sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mensagem de fim de ano da CTB


Wagner Gomes: Valeu militância!

Foto manifestação CTB nacional

Madrugada de 6 março de 2013, Brasília, estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha. Começava ali a 7ª Marcha das Centrais Sindicais e dos Movimentos Sociais, o maior evento do movimento sindical brasileiro deste ano que agora finda. As bandeiras unitárias definidas pelo conjunto das centrais sindicais envolvidas no eixo Desenvolvimento, Cidadania e Valorização do Trabalho levaram mais de 50 mil trabalhadores e trabalhadoras à capital federal.
A CTB sempre apostou na unidade de ação das centrais sindicais como fator catalisador e mobilizador na batalha em defesa das justas reinvindicações dos trabalhadores e trabalhadoras.
O ano estava apenas começando, e que ano seria este! A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) realizou seu 11º Congresso entre os dias 4 e 8 de março de 2013, em Brasília. A CTB atingiu suas expectativas, participou ativamente e de maneira organizada dos debates e exerceu papel protagonista na construção de uma chapa unitária, fortalecendo a unidade da Confederação e a defesa de suas bandeiras de luta pela reforma agrária e pelo Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário.
Ao final do terceiro trimestre de 2013 encerrava-se o processo de aferição de representatividade e a CTB chegara a um índice próximo do projetado. No entanto, a objetividade fria de um número não reflete, com precisão, a capilaridade e o trabalho de organização da CTB.
O 1º de Maio foi especial em 2013, a realização do exitoso evento unitário em São Paulo e vários outros pelo país espalharam as manifestações no Dia do Trabalhador. A CTB foi a Cuba e esteve presente no gigantesco ato na ilha caribenha. Foi uma manifestação impressionante de apoio à Revolução ao socialismo. Na oportunidade, a CTB participou também do Encontro de Solidariedade a Cuba.
Congresso da CTB
O 3º Congresso Nacional da CTB foi um capítulo a parte. Foi uma grande mobilização de nossa militância para a realização das 26 etapas estaduais do Congresso, esforço coroado pelo sucesso do Congresso Nacional. A solenidade de abertura contou com expressiva presença das demais centrais sindicais, entidades de movimentos sociais e representações oficiais. Mais de 1,2 mil delegados e delegadas participaram do congresso ocorrido em São Paulo em agosto. Com debates importantes e expressivos, o congresso contou com a participação animada de nossos delegados em um clima de alto-astral.
A significativa presença de delegações estrangeiras também foi um diferencial importante. Realizamos um seminário internacional, em conjunto com o Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho (CES), para discussão do tema do BRICs e a Luta da Classe Trabalhadora em Todo o Mundo e fomo s prestigiados por delegações de 26 países. Experiência nova e exitosa planejada e executada pela CTB e pelo CES, que certamente servirá de referência para os próximos congressos.
A nova direção da CTB, eleita em seu 3º Congresso, iniciou seus trabalhos já em outubro com a realização Planejamento Estratégico Situacional 2013/2014. Com disposição e demonstrando amadurecimento político, a direção debateu por dois dias os problemas, analisou possibilidades e aprovou ações que serão executadas ao longo de 2014, em diversas áreas da Central. Uma rodada de avaliação e um novo planejamento estão previstos para Outubro do ano que vem.
A luta, marca registrada da nossa central, seguiu pelo segundo semestre. Por iniciativa da CTB, em conjunto com as centrais sindicais, realizamos atos nos estados no dia 12 de Novembro. Sob o lema O Brasil contra o fator foram mobilizadas centenas de trabalhadores e trabalhadoras na batalha contra o malfadado fator previdenciário, que surrupia parte do justo valor das aposentadorias daqueles que contribuíram por toda a vida e merecem desfrutá-la com mais dignidade e respeito.
A incessante disputa pela mudança na política econômica mobilizou a CTB em 26 de novembro. O ato realizado em Brasília em frente ao Banco Central levantou a bandeira Menos juros e mais desenvolvimento e contou a presença aguerrida de nossos companheiros e companheiras. Das ruas, mandamos nosso recado ao governo de que a resposta a mais uma elevação da taxa de juros - que alimenta um ciclo perverso e gera efeitos negativos sobre o crescimento da economia - será a mobilização e a pressão.
2014 será, certamente, um ano de significativos avanços políticos e organizativos para a CTB, seguindo o curso natural das instituições de aperfeiçoamento das ações, relações e processos. No entanto, só é possível aperfeiçoar o que já existe, o que já foi construído e alicerçado.
Os princípios sob os quais foi erguida a CTB: a defesa intransigente da unicidade sindical; da contribuição sindical; da democracia; da independência classista; da solidariedade com outros povos e o internacionalismo; da ética na política; da luta contra o preconceito, a intolerância e a discriminação de qualquer natureza; pela emancipação das mulheres; dos direitos sociais; da transparência; do meio ambiente; da educação e do socialismo constituem seu principal patrimônio e, principalmente, são o prumo pelo qual a nossa Central se guia.
 Vida longa à CTB!
Boas Festas e Feliz 2014!
Wagner Gomes
Secretário-Geral da CTB

Câmara aprova nome de Luiz Gonzaga para Canal da Transposição

A Comissão de Cultura da Câmara encerrou as reuniões de 2013 com uma homenagem a Luiz Gonzaga. Os parlamentares aprovaram o projeto de lei que dá o nome do “Rei do Baião” ao Canal da Transposição das águas do rio São Francisco.


 No horário da reunião a deputada Luciana Santos, relatora do projeto, voltava de Pernambuco na comitiva da presidenta Dilma Rousseff - que estava em Pernambuco para inaugurar uma plataforma e assinar convênios para mobilidade urbana - por isso o voto foi apresentado pelo deputado Stepan Nercessian (PPS/RJ). 

“Com seu canto e poesia, Luiz Gonzaga emprestou sua voz ao povo nordestino, fazendo com que todo o Brasil partilhasse de seu intenso sofrimento e pobreza, gravados pelas inúmeras secas que periodicamente assolam a Região”, diz o relatório lido com direito a interpretação do sotaque nordestino: “ É em homenagem a deputada Luciana”, brincou Nercessian.

O relatório foi aprovado por unanimidade, após registro da deputada Jandira Feghalli (PCdoB-RJ), presidenta da Comissão: “Não tem comissão mais criativa, alegre e humanizada nesta Casa. Vamos terminar a pauta deste ano homenageando Luiz Gonzaga, feliz coincidência”.

Da Redação em Brasília - Com informações da Ass. Dep. Luciana Santos

O assédio moral e a necessidade de defesa do trabalhador

O assédio moral é caracterizado pela exposição do trabalhador a situações humilhantes e constrangedoras, que atentam contra sua dignidade ou a integridade, ameaçando sua estabilidade funcional, de forma repetitiva e continuada durante a jornada de trabalho, no exercício das funções do empregado. 
É importante lembrar que o assédio moral é diferente do sexual, que ocorre quando o agente, utilizando-se de sua condição de superioridade hierárquica ou ascendência de cargo e função na empresa, procura obter vantagem sexual.
Muitas condutas podem exemplificar o assédio moral. São elas, entre outras: a reiteração de gritos, ironias, censuras, vigilância ostensiva, cronômetro de horários, inferiorização, amedrontamento, menosprezo, desprezo, difamação, ridicularização, risinhos, suspiros, piadas jocosas relacionadas ao sexo, estigmatização dos adoecidos, submissão a situações vexatórias, sugestão de que peçam demissão, designação de tarefas sem sentido e divulgação de algo íntimo do(a) subordinado(a).
Mais comum em relações hierárquicas, cometido pelo chefe e dirigida ao respectivo subordinado, ocorre tanto em instituições privadas quanto públicas, provocando a desestabilização da relação da vítima com o ambiente de trabalho, forçando-a a desistir de suas atividades, solicitar transferência de setor ou mesmo demissão.
O agressor percorre um caminho estratégico ao praticar o assédio moral. Primeiro, escolhe a vítima e a isola do grupo. Depois, a impede, sem motivo, de se expressar, fragiliza-a, ridiculariza-a, inferioriza-a e a menospreza em frente aos pares, permitindo que os comentários sobre a incapacidade invadam, inclusive, o espaço familiar. Desestabilizada emocional e profissionalmente, a vítima vai gradativamente perdendo a autoconfiança e o interesse pelo trabalho, sendo destruída por meio do aparecimento ou pelo agravamento de doenças pré-existentes. Acaba isolada da família e dos amigos, passando muitas vezes a usar drogas, principalmente o álcool. É, então, forçada a pedir demissão ou acaba demitida, desfecho que permite ao agressor impor ao coletivo sua autoridade para aumentar a produtividade.
Fica claro que a humilhação repetitiva interfere diretamente na vida do trabalhador, gerando sérios distúrbios para a sua saúde física e mental, comprometendo sua identidade, dignidade, relações afetivas, sociais e até o senso crítico, até que a vítima perca a noção de quem tem realmente razão naquele contexto. Esse conjunto de circunstâncias pode acabar provocando depressão, palpitações, tremores, distúrbios digestivos e do sono, hipertensão, dores generalizadas, alteração da libido e, ainda, tentativas de suicídio. No caso dos adoecidos, estes ocultam a doença e trabalham com dores e sofrimento, enquanto os sadios, que ainda não apresentam dificuldades, incertos de virem a tê-las, reproduzem o discurso das chefias e passam a discriminar os adoecidos, com a falsa ideia de que, dessa maneira, estarão protegidos do assédio moral no futuro.
Desse modo, o ambiente de trabalho acaba contaminado, provocando a competição sistemática entre os trabalhadores e, conseqüentemente, comportamentos agressivos e de indiferença ao sofrimento do outro. Todas essas circunstâncias deixam clara a degradação das condições de trabalho nos dias de hoje, muitas vezes revestidas de exclusões, desigualdades e injustiças, que culminam no desemprego, dessindicalização e aumento da pobreza urbana. Para chegar a esta conclusão, basta interpretar os dados divulgados pela Isma-BR (International Stress Management Association),  associação internacional sem fins lucrativos, voltada à pesquisa e ao desenvolvimento da prevenção e do tratamento de stress no mundo: 50% das pessoas que praticam o assédio moral também já foram vitimas desse tipo de ação nas relações de trabalho, aproximadamente 20% das pessoas que trabalham sofrem algum tipo de assédio moral e 25% das pessoas que são vítimas do assédio moral tendem a pedir demissão do trabalho.
É necessário que esse mal seja ostensivamente combatido. Para tanto, no plano individual, a vítima pode tomar inúmeras providências. Primeiramente, ao identificar o assédio, deve informar a outras pessoas da situação e, caso necessário, sair da empresa para não perder a saúde. Deve, então, reunir provas testemunhais (colegas que possam ter presenciado um dos episódios do assédio) ou documentais (e-mail enviados pelo agressor ou relatórios médicos), apresentar denúncia no Ministério do Trabalho e constituir advogado para acionar a Justiça do Trabalho, pedindo indenização por danos morais, fixados pelo juiz proporcionalmente à dor sofrida. 
Nesses casos, o dever de indenizar é, em um primeiro momento, do empregador, em razão de ter o assédio moral sido cometido por um de seus representantes. Por essa razão, além, obviamente, da inquestionável necessidade de preservação da dignidade no trabalho, cabe às empresas orientar seus empregados que exercem função de chefia para que esse tipo de ação seja coibido. Contudo, infelizmente, há, hoje, muita omissão dos empresários no que se refere à prevenção e à punição do assédio moral.
A legislação atual prevê apenas a lesão física contra o trabalhador – e desde que motivada por fato relacionado ao emprego – como hipótese de equiparação a acidente de trabalho. Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 7.202/2010, de autoria dos Deputados Ricardo Berzoini (PT/SP), Pepe Vargas (PT/RS), Jô Moraes (PCdoB/MG), Paulo Pereira da Silva (PDT/SP) e Roberto Santiago (PSD-SP), que equipara o assédio moral à categoria de acidente de trabalho, para efeito da concessão de benefícios da Previdência Social, com a justificativa da importância da ampliação da proteção aos trabalhadores contra qualquer tipo de agressão diante da informação de que, de 2006 a 2009, os auxílios-doença acidentários para trabalhadores com transtornos mentais e comportamentais dispararam e a concessão do benefício saltou de 612 para 13.478, levando os técnicos do Ministério da Previdência a considerar a atualização da lista de doenças classificadas como acidente de trabalho para incluir o assédio moral.
No que diz respeito ao combate a esse mal ponto de vista da sociedade como um todo, enquanto a proposição não é aprovada, o combate de forma eficaz ao assédio moral no trabalho requer a participação de sindicatos, advogados, médicos do trabalho e outros profissionais de saúde, sociólogos, antropólogos e grupos de reflexão sobre o assunto. Isso porque a batalha para recuperar a dignidade, a identidade, o respeito no trabalho e a autoestima deve passar pelos representantes dos sindicatos, das CIPAs, das Organizações por Local de Trabalho (OLPs), das Comissões de Saúde, dos Centros de Referencia em Saúde dos Trabalhadores (CRST e Cerest), da Comissão de Direitos Humanos e dos Núcleos de Promoção de Igualdade e Oportunidades e de Combate a Discriminação em matéria de Emprego e Profissão que existem nas Delegacias Regionais do Trabalho. 
Outro aspecto extremamente relevante para o assunto é a questão do Banco de Horas. Como sabido, o pagamento aos trabalhadores submetidos ao Banco de Horas é licitamente negado sob a promessa de folgas que só poderão ser gozadas de acordo com a conveniência para o empregador. Essa riqueza gerada pelas horas extras não pagas alimenta o lucro e usurpa a única riqueza que o trabalhador possui: sua força de trabalho. Por essa razão, podemos concluir que o Banco de Horas é uma forma de assediar materialmente o salário do empregado, subtraindo-lhe o pagamento das horas-extras, provocando queda na sua autoestima e caracterizando, consequentemente, o assédio moral.
Devemos lembrar que a nossa Constituição Federal tem como princípio basilar o da dignidade da pessoa humana, ferido quando ocorrem situações que caracterizam o assédio moral no trabalho, pois, além de ser este a fonte de renda do trabalhador, também é o berço de seus sonhos e realizações pessoais e profissionais. O basta à humilhação depende também da informação, organização e mobilização dos trabalhadores. Um ambiente de trabalho saudável é uma conquista diária possível na medida em que haja vigilância constante, visando condições de trabalho dignas, baseadas no respeito ao outro, no incentivo à criatividade e na cooperação.

assis-melo
Assis Melo é dirigente da CTB e deputado federal pelo PCdoB-RS

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mensagem de fim de ano do vereador Jairo Araújo


Como Cuba ajudou a derrotar o racismo na África do Sul

Nelson Mandela e Fidel Castro. Crédito: Cuba Debate
Talvez o império acreditasse que nosso povo não honraria sua palavra quando, em dias incertos do século passado, afirmamos que mesmo se a URSS desaparecesse Cuba seguiria lutando.

Por Fidel Castro


A Segunda Guerra Mundial eclodiu quando em 1º de setembro de 1939, o nazi-fascismo invadiu a Polônia e caiu como um raio sobre o povo heroico da URSS, que deu 27 milhões de vidas para preservar a humanidade daquela brutal matança que pôs fim à vida de mais de 50 milhões de pessoas.

A guerra é, por outro lado, a única atividade ao longo da história que o gênero humano nunca foi capaz de evitar, o que levou Einstein a responder que não sabia como seria a terceira Guerra Mundial, mas a quarta seria com paus e pedras.

Somados os meios disponíveis pelas duas mais poderosas potências, Estados Unidos e Rússia dispõem de mais de 20 mil ogivas nucleares. A humanidade deveria conhecer bem a informação de que, três dias depois da posse de John F. Kennedy na presidência de seu país, em 20 de janeiro de 1961, um bombardeiro B-52 dos Estados Unidos, em voo de rotina, que transportava duas bombas atômicas com uma capacidade destrutiva 260 vezes superior à utilizada em Hiroshima, sofreu um acidente e o avião caiu. 

Em tais casos, equipamentos automáticos sofisticados aplicam medidas que impedem a explosão das bombas. A primeira caiu na terra sem risco algum; a segunda, dos quatro mecanismos, três falharam, e apenas o quarto, em estado crítico, funcionou; a bomba por puro acaso não explodiu.

Nenhum acontecimento presente ou passado que eu recorde ou tenha ouvido mencionar, impactou tanto a opinião pública mundial como a morte de Mandela; e não por suas riquezas, mas pela qualidade humana e a nobreza de seus sentimentos e ideias.

Ao longo da história, até há apenas um século e meio e antes que as máquinas e robôs, a um custo mínimo de energia, se ocupassem de nossas modestas tarefas, não existia nenhum dos fenômenos que hoje comovem a humanidade e regem inexoravelmente cada uma das pessoas: homens ou mulheres, crianças e idosos, jovens e adultos, agricultores e operários fabris, manuais ou intelectuais. A tendência dominante é a de instalar-se nas cidades, onde a criação de empregos, o transporte e condições elementares de vida demandam enormes investimentos em detrimento da produção alimentar e outras formas de vida mais razoáveis.

Três potências fizeram pousar artefatos na Lua de nosso planeta. No mesmo dia em que Nelson Mandela, envolto na bandeira de sua pátria, foi sepultado no pátio da humilde casa onde nasceu há 95 anos, um módulo sofisticado da República Popular da China descia em um espaço iluminado de nossa Lua. A coincidência de ambos os fatos foi absolutamente casual.

Milhões de cientistas investigam matérias e radiações na Terra e no espaço; por eles se conhece que Titã, uma das luas de Saturno, acumulou 40 vezes mais petróleo do que o existente em nosso planeta quando começou a exploração deste há apenas 125 anos, e ao ritmo atual de consumo durará apenas mais um século.

Os fraternais sentimentos de irmandade profunda entre o povo cubano e a pátria de Nelson Mandela nasceram de um fato que nem sequer foi mencionado, e do qual não tínhamos dito uma palavra ao longo de muitos anos; Mandela, porque era um apóstolo da paz e não desejava prejudicar ninguém. Cuba, porque jamais realizou ação alguma em busca de glória ou prestígio.

Quando a Revolução triunfou em Cuba fomos solidários com as colônias portuguesas na África, desde os primeiros anos; os Movimentos de Libertação nesse continente punham em cheque o colonialismo e o imperialismo, depois da Segunda Guerra Mundial e a libertação da República Popular da China — o país mais povoado do mundo —, e depois do triunfo glorioso da Revolução Socialista Russa.

As revoluções sociais abalavam os cimentos da velha ordem. Os habitantes do planeta, em 1960, já atingiam o número de três bilhões. Paralelamente cresceu o poder das grandes empresas transnacionais, quase todas em mãos dos Estados Unidos, cuja moeda, apoiada no monopólio do ouro e da indústria intacta por estar longe das frentes de batalha, se tornou dona da economia mundial. Richard Nixon derrogou unilateralmente o respaldo de sua moeda em ouro, e as empresas de seu país se apoderaram dos principais recursos e matérias primas do planeta, que adquiriram com papéis.

Até aqui não há nada que são se saiba.

Mas, por que se pretende ocultar que o regime do Apartheid, que tanto fez a África sofrer e indignou a imensa maioria das nações do mundo, era fruto da Europa colonial e foi convertido em potência nuclear pelos Estados Unidos e Israel, regime que Cuba, um país que apoiava as colônias portuguesas na África que lutavam por sua independência, condenou abertamente?

Nosso povo, que tinha sido cedido pela Espanha aos Estados Unidos depois de heroica luta durante mais de 30 anos, nunca se resignou ao regime escravista que lhe impuseram durante quase 500 anos.

Da Namíbia, ocupada pela África do Sul, partiram em 1975 as tropas racistas apoiadas por tanques ligeiros com canhões de 90 milímetros que penetraram mais de mil quilômetros até as proximidades de Luanda, onde um Batalhão de Tropas Especiais cubanas — enviadas por via aérea — e várias tripulações também cubanas de tanques soviéticos que estavam ali sem pessoal, pôde contê-las. Isto ocorreu em novembro de 1975, 13 anos antes da Batalha de Cuito Cuanavale.

Já disse que nada fazíamos em busca de prestígio ou benefício algum. Mas constitui um fato muito real que Mandela foi um homem íntegro, revolucionário profundo e radicalmente socialista, que com grande estoicismo suportou 27 anos de encarceramento solitário. Eu não deixava de admirar sua honradez, sua modéstia e seu enorme mérito.

Cuba cumpria seus deveres internacionalistas rigorosamente. Defendia pontos chaves e treinava a cada ano milhares de combatentes angolanos no manejo das armas. A URSS fornecia o armamento. Contudo, naquela época não compartilhávamos a ideia do assessor principal dos fornecedores do equipamento militar. Milhares de angolanos jovens e saudáveis ingressavam constantemente nas unidades de seu incipiente exército. 

O assessor principal não era, porém, um Zhúkov, Rokossovski, Malinovsky ou outros muitos que encheram de glória a estratégia militar soviética. Sua ideia obsessiva era enviar brigadas angolanas com as melhores armas ao território onde supostamente residia o governo tribal de Savimbi, um mercenário a serviço dos Estados Unidos e da África do Sul, que equivalia a enviar as forças que combatiam em Stalingrado à fronteira da Espanha falangista que tinha mandado mais de 100 mil soldados para lutar contra a URSS. Naquele ano se estava produzindo uma operação desse tipo.

O inimigo avançava na retaguarda das forças de várias brigadas angolanas, golpeadas nas proximidades do objetivo para onde eram enviadas, a aproximadamente 1.500 quilômetros de Luanda. Dali vinham sendo perseguidas pelas forças sul-africanas em direção a Cuito Cuanavale, antiga base militar da Otan, a cerca de 100 quilômetros da primeira Brigada de Tanques cubana.

Naquele momento crítico o presidente de Angola solicitou o apoio das tropas cubanas. O chefe de nossas forças no sul, general Leopoldo Cintra Frías, nos comunicou a solicitação, algo que era habitual. Nossa firme resposta foi que prestaríamos esse apoio se todas as forças e equipamentos angolanos dessa frente se subordinassem ao comando cubano no sul de Angola. Todo mundo compreendia que nossa solicitação era um requisito para converter a antiga base no campo ideal para golpear as forças racistas da África do Sul.

Em menos de 24 horas chegou de Angola a resposta positiva.

Decidiu-se o envio imediato de uma Brigada de Tanques cubana para esse ponto. Várias outras estavam na mesma linha para o oeste. O obstáculo principal era a lama e a umidade da terra na época de chuva, que era necessário fazer a verificação metro a metro contra minas terrestres. A Cuito, foi enviado igualmente o pessoal para operar os tanques sem tripulação e os canhões que necessitavam delas.

A base era separada do território, que fica a leste pelo caudaloso e rápido rio Cuito, sobre o qual se erguia uma sólida ponte. O Exército racista atacou desesperadamente, conseguiu lançar um avião teleguiado cheio de explosivos e fazê-lo chocar sobre a ponte, inutilizando-a. Os tanques angolanos que podiam mover-se em retirada cruzaram um ponto mais ao norte. Aqueles que não estavam em condições adequadas eram enterrados com suas armas apontando para o leste; uma densa faixa de minas terrestres e antitanques converteu a linha em uma armadilha mortal através do rio. Quando as forças racistas retomaram o avanço e se chocaram contra aquela muralha, todas as peças de artilharia e os tanques das brigadas revolucionárias disparavam desde seus pontos de localização na zona de Cuito.

Um papel especial foi reservado aos caças Mig-23 que, a uma velocidade próxima de mil quilômetros por hora e a 100 metros de altura, eram capazes de distinguir se o pessoal de artilharia era negro ou branco, e disparavam incessantemente contra eles.

Quando o inimigo desgastado e imobilizado iniciou a retirada, as forças revolucionárias se prepararam para os combates finais.

Numerosas brigadas angolanas e cubanas se movimentaram a ritmo rápido e a distância adequada para o oeste, onde estavam as únicas vias amplas por onde sempre os sul-africanos iniciavam suas ações contra Angola. O aeroporto, contudo, situava-se a aproximadamente 300 quilômetros da fronteira com a Namíbia, ocupada totalmente pelo exército do Apartheid.

Enquanto as tropas se reorganizavam e reequipavam, decidiu-se com toda urgência construir uma pista de aterrissagem para os Mig-23. Nossos pilotos estavam utilizando os equipamentos aéreos entregues pela URSS a Angola, cujos pilotos não tinham disposto do tempo necessário para sua adequada instrução. Vários equipamentos aéreos sofreram baixas que às vezes eram ocasionadas por nossos próprios artilheiros ou operadores de meios antiaéreos. Os sul-africanos ainda ocupavam uma parte da principal estrada que conduz desde a borda do planalto angolano à Namíbia. 

Nas pontes sobre o caudaloso rio Cunene, entre o Sul de Angola e o Norte da Namíbia, começaram nesse lapso de tempo com o joguete de seus disparos com canhões de 140 milímetros que dava a seus projéteis um alcance próximo aos 40 quilômetros. O problema principal radicava no fato de que os racistas sul-africanos possuíam, segundo nossos cálculos, entre 10 e 12 armas nucleares. Eles tinham realizado provas inclusive nos mares ou nas áreas congeladas do sul. 

O presidente Ronald Reagan tinha autorizado isso, e entre os equipamentos entregues por Israel estava o dispositivo necessário para fazer explodir a carga nuclear. Nossa resposta foi organizar o pessoal em grupos de combate de não mais de mil homens, que deviam marchar de noite em uma ampla extensão de terreno e dotados de carros de combate antiaéreos.

As armas nucleares da África do Sul, segundo informes fidedignos, não podiam ser carregadas por aviões Mirage, necessitavam de bombardeiros pesados tipo Canberra. Mas em qualquer caso a defesa antiaérea de nossas forças dispunha de numerosos tipos de foguetes que podiam golpear e destruir objetivos aéreos a até dezenas de quilômetros de nossas tropas. Adicionalmente, uma represa de 80 milhões de metros cúbicos de água situada em território angolano tinha sido ocupada e minada por combatentes cubanos e angolanos. A explosão daquela represa seria equivalente a várias armas nucleares.

Não obstante, uma hidrelétrica que usava as fortes correntes do rio Cunene, antes de chegar à fronteira com a Namíbia, estava sendo utilizada por um destacamento do exército sul-africano.

Quando no novo teatro de operações os racistas começaram a disparar os canhões de 140 milímetros, os Mig-23 golpearam fortemente aquele destacamento de soldados brancos, e os sobreviventes abandonaram o lugar deixando inclusive alguns cartazes críticos contra seu próprio comando. Tal era a situação quando as forças cubanas e angolanas avançavam rumo às linhas inimigas.

Eu soube que Katiuska Blanco, autora de vários relatos históricos, junto a outros jornalistas e repórteres, estavam ali. A situação era tensa, mas ninguém perdeu a calma.

Foi então que chegaram notícias de que o inimigo estava disposto a negociar. Tinha-se conseguido pôr fim à aventura imperialista e racista; em um continente que em 30 anos terá uma população superior à da China e Índia juntas.

O papel da delegação de Cuba, por motivo do falecimento de nosso irmão e amigo Nelson Mandela, será inolvidável.

Felicito o companheiro Raúl por seu brilhante desempenho e, em especial, pela firmeza e dignidade quando com gesto amável, mas firme, cumprimentou o chefe do governo dos Estados Unidos e lhe disse em inglês: “Senhor presidente, eu sou Castro”.

Quando minha própria saúde pôs limites a minha capacidade física, não vacilei um minuto em expressar meu critério sobre quem a meu juízo poderia assumir a responsabilidade. Uma vida é um minuto na história dos povos, e penso que quem assuma hoje tal responsabilidade requer a experiência e a autoridade necessárias para optar diante de um número crescente, quase infinito, de variantes.

 
O imperialismo sempre reservará várias cartas para dobrar nossa ilha, embora tenha que despovoá-la, privando-a de homens e mulheres jovens, oferecendo-lhes migalhas dos bens e recursos naturais que saqueia ao mundo.

Que falem agora os porta-vozes do império sobre como e por que surgiu o Apartheid.

Fidel Castro Ruz, em 18 de dezembro de 2013, às 20h35

Fonte: Cubadebate / Blog da Resistência
Tradução de José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho

Mensagem de fim de ano da deputada Alice Portugal