quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O PLANO DE DILMA PARA REGULAR A MÍDIA

Como fazer o PMDB apoiar um projeto do governo para regular a mídia se a maioria dos parlamentares do partido detém meios de comunicação?
Durante a cerimônia de posse de Dilma no Palácio do Planalto este blogueiro teve chance de conversar com personalidades da política que confirmaram que, ao menos no discurso, a presidente pode ter se convencido de que regular a mídia pode até não vir a ajudá-la em seu mandato, mas pode dar ao país, no futuro, uma comunicação mais plural e democrática.
Qualquer projeto que consiga avançar nesse sentido, de acordo com os planos do governo, não iria vigorar no mandato da atual presidente. E, mesmo que isso fosse possível, os efeitos dessa regulação ainda iriam demorar anos e anos para se fazer notar.
Por exemplo, a produção regional de conteúdo. Mesmo sendo viabilizada legalmente, ainda dependeria de tempo e investimentos para, um dia, fazer frente à produção dos grandes grupos de mídia.
Em tese, porém, o plano em questão pode funcionar – desde que, é claro, não tenha sido anunciado (extraoficialmente) com vistas, apenas, a acalmar a militância de esquerda, cada vez mais impaciente diante das concessões que um governo de coalizão tem que fazer para conseguir funcionar minimamente, o que é difícil explicar a movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda que têm sua própria agenda.
E essa impaciência não se resume mais, apenas, a partidos como o PSOL e congêneres, ou ao MST, ou à CUT, entre outros. Altos escalões do próprio PT dizem que já não dá mais para o governo ficar nas cordas desse jeito diante de uma mídia que já provou que pode até não estar conseguindo vencer eleições, mas que consegue travar o governo e até sabotar a economia.
Infelizmente, a perda de paciência da esquerda com a situação e a crença em que Dilma só não regula a mídia porque não quer tem muito mais de wishful thinking do que de visão realista dos fatos.
Para que se entenda o poder da mídia, basta comparar o escândalo dos trens de São Paulo com o da Petrobrás. Basicamente, são iguais. Cartel aqui (em SP), cartel lá (em nível federal). Porém, um escândalo (o de SP) é tratado burocraticamente pela mídia, com matérias esparsas, pouquíssima opinião crítica, enfim, de forma despolitizada, enquanto que o caso Petrobrás é alçado ao ponto que todos têm visto.
A artilharia incessante contra a Petrobrás, que já dura quase meio ano e é disparada 24 horas por dia, 7 dias por semana, bem como o terrorismo econômico, estão afundando a economia. Claro que há problemas nas contas públicas, mas eles decorrem muito mais do bombardeio do que de problemas reais.
As dificuldades nas contas públicas poderiam ser contornadas, mas, aí, a mídia produz um fenômeno conhecido, o da profecia autorrealizável. Qual seja: se se consegue espalhar boato de que um banco vai quebrar ele pode acabar quebrando mesmo, pois os clientes, temerosos, começam a sacar seus recursos, aprofundando uma crise pequena ou até criando uma que não existia antes do boato.
Nesse contexto, falar em regulação da mídia soa um tanto quanto irreal. Porém, o governo tem um plano. Ou diz que tem.
Basicamente, seria envolver a sociedade civil com a proposta de regulação ECONÔMICA da mídia. Note bem, leitor, que não existe plano do governo para regular conteúdo, como acontece na Inglaterra, na França, enfim, em vários países que permitem à sociedade cobrar a mídia através de órgãos governamentais e para-governamentais que captam as queixas da sociedade e cobram e até punem os veículos denunciados.
Os órgãos que regulam conteúdo, nos países desenvolvidos, funcionam como aquelas seções dos jornais que publicam queixas dos consumidores contra empresas. Divulgam essas queixas e as empresas que prejudicam consumidores são obrigadas a responder e até a reparar danos. O que, aliás, funciona, apesar de que para muito pouca gente.
Mas não se pensa em ir tão longe, neste momento. Não somos um país de Primeiro Mundo, a sociedade não tem a dimensão do quanto pode ser maléfico que poucas mãos controlem grupos imensos de mídia, com poder para derrubar ministros etc., e que podem vender suas preferências políticas a partidos ou a caciques políticos.
O que se planeja é uma regulação econômica da mídia, ou seja, tratar a comunicação como qualquer outro setor da economia, impedindo a formação de oligopólios (controle de poucos sobre um segmento de mercado). Nesse aspecto, poderia se estender ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) a tarefa de impedir oligopólios no setor de comunicação assim como o órgão faz em qualquer outro setor da economia.
Mas como, se metade dos parlamentares do Congresso Nacional detém propriedade de meios de comunicação eletrônicos, sobretudo rádios e tevês? Como conseguir maioria entre políticos que dependem de controlar meios de comunicação em seus Estados para se manterem politicamente fortes?
O plano do governo é simples: discutir a regulação econômica da mídia com a sociedade em fóruns oficiais criados para esse fim.
Todavia, já houve, no fim do governo Lula, uma Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom, da qual este blogueiro participou como delegado por São Paulo. Porém, após dias discutindo a regulação da mídia, aquilo tudo deu em nada. Dilma assumiu em 2011 acreditando que poderia se compor com a mídia e deixou os trabalhos da Confecom engavetados.
Agora, com um ministro das Comunicações entusiasta do tema regulação da mídia, acende-se uma esperança de que alguma coisa possa acontecer. Contudo, no Brasil o poder dos ministros de Estado é superestimado. E ainda mais em um governo como o de Dilma, que centraliza decisões nas mãos da titular.
Mas, claro, com aval da presidente o primeiro passo do plano que o governo alega ter para regular a mídia pode vingar, mas teria que haver uma disposição que não se sabe se haverá.
Como fazer o PMDB apoiar um projeto do governo para regular a mídia se a maioria dos parlamentares do partido detém meios de comunicação? Aliás, essa gente anuncia que não vai apoiar essa regulação.
Dá para fazer sem o PMDB? Não dá. E os partidos que apoiariam, em princípio, são pouquíssimos. PT, PC do B, PSOL e olhe lá. Juntos, não representam nem um quinto do Congresso.
O jeito é colocar a sociedade a favor dessa proposta, explicando-lhe os malefícios de uma mídia oligopolizada, informando-a de que os países mais avançados e democráticos do planeta regulam a mídia.
Porém, se a iniciativa for tímida, com pessoas trancadas em auditórios falando para si mesmas, não vai funcionar. Seria preciso uma grande campanha publicitária, que seria tachada pela mídia como ímpeto censor enquanto haveria uma radicalização midiática ainda maior, com “escandalização” de qualquer denúncia frágil – estamos em um país em que um ministro de Estado quase foi demitido por ter comprado uma tapioca com o cartão corporativo do governo.
Terá o governo Dilma força para levar até o fim esse plano (anunciado) de regulação da mídia? Não cederá quando se multiplicar por dez o bombardeio midiático? Será, então, que esse plano de regulação da mídia é real ou é só uma cortina de fumaça para acalmar a militância de esquerda?
São muitas perguntas e, até aqui, nenhuma resposta concreta. Só o que se pode fazer é confiar no espírito de estadista da presidente Dilma. Estará ela disposta a se sacrificar para dotar o país de uma legislação para a Comunicação à altura de um país como este?
Em teoria, é possível. Dilma não buscará a reeleição. Sabe que no dia 1º de janeiro de 2019 estará fora do poder e, assim, pode decidir comprar essa briga. Porém, neste momento, com a economia tão fragilizada, uma ofensiva maior da mídia pode jogar o país em uma crise econômica brutal que fará a popularidade do governo despencar, pavimentando o caminho da direita em 2018.
Um acordo com a mídia é praticamente impossível. Simplesmente porque, no mínimo, empresas como a Globo, com regulação econômica da atividade Comunicação, terão que parar de crescer exponencialmente. Aliás, terão que parar de crescer de qualquer forma, ainda que o ideal fosse reduzir o tamanho desses conglomerados de mídia, inaceitáveis em qualquer sociedade civilizada.
O mundo desenvolvido já entendeu, há muito, que é nefasto para um país colocar nas mãos de uma única família um poder como o da Globo. Ou melhor, que é nefasto colocar em pouquíssimas mãos o controle quase hegemônico da comunicação. Mas o Brasil ainda não é um país suficientemente educado e civilizado para entender isso. O povo nem pensa sobre tais questões.
Não somos ingleses ou franceses, para o bem e para o mal.
Sob o prisma apresentado, portanto, parece distante a possibilidade de dotar o país de uma legislação avançada nas comunicações quando nem conseguimos aprovar direito de resposta para pessoas físicas e jurídicas que se sintam prejudicadas pelo noticiário ou pela publicidade.
Aliás, o Brasil até tem uma legislação para controlar excessos da mídia quanto à política. Tenho dito que se a legislação eleitoral sobre a mídia funcionasse o tempo todo, o problema estaria resolvido.
Vimos o que aconteceu com a famosa capa da Veja, divulgada a 48 horas da eleição presidencial. A Justiça Eleitoral agiu e a revista teve que publicar direito de resposta do PT e isso influiu na percepção do eleitorado, que intuiu que se a Justiça tinha condenado a Veja alguma coisa que ela fez com aquela capa acusando Dilma e Lula, estava errada.
Enfim, essa é a realidade sobre a questão da regulação da mídia. Qualquer coisa que lhe disseram fora do que vai acima, é balela. Não se pode nutrir tantas esperanças, portanto. Mas esperança existe. Há que ver, primeiro, se Dilma está disposta a comprar a terceira guerra mundial e, segundo, se ela vai conseguir lutar essa guerra. Mesmo querendo.

Fonte: Portal Brasil 247

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Presidente do TST defende limites à terceirização

Ministro Levenhagen foi consultado pelo Supremo sobre Súmula 331, que proíbe empresas de terceirizarem suas atividades-fim. Entendimento está sendo questionado em ações no STF

São Paulo – O Supremo Tribunal Federal (STF) enviou questionamentos ao presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Antonio Levenhagen, sobre a Súmula 331 que proíbe a terceirização de atividades-fim. A súmula é o entendimento adotado pela Justiça do Trabalho no julgamento de ações sobre intermediação de mão de obra e está sendo questionada no Supremo em pelo menos duas ações: da Celulose Nipo Brasileira (Cenibra) e da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Ambas têm repercussão geral – isso significa que a posição do STF deverá ser adotada em todas as instâncias da Justiça – e argumentam que a proibição da terceirização nas atividades essenciais das empresas fere o princípio constitucional da livre iniciativa.

> STF vai decidir sobre rumos da terceirização

Levenhagen discordou do argumento adotado pela Abag e Cenibra, e defendeu a Súmula 331. Segundo ele, trata-se de uma forma de assegurar "a igualdade de condições de trabalho e de salários", ajuda na solução de conflitos sem que a Justiça do Trabalho se "aventure" a substituir o Poder Legislativo.

O TST foi procurado pelo relator no STF da ação movida pela Abag, o ministro Luís Roberto Barroso. Ele pediu em dezembro que o TST justificasse a aplicação da tese, e a resposta foi protocolada na terça-feira 30. No ofício, Levenhagen defende que a corte trabalhista agiu com "o anseio de proporcionar solução equânime para solução dos conflitos" envolvendo terceirizados e empregados permanentes de empresas.

Ele explicou que diante da falta de leis e "roupagem jurídica" sobre essa forma de contratação, foi formulada uma "fonte subsidiária de Direito", com o objetivo foi preservar princípios constitucionais como do valor social do trabalho e da isonomia laboral.

"É de bom alvitre ter em mente que a terceirização de serviços se qualifica como fenômeno genuinamente econômico, em que o seu indisfarçável objetivo é o de proporcionar maior rendimento para as empresas, com a confessada redução dos custos de mão de obra", afirmou o presidente do TST.

No documento, Levenhagen também sugere a Barroso que não reconheça a repercussão geral da matéria, por entender que a Abag deveria ter questionado uma determinada decisão judicial, e não a Súmula 331.

Outras opiniões – Para analisar a questão, Barroso também solicitou que a Abag demonstre ter associados mantenedores em nove estados, que é um requisito para levar o assunto ao Supremo. O relator ainda determinou que a Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da República se manifestem.

A PGR já se manifestou no caso da Cenibra, afirmando ser favorável à Súmula 331 e contra a terceirização de atividades-fim, que classificou como fraude trabalhista. Segundo parecer do órgão, países como Alemanha, Espanha e França consideram que só existe a relação empregatícia direta entre quem presta o trabalho e quem se beneficia dele.

> Procuradoria da República é contra terceirização

Além disso, ao menos quatro entidades pediram para ingressar como amicus curiae – parte interessada no caso –, entre elas a Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro) e a Associação Brasileira de Telesserviços.

Leia mais
> Terceirização sem limites legitima barbárie


Redação, com Consultor Jurídico
Fonte: Seeb-SP


Ministro da Justiça declara “guerra à máfia” das próteses ortopédicas

 Em declaração à imprensa, na segunda-feira (5), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, informou que irá declarar “guerra à máfia” das próteses ortopédicas. “Vamos determinar que a PF proceda às investigações para responsabilizar e punir os responsáveis”, avisou.


Após denúncia, o ministro informou que a Polícia Federal (PF), a Receita Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vão investigar irregularidades na prescrição de dispositivos médicos, como as próteses ortopédicas.


O ministro da Saúde, Arthur Chioro, em coletiva à imprensa junto com Cardozo, repudiou as atitudes mostradas na reportagem e anunciou a criação de um grupo formado pelos ministérios da Saúde, da Justiça e da Fazenda, e ainda pelos conselhos nacionais de secretários municipais e estaduais, para que, juntas, as três pastas possam corrigir e aperfeiçoar todas as questões relacionadas ao uso dos dispositivos médicos. Chioro informou que em até 180 dias serão apresentadas medidas de reestruturação do setor, visando tanto à área pública quanto à privada.

De acordo com as denúncias, o esquema mostra fabricantes de próteses que pagam comissões para médicos prescreverem determinados produtos. Alguns profissionais chegavam a faturar até R$ 100 mil por mês de comissões. Há também a denúncia de execução de cirurgias para implantação de próteses sem necessidade.

Segundo o ministro, o Cade deverá averiguar se há um cartel das empresas de próteses.

O Tribunal de Contas da União (TCU) já havia apontado aumento de demandas judiciais na área de saúde com o objetivo de garantir o fornecimento de medicamentos e a realização de cirurgias e procedimentos. Segundo o órgão, na esfera federal, os gastos com medicamentos e insumos para cumprimento de decisões judiciais passaram de R$ 2,5 milhões, em 2005, para R$ 266 milhões em 2011.

Da Redação do Vermelho
Com informações das agências

Marx voltou: O mercado e as crises

Neste mês de janeiro a TV Vermelho reproduz série sobre o pensamento de Marx. Neste primeiro capítulo companhe a reflexão sobre "Marx voltou: O mercado e as crises". 


    Reforma agrária na Brasil: Ligas Camponesas completam 60 anos

     Em 1º de janeiro de 2015 as Ligas Camponesas completaram 60 anos. Elas nem existem mais, porém seu legado histórico ainda está aí, vivo e pulsando. Surgiram no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, em 1º de janeiro de 1955, e foram extintas logo após o golpe militar de março de 1964.

    Por Vandeck Santiago*, no Diário de Pernambuco  


    Em 9 anos de existência, conseguiram levar o camponês para a sala de estar da política nacional - a reivindicação de reforma agrária conseguiu assento na agenda de prioridades do Brasil e tornou-se o principal item das Reformas de Base idealizadas pelo governo João Goulart.

    Tamanha foi a repercussão das Ligas que elas chegaram às páginas da imprensa mundial (incluindo o New York Times) e despertaram a atenção do recém-iniciado governo John Kennedy, dos EUA.
    A ação das Ligas Camponesas teve papel de destaque no rol de tensões sociais na América Latina que preocupavam os EUA, a ponto de o governo Kennedy ter criado um programa destinado a evitar que elas descambassem para revoluções esquerdistas (o Aliança para o Progresso). Alguns dos principais integrantes da administração Kennedy (como o historiador Arthur Schlesinger) estiveram no Nordeste para avaliar a situação social e política da região.

    Nos anos 40 já tinha havido em Pernambuco uma organização com o nome "Ligas Camponesas", mas de atuação efêmera e sem nenhum destaque. A que fez a diferença mesmo foi a de 1955, no Engenho Galileia, onde moravam pouco mais de mil pessoas (104 famílias).

    Curioso que esta entidade foi criada com outro nome, o de Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP). O grupo que a criou teve a liderança de dois militantes ligados ao Partido Comunista, os irmãos José Ayres dos Prazeres e Amaro dos Prazeres (conhecido como "Amaro do Capim").

    Num primeiro momento a SAPPP não teve resistência do proprietário, mas logo depois surgiram os problemas. Foi quando uma comissão decidiu ir ao Recife tentar a ajuda de um deputado estadual recém-eleito, ligado aos camponeses, o advogado pernambucano Francisco Julião (1915-1999). Deu-se aí o encontro da chispa com a palha seca.

    Sob um ponto de vista estritamente burocrático, Julião não criou as Ligas (quando ele chegou, a entidade geradora do movimento já estava fundada). Mas foi ele quem deu notoriedade, dimensão e relevância política ao movimento. O próprio nome - Ligas Camponesas - é responsabilidade dele: na época, na tentativa de dizer que a entidade tinha ligações com comunistas, os seus opositores a chamavam de "Liga".

    Julião resolveu apropriar-se do nome - já que os adversários vão chamá-la assim, então vamos nós mesmos batizá-la como tal. A palavra de ordem mais lembrada da entidade - "Reforma agrária na lei ou na marra" - é também obra de Julião, um defensor assumido na época da agitação social.
    Todas as medidas tomadas em favor dos camponeses no período de 1955 a 1964 (como o Estatuto do Trabalhador Rural, de 1963) e até depois do golpe (como o Estatuto da Terra, de novembro de 1964) foram motivadas pela agitação do campo provocada pelas Ligas.

    As terras do Engenho Galileia foram desapropriadas em 1959 - o primeiro ato de reforma agrária no Brasil do pós-guerra. Dos que moram lá hoje, pelo menos um tem ligação com as lutas daquela época: Zito da Galileia, neto de um famoso líder do movimento, Zezé da Galileia, já falecido. Zito mantém viva a memória das Ligas e no próximo dia 11 vai inaugurar lá a biblioteca José Ayres dos Prazeres. Sessenta anos depois, a história do Galileia ainda rende inspiração.

    *Vandeck Santiago é jornalista e escritor.


    Fonte: Vermelho

    Luis Nassif: O papel do MPF na regulação da mídia

     Insuspeito de ter uma posição governista, o Ministério Público Federal - como defensor dos direitos difusos da sociedade - poderá ter papel central na regulação da mídia.

    Por Luis Nassif*, no Jornal GGN 


    Em fevereiro de 2014, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal em São Paulo, organizou uma audiência pública relevante, para discutir o tema. Obviamente, recebeu escassa cobertura da mídia.


    O evento foi feito em parceria com o Intervozes (Coletivo Brasil de Comunicação Social), debatendo uma proposta apresentada por organizações da sociedade civil e trouxe um conjunto relevante de informações sobre o tema.

    Todos os pontos estão ligados a direitos previstos no Artigo 5o da Constituição, dentre os quais:

    IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
    V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
    IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
    X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
    XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;
    XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;
    XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais.
    Convidados, os dois órgãos representativos dos grupos de mídia - a ABERT (Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão) e o Ministério das Comunicações de Paulo Bernardo - não compareceram.

    Jefferson Aparecido Dias, Procurador Regional substituto, denunciou a “conivência” do poder público com a interdição deste debate, “em função da pressão das empresas do setor".

    As prioridades do MPF-SP
    Dias informou que, em São Paulo, os procuradores definiram como questões centrais o cancelamento de concessões que concentram mídias “além dos tênues limites colocados pela lei”, e o aumento da fiscalização para o cumprimento da legislação pelas rádios na capital.

    A questão maior é que discute-se uma nova regulação, mas não se obedece sequer à regulação em vigor.

    A legislação permite no máximo 6 outorgas de rádio FM e três em onda média nacional. Só o grupo de Comunicação Brasil Sat, que tem oito outorgas de rádio FM. Em vista disso, o MPF-SP solicitou à Anatel o cancelamento das concessões ilegais e a licitação dos serviços excedentes.

    Outro ponto óbvio - mas que nunca foi devidamente utilizado pelos órgãos reguladores - é a obrigatoriedade das emissoras veicularem campanhas educativas.

    No início daquele mês, a Procuradoria Regional insistiu junto ao Tribunal Regional Federal da 3a Região para que apreciasse ação que determinava à rede Globo a divulgação de uma campanha sobre os direitos das mulheres.

    O parecer foi originado numa ação pública de 2012, após o programa Big Brother ter exibido imagens de um suposto abuso sexual. Como ocorre com todas as ações do gênero, a sentença de 1a Instância foi contra o MPF, em nome da liberdade de imprensa.

    A PRDC atuou também em outros capítulos abusivos, como o arrendamento de concessões a instituições religiosas e - pasme-se! - contra um site que faz leilão de controle acionário de concessões cujos processos ainda estão sendo analisado pelo Ministério das Comunicações.

    As iniciativas são individuais, da PRDC de São Paulo.

    Se o Procurador Geral da República Rodrigo Janot quiser deixar uma obra de fôlego, deveria encampar a bandeira e abrir a discussão em nível federa.

    A proposta do Intervozes
    Representante do Intervozes, Pedro Ekman apresentou os principais pontos da proposta de democratização da mídia.

    Espectro – dividir o espectro em três partes, conforme definido pela Constituição, reservando um terço do espaço para emissoras públicas ou comunitárias. Os outros dois terços ficam divididos entre as concessões comerciais e a radiodifusão estatal.

    Operador de rede – criar um operador nacional de rede para oferecer estrutura nacional de operações do sinal de várias emissoras, dividindo as frequências de forma mais democrática e equilibrada.

    Políticos – proibir a titularidade de concessões de rádio e TV por parlamentares em exercício de mandato e parentes destes em primeiro grau, regulamentando o artigo 54 da Constituição Federal.

    Produção nacional e diversidade –regulamentar a determinação constitucional de estabelecimento de cotas de produção independente, nacional e regional, dos conteúdos de radiodifusão, destinando percentuais para cada uma dessas esferas.

    Proteção à infância –regulamentação a proteção à infância, por meio da classificação indicativa.

    Participação social - Cria o Conselho Nacional de Comunicação Social, com representação do Estado, concessionários e sociedade civil, para atuar como órgão auxiliar do Poder Executivo na fiscalização do cumprimento da legislação nacional e na formulação de políticas públicas para o setor. Cria também a Defensoria dos Direitos do Público, com a função de assegurar o respeito aos direitos humanos no campo da comunicação.

    Contra censura - contra qualquer tipo de censura prévia, valendo-se da regulamentação já existente em países como Portugal, Inglaterra, Estados Unidos e Argentina para assegurar a preservação dos direitos humanos e impedir a monopolização do setor.

    *Luis Nassif é jornalista


    Fonte: Vermelho 

    180 anos da Cabanagem: A luta de ontem e de hoje

     Nas águas da baía do Guajará nasce Belém, célula embrionária da Amazônia, habitat dos filhos de pindorama, os indígenas , primeiros filhos do Brasil. 

    Por Fátima Teles*, especial para o Vermelho


     
    A Cabanagem foi uma revolta que aconteceu no Século XIX, de 1835 a 1840, no período Regencial, considerado o mais conturbado da história política do Brasil, diante a eclosão de grandes movimentos sociais contra o Império e a favor da liberdade e emancipação política.

    O Brasil torna-se independente da coroa portuguesa, mas continua sendo politicamente monárquico. As decisões políticas e econômicas favoreciam o Sul e o Sudeste, tanto que a Região Nordeste vivia à margem, convivendo com secas prolongadas e seu povo sobrevivendo às custas da agricultura latifundiária e exploradora.

    Na Região Norte onde eclodiu a Cabanagem. O Norte do País vivia excluído das decisões do Rio de Janeiro, Capital do Brasil na época, não tendo participado do processo de independência, só a reconhecendo em 1823...”conforme consta no artigo da Revista Caros Amigos, Coleção Revoltas Populares, Cabanagem, pág. 229.

    A exclusão das decisões junto as condições precárias e extrema pobreza que viviam as classes menos favorecidas, formaram o estopim para fazer a Revolta acontecer e tomarem o poder das elites no Grão Pará.

    A Cabanagem foi uma Revolta de cunho popular e considerada a mais importante revolta da História brasileira, pois, foi a primeira Revolta popular vitoriosa, dando poder a camada menos favorecida de governar a Província. teve inicio em 07 de Janeiro de 1835 quando os cabanos tomaram o poder das elites e se estendeu até 1840 deixando um rastro de 30 mil mortos.

    Dois líderes se destacam na luta dos cinco anos : Félix Clemente Malcher ,mais ligado a elite de pequenos proprietários e comerciantes, classe a qual pertencia e do seringueiro Eduardo Angelim, este mais ligado as camadas populares.

    É importante destacar também a luta e contribuição dos insurgentes o negro Manuel Barbeiro, o negro liberto de apelido Patriota e o escravo Joaquim Antônio, que manifestavam ideias de igualdade social, como afirma Castro(2009) no http://parahistorico.blogspot.com.br/2009/02/cabanagem-no-para-1835-1840.html

    Segundo a Socióloga Sandra Costa dos santos , em entrevista a Revista Caros Amigos, Coleção Revoltas populares, Cabanagem (pág239), ela faz uma explanação sobre a aproximação dos conceitos propostos por Lênin na Cabanagem:

    Trata-se de um momento histórico-político no qual as classes fora do poder tem a possibilidade de obter o controle do poder político através de uma Revolução partindo de uma crise nas elites dirigentes. Aproveitando um momento de crise da direção da Província, uma camada da população que até então estava fora da vida política passou a se organizar em torno de ideias revolucionárias. A cabanagem reunia dois dos três elementos necessários para a tomada do poder, de acordo com Lenin : A cisão entre as classes dominantes; e o agravamento das condições socioeconômicas das camadas mais baixas e a capacidade de organização delas diante desse tipo de situação.

    Infelizmente, o terceiro ponto-chave para a continuidade do movimento foi aquele que mais contribuiu para que não alcançasse sucesso em sua caminhada. Trata-se das condições subjetivas que determinariam o que fazer com o poder conquistado. Os cabanos foram perspicazes na ação denunciadora de seus problemas. Mas não conseguiram o alimento intelectual que os mantivesse no poder.

    Os cabanos de hoje são ainda os indígenas que lutam no estado pela preservação de sua cultura, de sua identidade e pela conservação do meio ambiente, como os índios do rio Xingu, em Altamira no Estado do Pará, onde está sendo construída a Usina hidrelétrica de Belo Monte. Eles não foram reconhecidos em sua cidadania quando da construção da usina, pois não foram consultados uma vez que eram moradores da comunidade onde a usina está sendo construída.

    A luta dos índios e ribeirinhos que vivem próximos a área onde está sendo construída a usina no rio Tapajós, no Estado do Pará.

    A obra também prejudicará a comunidade ribeirinha e indígena que vive nas proximidades da obra. Dentre os povos indígenas prejudicados estão os Munduruku e os Apiaká. Essas comunidades exigem que seja feita a consulta prévia,direito garantido pela Convenção nº 169 da OIT.

    http://www.prpa.mpf.mp.br/governo-tenta-restringir-consulta-previa-da-usina-sao-luiz-do-tapajos.-mpf-aponta-desobediencia-a-ordem-judicial

    A luta da etnia negra que ainda vive excluída das decisões políticas, vivendo às margens da sociedade e sendo alvo de assassinatos e violência de toda ordem.

    Viva a Cabanagem!
    Viva os povos do Pará!
    Viva os índios e negros do pará!


    Referências
    Coleções Caros Amigos : Revoltas Populares no Brasil: Fascículo 8.Cabanagem/ Inconfidência Mineira
    Seriacopi, Gislane campos Azevedo. História : Volume Único : Livro do Professor / Gislane Campos Azevedo Seriacopi, Reinaldo.—1.ed,--São Paulo : Ática,2005.
    http://parahistorico.blogspot.com.br/2009/02/cabanagem-no-para-1835-1840.html
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_Hidrel%C3%A9trica_de_Belo_Monte
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_Hidrel%C3%A9trica_S%C3%A3o_Luiz_do_Tapaj%C3%B3s

    *Fátima Teles é Assistente Social e colaboradora do Vermelho.