segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Elias Jabbour: Crise na China? Que crise é essa mesmo?

 Há quase um mês a China virou manchete dos editoriais dos principais periódicos de economia do mundo. Não mais noticiando recordes de crescimento. Ao contrário, as preocupações giram em torno da sustentabilidade do crescimento, para quanto mesmo irá cair seu crescimento e quanto o mundo sentirá esta queda de índice. A presente instabilidade no gigante devolve ao centro do debate a sustentabilidade, de fato, do chamado “modelo chinês”.

Por Elias Jabbour*, no blog O Cafezinho


 
Não demorou muito para que o debate tomasse contornos ideológicos com os ortodoxos colocando a cabecinha de fora, opinando como se o problema do mundo fosse o excesso de Estado na China e não o contrário (falta de Estado) em outros países, inclusive o Brasil.

Evidente que a questão a ser respondida é se o país continuará a crescer ou não. Ou até onde vai a capacidade do Estado chinês em continuar dando as rédeas do processo e até onde deverá ser encaminhada uma reversão de papéis interna com o mercado tomando posições. Daí a vaticinar uma nova crise financeira tendo como epicentro a China é um exagero razoável. Mais honesto seria colocar os olhos sobre a quantas andam as operações de derivativos no sistema financeiro norte-americano, pois é de lá que os podres do padrão financeirizado de acumulação continuarão a brotar, não na China. É do mercado autorregulado que devemos ter medo. E desde 1929 é isso o que a história tem demonstrado.

A China decide em 1978 implementar uma política de profundas reformas econômicas e de abertura à tecnologia exterior, mantendo o caráter socializando do regime. Esse movimento não se deu isoladamente. Motivos de ordem externa e interna aceleraram esta opção. A decadência do fordismo, levando consigo seus clones socialistas, na década de 1970 acrescido pelo surgimento de um novo paradigma tecnológico no Japão, a ascensão dos Tigres Asiáticos às suas portas e com performance econômica capaz de demonstrar a iniquidade do modelo soviético e a suposta superioridade do socialismo. Afora isso, persistiam pendências históricas não solucionadas (Taiwan, Hong-Kong, Macau), além – internamente – dos dissabores de um modelo de crescimento marcado por desiguais relações entre campo e cidade (modelo soviético) e suas imensas repercussões, entre elas o da sustentação política de uma força que chega ao poder em 1949 como expressão de uma grande revolta camponesa.

Em mais de 35 anos, pode-se dizer que a China enfrentou com sucesso grande parte de todos os desafios elencados acima. Sua produção agrícola continua a crescer, camponeses enriqueceram, o país se transformou numa potência financeira capaz de proscrever os imperativos de dominação intrínsecos às instituições forjadas no âmbito de Bretton Woods. A fusão, em 1978, do Estado Revolucionário fundado por Mao Tsétung em 1949 e o Estado Desenvolvimentista de tipo asiático internalizado por Deng Xiaoping, tem determinado o poder de transformação e desafio aos paradigmas impostos pelo Consenso de Washington.

Porém, o peso da indústria nacional (oficina do mundo) e de seu respectivo efeito demanda sobre economias de todo planeta, um crescimento pautado por altas taxas de investimento e, consequentemente, com variável consumo sobre o PIB muito baixa, além de uma crescente interação financeira com o resto do mundo têm posto o país diante de óbices nada pequenos: o momento é de mudança de modelo. O consumo deverá tomar a dianteira do processo. Não somente isso, o próprio mercado deverá tender a ganhar mais peso e importância na alocação de fatores de produção e determinação de preços. Evidente que uma transição deste nível não ocorrerá sem grandes percalços, afinal o próprio desenvolvimento soluciona e engendra contradições. Ninguém cresce durante 35 anos consecutivos, “impunemente”, ainda mais num modelo onde a prática de tentativa e erro é parte essencial da metodologia.

A crescente internacionalização da economia do país coloca no centro da agenda a conversibilidade de sua moeda, além disso os efeitos de um pacote de US$ 600 bilhões implementado em 2009 para enfrentar os efeitos domésticos da crise financeira internacional provocaram injeção demasiada de liquidez na economia doméstica, além de forte endividamento interno no nível provincial. Ao adentrar na era do mercado de capitais é preciso saber que é no mercado de capitais onde estas contradições se esgarçam, o que não significa que esteja ocorrendo uma grave crise financeira por lá (o alcance de mercado de capitais ainda é muito pequeno em comparação com as congêneres europeias e norte americana), porém é sugestivo o desafio da nova era à governança chinesa e mesmo aos países dependentes de seu mercado doméstico, incluindo o Brasil.

Não vejo uma crise na China. O país deverá cumprir sua meta de crescimento aos próximos anos de algo entre 6,5% e 7%. Também se foi o tempo do crescimento quantitativo, aquela loucura de dois dígitos. O país está diante do desafio de trânsito de modelo, justamente num país em que o investimento é quase um vício, não somente isso: o próprio investimento é elemento de avaliação política e ascensão de dirigentes municipais e provinciais na hierarquia do PCCh. Num ambiente deste é muito difícil uma transição, mesmo que suave, pois demanda profunda mudança de mentalidade política e empresarial. Além do mais, o sucesso da transição demanda imensa mobilização das maiores taxas de poupança represada do mundo, ao consumo. O que significa, na outra ponta, o desafio de construção de um poderoso Welfare State, cujo sucesso de implementação poderá ser principal objeto de comparação entre o sucesso e, real, superioridade do socialismo ante um capitalismo em estado rápido de putrefação.

Por fim, o desafio do Estado e do mercado. Um processo de liberalização financeira está na ordem do dia das autoridades de Pequim, o que não redunda na adoção de uma noção neoclássica de autorregulação mercantil, longe disso. Na outra ponta está o desafio do Estado Nacional chinês de ampliar o alcance de seu próprio Estado e do papel do planejamento, muito além do planejamento soviético e das novas formas surgidas no âmbito das reformas econômicas. Formas superiores de planejamento como instrumento de relação com as instabilidades anexas aos mercados financeiros. Nunca o exercício da estratégia foi tão necessário quanto na China de nossos dias, sentindo as dores do parto de um complexo e difícil processo de mudança de modelo e paradigma internos.


*Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ) e autor de “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (Anita Garibaldi/EDUEPB, 2012) 
Fonte: Vermelho

Bancários nos EUA não têm direito a transporte nem a férias de 30 dias

Enquanto a pilhagem do setor financeiro imperialista espalha a especulação e destrói economias em todo o mundo, os trabalhadores colhem arrocho e desemprego. Essa situação não é diferente para os trabalhadores dos Estados Unidos, coração do capitalismo, onde leis impedem a negociação coletiva.


  
Um exemplo disso é a situação dos bancários norte-americanos. A categoria não tem direitos básicos assegurados a todos os trabalhadores brasileiros, por meio das negociações sindicais ou leis, como reajuste com reposição salarial, vale-transporte, 13º salário ou adicional de férias (só duas semanas por ano e não 30 dias como no Brasil), assegurados a todos os trabalhadores brasileiros por meio das negociações sindicais. Muito menos direitos como vale-refeição e alimentação e a participação nos lucros, garantida em convenção coletiva pelos bancários brasileiros.

Outro direito básico entre os trabalhadores brasileiros, a licença-médica remunerada, eles não têm. Como se isso não bastasse, os bancários norte-americanos ainda sofrem com o assédio moral.

“Essa situação ilustra muito bem a falta que faz um sindicato que negocie em nome dos trabalhadores”, afirma Rita Berlofa, diretora executiva do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco.

Rita é uma das representantes da entidade na campanha para organizar os bancários norte-americanos, realizada junto com a Uni Global Union (sindicato global), a CWA (Communications Workers of America), CUT e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), além de várias organizações sociais estadunidenses como a Jobs With Justice (JWJ).

“Em uma economia globalizada, onde o capital não tem fronteira, problemas que atinjam trabalhadores em qualquer parte do mundo refletem sobre os demais. E no país que é o celeiro das ideias neoliberais, uma das principais economias do planeta e que concentra 1/3 dos trabalhadores do setor financeiro no mundo, a ausência de organização sindical é trágica para o restante dos trabalhadores. Daí a importância desse trabalho”, destaca a dirigente.

Rita Berlofa lembra a resistência ao movimento sindical naquele país. “Os gestores chegam a ameaçar chamar a polícia quando se tenta distribuir algum material de sindicato, e dirigentes são impedidos de entrar nos locais de trabalho”.

Rita ressalta ainda que a organização sindical não é importante apenas para garantir direitos a categorias específicas. “Os sindicatos também são fundamentais para estabelecer sociedades mais justas, mais igualitárias e mais democráticas. Para proteger os trabalhadores das barbáries do capital”.



Banco do Brasil na Flórida

A bancária cita a situação dos funcionários do Banco do Brasil na Flórida. Além de não receberem vales ou PLR, eles não possuem piso nem salários estabelecidos por função. Além disso, revelar os salários é proibido no banco, pois os reajustes, quando ocorrem, partem exclusivamente da decisão da diretoria, em geral baseados no bom relacionamento do funcionário com o gestor.

Fora o plano de saúde, que é elogiado pelos bancários, as demais condições são muito ruins. “Não têm reajustes ou perspectivas de crescimento, e os funcionários ainda são obrigados a se submeter a humilhações praticadas pelos gerentes. A grande maioria não toma qualquer atitude contra o assédio moral porque tem medo de perder o emprego. Além disso, não têm a quem se reportar ou pedir ajuda. A empresa disponibiliza um canal de reclamação, uma espécie de ouvidoria interna, mas ninguém usa, porque o sigilo não é respeitado”, relata o diretor do Sindicato e funcionário do Banco do Brasil, João Fukunaga.

Ele conta ainda que muitos funcionários estão adoecendo. “Foram muitos os relatos de doenças por parte dos colegas e, na sua maioria, de origem psicossomática. Além do assédio moral a que são submetidos, eles passam cinco, seis anos sem aumento salarial e sem qualquer perspectiva de promoções”, completa.

O sindicalismo é arduamente combatido e pessoas consideradas “formadoras de opinião” são veementemente reprimidas e constantemente vigiadas. “A principal palavra que ouvimos ao longo dos dias que passamos lá foi medo. Medo de represálias, medo de isolamento, medo de mais humilhações e, o principal, medo de demissão”, denuncia.

Na busca de uma ação integrada para fortalecer a ação sindical, os dirigentes brasileiros conseguiram aglutinar um grupo de sete trabalhadores para começar um movimento de organização sindical. “Diante de condições tão adversas como as que encontramos lá, conseguir essas sete pessoas foi, para nós, uma grande vitória. Esses participantes não são diferentes dos demais funcionários, eles também têm medo. Alguns mais, outros menos, mas o fato é que todos, sem exceção, chegaram à mesma conclusão de que, do jeito que está, não dá pra continuar e de que algo precisa ser feito. E estão realmente dispostos a fazer o que for preciso para que essa mudança aconteça”, conta João.

“Toda essa situação deixa muito claro: o enfraquecimento do movimento sindical sério e combativo é um grande negócio para os patrões”, conclui.
 

Do Portal Vermelho, com informações do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco

Michel Carvalho da Silva: A viralização do senso comum

A viralização do senso comum nas redes sociaisQuem já recebeu alguma mensagem via whatsapp informando que o governo vai confiscar a caderneta de poupança ou que o Congresso vai votar um projeto que acaba com o 13º salário? Outro conteúdo falso que “viralizou” no Facebook nos últimos tempos se refere ao auxílio-reclusão, que seria pago diretamente ao criminoso, ou ainda que o benefício se multiplicava conforme o número de filhos do preso ou da presa.

Por Michel Carvalho da Silva*, no Observatório da Imprensa


A viralização do senso comum nas redes sociais
Muitas mensagens circulam pela internet e nem sempre elas são verdadeiras. Mas como pode o cidadão comum distinguir, num volume pulverizado de informação, entre aquela confiável, verídica e relevante, e aquela errônea, imprecisa e falsa? É evidente que essa questão está relacionada ao nível de empoderamento do indivíduo, que varia de acordo com o grau de instrução, a consciência política e os hábitos midiáticos de cada um.

Uma pesquisa divulgada recentemente pelo Pew Research Center mostra que cresceu nos últimos dois anos a influência das redes sociais na tarefa de manter os cidadãos informados. Os sites de notícias, antes tradicionais fontes de informação, foram descritos no estudo como fontes secundárias na hora de saber sobre um assunto ou acontecimento.

As redes sociais podem impulsionar o engajamento cívico devido à sua flexibilidade ao permitir aos usuários acessar informações sob demanda, receber notícias de maneira instantânea, aprender sobre diversos temas, personalizar conteúdo de acordo com seus interesses e aprofundar a discussão em torno de assuntos mais complexos.

Acesso à informação é um direito
No entanto, o potencial da internet para ampliar o grau de informação do indivíduo ainda é limitado por fatores como o desinteresse da coletividade ou a inabilidade das pessoas em assimilar grandes volumes de dados e relacionar fatos. Daí a importância de uma educação que subsidie o cidadão a entender a burocracia governamental e o funcionamento do sistema político (conhecimento das regras gerais, familiaridades com as estatísticas e as plataformas de governo). Só uma pessoa que reúna essas competências poderá acompanhar e fiscalizar as políticas públicas implementadas pelos agentes públicos.

A desinformação, fruto da imprecisão, da mentira ou do ruído informacional, contribui para a ignorância das pessoas e inviabiliza o debate democrático. Aliás, é preocupante quando observamos que uma informação é manipulada simplesmente com o propósito de causar pânico ou revolta com vistas a beneficiar um segmento político. Não podemos nos esquecer também do triste episódio, ocorrido no ano passado no Guarujá, em que uma mulher foi espancada até a morte após boato espalhado em rede social que a acusava de sequestro e bruxaria.

Diante disso, é preciso verificar se a informação veiculada é de uma fonte confiável, como sites institucionais, páginas de jornais conhecidos e blogues de profissionais respeitados. Também é importante pesquisar se mais de uma fonte publicou a notícia, isso denota maior credibilidade à mensagem. Outro aspecto relevante é identificar se o conteúdo divulgado não é oriundo de um site de notícias falsas ou de conteúdo exclusivamente humorístico, como o Sensacionalista.

A informação tem relevância para o exercício pleno da cidadania e a formação de opinião. Por isso, o acesso à informação é um direito que antecede os demais, pois quem está bem informado tem maiores possibilidades de reivindicar outros direitos. As redes sociais oferecem oportunidades significativas para a politização da sociedade e um maior engajamento do cidadão no processo de deliberação pública, mas é preciso, antes de tudo, discernimento para não reproduzir o senso comum “viralizado” na internet.


*Michel Carvalho da Silva é jornalista, professor e mestre em Ciências da Comunicação
Fonte: Vermelho

Lei das Cotas garante mais de cem mil vagas para estudantes negros

 Sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, exatamente há três anos, a Lei de Cotas garantiu mais de 111 mil vagas para estudantes negros nas universidades federais, institutos federais de educação. E esse número pode chegar a 150 mil até o fim deste ano. Conforme dados divulgados nesta semana pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) A Lei nº 12.711 foi criada com o intuito de ampliar o acesso da população negra, indígena e de baixa renda ao ensino superior e técnico.


Levantamento realizado pela Seppir apontou que, em 2013, 51 mil vagas das instituições federais de ensino superior e técnico foram ocupadas por estudantes negros. No ano passado, o número subiu para quase 61 mil. A estimativa da secretaria é que até o fim 2015, 40 mil vagas sejam ocupadas por negros, totalizando 150 mil vagas. Os números definitivos deste ano só serão conhecidos em 2016.

Reparação histórica
Para a ex-reitora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e ex–ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Nilcéa Freire, a legislação visa corrigir uma distorção histórica na sociedade brasileira que remonta à escravidão, que fez com que estes grupos ficassem praticamente relegados, quase sem acesso ao ensino superior.

“Eu diria que estamos pagando, de certa forma, a dívida com os nossos ancestrais que padeceram na escravidão. Até hoje podemos ver resquícios desse processo. Basta olhar, nas universidades, o conflito que houve para implantar o sistema de cotas. E se você olha para determinadas categorias, como as trabalhadoras domésticas, só agora, depois de tantos anos é que elas começam a conquistar o seu status de trabalhadoras como as demais”, disse Nilcéa, em entrevista ao programa de rádio Viva Maria.

A Uerj foi a primeira instituição de ensino superior no país a adotar o sistema de cotas, em 2001. Na época, Nilcéa era a reitora da instituição, onde se formou em Medicina. Ela destaca que um dos efeitos mais positivos da legislação foi ter possibilitado que estudantes negros de escolas públicas, jovens da periferia e das favelas tenham chance de sonhar com uma carreira. “Quando eu vejo na minha universidade de origem a foto da formatura da primeira turma de médicos que prestou vestibular já no regime de cotas eu fico muito feliz. É uma turma colorida que tem a diversidade do povo brasileiro”, disse.

Ela lembra que o debate sobre a legislação gerou muita polêmica e resistência por parte de alguns segmentos. Nilcéa comparou a resistência ao que chamou de “lógica do ônibus cheio”. “Depois que você entra, não quer mais que ele pare em nenhum ponto e essa lógica permanece na sociedade brasileira. Nós ainda temos um caminho longo a trilhar na construção de uma sociedade mais solidária. Porque, na verdade, trata-se de ampliar os laços de solidariedade para que a sociedade toda possa avançar junto e não somente parte da sociedade”, afirmou.

O professor de Ciência Política da Uerj e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, João Feres Júnior afirma que a quantidade de pretos e pardos nas universidades mais do que triplicou entre 2012 (ano da lei) e 2014, ao saltar de 13 mil para 43 mil estudantes.

USP disse "não" às cotas
Enquanto todas as universidades federais e a grande maioria das estaduais aderiram à reserva de vagas, a Universidade de São Paulo disse não às cotas. O professor Feres Júnior cita universidades estrangeiras como Harvard, Princenton e Berkeley para dizer que a USP erra ao ignorar as cotas. “A USP representa o elitismo contraproducente porque as universidades mais bem avaliadas no mundo são ardorosas defensoras.”

O professor menciona pelo menos duas razões para aumentar o número de pretos, pardos e indígenas nos cursos de graduação. Ele defende a reparação aos negros, escravizados por séculos e ainda hoje tratados pela condição de pele. Além disso, “as universidades são o principal instrumento de ascensão social”.

Por unanimidade STF aprova sistema de cotas
O Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2012, pela constitucionalidade da reserva de vagas em universidades públicas com base no sistema de cotas raciais. Os dez ministros que participaram da votação se manifestaram a favor da constitucionalidade do sistema, seguindo o voto do relator, Ricardo Lewandowski. À época, o ministro lembrou que em 2012 [antes da aplicação da Lei] apenas 2% dos negros conquistavam um diploma universitário no Brasil e afirmou que “aqueles que hoje são discriminados têm um potencial enorme para contribuir para uma sociedade mais avançada".

“Para possibilitar que a igualdade material entre as pessoas seja levada a efeito, o Estado pode lançar mão, seja de políticas de cunho universalista – que abrangem um número indeterminado de indivíduos, mediante ações de natureza estrutural – seja de ações afirmativas, que atingem grupos sociais determinados, de maneira pontual, atribuindo a estes certas vantagens, por um tempo limitado, de modo a permitir-lhes a superação de desigualdades decorrentes de situações históricas particulares”, afirmou Lewandowski.

Estatuto da Igualdade Racial
O debate polêmico sobre a adoção das cotas nas universidades ocorreu com mais intensidade a partir de 2010, quando o Estatuto da Igualdade Racial entrou e vigor, pois, a partir dele foram criadas uma série de políticas públicas em prol dos afro-brasileiros, como a inclusão dessas comunidades em programas do governo e outras áreas da sociedade.

A Lei 12.711 de 2012
Apelidada de Lei das Cotas, a regra garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas 59 universidades federais e 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos oriundos integralmente do ensino médio público, em cursos regulares ou da educação de jovens e adultos. Os demais 50% das vagas permanecem para ampla concorrência.

Pelo Decreto, a implementação acontece gradativamente. Em 2013 foram reservadas, pelo menos, 12,5% do número de vagas ofertadas e isso acontecerá de forma progressiva ao longo dos próximos quatro anos, até chegar à metade da oferta total do ensino público superior federal.


Ainda segundo a Seppir, atualmente a Lei de cotas é cumprida por 128 instituições federais de ensino.


Do Portal Vermelho, Eliz Brandão, com agências

Lula diz que voltará a atuar no cenário nacional e que vai incomodar

 

"Eu agora vou falar, eu agora vou viajar, eu agora vou dar entrevista, eu agora vou incomodar". Este foi o tom do discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no sábado (29), no encerramento do Seminário Internacional “Participação Cidadã, Gestão Democrática e as Cidades no século XXI”, realizado na cidade de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.


Lula afirmou que embora um ex-presidente precise saber ficar quieto e deixar os atuais governantes conduzirem o país, este é um momento em que ele irá retornar com mais ênfase ao cenário nacional para ver se deixam a presidenta Dilma Roussef “um pouco em paz”.

"Você tem que aprender a ser ex-presidente”, disse o líder do PT se dirigindo a José Mujica, ex-presidente do Uruguai, que também participou do evento. “Você não pode ficar dando palpite em tudo que o Tabaré (atual presidente uruguaio) vai fazer. Você vai ter que ficar quietinho, muitas vezes angustiado. Esse é o papel de um ex-presidente, permitir que quem foi eleito governe o país”, afirmar. Por isso, “eu resolvi falar um pouco mais, como eu tenho as costas largas, já apanhei demais na minha vida, eu vou ver se eles vão dar sossego para a nossa querida Dilma Rousseff e começam a se incomodar comigo outra vez. Porque eu estou naquela fase de quem está esperando o dia da aposentadoria, mas as pessoas não me deixam em paz. Os adversários, todo santo dia, falam meu nome. Eu aprendi uma coisa. Você só consegue matar um pássaro se ele ficar parado no galho olhando para você, mas se ele ficar voando, pulando de galho em galho, é mais difícil. Então, é o seguinte: eu voltei a voar outra vez", enfatizou Lula.

O ex-presidente demonstrou preocupação com o clima pesado instalado nas discussões políticas no país. Ele lembrou que o debate sempre foi feito, mas que agora não entende porque existe um tom de ódio no discurso de muitas pessoas. Lula ironizou e questionou se esse rancor com o Governo “é porque as empregadas domésticas passaram a ter mais direitos”, ou porque durante sua gestão pobres e negros passaram a fazer curso superior com mais frequência ou ainda porque, atualmente, viajar de avião deixou de ser uma possibilidade para poucos. “Agora tem pobre passando férias em Montevideo Mujica, férias em Bariloche”, ironizou.

Lula lembrou também que desde que assumiu a presidência, os movimentos sociais passaram a ter espaço nas decisões do Estado e a visitar o Palácio do Planalto. “Eu fico imaginando que essas pessoas estão indo na rua para desfazer as melhorias que nós conquistamos estes anos todos. Durante 12 anos o salário mínimo aumentou neste país. Durante 12 anos nós colocamos mais gente nas universidades do que eles colocaram em um século, durante 12 anos, nós tivemos mais ascensão social da população do que eles fizeram em 500 anos”.

Mujica destaca importância dos partidos
Ao longo do seminário, o ex-presidente do Uruguai José Mujica enfatizou a importância da união dos movimentos na América Latina. O líder também valorizou o papel fundamental que os partidos políticos tem no desenvolvimento da democracia.

"Não há democracia sem partidos. Eles são a vontade coletiva dos grupos humanos para construir coisas melhores. Não há homens imprescindíveis, há causas imprescindíveis", disse.

Diante de um auditório lotado, Mujica ressaltou que "não se pode separar a economia da alma, da ética e dos sonhos. Quando deixarmos de sonhar e crer num mundo melhor sobrará o egoísmo e o individualismo".

Além dos ex-presidentes, também estiveram presentes os ministros Arthur Chioro da Saúde, Renato Janine Ribeiro da Educação e Miguel Rossetto da Secretária-geral da Presidência. Além deles, participaram do evento o governador de Santa Fé, na Argentina, Antonio Bonfatti e os professores Yves Cabannnes da Univesity College London e Giovanni Alegretti da Universidade de Coimbra.
 

Do Portal Vermelho, Tayguara Ribeiro

A direita se divide, mas o estado de golpe continua

Os golpistas sossegaram a sanha anti-Dilma? É possível. Manifestações recentes de expoentes do grande capital (industrial e financeiro) podem indicar uma disposição nesse sentido. Mesmo jornalões conservadores, como Folha de S. PauloO Globo e o norte americano The New York Times mostraram em editoriais esse provável aquietamento e condenaram o golpismo contra a presidenta da República.

É possível que a prudência tenha aconselhado estes expoentes da elite neste quadro de crise que não é brasileira, mas mundial e se agrava afetando o capitalismo em seus centros nevrálgicos como a Europa e os Estados Unidos e repercutindo em países como a China, como se viu recentemente. 

Em entrevista à Folha de S. Paulo o presidente do Banco Itaú, Roberto Setúbal defendeu a legalidade no momento em que a fúria pró-impeachment dos setores mais radicais do PSDB e da oposição neoliberal tentava ganhar as ruas, como ocorreu com a manifestação da direita no último dia 16.

Disposição semelhante foi manifestada por banqueiros, industriais e associações dirigentes da grande burguesia, entre eles, os presidentes do Bradesco e da Cosan (Luiz Trabucco e Rubens Omettto Filho). Ou o ex-ministro Maílson da Nóbrega, um analista cujas opiniões têm muita repercussão entre a direita. Além de entidades empresariais como a Federação das Industrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Federação das Industrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Confederação Nacional do Transporte (CNT), entre outras.

A luta política se aprofunda e estas manifestações do alto comando da burguesia podem indicar convicções que extrapolam um superficial entendimento de sua conversão à legalidade e à democracia.

Esta eventual conversão “democrática” ocorre no momento em que, como registrou Renato Rabelo, ex-presidente do Partido Comunista do Brasil, o movimento social “acendeu o pavio”. Esse lume pode ser visto nas ruas das grandes cidades na manifestação democrática e legalista do dia 20 de agosto. E terá novo capítulo no dia 5 de setembro, em Belo Horizonte (MG), no evento que lançará a Frente Brasil Popular.

A prudência política aconselhou a burguesia contra aventuras políticas de resultados imprevisíveis e talvez incontroláveis. Seus dirigentes parecem mostrar que não têm garantias sobre o desdobramento da crise, que pode ser desfavorável a seus interesses. Uma saída aventureira da crise política pode criar uma situação instável, de insegurança jurídica para os interesses de fatia importante do grande capital. 

Mas as aventuras políticas não estão afastadas de todo. Entre os tucanos parecem postas duas opções: Aécio Neves e o golpismo anti-Dilma, e Geraldo Alckmin e a busca da saída eleitoral marcada para 2018. 

No quadro de instabilidade provocada pela direita estas posições podem ser intercambiáveis. O fundamental, para a direita, é a reconquista do controle da presidência da República, perdido desde 2012. 

A opção golpista, é preciso ressaltar com clareza, não está afastada, como se pode ver no assanhamento provocado pela decisão do ministro Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro do STF, de mandar investigar supostas irregularidades cometidas pela chapa Dilma-Temer na eleição presidencial de 2014. O resultado poderia ser a improvável impugnação daquela chapa colocando um ponto final no governo Dilma Roussef, e a convocação de novas eleições presidenciais antes do prazo legal de 2018. 

A grande dificuldade enfrentada pela direita neoliberal na atual conjuntura é sua desunião. Ao contrário do que ocorreu em 1964 quando todos os conservadores se uniram na conspiração que encerrou a legalidade e deu início à ditadura militar.

Cinquenta anos passados, na atual conjuntura, aquela unidade dos poderosos e privilegiados parece um sonho distante para a direita, havendo um desentendimento que parece insuperável entre os partidos da direita (e dentro deles), suas organizações golpistas, e mesmo entre suas direções de classe. Recentemente não conseguiram sequer confirmar uma reunião para unificar seus discursos e ações!

Ao contrário da direita, os movimentos sociais e partidos democratas ligados ao povo buscam a unidade de objetivos e ação. Essa busca pôde ser vista na manifestação do dia 20 de agosto, que levou centenas de milhares de pessoas às ruas em torno de bandeiras e objetivos comuns.

A luta pela democracia continua vital, escreveu Renato Rabelo. Ele tem razão. A unidade das forças progressistas e democráticas é essencial neste quadro em que a oposição de direita não dá trégua. A estratégia de derrubar a presidenta Dilma “continua em ação” pois a “trama golpista já foi longe”, escreveu o líder comunista; há “minas plantadas” que podem explodir a qualquer momento. É neste momento que “o movimento popular acende o seu pavio” e os atos foram “o começo de um despertar do movimento popular”, que vai formar uma Frente Brasil Popular que unirá amplos setores da esquerda, os comunistas e os movimentos sociais.


Fonte: Vermelho

Mujica: Temos que lutar por mais democracia, não sepultá-la


Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil (27/08/2015)
  
Aos estudantes, Pepe Mujica falou sobre a importância da luta por liberdade e da defesa das causas sociais. “Liberdade não se vende, liberdade se ganha e se ganha fazendo algo para os demais e isso se chama solidariedade. Sem solidariedade não há civilização”.

Mujica disse ver com grande preocupação a grave desigualdade ainda existente em nossa região. “Que pague mais quem tem mais. Essa é uma política eficaz na América Latina e no mundo. Países que se solidarizam estão melhores. Isso tem um peso positivo enorme”, disse.

O ex-presidente respondeu às perguntas dos estudantes sobre crise de representatividade política, sobre movimento golpista na América Latina, redução da maioridade penal e descriminalização das drogas.

Assista a íntegra da sua fala na UERJ no vídeo abaixo:



Do Portal Vermelho, Eliz Brandão