Por Renato Rabelo, em seu blog:
Grande parte do consórcio oposicionista vaticina que neste mês de agosto pode se concretizar a grande cartada para emparedar a presidenta Dilma Rousseff – impondo-lhe a sua destituição, renuncia ou rendição. Em agosto eles esperam vir à tona o que vem sendo semeado pelo golpismo em marcha.
Todo alvoroço em torno deste mês foi resultante do grande cerco que a conjuração pró-golpe quer submeter a presidenta da República, trabalhando pelo beneplácito do TCU e do TSE a favor dos seus desígnios. Além disso, a manifestação programada, nesse mesmo sentido, neste mês, lembrada e convocada insistentemente pela grande mídia, e conclamada em TV e Rádio pelo PSDB.
Tais acontecimentos são expressão do clima instituído pelas forças conservadoras da direita, reacionárias e revanchistas, desde sua derrota na eleição presidencial de 2014, numa santa aliança midiática-oposicionista. Isto confirma o curso político contínuo de um estado de golpe permanente, alimentado crescentemente pela Operação Lava Jato.
Dando mostras às crenças relativas ao mês de agosto e ao açodado desejo dos golpistas, já o primeiro dia útil de agosto começa com a prisão de José Dirceu que já estava preso, num verdadeiro espetáculo judicial midiático. Acontecimento estranho? Mera coincidência?
Parece que o gatilho funcionou no momento aprazado, procurando realçar com estardalhaço e circunstância, nos maiores telejornais e jornalões, que a corrupção tem a digital exclusiva do PT. Afim de fornecer “fatos” — na lógica uniforme e unilateral praticada ruidosamente pela mídia hegemônica — à cruzada golpista em marcha e açulando a massa sedenta pela derrubada da presidenta Dilma, fazendo-a acreditar, desse modo, que a corrupção será eliminada e o Brasil voltará ao bom destino.
Mas, por trás dessa operaçãolavajatiana, que confunde justiça com política e messianismo religioso, concentrando seu alvo em um partido ou corrente política, o roteiro vai sendo revelado: a narrativa se volta para apontar uma pretensa cabeça, ou “chefe maior” do mega esquema de corrupção na Petrobras…
A manifestação do procurador responsável pela prisão de José Dirceu, consta para exibir gládio diante do público, com base em simples indícios montados por eles, que Dirceu é quem “instituiu o esquema de corrupção na Petrobras”, desde a época em que era Ministro da Casa Civil do governo Lula. E chega a afirmar que “Ele [Lula] está no radar”. A prisão de Dirceu seria a escalada direcionada para alcançar Lula.
O incessante estado de golpe, ademais fomentado por uma operação policial-judicial, instrumento de forte poder estatal, trazendo incerteza porquanto não permite prever quem vai ser atingido no mundo político e empresarial, coloca em xeque a própria estabilidade da ordem politica-econômica-social. Tal situação entrelaçada é o centro de gravidade da crise atual.
Agora, pode-se constatar que a frente anti-Dilma é formada de diversas vertentes e cabeças, com poucas afinidades entre si, gerando posições dispares: uma, conspira para destituí-la já; outra, trama seu isolamento permitindo-a cumprir o seu mandato em certa condição de rendição, mas, sobretudo, procurando inviabilizar a candidatura de Lula em 2018. Neste último aspecto todo consórcio oposicionista, explicito ou enrustido, se junta.
Nesta primeira semana de agosto no tumulto dessa crise política aguda, mas, em grande medida artificializada, corre solto o espectro do caos – o país chegou ao impasse. Um petardo é arremessado dentro do Instituto Lula, seu local de trabalho. O presidente da Câmara dos Deputados dá consequência a sua posição contrária ao governo. Não se estabiliza a oscilante situação econômica, anabolizada sua crise por interesses escusos.
O curso político tornou-se carregado de movimentos que expõem tramas e conspirações, confessáveis e inconfessáveis, daqueles que agem desenvoltos para impor soluções anticonstitucionais: os mais extremados anunciam que a “saída” — na maior cara de pau — é a convocação de “novas eleições”. Em suma, pretendem derrubar a presidenta da República; outros, tentando salvar a cara, fazem de conta que existe a Constituição, procuram encontrar um “caminho institucional”, que por meio de um “pacto” inusitado afaste a presidenta da República do protagonismo político central, cabendo a ela um papel institucional coadjuvante, em suma, a sua rendição permanente.
Tudo isso é um modo de driblar, burlar, para realmente invalidar a Constituição. Essa é a forma atual de golpe. Antes era usual pela viamanu militari. Agora, as elites dominantes conservadoras e antipatrióticas buscam numa tentativa de contraofensiva apear do poder na America Latina e Caribe as forças democráticas, progressistas e populares, que chegaram ao centro do poder e, assim, garantir a sua volta a qualquer custo.
Não! Tudo isso seria o ápice do retrocesso das conquistas democráticas alcançadas em nosso país. Para as forças conservadoras, reacionárias, antidemocráticas, fascistizantes não interessa que o país volte à condição de uma republiqueta e trunque seu processo de conquistas civilizatórias.
A presidenta Dilma Rousseff respondeu a essas investidas anticonstitucionais de forma lúcida e veemente: “Ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu”. O regime é presidencialista, expresso na Constituição e reafirmado em dois plebiscitos pelo povo brasileiro. Portanto, é um mandato fixo e contínuo de quatro anos.
Sim, a crise é objetivamente resultante de um entroncamento de múltiplos fatores externos e internos que requer decidido enfrentamento. Mas a sua condução cabe à presidenta da República, tendo como premissa seu mandato constitucional. Ela deve se empenhar e persistir na construção de uma pactuação que reunifique os setores chave e os meios para governança e recomponha e amplie a sua base social.
A persistência tendo como base a afirmação da democracia e a volta à normalidade política, isolando, sobretudo, as forças golpistas mais recalcitrantes e se apoiando na ampla maioria que anseia pelo avanço democrático, a retomada do crescimento com progresso social e soberania nacional na condução da economia. Em resposta ao “quanto pior, melhor”, das forças da direita golpista, sucessivamente cresce o anseio e a luta em defesa da democracia e do Brasil.
Fonte: Blog do Miro
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Não dá para confiar na famiglia Marinho
Por Altamiro Borges
A famiglia Marinho, que utilizou todos os veículos que compõe a sua propriedade cruzada na mídia para desgastar o governo Dilma e para insuflar as marchas golpistas de março e abril, parece que desembarcou da aventura dos que propõem o impeachment da presidenta. Em editorial nesta sexta-feira (7), a jornal O Globo criticou o oportunismo do presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e a “marcha da insensatez” da oposição. Também circula a informação de que um dos chefões da corporação, João Roberto Marinho, teria se reunido com nove dos 13 senadores do PT para defender “que Dilma seja sucedida por quem ganhar as eleições de 2018. Ou seja, impeachment, não”.
No editorial, intitulado “Manipulação do Congresso ultrapassa limites”, o jornalão anuncia o seu rompimento com Eduardo Cunha, a quem sempre protegeu. “Ele age de forma assumida como oposição ao governo Dilma na tentativa de demonstrar força para escapar de ser denunciado ao Supremo, condenado e perder o mandato, por envolvimento nas traficâncias financeiras desvendadas pela Lava-Jato. Daí, trabalhar pela aprovação de ‘pautas-bomba’, destinadas a explodir o Orçamento e, em consequência, queira ou não, desestabilizar de vez a própria economia brasileira... Se a conjuntura já é muito ruim, a situação piora com o deputado manipulando com habilidade o Legislativo na sua guerra particular contra Dilma e petistas. Equivale ao uso de arma nuclear em briga de rua, e com a conivência de todos os partidos, inclusive os da oposição”.
Ao final, a famiglia Marinho faz um apelo à paz: “É preciso entender que a crise política, enquanto corrói a capacidade de governar do Planalto, turbina a crise econômica, por degradar as expectativas e paralisar o Executivo. Dessa forma, a nota de risco do Brasil irá mesmo para abaixo do ‘grau de investimento’, com todas as implicações previsíveis: redução de investimentos externos, diretos e para aplicações financeiras; portanto, maiores desvalorizações cambiais, cujo resultado será novo choque de inflação. Logo, a recessão tenderá a ser mais longa, bem como, em decorrência, o ciclo de desemprego e queda de renda. Tudo isso deveria aproximar os políticos responsáveis de todos os partidos para dar condições de governabilidade ao Planalto”.
Se o editorial já havia surpreendido os que conhecem a história sinistra e golpista da Globo, o texto postado por um “anônimo” do blog Diário do Centro do Mundo gerou ainda maiores questionamentos sobre as movimentações recentes da famiglia Marinho. Vale conferir:
*****
Dilma deve ser sucedida por quem ganhar em 2018, disse João Roberto Marinho a senadores do PT
Postado em 8 de agosto de 2015
Por Anônimo
João Roberto Marinho pediu encontro com os senadores do PT, na última quarta-feira.
Dos 13, nove aceitaram.
Durou quase duas horas. Ele abriu, dizendo-se muito preocupado com as “maluquices” de Eduardo Cunha na Câmara, que não comprometem apenas o próximo governo, mas o futuro do País;
Durante todo o tempo, escutou as queixas dos senadores, um por um, sobre a parcialidade, os dois pesos, duas medidas, as abordagens dos repórteres querendo declarações que apenas preencham a verdade que já está pré-estabelecida, a repercussão nula do que os governos Lula e Dilma fizeram pelo Brasil.
Recados que foram dados a ele: 1) não mexam com Lula – todos estavam ainda muito mordidos com a charge do Chico [Caruso] do dia anterior (“agora só falta você”), pois o Brasil pode pegar fogo e eles não vão ser bombeiros; 2) na mesma direção, não temos controle sobre nossa base social e é imprevisível a reação que se virá ante uma hipotética prisão de Lula.
Ele pediu desculpas, “ou os senhores estão enganados, ou nós estamos errando feio”, comprometendo-se a levar a avaliação geral dos senadores para os editores.
Disse ainda que, realmente, a cumplicidade entre jornalistas e procuradores de Curitiba, hoje, representa um fator de instabilidade, mas jogou a culpa no PT, “que deu início a essa parceria”. Ao final, pediu para o governo controlar sua base na Câmara.
*****
Três hipóteses sobre o “recuo tático”
O que teria levado o poderoso império global a, aparentemente, abandonar a “marcha da insensatez” dos golpistas e a rifar o lobista Eduardo Cunha? Há pelos menos três hipóteses consistentes:
1- A crise política, insuflada pela oposição demotucana, os grupelhos fascistas e a própria mídia privada, agravou o cenário econômico. Setores empresariais, inclusive do ramo financeiro, temem pela deterioração dos seus negócios, dos seus lucros. A aposta no impeachment e na instabilidade permanente poderia contagiar ainda mais a economia. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda da ditadura e influente interlocutor das elites, já alertou que “esse impasse não pode continuar por muito tempo, porque quem vai pagar um preço muito alto é a sociedade brasileira”. No mesmo rumo, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, em entrevista à Folha, apontou que “a crise política é mais forte que a econômica. Isso abala a confiança no país e retarda a retomada do crescimento”. O Grupo Globo, que também sente os impactos da crise econômica, estaria tentando evitar o descarrilamento.
2- A famiglia Marinho, que historicamente sempre incentivou golpes e apostou na desestabilização de governos que não rezam da sua cartilha, teme que a crise atual gere convulsões sociais, acirrando ainda mais a luta de classes no país. Ela sabe que o Brasil não é o Paraguai ou Honduras, onde recentes golpes judiciais-midiáticos obtiveram êxito. Nestes países, a esquerda social e política era muito frágil. No Brasil, apesar das debilidades, as organizações populares e os partidos de esquerda ainda têm força e representatividade. A capacidade de reação é muito maior, o que tornaria infernal a adoção de um impeachment. O império global pode até saber como orquestrar e iniciar um golpe, mas não sabe como ele terminará. As consequências poderão ser trágicas, com alguns dias valendo anos em termos de politização e mobilização da sociedade contra as elites golpistas.
3- Por último, a famiglia Marinho não confia totalmente nas peças que estão em jogo para suceder a presidenta num possível impeachment. Michel Temer, o vice-presidente, tem telhado de vidro. Seu partido, o PMDB, é um dos principais focos da midiática Operação Lava-Jato. No caso da impugnação da chapa que venceu democraticamente as eleições do ano passado, quem assume é Eduardo Cunha. A Rede Globo até tentou se apresentar como porta-voz do lobista, escondendo sua história de achacador. Hoje, porém, parece que já rifou o aventureiro. No campo da oposição demotucana, o império global sabe que não há unidade entre os seus caciques. As bicadas são cada vez mais sangrentas no ninho entre o cambaleante Aécio Neves, o calculista José Serra e o pragmático Geraldo Alckmin. Uma nova eleição poderia ainda causar péssimas surpresas. “Se Dilma renunciar ou se sofrer impeachment, Lula é quem mais ganhará”, alertou nesta sexta-feira (7) a colunista Ruth de Aquino na revista Época, uma das preferidas da famiglia Marinho.
Dinheiro, dinheiro e dinheiro
Há ainda outras hipóteses sobre o “recuo tático” do império global. O jornalista Paulo Nogueira bate na tecla:
*****
A Globo não é exatamente original quando procura argumentos para suas atitudes. O que a move é sempre um desses três fatores: dinheiro, dinheiro e dinheiro. É dentro dessa premissa imutável que se deve buscar a grande questão que emergiu depois do editorial em que a empresa rompe com o golpe. Em 1964, a adesão aos golpistas foi motivada por dinheiro. E isso veio em proporções monumentais. Uma editora medíocre, com um jornal de segunda linha, virou o que virou com as mamatas dadas pelos militares em troca do apoio à ditadura. Agora, a Globo perderia muito dinheiro – e provavelmente o futuro – se alinhando com os golpistas. Não dando certo o golpe - e não daria - o risco era ver secar a verba multimilionária da propaganda federal”.
O gesto da Globo se explica e se encerra no dinheiro. Muito se especulará sobre os detalhes que se traduzirão nisso – dinheiro. Mas uma coisa é batata. Os aloprados da Globo entenderam perfeitamente o editorial. Assim como elevaram brutalmente o tom nos últimos meses, agora diminuirão na mesma proporção. Roberto Marinho sabidamente gostava de papistas, gente que obedece sem restrições ao Papa. Evandro de Andrade, chefe de jornalismo do Globo e depois da TV Globo, convenceu RM a dar-lhe o cargo com uma carta em que garantia ser papista. Os irmãos Marinhos, como o pai, também gostam de papistas. Dada a ordem contida no editorial, esperarão de seus aloprados, de Kamel a Merval, uma resposta imediata. E eles sabem disso.
*****
De fato, a hipótese da razão monetária tem consistência. Basta lembrar o balanço publicado pelo repórter Fernando Rodrigues, do site UOL, no final de junho passado. O estudo revelou que a Rede Globo e as cinco emissoras do grupo (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Recife) receberam um total de R$ 6,2 bilhões em publicidade estatal federal durante os 12 anos dos governos Lula (2003 a 2010) e Dilma (2011 a 2014). O montante é ainda maior se somado aos valores pagos às afiliadas. A RBS, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, recebeu R$ 63,7 milhões de publicidade estatal federal de 2003 a 2014; a Rede Bahia teve um faturamento de R$ 50,9 milhões no mesmo período. Já a TV Tem, maior afiliada da TV Globo no país, de propriedade de J. Hawilla, empresário metido nos escândalos de corrupção na Fifa, faturou R$ 8,5 milhões de publicidade estatal federal somente em 2014.
Somada todas estas possíveis explicações para o “recuo tático”, mesmo assim fica a pergunta: dá para confiar? A história do Brasil – com o suicídio de Vargas, a desestabilização de Kubitschek, o golpe contra Jango, o boicote às Diretas-Já, a farsa do “caçador de marajás”, a blindagem ao “príncipe da privataria” e outras ações golpistas – desaconselha qualquer tipo de ilusão no que se refere à famiglia Marinho. A conferir como será a “cobertura jornalística” dos seus vários veículos nos próximos dias. Nas marchas golpistas de março e abril, a TV Globo chegou a mudar a sua grade de programação para apoiar os grupelhos fascistas. Celebridades globais produziram vídeos conclamando os protestos. “Calunistas” ficaram excitados com o “Fora Dilma”. E agora? Como a Rede Globo se comportará? O editorial e a confissão de João Roberto Marinho são para valer ou só para enganar os ingênuos?
Fonte: Blog do Miro
A famiglia Marinho, que utilizou todos os veículos que compõe a sua propriedade cruzada na mídia para desgastar o governo Dilma e para insuflar as marchas golpistas de março e abril, parece que desembarcou da aventura dos que propõem o impeachment da presidenta. Em editorial nesta sexta-feira (7), a jornal O Globo criticou o oportunismo do presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e a “marcha da insensatez” da oposição. Também circula a informação de que um dos chefões da corporação, João Roberto Marinho, teria se reunido com nove dos 13 senadores do PT para defender “que Dilma seja sucedida por quem ganhar as eleições de 2018. Ou seja, impeachment, não”.
No editorial, intitulado “Manipulação do Congresso ultrapassa limites”, o jornalão anuncia o seu rompimento com Eduardo Cunha, a quem sempre protegeu. “Ele age de forma assumida como oposição ao governo Dilma na tentativa de demonstrar força para escapar de ser denunciado ao Supremo, condenado e perder o mandato, por envolvimento nas traficâncias financeiras desvendadas pela Lava-Jato. Daí, trabalhar pela aprovação de ‘pautas-bomba’, destinadas a explodir o Orçamento e, em consequência, queira ou não, desestabilizar de vez a própria economia brasileira... Se a conjuntura já é muito ruim, a situação piora com o deputado manipulando com habilidade o Legislativo na sua guerra particular contra Dilma e petistas. Equivale ao uso de arma nuclear em briga de rua, e com a conivência de todos os partidos, inclusive os da oposição”.
Ao final, a famiglia Marinho faz um apelo à paz: “É preciso entender que a crise política, enquanto corrói a capacidade de governar do Planalto, turbina a crise econômica, por degradar as expectativas e paralisar o Executivo. Dessa forma, a nota de risco do Brasil irá mesmo para abaixo do ‘grau de investimento’, com todas as implicações previsíveis: redução de investimentos externos, diretos e para aplicações financeiras; portanto, maiores desvalorizações cambiais, cujo resultado será novo choque de inflação. Logo, a recessão tenderá a ser mais longa, bem como, em decorrência, o ciclo de desemprego e queda de renda. Tudo isso deveria aproximar os políticos responsáveis de todos os partidos para dar condições de governabilidade ao Planalto”.
Se o editorial já havia surpreendido os que conhecem a história sinistra e golpista da Globo, o texto postado por um “anônimo” do blog Diário do Centro do Mundo gerou ainda maiores questionamentos sobre as movimentações recentes da famiglia Marinho. Vale conferir:
*****
Dilma deve ser sucedida por quem ganhar em 2018, disse João Roberto Marinho a senadores do PT
Postado em 8 de agosto de 2015
Por Anônimo
João Roberto Marinho pediu encontro com os senadores do PT, na última quarta-feira.
Dos 13, nove aceitaram.
Durou quase duas horas. Ele abriu, dizendo-se muito preocupado com as “maluquices” de Eduardo Cunha na Câmara, que não comprometem apenas o próximo governo, mas o futuro do País;
Durante todo o tempo, escutou as queixas dos senadores, um por um, sobre a parcialidade, os dois pesos, duas medidas, as abordagens dos repórteres querendo declarações que apenas preencham a verdade que já está pré-estabelecida, a repercussão nula do que os governos Lula e Dilma fizeram pelo Brasil.
Recados que foram dados a ele: 1) não mexam com Lula – todos estavam ainda muito mordidos com a charge do Chico [Caruso] do dia anterior (“agora só falta você”), pois o Brasil pode pegar fogo e eles não vão ser bombeiros; 2) na mesma direção, não temos controle sobre nossa base social e é imprevisível a reação que se virá ante uma hipotética prisão de Lula.
Ele pediu desculpas, “ou os senhores estão enganados, ou nós estamos errando feio”, comprometendo-se a levar a avaliação geral dos senadores para os editores.
Disse ainda que, realmente, a cumplicidade entre jornalistas e procuradores de Curitiba, hoje, representa um fator de instabilidade, mas jogou a culpa no PT, “que deu início a essa parceria”. Ao final, pediu para o governo controlar sua base na Câmara.
*****
Três hipóteses sobre o “recuo tático”
O que teria levado o poderoso império global a, aparentemente, abandonar a “marcha da insensatez” dos golpistas e a rifar o lobista Eduardo Cunha? Há pelos menos três hipóteses consistentes:
1- A crise política, insuflada pela oposição demotucana, os grupelhos fascistas e a própria mídia privada, agravou o cenário econômico. Setores empresariais, inclusive do ramo financeiro, temem pela deterioração dos seus negócios, dos seus lucros. A aposta no impeachment e na instabilidade permanente poderia contagiar ainda mais a economia. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda da ditadura e influente interlocutor das elites, já alertou que “esse impasse não pode continuar por muito tempo, porque quem vai pagar um preço muito alto é a sociedade brasileira”. No mesmo rumo, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, em entrevista à Folha, apontou que “a crise política é mais forte que a econômica. Isso abala a confiança no país e retarda a retomada do crescimento”. O Grupo Globo, que também sente os impactos da crise econômica, estaria tentando evitar o descarrilamento.
2- A famiglia Marinho, que historicamente sempre incentivou golpes e apostou na desestabilização de governos que não rezam da sua cartilha, teme que a crise atual gere convulsões sociais, acirrando ainda mais a luta de classes no país. Ela sabe que o Brasil não é o Paraguai ou Honduras, onde recentes golpes judiciais-midiáticos obtiveram êxito. Nestes países, a esquerda social e política era muito frágil. No Brasil, apesar das debilidades, as organizações populares e os partidos de esquerda ainda têm força e representatividade. A capacidade de reação é muito maior, o que tornaria infernal a adoção de um impeachment. O império global pode até saber como orquestrar e iniciar um golpe, mas não sabe como ele terminará. As consequências poderão ser trágicas, com alguns dias valendo anos em termos de politização e mobilização da sociedade contra as elites golpistas.
3- Por último, a famiglia Marinho não confia totalmente nas peças que estão em jogo para suceder a presidenta num possível impeachment. Michel Temer, o vice-presidente, tem telhado de vidro. Seu partido, o PMDB, é um dos principais focos da midiática Operação Lava-Jato. No caso da impugnação da chapa que venceu democraticamente as eleições do ano passado, quem assume é Eduardo Cunha. A Rede Globo até tentou se apresentar como porta-voz do lobista, escondendo sua história de achacador. Hoje, porém, parece que já rifou o aventureiro. No campo da oposição demotucana, o império global sabe que não há unidade entre os seus caciques. As bicadas são cada vez mais sangrentas no ninho entre o cambaleante Aécio Neves, o calculista José Serra e o pragmático Geraldo Alckmin. Uma nova eleição poderia ainda causar péssimas surpresas. “Se Dilma renunciar ou se sofrer impeachment, Lula é quem mais ganhará”, alertou nesta sexta-feira (7) a colunista Ruth de Aquino na revista Época, uma das preferidas da famiglia Marinho.
Dinheiro, dinheiro e dinheiro
Há ainda outras hipóteses sobre o “recuo tático” do império global. O jornalista Paulo Nogueira bate na tecla:
*****
A Globo não é exatamente original quando procura argumentos para suas atitudes. O que a move é sempre um desses três fatores: dinheiro, dinheiro e dinheiro. É dentro dessa premissa imutável que se deve buscar a grande questão que emergiu depois do editorial em que a empresa rompe com o golpe. Em 1964, a adesão aos golpistas foi motivada por dinheiro. E isso veio em proporções monumentais. Uma editora medíocre, com um jornal de segunda linha, virou o que virou com as mamatas dadas pelos militares em troca do apoio à ditadura. Agora, a Globo perderia muito dinheiro – e provavelmente o futuro – se alinhando com os golpistas. Não dando certo o golpe - e não daria - o risco era ver secar a verba multimilionária da propaganda federal”.
O gesto da Globo se explica e se encerra no dinheiro. Muito se especulará sobre os detalhes que se traduzirão nisso – dinheiro. Mas uma coisa é batata. Os aloprados da Globo entenderam perfeitamente o editorial. Assim como elevaram brutalmente o tom nos últimos meses, agora diminuirão na mesma proporção. Roberto Marinho sabidamente gostava de papistas, gente que obedece sem restrições ao Papa. Evandro de Andrade, chefe de jornalismo do Globo e depois da TV Globo, convenceu RM a dar-lhe o cargo com uma carta em que garantia ser papista. Os irmãos Marinhos, como o pai, também gostam de papistas. Dada a ordem contida no editorial, esperarão de seus aloprados, de Kamel a Merval, uma resposta imediata. E eles sabem disso.
*****
De fato, a hipótese da razão monetária tem consistência. Basta lembrar o balanço publicado pelo repórter Fernando Rodrigues, do site UOL, no final de junho passado. O estudo revelou que a Rede Globo e as cinco emissoras do grupo (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Recife) receberam um total de R$ 6,2 bilhões em publicidade estatal federal durante os 12 anos dos governos Lula (2003 a 2010) e Dilma (2011 a 2014). O montante é ainda maior se somado aos valores pagos às afiliadas. A RBS, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, recebeu R$ 63,7 milhões de publicidade estatal federal de 2003 a 2014; a Rede Bahia teve um faturamento de R$ 50,9 milhões no mesmo período. Já a TV Tem, maior afiliada da TV Globo no país, de propriedade de J. Hawilla, empresário metido nos escândalos de corrupção na Fifa, faturou R$ 8,5 milhões de publicidade estatal federal somente em 2014.
Somada todas estas possíveis explicações para o “recuo tático”, mesmo assim fica a pergunta: dá para confiar? A história do Brasil – com o suicídio de Vargas, a desestabilização de Kubitschek, o golpe contra Jango, o boicote às Diretas-Já, a farsa do “caçador de marajás”, a blindagem ao “príncipe da privataria” e outras ações golpistas – desaconselha qualquer tipo de ilusão no que se refere à famiglia Marinho. A conferir como será a “cobertura jornalística” dos seus vários veículos nos próximos dias. Nas marchas golpistas de março e abril, a TV Globo chegou a mudar a sua grade de programação para apoiar os grupelhos fascistas. Celebridades globais produziram vídeos conclamando os protestos. “Calunistas” ficaram excitados com o “Fora Dilma”. E agora? Como a Rede Globo se comportará? O editorial e a confissão de João Roberto Marinho são para valer ou só para enganar os ingênuos?
Fonte: Blog do Miro
Dilma: Quem aposta no "quanto pior, melhor" está contra o Brasil
|
Agência Brasil
Dilma e o governador do Maranhão, Flávio Dino, durante a entrega mais de 4 mil casas no programa Minha Casa, Minha Vida em São Luís |
Numa contraofensiva, a presidenta Dilma Rousseff fez um apelo ao povo brasileiro para repudiar a política do “vale-tudo” da oposição derrotada nas urnas, que aposta no "quanto pior, melhor", para atingir o governo federal. "Quem aposta nisso está contra o povo", disse Dilma durante entrega de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida em São Luís, no Maranhão, na segunda-feira (10).
“Eu quero aproveitar que estamos no extremo Norte do nosso país para fazer um apelo aos brasileiros: vamos repudiar sistematicamente o vale tudo para atingir qualquer governo, seja o governo federal, seja os governos dos estados ou dos municípios. No vale tudo quem acaba sendo atingido pela política do quanto pior melhor é a população”, disse.
“O Brasil precisa muito, mais do que nunca, que as pessoas pensem primeiro nele, pensem no que serve à nação, à população brasileira e, depois, pensem em seus partidos e nos seus projetos pessoais", acrescentou a presidenta.
Compromisso com o Brasil
Dilma salientou que o país vive um momento de travessia na economia. “Neste momento estamos, sem sombra de dúvida, passando por um momento de dificuldade. Mas o Brasil é muito mais forte do que esse momento de dificuldade. Nós estamos numa travessia. Não estamos parados. É um período de dificuldade? É. Um período de dificuldade geralmente causa incerteza e apreensão nas pessoas. Por isso eu quero dizer: não fiquem inseguros nem apreensivos. Essa é uma situação temporária. Ela vai passar, e rápido”, garantiu a presidenta.
Desmascarando o discurso pessimista da grande mídia e da oposição golpista, Dilma reafirmou que, apesar das dificuldades, seu governo tomou a decisão política de garantir os programas sociais. “Nós, mesmo durante essa travessia, não abandonaremos os programas sociais. Não abandonaremos o Minha Casa, Minha Vida, não abandonaremos o Mais Médicos, que aqui trouxe grandes contribuições porque muitos municípios do Maranhão não tinham nenhum médico. Não vamos deixar de garantir que as pessoas tenham acesso ao Prouni, ao Fies. Não vamos recuar do Bolsa Família. Enfim, vamos manter os programas sociais”, disse.
4 milhões de moradias
Dilma lembrou que as mesmas vozes que hoje fazem a política do “quanto pior, melhor”, diziam que o Minha Casa, Minha Vida não iria dar certo. “Quando tomamos a decisão do fazer o Minha Casa, Minha Vida, diziam que a gente não iria conseguir ou que íamos fazer no máximo 200 mil moradias. Pois bem, estamos chegando a quase 4 milhões de moradias. E no dia 10 de setembro, vamos lançar a terceira fase com mais 3 milhões de moradias”, disse.
No total, foram entregues 4.467 moradias do Minha Casa, Minha Vida em São Luís (MA), Caxias (MA), Campo Grande (MS) e Anastácio (MS). Os empreendimentos são destinados a famílias com renda de até R$ 1,6 mil, a chamada faixa 1, de família mais carentes.
Congresso Nacional
Diante das sucessivas votações na Câmara dos Deputados que tem aprovado projetos que acarretam no aumento de despesas das contas públicas no atual momento de ajuste, a presidenta destacou: "O Brasil precisa de uma coisa: o Brasil precisa muito, mais do que nunca, que as pessoas pensem primeiro nele, pensem no que serve à nação, à população brasileira e, depois, pensem em seus partidos e nos seus projetos pessoais".
Apoio à presidenta
O ato também se transformou num ato de apoio ao governo da presidenta Dilma e em defesa da democracia. Participaram da cerimônia dezenas de autoridades políticas e parlamentares, entre os quais, o governador do Piauí, Welligton Dias, e os parlamentares do PCdoB Orlando Silva, Jô Moraes, Chico Lopes e a líder do partido na Câmara, Jandira Feghali.
Durante o seu discurso, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirmou que o povo é contra "qualquer tipo de golpe que é ensaiado no nosso país neste momento" e declarou que o povo do Maranhão defende e apoia os programas sociais do governo e "por isso defendemos o governo de vossa excelência".
"Estamos defendendo o sentimento que passar dentro do coração da população mais pobre do país. É claro que todos nós que aqui estamos somos contra a corrupção e defendemos a apuração, a investigação de quem quer que seja que tenha cometido qualquer tipo de coisa errada. Agora, separamos as coisas: nós defendemos que haja tudo isso, mas com respeito à Constituição, com respeito à democracia e às regras do jogo que foram estabelecidas por nossa nação", disse o governador sob aplausos da plateia formada majoritariamente por beneficiários do Minha Casa, Minha Vida, que se levantou e entoou o grito: "não vai ter golpe".
Do Portal Vermelho, Dayane Santos, com informações da NBR
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Jaques Wagner: "Ninguém combate corrupção como Dilma"
"Minha gente, fui deputado federal, duas vezes governador e duas vezes ministro e nunca vi alguém defender tanto o combate a corrupção como a presidente Dilma Rousseff", afirmou o ex-governador da Bahia e atual ministro da Defesa, Jaques Wagner. Discurso foi feito na cidade de Morro de Chapéu, na Chapada da Diamantina, onde foi homenageado com a comenda pelos relevantes serviços prestados.
O petista disse que não troca os 12 anos dos petistas no poder por qualquer uma das gestões anteriores, “apesar de alguns companheiros terem errado”
Já especificamente com relação a Operação Lava Jato e as grandes empreitierias investigadas, o ministro Jaques Wagner defendeu que” é necessário que se investigue, defendo isso, pois quem errou tem que pagar, pois dinheiro público é pra ser utilizado no bem público, mas não podemos deixar que as grandes empresas da nossa nação sejam paralisadas".
Fonte: Brasil 247
Pautas bomba são demonstração de desespero e impotência
Se o PMDB estivesse com a bola toda para derrubar a presidenta Dilma Rousseff, iria votar pautas bombas para inviabilizar um hipotético governo do correligionário Michel Temer? Claro que não.
Por Helena Sthephanowitz, para a RBA
Se Aécio Neves tivesse expectativa de chegar ao poder em breve, iria tocar fogo com pautas bomba que explodiriam no seu colo? Também não.
Então até o cimento da Praça dos Três Poderes sabe que, na conjuntura atual, não existe a menor viabilidade de dar o golpe "paraguaio" do impeachment.
A mídia oligopólica conspira. Políticos da oposição e alguns insatisfeitos da base governista conspiram. Tem sim parlamentares que desejariam o golpe para pegar o poder, mas sabem que não têm cacife para tanto. Porque a situação é igual à das potências nucleares na Guerra Fria: apontavam os mísseis mas não podiam disparar, porque não sobreviveriam à inevitável retaliação.
Ameaçar com o impeachment serve para "sangrar" o governo Dilma (como expressou o senador tucano Aloysio Nunes, tempos atrás), para enfraquecê-lo Serve para chantagear politicamente, para o poder econômico passar patifarias contra os trabalhadores e contra a cidadania no Congresso. Mas o golpe em sim é apenas uma ameaça porque, ao se deflagrar um processo de impeachment, a retaliação será fatal para as forças políticas golpistas.
Não tem como rolar a cabeça de uma presidenta cuja honestidade fica comprovada em todas as investigações, sem rolar antes a cabeça de dezenas, talvez centenas de parlamentares investigados ou denunciados por corrupção. Grande parte deles, justamente os golpistas. Além disso, a deflagração de uma muito provável fúria popular se alastraria contra governadores, prefeitos, vices – alguns na situação de investigados em diversas operações e apurações pelo país.
Enquanto os golpistas blefam sem limites, a presidenta é obrigada a ser comedida como devem ser chefes de Estado, e tocar o governo em frente. Porém, se vier a ser iniciado um processo de impeachment, reagir ao golpe e abrir fogo cerrado – politicamente falando – passa a ser até mesmo uma obrigação para a presidenta, na defesa da própria integridade democrática do país.
Além disso, hipoteticamente falando, como imaginar a aceitação popular de qualquer sucessor vindo dos meios políticos suspeitos, carregando todos os vícios do sistema, e ainda mais sem ter sido eleito pelo voto popular. Até para quem não gosta da presidenta, seria trocar o ruim pelo pior.
Também não passa de desejo irrealizável a tese do senador tucano Aécio Neves de pedir novas eleições antecipadas. Primeiro porque salta aos olhos tratar-se de capricho pessoal por ter sido derrotado nas urnas e de que é ambição por cálculo político momentâneo. Não vivemos no parlamentarismo mas, se vivêssemos, teríamos presidente e primeiro-ministro. Em casos de crises políticas, o parlamento poderia trocar o primeiro-ministro, mas quem teria poderes para convocar novas eleições seria justamente o presidente – e para eleger um novo Congresso.
Se a crise política fosse tão grave a ponto de haver um esgotamento institucional na governança do país – e não é esse o caso – o correto seria convocar uma Assembleia Nacional Constituinte para fazer pelo menos as reformas política e administrativa e convocar novas eleições gerais. Não é trocando presidente, mantendo todo o entorno intacto ou pior, que saciaria a fome de mudança do povo.
A tese de novas eleições em caso de crise só interessaria ao povo se fossem eleições gerais, para eleger também outro Congresso Nacional, e com outras regras, para que seja representativo dos anseios populares.
O ritmo frenético do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao colocar em votação e aprovar as chamadas pautas bombas – verdadeiros "cheques sem fundos" que não cabem no Orçamento da União – revela mais desespero de quem está atirando porque está caindo, do que força para dar um golpe e destituir a presidência da República.
Cunha foi eleito por seus pares pela expectativa de poder que ele representava. Com uma Câmara mais fisiológica eleita em 2014, o estilo de ser e atuar de Cunha, na base de fazer pressão por cargos e verbas e em troca votar projetos de interesse dos seus círculos, seduziu a maioria parlamentar.
Porém, desde que o presidente da Câmara apareceu envolvido nas investigações da operação Lava Jato, ele tem misturado suas encrencas pessoais com o cargo que ocupa, obstruindo negociações políticas legítimas. Chegou ao ponto de se declarar na oposição ao poder Executivo como retaliação por ter sido delatado no poder Judiciário. É como se ele quisesse que o poder Executivo garantisse uma impossível impunidade em outro poder independente.
Para piorar, tem arrastado seus correligionários para suas encrencas. A contratação da empresa de investigação Kroll pela CPI da Petrobras já está virando um escândalo em si, a ponto de oficialmente só dois membros saberem quem e o que a Kroll investiga. Nem se trata de ter acesso ao resultado final da investigação. Nem sequer o pedido do que investigar está sob sigilo.
O deputado Paulinho da Força, aliado de Cunha, requereu na CPI a quebra do sigilo telefônico do Procurador Geral da República Rodrigo Janot, a quem o presidente da Câmara hostilizou por ser investigado. Janot acabou fortalecido por sua classe vencendo a eleição para ser indicado para continuar no cargo por mais dois anos. Paulinho ficou com o desgaste e tem submergido publicamente, conspirando pelo impeachment em cafés da manhã e jantares de "golpistas clandestinos" (aqueles que negam estarem conspirando).
Outro desgaste ruim para os parlamentares é que as pautas bombas e a agenda denuncista de CPIs estão desagradando empresários que financiaram campanhas destes deputados. E a mesma crise que afeta a economia do governo federal atinge também governadores e prefeitos aliados dos parlamentares e empresas. Não dá para sustentar fogo amigo por muito tempo contra quem dá suporte às suas eleições.
Com isso, a liderança de Cunha está com prazo de validade vencendo. Mesmo que ele consiga sobreviver no cargo, será enquadrado por seus seguidores. A bancada fisiológica que o elegeu não quer saber de ficar ao lado da oposição. Quer participar do governo em cargos e conseguir verbas para suas bases eleitorais. O blefe do impeachment é útil a Cunha porque transparece expectativa de poder. Tanto passa a ideia de que o PMDB ficaria com a presidência da República se Dilma caísse, como passa a ideia de que Dilma estaria na mão dele para ficar. Nenhuma das duas coisas é propriamente verdade pela conjuntura desfavorável ao impeachment.
Assim esse blefe está se esgotando. A bancada hoje cunhista não vai esperar para as escaramuças de Cunha com o governo sem resultado, e a ficha está caindo de que o impeachment é inviável. Isto faz os parlamentares passarem a buscar outros canais de interlocução com ministérios para voltar à paz com o governo para ver suas demandas atendidas.
A crise política na base governista, hoje, parece com a parábola da carroça de abóboras. Um cocheiro dirigia a carroça por uma estrada de terra esburacada e a cada solavanco parava para ajeitar as abóboras que saiam do lugar. Até que viu outra carroça passando e outro cocheiro mais experiente seguia em frente e nem olhava para trás. As abóboras que estavam desarrumadas organizavam-se sozinhas no próximo solavanco.
Os solavancos políticos que vêm por aí não resultarão em impeachment, que se mostra cada vez mais ser inviável. Um deles, talvez o maior, é a operação Lava Jato avançando em direção a caciques do PMDB e de outros partidos, inclusive da oposição. Fala-se em um terço ou um quarto do Congresso cair nas investigações da Lava Jato. É bem possível que deflagre até um rearranjo partidário com rachas, fusões, trocas de nomes e de legenda.
Outro solavanco que acomodará as coisas será a presidenta Dilma trocar o ministério, pois o atual não está cumprindo o compromisso de uma coalizão.
Fonte: Vermelho
A crise é política e na política é que se constrói a saída
| Foto: EBC A crise é política, e na política é que se constrói a saída |
Vivemos uma situação em que pactuações estão se tecendo, abaixo da linha d’água e frente à completa desorganização da base política do governo, à crise econômica e fiscal, ao caos ingovernável da Operação Lava a Jato em sua aliança com a mídia conservadora. É um dado objetivo da política, que desconhece o vácuo e tem horror, em geral, à conflagração geral.
Por Walter Sorrentino*
A hipótese de impeachment seria uma impropriedade e uma violência institucional. Nesse ponto, um consenso vai se impondo, de empresários até o núcleo mais sólido da oposição. A 7ª economia do mundo tem muito a perder com uma recessão e crise fiscal que leve o país a perder o grau de investimento. Seria recuar à situação dos anos 90, encarecendo todo o crédito, limitando os investimentos estrangeiros e, sobretudo, prejudicando os interesses já estabelecidos.
O ajuste fiscal, no essencial, foi feito e, malgrado a insatisfação social, seria assegurado no consenso enfrentar as pautas-bomba com apoio dos governadores e do próprio empresariado pressionando a base política. Seria a hora de “vender futuro”, pois o presente já está precificado: juros não deveriam subir mais, se estimularia algum crédito e alívio a estados e municípios, para aumentar a arrecadação; enfim, a agenda de futuro. Nada antagônico com o que Levy já está trilhando.
As ruas permanecerão tencionando o governo, mas este ainda tem bases sociais importantes que podem ser ativadas em sua defesa. A hora ainda é dos políticos e da política. Não será por aí que se imporá o impeachment, contrariando a parcela da oposição cuja única perspectiva é a de cavalgar o apocalipse, mas tentariam continuar sitiando a presidenta Dilma,.
A governabilidade sobre a Lava a Jato é uma grande incógnita. Isso ainda é um fio desencapado, e por ora, impede uma reorganização política do governo, pois este poderia ficar refém da agenda da “faxina”. E este é o ponto que invoca a outra perna institucional, o próprio Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República, que poderiam dar segurança e confiança a um regime de apuração dentro da constitucionalidade, sem desconsiderar as garantias fundamentais, o direito de defesa, a presunção de inocência e a compreensão de que delação não é suficiente como prova. Isto, sem prejuízo algum de combater a impunidade. Os acordos de leniência das empresas envolvidas na Lava a Jato dariam segurança à engenharia nacional, à produção e ao emprego.
Outro fio desencapado, difícil por ora de abarcar nas pactuações, está no Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados, onde se verifica rebelião de toda ordem, a começar pelo Presidente em seu comportamento agonístico. Mas enquanto instituição, o Congresso poderia ser ganho para um chamado à razão – os interesses do país, da economia, do povo e da normalidade institucional. E neste sentido, o Senado, como é o seu papel, poderia ser uma força de contenção e equilíbrio.
Há ainda a outra variável, o papel do PT e, para além dele, de Lula e sua liderança. A estratégia das forças conservadoras midiático-judiciária, em curso, desvendou-se completamente nos últimos dias: o centro estratégico é atingir Lula, com o que se retira a âncora de perspectivas para 2018. Sendo isso alcançado, por violência judiciária ou imposição dos fatos, um consenso caviloso avançaria mais célere.
Mas, há muita água para correr nessa questão: Lula precisa comandar a retomada do moral, ânimo e força do PT. Como afirma o 5º Congresso do PT, o rumo proposto seria a constituição de uma nova coalizão orgânica e plural, numa estratégia frentista, com um programa atualizado para os desafios do Brasil após as grandes conquistas alcançadas neste 14 últimos anos. O PCdoB conclamou à mesma perspectiva no 13º Congresso, no final de 2013: um bloco político social progressista e patriótico, de afinidade com as bandeiras da esquerda.
Tudo somado, diante da crise política, é na política que um consenso pode se apresentar. É hora da grande Política. Dilma é a presidenta constitucionalmente eleita, além de ser inalcançável por crime de responsabilidade – é honrada, íntegra e patriota, além de valente e compromissada com sua missão. O PMDB seria, certamente, chamado a um papel central para reorganizar o ministério e realinhar a base política, tendo Temer e Renan, seguramente, destacado papel. Dilma e Temer, com a legitimidade dada pelo voto, precisam ser os vértices das saídas.
Impõe-se, assim, o chamado à democracia, à união de amplas forças para sustentar a presidenta e seu mandato. A democracia é um bem incomensurável ao povo e à nação, à economia e à sociedade. É a democracia que está em jogo nestes dias em que vivemos em perigo - a nação, o governo, as esquerdas, os democratas e patriotas. O combate nas trincheiras que construímos é necessário, não havendo como titubear agora frente aos compromissos gerados pelas urnas.
*Secretário Nacional de Organização do PCdoB desde 2002. Eleito vice-presidente do Partido na 10ª Conferência Nacional do PCdoB em maio de 2015.
Fonte: Vermelho
Assinar:
Postagens (Atom)

