeiro tiroteio em escolas, havia a sensação de que algo completamente fora do comum tinha acabado de acontecer. Como poderia ser de outra forma? Por mais rotineira que seja a violência armada neste país, há algo especialmente grotesco sobre o ímpeto de um suicida que atira indiscriminadamente em pessoas inocentes, independente das queixas e aflições que motivam sua mente enferma.

As raizes da violência 
Desde 2008 vem ocorrendo vários outros massacres igualmente deploráveis. Infelizmente, o que mais choca talvez não seja a particularidade desses assassinatos em massa, mas a sua regularidade. O que está na raiz desses espetáculos “insanos” de violência pública? A menos que nós acreditemos que um comportamento tão abominável e destrutivo seria de alguma forma inexplicável, como alguns moralistas religiosos poderiam concluir, há sempre uma explicação.

Ao investigar histórias dos muitos assassinos, o neurologista Jonathan Pincus escreveu em seu livro, "Base Instincts: What Makes Killer Kill", ser previsível uma combinação de doença mental, danos neurológicos e abuso infantil. Na verdade, pobreza, perda do emprego ou outros fatores estressantes da vida não são em si aquilo que tipicamente faz de alguém um assassino. É necessário que exista uma espécie de semente psicológica corrosiva que já existe anteriormente no individuo. A psicóloga e escritora Alice Miller, assim como outros autores, fazem a discussão sobre as consequências sociais do trauma infantil, identificando as feridas emocionais que muitas vezes fermentam comportamentos patologicamente violentos em adultos.

Como Miller descreve em seu ensaio, "The Roots of Violence", a necessidade ou impulso de matar não é resultado de uma "natureza humana" maleável per se, mas resulta de danos infligidos sobre o cérebro em desenvolvimento. "As pessoas cuja integridade não foi danificada na infância, que foram protegidas, respeitadas e tratadas com honestidade pelos seus pais, serão, tanto em sua juventude como na vida adulta - inteligentes, sensíveis e empáticos", escreve Miller. "Eles vão ter prazer na vida e não vão sentir qualquer necessidade de matar ou mesmo de machucar os outros ou a si próprios. Eles vão usar o seu poder para se defender, não para atacar os outros".

Em outras palavras, os assassinos são moldados. Não nascem assim.

Mas assassinos também não são feitos no vácuo. Essa brutalidade armada em larga escala representa um fenômeno cujo entendimento exige contextualização. Além de um histórico de abuso infantil e comportamentos violentos também estão frequentemente relacionados ao abuso de drogas e exposição crônica a ambientes violentos, como Jeffrey Swanson, uma cientista comportamental da Universidade de Duke conclui em uma recente entrevista.

Swanson afirma que a taxa de criminalidade nos Estados Unidos não é muito diferente daquela de outros países da Europa Ocidental, do Reino Unido, do Japão e da Austrália. Mas a taxa de homicídios é muito superior. Uma razão óbvia é a fácil disponibilidade de armas. Considere um incidente recente em Nova York em que duas jovens ficaram feridas e uma terceira foi morta fora de uma boate de Manhattan. Uma briga de fim de noite dentro do clube levou seguranças a expulsarem um jovem que estava no local local. Irritado, esse indivíduo pegou uma arma no seu carro e tentou entrar no clube, mas foi barrado. Em seguida, cruzou a fachada do clube com seu carro e atirou em um inocente. Foi relatado que o atirador tinha como alvo os seguranças que haviam entrado em confronto com ele.

Tais incidentes em países onde a prevalência de armas é menor do que nos Estados Unidos são apenas menos suscetíveis a terminar com sangue derramado por uma arma. Já nos Estados Unidos, incidentes mesquinhos têm mais propabilidade de se tornarem violência armada ou homicídios. Isto é completamente inesperado? De acordo com dados do governo, os Estados Unidos têm 4,4% da população do mundo, porém mais de 40% de todo armamento civil. Em 2013 havia cerca de 357 milhões de armas de fogo nesta nação de 319 milhões de pessoas.

Nos EUA, portar armas é um direito constitucional. No entanto, o país também é marcado por um tipo de violência desenfreada e corrosiva que se infiltra nas raízes da sociedade, aquele cujo ponto de exclamação é o acesso generalizado às armas letais. Na verdade, as manchete de assassinatos em massa são apenas a ponta do iceberg da violência armada nos Estados Unidos. Como The Washington Post relatou, cerca de 10.000 pessoas foram mortas em incidentes de violência armada nos Estados Unidos até agora só durante esse ano.

Algumas pessoas atribuem o agravamento dos níveis de violência armada ao crime organizado. A realidade, no entanto, é mais complexa. Na verdade, as armas têm proliferado em muitas comunidades pobres e interiores das cidades como uma consequência da política de guerra às drogas. É uma consequência de décadas de lei e de ordem a desmando dos democratas e dos republicanos.

Como bem explica a historiadora da Universidade de Temple, Heather Ann Thompson, em um ensaio de 2014, no The Atlantic, "Esta nova guerra às drogas criou um mercado ilegal que é perigoso e necessita que não haja uma contenção de armas e violência".

Em muitas comunidades urbanas vulneráveis, a Guerra às Drogas se traduz em uma realidade cotidiana de assédio racial, perseguição e matança conduzidos pela polícia. Em vez de tratar o abuso de drogas como uma questão de saúde pública, diz Thompson, fez dele um subterfúgio penal para brutalizar as comunidades urbanas.

O Individualismo

Em certo sentido, a violência armada generalizada na sociedade americana reflete o célebre individualismo da vida americana voltado contra si mesma. Em uma sociedade que oblitera os laços comunitários e o tecido de infra-estrutura social (incluindo os recursos públicos mínimos de saúde mental), devemos realmente nos surpreender quando muitas pessoas despencam dos limites dessa realidade do faz-de-conta?

"Quando a violência se torna um princípio estruturante da sociedade, as rachaduras da democracia norte-americana começam a revelar uma guerra contra si mesma", escreve Henry A. Giroux, da Universidade de McMaster, em um recente ensaio pro CounterPunch. Giroux está certo. Nós vivemos em uma sociedade definida e sustentada pela violência. A mesma semana em que ocorrem tiroteios em Oregon, militares dos EUA realizam ataques aéreos sobre um hospital em Kunduz, Afeganistão, que matou pelo menos 22 pessoas e feriu outras dezenas.

Aparentemente, nós nos acostumamos com a economia da guerra permanente e com a militarização da política externa, que podemos agora declarar o fim de guerras mesmo quando elas não acabam. Com um orçamento militar que se iguala à metade de todos os gastos militares do restante do mundo combinados, a nossa presença militar global demarca a mensagem de que a violência é a última solução para qualquer disputa. Esta é uma mensagem que, invariavelmente, se infiltra no subsolo da psique e da cultura americana.

Evidentemente que o direito de portar armas, previsto na Segunda Emenda, não se opõe a regulamentação razoável sobre distribuição de armamentos. Por sinal, as armas já estão sujeitas a muitos regulamentos. Ao contrário do clichê paranoico da Associação Nacional do Rifle (NRA), medidas para evitar a venda extraoficial de armas a indivíduos com histórico de violência não se resumem a um debate limitado do direito à posse de armas. Assim como inovações tecnológicas "inteligentes", que podem impedir o disparo de armas sem verificação de identidade.

"Uma arma é apenas uma ferramenta, tão boa ou tão ruim quanto o homem que a carrega", declarou o ator Alan Ladd, enquanto pistoleiro Shane, no clássico faroeste de 1950. Tal qual uma sociedade que chafurda num lamaçal de interminável violência, segregada por extremos de riqueza e pobreza e fundamentalmente concebida para enriquecer o 1% (ou menos) que detém a maior parte das indústrias e dos recursos da nação. Com efeito, essa realidade constitui uma forma de violência econômica contra a maioria da população trabalhadora do país, cuja rede incipiente de seguridade social e a deterioração das condições socioeconômicas servem como pano de fundo e favorecem uma epidemia de violência armada.

Pode-se notar que, mesmo na década de 1930, no auge da Grande Depressão, as ruas permaneceram relativamente a salvo de violência armada, pelo menos mais do que hoje. Mesmo na década de 1940, com o mundo sob as chamas da guerra, desajustados não entravam nas escolas para atirar indiscriminadamente em pessoas inocentes. Mas essas comparações só falam aos efeitos consumidores da alma que a ordem social capitalista arcaica instaurava sobre a condição humana. Os últimos cem anos constituem um dos séculos mais violentos da história da humanidade. Este fato não é relevante para qualquer discussão sobre a violência armada como uma questão de saúde pública?

Em certo sentido, o espectro da violência armada nos EUA é reflexo de uma sociedade atomizada e militarista que respira os fumos da democracia, insensível à violência e ao sofrimento humano e que agora tosse uma alienação e uma amargura por vezes mortal entre as fileiras dos cidadãos mais marginalizados.

Se existe um antídoto para essa realidade tóxica, ele será encontrado, a longo prazo, menos em novas leis ou regulamentos sobre as armas e mais na visão radical de um novo tipo de sociedade. Falo da perspectiva de uma democracia de massas genuína, como melhor encarna os ideais históricos do movimento socialista. O antídoto permanece, como sempre, no ar fresco da solidariedade social, em relações humanas enraizadas nos valores de cooperação e de carinho, na garantia das necessidades sociais e de desenvolvimento de cada criança, asseguradas desde o início da vida.

Fonte: Carta Maior. Tradução por Allan Brum via Vermelho

Maior parte da população mundial repudia o capitalismo

Uma nova pesquista internacional realizada pelo Instituto Legatum e a empresa YouGov revelou que a maior parte da população mundial, tanto nos países desenvolvidos como nos países "emergentes", se expressam de maneira negativa sobre o sistema capitalista.


Reprodução
Ilustração de como funciona o capitalismoIlustração de como funciona o capitalismo
Com a finalidade de investigar a atitude do público ante o sistema capitalista, os especialistas entrevistaram habitantes de três países desenvolvidos (Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido) e quatro "emergentes": Brasil, Tailândia, Indonésia e Índia.

Em cada um desses países, a maioria das pessoas entrevistadas concordou com a ideia de que nas sociedades capitalistas os pobres se tornam mais pobres e os ricos, mais ricos. Por exemplo, nos Estados Unidos, 55% responderam desta forma.

Ao mesmo tempo, a população do Reino Unido, Brasil, Alemanha e Estados Unidos não espera que seus filhos tenham uma situação econômica melhor, mais segurança e mais saúde.

Por outro lado, existe uma crença quase universal de que as maiores empresas do mundo não conseguiram crescer de maneira "honesta".


Fonte: Russia Today via Vermelho

Direito de resposta é um avanço democrático

A presidenta Dilma Rousseff ainda não a sancionou, mas a aprovação pelo Senado, na última quarta-feira (4), da lei que regulamenta o Artigo 5º da Constituição de 1988 (o direito de resposta) já dá resultados.

Neste domingo (8) o jornal O Globo retratou-se, em nota publicada na primeira página, da mentira que difundiu um mês antes (em 11 de outubro), assinada pelo colunista Lauro Jardim, segundo a qual Fábio Luís Lula da Silva, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria sido citado na delação premiada do lobista Fernando Baiano, na Operação Lava Jato. A mentira dizia que o filho do ex-presidente teria recebido um pagamento de R$ 2 milhões.

A mentira logo se espalhou pela mídia patronal, sendo repetida à exaustão por jornalistas e pela imprensa empenhados na aventura ilegal e antidemocrática do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. O objetivo era também enxovalhar a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A direita brasileira tem sido, desde pelo menos 1945, o principal fator de instabilidade na política no país. E seu instrumento tem sido, fundamentalmente, as mentiras espalhadas pela mídia conservadora e patronal, que não tem compromissos com a verdade mas apenas com a manipulação da opinião pública para alcançar resultados políticos inconfessáveis, sempre contra a democracia, o povo e o Brasil.

As campanhas mentirosas da mídia conservadora marcaram, nas décadas de 1940 e 1950, a conspiração contra Getúlio Vargas e seu sonho de um Brasil forte e independente; depois, nos anos 1960, contra João Goulart, o presidente das democráticas “reformas de base”, resultando em sua deposição que deu início à ditadura militar de 1964. E, agora, se volta contra a coalizão que, indicada pelo voto popular, ocupa a Presidência da República, desde 2003. Coalizão que, tendo à frente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reúne os principais partidos da esquerda brasileira, entre eles o PT e o PCdoB.

O esforço da direita e seu instrumento, a mídia conservadora, é interromper o ciclo democrático iniciado com a eleição de 2002 e que já é o mais longo da história do Brasil.

A lei do direito de resposta, que será sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, é um importante passo para a democratização da mídia e instrumento de enorme importância para a luta pelos avanços e mudanças que a efetiva modernização do Brasil exige. Aquilo que a lei estabelece é fundamental: a mídia tem que ser responsável perante as informações que publica. Hoje não é, e pode impunemente faltar com a verdade quando convém, aos conservadores, criar situações políticas favoráveis à direita. Isto é, na ausência de uma lei apropriada, a mídia brasileira tem sido irresponsável. 

Nesta situação, a imprensa conservadora pode promover campanhas injuriosas para destruir a reputação de personalidades políticas que não rezem pela cartilha da direita. Ou contra partidos, sindicatos e organizações populares, atacados com mentiras com o objetivo de criminalizar a luta democrática. 

Assim, a lei do direito de resposta tem o significado de uma lei de autodefesa da luta democrática para o Brasil avançar, pois não permitirá a persistência da irresponsabilidade da imprensa conservadora no país, que tem investido, a seu bel prazer, contra reputações e tenta destruí-las. Principalmente daqueles que não se perfilham às imposições antidemocráticas, antipopulares e antinacionais da direita.


Fonte: Vermelho